Entrevista: Cineastas Camila Gregório e Iago Ribeiro falam sobre a plataforma “Cartografia do Cinema no Recôncavo”

 entrevista por João Paulo Barreto

Na pintura acima, obra da artista plástica soteropolitana Isabela Seifarth, as cidades, as pessoas, as fachadas de casas, os prédios históricos, os trilhos, os barcos, o mar, os rios, os caminhões, as labutas, as estradas, as frutas, o samba de roda e todas as outras camadas de uma identidade regional do recôncavo baiano aparecem dentro dessa imensidão de cores que a tela nos apresenta. Adentramos na imagem, e mesmo aquelas pessoas que não possuem lembranças afetivas com a região, ou com seus hábitos e rotinas, sentem a força das histórias que permeiam tais locais e suas memórias. Tal qual como acontece com o Cinema, que também funciona como esse registro de épocas e de costumes.

Não por acaso, a tela também ilustra o site Cartografia do Cinema no Recôncavo, plataforma lançada com o suporte da Lei Aldir Blanc e idealizada pelos cineastas Iago Ribeiro e Camila Gregório. O espaço virtual mapeia e registra essa identidade da região através de trabalhos de cinema e TV rodados nas cidades entre os anos de 1923 e 1989, em mais de 130 produções catalogadas até o momento. Como dito, o cinema, desde sua criação no final do século XIX, e passando pelo seu rápido multiplicar de produções nas primeiras décadas do século XX, possui essa mesma capacidade de gerar em sua audiência laços, sejam afetivos ou históricos, diante da visitação a períodos específicos da expansão de cidades, povos e costumes. E é justamente esse o enfoque do site em seu resultado. Mas o alcance da proposta é bem mais abrangente.

Iago Ribeiro explica que, inicialmente, a criação do projeto veio de um interesse pessoal seu em pesquisar sobre os filmes produzidos no recôncavo durante o século XX e que não são tão conhecidos pelo público. “Seguindo uma curiosidade mesmo, fui pesquisando e encontrando essa lista inicial de alguns filmes. Alguns mais canônicos, como podemos chamar aqueles que vêm sempre em primeiro lugar quando pensamos um pouco sobre os filmes mais antigos que retratam o recôncavo da Bahia. Após uma primeira pesquisa, fui sendo levado a outros que não eram tão lembrados em mostras, exibições de cineclubes ou em comentários das pessoas. Foi quando fui me interessando e vendo que tinha uma série de histórias que poderiam ser contadas através desses filmes. Até ver que tinham vários da década de 1930, cuja maioria foi perdida. São complementos, documentários com temas de cidades que revelam aspectos econômicos dos lugares, como ‘A Fábrica de Charutos Daneman de São Felix’, de 1923, e que não foi localizado”, explica Iago. Tal filme é o primeiro registro de imagens em movimento feitas no recôncavo há quase 100 anos.

No aspecto relacionado a importância da catalogação cronológica e disponibilização das obras, juntamente com o vasto material informativo que acompanha toda a lista de filmes que o site traz, o leque de possibilidades de pesquisas é bem vasto. A produtora geral do projeto, Camila Gregório, explica que as imagens que o público encontrará nessa seleção de filmes possuem valores para além do apenas cinéfilo, mas como, justamente, o de um mergulho na evolução dos tempos em diversos campos. “A gente defende muito o valor da imagem desses filmes e desses registros. E não só o valor cinematográfico que é atribuído a eles. Mas, também, o valor histórico que pode ser usado por pesquisadores de arquitetura, museólogos, por exemplo. Ali está o registro de uma época, de uma rua, de um jeito de andar, de uma vestimenta. É um documento histórico. Nós defendemos, também, essa importância”, esclarece Camila.

