Entrevista: Miss Lava, stoner made in Portugal

entrevista por João Pedro Ramos

A banda portuguesa de stoner rock Miss Lava lançou em janeiro de 2021 seu melhor disco até o momento, “Doom Machine“. Gravado no Generator Music Studios, em Sintra, por Miguel “Veg” Marques, o quarto álbum dos lisboetas é um trabalho denso e cheio de riff hipnóticos e densos.

Inspirado pelos filhos dos integrantes e pela tragédia da perda do primogênito do guitarrista K. Raffah, “Doom Machine” (que ganhou uma belíssima edição em vinil, disponível no Bandcamp da banda) é um trabalho emocional, orgânico e gruda na mente. Um prato cheio para fãs de bandas como o icônico Kyuss.

O Miss Lava é formado por Johnny Lee (vocal), J. Garcia (bateria), K. Raffah (guitarra) e Ricardo Ferreira (baixo e vocal) e traz na bagagem o EP “Miss Lava” (2008) e os discos “Blues For Dangerous Minds” (2009), “Red Supergiant” (2012) e “Dominant Rush” (2017). Conversei com a banda sobre o mais recente disco, sua carreira, a cena rock de Portugal e mais.

Vamos começar falando de “Doom Machine”: como foi a gravação desse disco durante a pandemia?
Johnny: Então, “Doom Machine” foi gravado pré-pandemia, entre maio e agosto de 2019 e depois mixado entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020. Estávamos planejando lançá-lo em abril/maio, quando no início de março de 2020 rebentou esta pandemia. Voltando um pouco atrás, tivemos que ultrapassar momentos muito difíceis que muitas vezes meteram a gravação do álbum em causa, mas diria que o processo de gravação foi bem tranquilo, quase como um lavar de alma. Gravámos ao vivo com o produtor Miguel “Veg” Marques, um cara super gente boa, no Generator Music Studios, que fica no Magoito, Sintra – um paraíso de tranquilidade, a poucos km de Lisboa, e estávamos longe de imaginar a loucura que estava para acontecer no mundo. O título “Doom Machine” acaba por sugerir que já é um disco pós-pandemia, mas infelizmente a temática do álbum e o título acabou por ser mais apropriado e pertinente do que estávamos à espera, com o COVID-19 a ganhar o papel de “motor” na máquina que é a destruição da humanidade. Agora, imagina só o que é demorar quatro anos para gravar um disco, com tudo o que passamos para fazê-lo, e no fim ainda ter de esperar praticamente um ano para o podermos lança-lo por causa desta pandemia. Muito complicado.

Este álbum teve um peso muito forte graças à inspiração nos filhos de vocês, pelo que li. Podem me contar mais sobre isso?
Johnny: Sim, como mencionei antes, passamos por muita coisa, muitas emoções fortes, nestes quatro anos que separam a edição de “Sonic Debris” e a gravação de “Doom Machine”. Desde todos os membros da banda terem sido pais, a dois de nós nos termos separados das nossas companheiras de muito anos e eu, devido a motivos profissionais extra banda, começar a dividir o meu tempo entre Portugal e Angola. Mas, infelizmente pelo meio, uma tragédia se colocou nas nossas vidas, que foi quando o António, filho do nosso guitarrista Rafa, de apenas um mês de idade, faleceu. É algo antinatural, que ninguém está preparado, que deixa marcas profundas e que nos modifica para sempre. Quando algo tão brutal acontece nas nossas vidas, é normal que isso se reflita nas músicas e nas letras. Foi quando paramos para pensar e em que metemos tudo em perspectiva e que nos questionamos o que estamos todos fazendo aqui? Apesar de tudo o que nos aconteceu, que naturalmente nos inspira, penso que este álbum não é um disco dark e escuro, antes pelo contrário, é um trabalho com muita luz, esperança, amizade, irmandade e sobretudo muito amor.