Como patrimônio do recôncavo baiano, as obras reunidas no site nos alertam quanto a importância de preservar tais imagens. Principalmente em uma época cujo descaso, ruína e abandono de Cinematecas Brasileiras, como os já notórios casos do que acontece na Nacional, em São Paulo, são a meta de um desgoverno genocida a “presidir” o Brasil. Iago Ribeiro faz esse alerta em relação à necessidade da sensação de pertencimento que o recôncavo e sua gente deve sentir em relação aos filmes produzidos lá. “É uma característica bem forte do recôncavo essa coisa da memória e do descaso com essa mesma memória. Patrimônio e preservação, e, ao mesmo tempo, a ruína e a ausência. E esses filmes, quando comecei a me deparar com eles, veio muito essa ideia de que são o patrimônio do recôncavo. Mesmo eles, em sua maior parte, não tendo sido feitos por pessoas daqui, não são produções locais, tem até filme da Alemanha, mas que vemos e concluímos que isso pertence ao recôncavo de alguma forma. E isso tem que retornar, também, para cá. Retornar de uma forma que as pessoas se apropriem dessas histórias e dessas imagens”, pontua o cineasta.

Ligados profissional e afetivamente ao recôncavo baiano, Iago e Camila têm em Cachoeira e na UFRB uma relação de pertencimento que ambos salientam bem em suas palavras acerca deste e de vários outros projetos aos quais estiveram envolvidos. E esse afetivo ajuda a tocar para frente as várias empreitadas que os dois jovens cineastas buscam construir dentro do campo do audiovisual. “Eu defendo muito o afetivo”, afirma Camila, complementando: “É uma das formas de lidarmos com esse material (do site). Inclusive, estrategicamente. Para fazer com que aquelas pessoas reconheçam um valor existente, também, muitas vezes vem por essa afetividade. E o recôncavo baiano é um lugar, também, onde há muito olhar afetivo para esse local. Seja de quem vem aqui uma vez por ano, seja de quem mora aqui, seja de quem ouve aqui através de música, da literatura, da poesia. E vai além do romântico. Acho que é um lugar que pode, até de uma forma meio pedagógica, nos atrair, e atrair a defesa da importância dessa memória, através dessa afetividade. E fora, também, o que eu defendo muito é a paixão que temos por esse lugar, de trabalhar com esse material, com essas imagens. É o que nos trouxe aqui. E. entre todas as coisas que poderíamos estar fazendo na nossa vida, decidimos fazer isso assim. E olhar com mais carinho, também, para isso”, explica Camila. Neste papo com o Scream & Yell, a dupla de cineastas aprofunda mais o processo de criação do site, bem como suas relações afetivas com a rica região do recôncavo baiano. Confira!

Iago e Camila, você dois já possuem uma trajetória como realizadores e pesquisadores de cinema. Navegando pela plataforma Cartografia do Cinema no Recôncavo, pude observar que há muita coisa para além dos filmes disponibilizados dentro desse recorte que começa em 1923 e segue até 1989. Indo para o embrião do projeto, como surgiu a proposta para criar o site reunindo os filmes e as valiosas informações sobre eles?
Iago Ribeiro – A ideia para o projeto surge muito com outras iniciativas. Uma delas, e que me lembro muito, foi o contato com a história do filme “A Montanha dos Sete Ecos” (1963), um longa metragem gravado em Cachoeira-São Felix na década de 1960, e que impactou muito as pessoas que participaram dele. Os figurantes, as pessoas da cidade, e o filme nunca foi exibido aqui, em Cachoeira ou São Félix. Aí o Cineclube Mario Gusmão fez uma pesquisa na busca desse filme. A partir disso, fui vendo outras histórias de filmes que foram gravados aqui, tendo contato com algumas imagens que circulam na internet. Essas imagens e histórias sobre cinema tinham uma forte relação. Seguindo uma curiosidade mesmo, fui pesquisando e encontrando essa lista inicial de alguns filmes. Alguns mais canônicos, como podemos chamar, como os filmes de Guido Araújo, como “A Morte das Velas no Recôncavo” (1976)  e “Festa de São João no Interior da Bahia” (1977). Os filmes de Geraldo Sarno, também, como “Espaço Sagrado” (1975) e “Iaô” (1976). Estes são filmes que vêm sempre em primeiro lugar quando a gente pensa um pouco sobre os filmes mais antigos que retratam o recôncavo da Bahia. Mas, após uma primeira pesquisa, fui sendo levado a outros filmes que não eram tão lembrados em mostras, exibições de cineclubes ou em comentários das pessoas. Foi quando fui me interessando e vendo que tinha uma série de histórias que poderiam ser contadas através desses filmes. Até ver que tinham vários da década de 1930, cuja maioria foi perdida. São complementos, documentários com temas de cidades que revelam aspectos econômicos dos lugares, como a fábrica de charuto (N.E. Trata-se do filme “A Fábrica de Charutos Daneman de São Felix”, de 1923, e que não foi localizado). Foi quando percebi que a pesquisa podia levar a um retorno a esses filmes. Tanto aqueles que temos contato hoje, pois estão disponíveis e poderíamos revê-los a partir dessa óptica, desse contexto de uma filmografia que revela o recôncavo, quanto poderíamos ir atrás de filmes que foram realmente esquecidos e estão perdidos. Ou filmes que não foram digitalizados, também, e estão em algum acervo, mas que não são muito lembrados.

Camila Gregório – Complementando isso que Iago falou, comigo essa relação vem de alguns lugares, também. O próprio movimento de pesquisa na universidade, quando trabalhei com pesquisa e fui bolsista da Fapesb, e tinha essa dificuldade de encontrar filmes em geral, sejam eles de um período específico do passado, ou de qualquer lugar do Brasil. E sempre me veio essa curiosidade de ter algum tipo de material reunido, seja ele escrito ou um catálogo ou como fosse. Não necessariamente nesse formato, que foi uma ideia de Iago, com essa proposta do mapa, e pegando o recôncavo nesse recorte. Mas também vem de uma curiosidade que é isso: as pessoas daqui falarem muito sobre filmes e têm na memória da região, das regiões, os filmes dos quais eles participaram ou que tiveram a participação de familiares. Em outros lugares, se você vai e fala sobre cinema, é aquela coisa distante. Às vezes, está apenas na Globo, às vezes está no Rio ou em São Paulo. Já nessa região aqui, quando você fala de cinema, todo mundo tem, de alguma forma, um repertório. O que me impressiona, porque até em Salvador, crescendo em Salvador, eu não tinha essa referência das pessoas ao meu redor. E aqui tinha essa memória do cinema. Esse cinema de alguma forma mais próximo. Ainda que tenha várias questões, como a gente coloca em filmes que nem foram exibidos aqui (Cachoeira), as pessoas não necessariamente se viram na tela ou coisa assim. Mas tinha essa referência da participação no cinema. De um filme que foi feito ali. E isso gerava uma curiosidade na gente, também. De vez em quando, aparecia também assim, na região, algo que “viralizava” em Facebook, Whatsapp, que seja, algumas imagens da cidade de muitos anos atrás. E tínhamos essa curiosidade de saber que imagem era aquela, quem foi que registrou, onde foi filmado, se faz parte de um filme ou é um registro doméstico. E aí tínhamos, também, de alguma forma, coletado essas imagens e informações sobre elas. Então, vale dizer que quando tivemos a ideia de colocar esse projeto em execução, tirar do papel, Iago já tinha um material bem avançando. Já tinha uma pesquisa bem avançada de anos em que ele já vinha coletando informações que, inicialmente, vinham como uma curiosidade meio que espontânea. Mas quando decidimos tirar a ideia do papel, já tínhamos esse material bem encaminhado.