Como esse álbum se diferencia dos trabalhos anteriores da banda?
Johnny: Bom, pela parte emocional e pela temática do álbum a diferença é óbvia. Nunca um disco nosso foi tão íntimo e pessoal, com tanto sentimento e nunca anteriormente, teve o objetivo de fazer pensar um pouco no nosso papel enquanto cidadãos do mundo. Na parte de composição das músicas, acredito que as diferenças também são grandes. Em primeiro lugar, pela primeira vez gravamos um disco ao vivo (em estúdio), o que mostra um Miss Lava mais autêntico com um som menos polido e mais orgânico, muito mais próximo do que somos ao vivo no palco. Em segundo lugar, devido aos constrangimentos de eu estar metade do ano fora e às pausas a que os nascimentos dos nossos filhos nos obrigaram a fazer, a nossa disponibilidade para ensaiar e estarmos todos juntos era muito reduzida e por isso tivemos de nos adaptar a novos processos criativos, e tentamos fazer com que cada ensaio fosse o mais rentável e criativo possível. Foi então que o Ricardo, baixista, sugeriu que “jamassemos” e gravassemos ensaios inteiros e depois fossemos ouvir essas “jams” e ver o que se aproveitava. Posso dizer que essas “jams” contribuíram para que essa diferença seja mais notória, porque a maioria das músicas deste álbum nasceram aí. Algumas ideias deram origem às músicas com a estrutura mais clássica e outras, porque achávamos que eram ideias interessantes, mas que não resultariam em música inteiras, decidimos transformá-las em pequenos interlúdios. Acredito que esses interlúdios que vamos ouvindo durante o álbum, vieram ajudar a balancear e a conduzir esta nossa “máquina”.

Para quem não conhece a carreira do Miss Lava, vocês podem me contar um pouco sobre os discos anteriores?
Rafa: Bem, essa é difícil! O “Miss Lava”, nosso EP de estreia, foi no fundo o lançamento em que afirmamos que estávamos prontos para nos revelar. No sentido de “ei, nós fazemos esse tipo de música e queremos tocar ao vivo, queremos que nos conheçam”. A Raging Planet, de Portugal, editou esse EP em vinil. Depois de começarmos, fizemos quase umas 15 músicas e dessas 15, escolhemos 4 para gravar. Começamos a tocar muito ao vivo, chegamos a fazer três shows no mesmo dia. Louco. Durante essa fase, íamos compondo sempre nos ensaios e experimentando essas composições ao vivo. As melhores músicas entraram no “Blues”, nosso álbum de estreia editado também pela Raging. Foi muito bem recebido pela crítica, os vídeos rodaram na MTV e nós começamos a ser convidados para muitos shows de abertura de bandas estrangeiras como o Fu Manchu ou o Slash. Chegámos a fazer mini-tours na Inglaterra.

Para o 2º disco, viajamos até à Califórnia para mixar com o Matt Hyde, que já tinha ganho Grammys. Lá, tocamos no Whisky a Go Go e filmamos um vídeo no deserto de Nevada para o single “Ride”. Essa música teve alguma repercussão e assinamos com o selo Small Stone. A Small Stone lançou o disco a nível mundial e começamos a tocar mais em festivais noutros países da Europa. Aqui em Portugal, tocamos no palco principal do Super Bock Super Rock, no dia do Queens of The Stone Age. Pelo meio de toda essa atividade, o baixista original e fundador da banda saiu. Entrou o Ricardo e a banda deu um salto criativo. Criamos uma dinâmica mais inclusiva, com as composições mais partilhadas entre todos e gravamos o “Sonic Debris”, um disco no qual experimentamos bastante. O disco foi editado pela Small Stone em todo o mundo e os shows continuaram um pouco por todo o lado. Decidimos deixar de fora do disco quatro músicas porque sentimos que não faziam parte daquela obra. Essas músicas tinham um vibe mais rockeira entre elas. No ano seguinte, a Raging Planet editou essas quatro músicas em vinil no EP “Dominant Rush” e a reação foi excelente.