A pesquisa que você já tinha anteriormente à plataforma, Iago, se destinava a algum fim acadêmico, dentro de um mestrado, por exemplo? Como funcionou esse processo de captar, catalogar as informações que, agora, se tornou o site?
Iago Ribeiro – Na verdade, era uma pesquisa bem autônoma, mesmo. Uma pesquisa que eu tinha de procurar e ir me alimentando mais no sentindo de criar projetos de documentários que pudessem dialogar com essas imagens antigas. Lembro de pesquisar muito sobre o rio Paraguaçu e a barragem de Pedra do Cavalo, aqui em Cachoeira, para fazer a escrita de outros projetos. Mas isso foi se tornando uma mini-catalogação dessa filmografia. E aí quando você encontra, por exemplo, filmes que você quer muito assistir e não tem o acesso, ou então teria o acesso muito dificultado, você teria que ir a uma cinemateca ou a um acervo para assistir a ele em película e não poder compartilhar isso, também. Tem aquela dificuldade para compartilhar isso. Que é possível, é, mas tem de conseguir um projetor para usar aqui em Cachoeira, trazer uma película, etc. É um trabalho muito custoso. E aí vem a curiosidade, essa vontade de trazer esses filmes. Esse projeto não engloba a digitalização de materiais. É um projeto só de catalogação, mesmo. Mas nessa catalogação conseguimos, agora, ter acesso a essa lista de filmes que vamos ter nos próximos trabalhos de digitalizar e de restaurar o que for necessário. Essa catalogação serve, também, para isso. Além de marcar esse registro, de que esse filme foi gravado, a gente ter esse mapeamento do que precisa se restaurado, do que precisa ser digitalizado, do que pode ser encontrado em algum acervo ou não, em caso de ter sido destruído ou perdido. É um projeto para continuar por algum tempo, ainda.

“Feira da Banana” (Guido Araújo) – Frame do filme, fotografia Thomaz Farkas e Jorge Bodanzky

Vocês dois têm uma relação afetiva e profissional muito grande com Cachoeira e com o recôncavo baiano. Um dos seus curtas, Iago, “Obra Autorizada” (2016), traz uma rima específica com esse projeto, ao mostrar a cidade de Cachoeira em imagens que dialogam bem com a proposta de preservação dos filmes na plataforma. Camila tem em seu trabalho diversas produções locais, essa junção, também. Como foi encontrar na filmografia de vocês dois esse lugar de afeto que a região do recôncavo, e em especial Cachoeira, possui, e o reflexo disso na construção desse projeto? É uma pergunta difícil, eu sei. A ideia não é romantizar um processo que é trabalhoso, mas creio que vale a pena pontuar essa questão afetiva para um projeto que se demonstra tão bem finalizado.
Camila – É realmente uma pergunta difícil, mas vale pontuar que achei ótimo pensar isso a partir desse histórico nosso como realizadores de cinema. Com o que está presente nesse fazer cinema e nesse mostrar cinema, também. Em primeiro lugar, eu acho que tem esse lugar, realmente, do romance. De estar apaixonado por essa região, e estar apaixonado por morar aqui etc. Mas tem todo um lado, também, que é de uma escolha de estar aqui e acompanhar o que é viver em Cachoeira e fazer cinema em Cachoeira, que tem todas as dificuldades de se fazer cinema, como é no Brasil, em geral. No interior da Bahia, também é difícil, pois tem as suas complexidades. E eu acho que é de sempre termos essa relação profissional seja em que área a gente trabalha, de tentar sempre buscar o que podemos fazer por essa região, também. Eu e Iago estamos envolvidos em vários projetos, mas já estivemos envolvidos com oficinas para pensar essa profissionalização das pessoas daqui, gerar um debate com as pessoas do recôncavo sobre cinema. Também com exibição, uma vez que eu já produzi o Panorama Internacional Coisa de Cinema,  aqui em Cachoeira, já trabalhei no Cineclube Mário Gusmão, e já com outros tipos de exibição aqui na região. Então, também nessa lógica de tentar entender como trazer os filmes para cá e como levar os filmes daqui para outros lugares, também. Como trabalhar a nossa própria história. É um lugar de quase uma defesa, assim, pelo espaço do cinema no interior. E acho que dentro dessa lógica da interiorização do cinema entram várias esferas. E entra a necessidade, também, de falar da preservação. De buscar pelo caminho da preservação. Uma dessas esferas é, também, preservar o que está sendo produzido agora. É como tenho trabalhado, também, nos últimos anos, com curadoria, com pesquisa dos filmes produzidos atualmente. Porque, de alguma forma, teve esse boom de produção de cinema no recôncavo, mais especificamente em Cachoeira, e aí eu também estava sempre nessa lógica de buscar saber o que estava sendo falado sobre os filmes daqui, como podemos trazer mais financiamentos para cá para que outros filmes sejam produzidos. Eu estava sempre pensando dentro dessa esfera. Além de como manter e guardar esses filmes que estão sendo produzidos agora. E indo um pouco além da pergunta, mas eu acho que é uma das coisas a levantar, é que nosso projeto tem muitos caminhos possíveis. Tanto darmos continuidade ao período, que está atualmente no final dos anos 1980, e queremos levar até os dias atuais, quanto também buscamos digitalizar esses filmes, pesquisar sobre digitalização e ter algum tipo de guarda dos arquivos no futuro. Tentar ver que tipo de coisa podemos fazer para que eles sejam preservados ao máximo. E isso envolve restauração, digitalização e outras coisas. Além de, também, atribuirmos um valor e um discurso aos filmes que já foram produzidos. Por exemplo, se formos pensar nesses filmes de 1920, 1930 e 1940, nós reconhecemos o valor que eles têm historicamente, mas, também, queremos futuramente colocar um novo lugar para eles. Um discurso novo atribuído. Dar novos valores para esses filmes, trazendo com uma atualidade de um cinema que está vivíssimo, sendo produzido e construído aqui no recôncavo agora. Eu fugi um pouco da pergunta, mas é isso (risos).

Iago – Eu acho interessante você puxar essas coisas dos nossos filmes. Como diretor, sendo que fiz “Obra Autorizada” (2016) e “ADMIN/ADMIN” (2017), que eu assinei junto a outros diretores em coletivo, eu vejo muito os dois trabalhos, tanto esse da cartografia quanto o de diretor, como uma coisa só. Não é como se lá eu fosse o cineasta e aqui um pesquisador, ou coisa assim. Eu acho que o filme, também, é ligado à pesquisa de imagem, apesar de estar construindo novas imagens. Mas são filmes muito de pesquisa, de experimentação, de curiosidade. E sempre quando penso um filme e faço um projeto, eu tenho muito essa ligação com a pesquisa. Acho que uma coisa está muito ligada a outra. Não conseguiria nem separar a função entre um cineasta e um pesquisador.

Camila – Inclusive, para adicionar algo ao que eu falei, acho importante pontuar que tanto o projeto cartografia quanto o “Obra Autorizada”, pensando em obras conjuntas, que têm uma ponte entre si (de novo, comentando que acho muito massa essa ligação), eu acho que os dois projetos têm um lado de mostrar uma realidade, têm a evidência da pesquisa, mas também têm esse lugar, mesmo que suave, de levantar um questionamento. Levantar, também, um protesto. São esses filmes que, na plataforma, estão marcados por esse “Procura-se”. Eles também instigam. Apesar do site ser lindo, ter tudo muito harmônico, e eu sou apaixonada pela pintura, também tem um lugar de provocação. De questionar saber onde estão esses filmes, para onde foram, se chegaram a ser exibidos. E as questões que trazem essas ausências são marcadas. Acho que “Obra Autorizada”, apesar de também ser esse filme harmônico, bem dirigido, também traz esse lugar sutil da provocação sobre algo, sobre uma realidade que está ali. Também marca essa ausência, que acho que está presente nos dois projetos.

Iago – Acho que é uma característica bem forte do recôncavo essa coisa da memória e do descaso com essa mesma memória. Patrimônio e preservação, e, ao mesmo tempo, a ruína e a ausência. E esses filmes, quando comecei a me deparar com eles, veio muito essa ideia de que são o patrimônio do recôncavo. Mesmo eles, em sua maior parte, não tendo sido feitos por pessoas daqui, não são produções locais, tem até filme da Alemanha, mas que vemos e concluímos que isso pertence ao recôncavo de alguma forma. E isso tem que retornar, também, para cá. Retornar de uma forma que as pessoas se apropriem dessas histórias e dessas imagens.