Como vocês definiriam o som da banda?
Johnny: Diria que somos uma banda de heavy rock que gosta de beber muito no stoner com uns toques de psicodelismo. Talvez, muito metaleiros para os rockeiros e muito rockeiros para os metaleiros (risos).

Como foi o início da banda Miss Lava e como criaram este nome?
Johnny: A minha memória já não é o que era… (risos). Mas a banda teve início com o nosso anterior baixista, Samuel Rebelo, mais o Ricardo Espiga (baterista). Eles andavam à procura de vocalista e de guitarrista. Eu conhecia a namorada do Samuel e, no fim de um show dos thrashers alemães Tankardm ela disse-me que o Samuel queria formar uma banda de stoner e lembro-me de ela dizer que, além de mim, não conhecia mais ninguém que gostasse de stoner. Fomos a um after party do show e o Samuel foi lá ter comigo. Falamos, sentimos empatia e foi assim que eu comecei. Éramos agora três fãs de stoner rock juntos, algo muita raro em Portugal em 2005. Muito pouco tempo depois de nos juntarmos chamei o Rafa, que era baixista (mas que eu sabia que a sua paixão era a guitarra), para ser o nosso guitarrista, também ele fã de stoner. Esse foi o nosso primeiro line-up enquanto Miss Lava. O nome surgiu numa noite de copos, no bairro alto, Lisboa. Estavamos a beber vinho quente num bar e chutar nomes para o alto. O Rafa, recentemente, tinha ido aos Estados Unidos, e tinha visitado um Lava Lounge e sugeriu o nome Lava. O Miss surgiu de uma forma engraçada, quando eu, uns meses antes, tinha sido convidado por uma amiga a assistir a um show privado de uma banda de uns amigos dela. Eu fui ao show, sem saber o nome da banda e antes de começar ela me apresentou o guitarrista e eu perguntei qual era o nome, ao que ele respondeu no meio de muito barulho, Miss Revolution, e até comentei para ele, “parabéns, que grande nome de banda”. Durante o show, eu percebo que a banda se chamava Peace Revolution e eu tinha entendido mal. Gostei muito da música deles, mas o que ficou na minha cabeça foi o Miss (risos). Quando o Rafa propôs Lava eu imediatamente acrescentei Miss Lava e a coisa pegou. Não sei se estávamos embriagados ou não, mas gostamos do nome e o resto é história (risos).

Como está a cena portuguesa de rock independente em 2021? Quais bandas vocês recomendam que a gente preste atenção?
Rafa: A cena está viva e recomenda-se, mas já esteve mais forte. Vamos ver quantos bares vão conseguir sobreviver ao COVID e perceber o circuito que vai ficar. Esperamos que todos consigam “dar a volta” à pandemia e sair disto ainda mais fortes. Recomendo The Quartet of Woah!, Black Bombaim, Earth Drive e os Killimanjaro (que até já tocaram no Brasil!).

Vocês conhecem algo de música brasileira? Têm vontade de vir tocar por aqui?
Rafa: Eu sou carioca, nasci no Rio. “Eu sou o samba” meu amigo. E o Zeca Pagodinho toca aqui em casa quase todo fim de semana. Mas estou um pouco por dentro da cena stoner e doom brasileira, principalmente por causa da produtora Bruxa Verde, do Matheus Jacques. Gostei muito de descobrir os cariocas Gods and Punks, os Spiral Guru (de Piracicaba), os Weedevil e os Murdock. Achei que os Buzzard conseguem criar uns ambientes muito especiais e diferenciados. A cena brasileira me parece muito saudável e com muita diversidade, mais até do que a histórica cena argentina. Seria um sonho partilhar o palco com essas bandas, beber uns chopes e tocar ao vivo para o público brasileiro.

– João Pedro Ramos é jornalista, redator, social media, colecionador de vinis, CDs e música em geral. E é um dos responsáveis pelo podcast Troca Fitas! Ouça aqui.

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