Camila – A gente defende muito o valor da imagem desses filmes e desses registros. E não só o valor cinematográfico que é atribuído a eles. Mas, também, o valor histórico que pode ser usado por pesquisadores de arquitetura, museólogos, por exemplo. Ali está o registro de uma época, de uma rua, de um jeito de andar, de uma vestimenta. É um documento histórico. Nós defendemos, também, essa importância do documento histórico.

Iago – E, inclusive, é interessante voltarmos para esse filme com esse olhar e reunir esses diferentes olhares sobre os filmes. Tanto um olhar crítico em relação à própria representação, que também é importante a gente tocar nesse ponto, que não é só uma filmografia de filmes lindos, de filmes que a gente ama e que concordamos necessariamente com tudo que eles estão falando ou com a forma que eles foram feitos. É uma coisa que é para refletirmos e não deixar de dar o valor histórico que ele tem por de fato registrar coisas de quase um século atrás, como tem de 1925 o primeiro filme que encontramos. São imagens que, por mais que possamos questionar a forma como elas foram criadas e a forma como elas representam as coisas, elas têm um valor. E estão aí para isso. Para a gente questionar. Nós tivemos todo o cuidado de pesquisar textos sobre os filmes para acompanhar. Temos, linkados aos filmes, os textos e comentários sobre eles justamente para o acesso a esses trabalhos ficar vinculado a esse olhar crítico e histórico. E a ideia é, também, fazer com que filmes que não foram muito estudados, que não têm muita literatura sobre eles, que possam ter agora. Há uma série de filmes em que há muita pouca informação sobre eles. É interessante que eles retornem com esse olhar atual.

Erva Bruxa / Acervo Thomaz Farkas

Há toda uma riqueza atrelada a esse projeto que vai ajudar, como Camila falou, pesquisadores que buscam imagens voltadas para o estilo arquitetônico, museólogos, pessoas que buscam verificar registros de uma época. O recorte, inclusive, começando entre 1923 e indo até 1989, passa por diversos pontos relevantes da História do Brasil no século XX. Como se deu a escolha desse período dentro do projeto? E isso pensando, inclusive, no fato de que a plataforma pode aumentar bastante quando passar a abranger períodos mais recentes.
Camila – Primeiro tem essa coisa do 1923 começar nesse primeiro registro que temos documentado. Tem todos esses fatores históricos que estão presentes nesse recorte brasileiro, mas tem uma questão, também, muito importante: quando você fala ou pesquisa sobre preservação, uma das coisas essenciais são as mídias. Até 1989, estamos falando de película. Ali para os anos 1990, já vai entrar uma série de mídias e incorporações. Então, vamos ter o VHS e outras fitas. Vamos ter SDCam. Depois vai para uma série de outras mídias. Falando um pouco do lado da produção, ter uma estratégia e um mapa de produção, é completamente diferente. Agora, a gente mantendo um olhar para o mesmo tipo de mídia, temos um olhar para a questão de onde podemos encontrar esse material, com quais pessoas podemos falar. Temos registros de quem tinha esse tipo de câmera nessa época. Então, desse processo de pesquisa que tempos feito, tanto de pesquisa para encontrar registros desses filmes, quanto de pesquisa para encontrar esses materiais, passa por um olhar de entender quem tinha, na época, uma câmera de película para ser filmada. Seja em 32mm ou 16mm, e depois ainda conseguimos pegar um pouco dos 8mm, com a Super8. Quando pesquisamos, por exemplo, o Rotary Club, que era um clube que, em determinado momento aqui em Cachoeira, era uma sociedade de homens com um certo poder aquisitivo, considerados mais intelectuais, enfim, e que organizavam determinadas festas da cidade. E que um deles tinha uma câmera, trazia um registro aqui, outro ali. Então, você consegue mapear, mais ou menos, quem tinha esse material e ir vendo por isso. Quando chegamos à Super 8, por exemplo, também entendemos que existe um movimento de pessoas que gravava em Super 8 na Bahia. E aí, imaginamos que essas pessoas, de alguma forma, podem ou não tido uma passagem por Cachoeira. Sabemos que algumas tiveram e outras não. Então, a gente consegue ir mapeando, também, pelo registro histórico que tínhamos dessas pessoas. Quando formos para esse novo momento que envolve novas mídias, aí já é uma outra abordagem, também. É um outro olhar e outra produção para se pensar em como chegar a esse material. Acreditamos, por exemplo, que quando passarmos desse ano de 1989, vamos ter uma nova gama de registros caseiros, por exemplo, que é quando as câmeras começam a entra mais dentro das casas dos brasileiros. Ainda que no recôncavo isso seja ainda bem mais tardio. Mas aí vamos ter mais registros. Tudo vai mudando, também, conforme a história da tecnologia chega no Brasil. E como nos relacionamos com ela ao longo do tempo.

Iago – Concordo. Foi uma questão de um recorte metodológico, mesmo. Até porque, nos anos 1990, começamos a ter um boom de produções, também. Uma quantidade muito maior de filmes para a televisão. Matérias, também, de televisão que começam a ter em maior quantidade. E aí é uma outra abordagem que a gente teria que ter na pesquisa e na produção. Decidimos, então, dividir em duas partes. E isso sem falar na UFRB, que é quando chegamos a um boom de produção local que é enorme. Aí, realmente, precisa de uma outra estratégia de abordagem. Porque já tentaram fazer alguns projetos, assim, de preservação dos filmes daqui da UFRB. Nenhum foi à frente ainda, mas tenho notícias de que tem gente fazendo esse trabalho de catalogação, de pesquisa. Está caminhando. No futuro, queremos realmente juntar essas coisas e conseguir ter essa filmografia completa do recôncavo até os dias atuais. Como você comentou, nesse período acontecem momentos bem específicos do Brasil e é interessante como a gente que é do recôncavo participa disso. Você tem bem claramente nos filmes, você consegue ver o recôncavo, no início ali da década de 1920 e 1930, ainda como um local de interesse para as pessoas que vinham à Bahia para fazer um filme e com um interesse em mostrar esses lugares no Sul do país, que era para onde iam esses filmes, para São Paulo e Rio de Janeiro. E você vê como é forte a questão econômica do charuto, a questão do transporte via barco a vapor. Conseguimos ver isso na filmografia. O trajeto que as pessoas fazem era vindo de barco de Salvador. E depois vemos o boom com o petróleo na década de 1950 e aí a transferência desses caminhos que levam ao interior, que passam a ser via estrada, principalmente, com o crescimento da cidade de Feira de Santana e a criação da refinaria de Mataripe, em São Francisco do Conde. E aí de uma série filmes na década de 1950 sobre o petróleo e a refinaria. Então, acho que é interessante observar isso fazendo parte daquele momento da década de 1950, com a campanha “O Petróleo é Nosso”, a criação da Petrobras. Então, a gente consegue ver como que o retorno foi foco de interesse nas diferentes épocas. Depois, na década de 1970, já começamos a ver mais um foco cultural, que começa com esse processo de tombamento de Cachoeira, dessa valorização do patrimônio do recôncavo, com o samba de roda. Começamos a ver filmes sobre o candomblé. Então, a gente consegue ter essa curva do que o recôncavo despertava para as pessoas que vinham aqui filmar. Qual era o interesse delas sobre o recôncavo nas diferentes épocas.

Foi pontuado que o projeto visa disponibilizar digitalmente as obras. E é um tipo preservação, também. Vocês são de uma geração de cineastas ligada o digital, mas que possuem esse louvável esforço na busca pela preservação das imagens feitas em um período anterior. Discutir preservação da produção cinematográfica brasileira em uma época como a atual é algo urgente, também. Principalmente vendo o que acontece com a Cinemateca, em São Paulo. Eu queria pontuar essa importância da preservação dentro desse projeto, observando ser um trabalho voltado para o que já está digitalizado, mas que, invariavelmente, nos leva a pensar no acervo físico.
Iago – Como eu falei antes, a minha pesquisa começa muito por um interesse pessoal. Então, a minha vontade é eu ter acesso às coisas. Acredito que uma coisa não vai substituir a outra. E não deve, também. A gente não deve tentar substituir você assistir ao filme em casa com você assistir no cinema, mesmo digitalmente. E a importância da preservação da mídia original, porque é na mídia que a gente consegue realmente preservar por mais tempo. Além de preservar a experiência. A possibilidade de você assistir ao filme na forma como ele foi feito, mas também é a forma ideal de se preservar. Aí, encontramos algumas coisas na pesquisa que são interessantes. Como o trabalho é de catalogação, encontramos no filme diversas situações. Tanto filmes que estão bem preservados, teoricamente, em acervos, mas não estão digitalizados, ou seja, eles estão preservados, mas a gente não consegue ter um acesso fácil a eles. E muitas vezes não temos nenhum acesso. Porque são casos que a película está prejudicada e é uma cópia única, como é o caso de “Montanha dos Sete Ecos”, que, para você assistir ao filme, precisaria de um trabalho de restauração antes de manusear. Mas tem outros que estão bem guardados em acervos. Tanto filmes que foram digitalizados em um momento de mudança de mídia, como quando os filmes gravados em Super 8 e as pessoas passaram para VHS. Depois passaram para o DVD e perdeu o original. E então, hoje, ficamos com aquela cópia que foi enviada por VHS, enviada por DVD, e hoje está em um pen drive com o próprio cineasta. Ou seja, não tem nenhuma instituição cuidando disso. Identificamos coisas tanto de acervos de pessoas aqui do recôncavo, quanto filmes em Super 8, que o que temos hoje é o arquivo do DVD, que está em baixa qualidade, mas é a única cópia. Então, essa coisa perigosa do digital, que muitas pessoas no início pensaram que era só migrar e estaria lá, mais simples. “Guardava no DVD e acabou, né?” Tem esse perigo das pessoas desvalorizarem a mídia original, que é o que tem que ser preservado, mesmo. Mas, ao mesmo tempo, essa coisa de digitalizar é muito importante porque para você preservar algo, você tem que fazer com que as pessoas conheçam aquilo. Não tem como alguém querer assistir a um filme se a pessoa nem conhece, nem sabe que ele existe, por exemplo. Então, nosso trabalho vai muito nesse sentido. De querer mostrar os filmes para que as pessoas tenham um interesse neles. Tanto os filmes que estão digitalizados, às vezes em má qualidade, como tem casos de filmes que você olha e percebe que ele merece uma atenção maior, merece uma restauração, merece um trabalho em torno dele, quanto filmes que vamos ter acesso a uma sinopse e sabe que tem aquela cópia guardada em um acervo. E aí se a gente não dá a essas pessoas tal informação de que existe esse filme que fala sobre aquele tema, que foi gravado em tal lugar, que conta tal história, esse filme pode ficar esquecido. Porque sabemos, também, que muitos desses filmes não possuem uma prioridade de preservação das grande instituições de acervo no Brasil. E muitas vezes não é algo que possua culpados. Muitas vezes são filmes de uma coisa específica de uma certa região. Sabemos que existem outras prioridades. Mas, por isso que também é importante a descentralização do pensamento sobre preservação. Estamos pensando aqui e temos a nossa prioridade aqui. E nós podemos fazer o trabalho de preservação desse material porque para nós é muito importante.

Camila – É importante enfatizar que, realmente, nem eu nem Iago acreditamos que a melhor forma de preservação é através da digitalização. Inclusive, sabemos por um fato que não é assim. Um movimento, inclusive, que se faz, mesmo que tenha sido um filme digital, é que em qualquer cinemateca do mundo, eles vão fazer um “back to film” que é um processo que leva o filme de volta para a película. A película é um dos melhores meios de preservação. Mesmo com filmes que foram digitais. Claro que você pode preservar a cópia, pode colocar em outras fitas. Mas, assim, nós não defendemos essa ideia. O que a gente defende é levantar o debate sobre a importância histórica dessas imagens. E recuperar esses valores perdidos dessas imagens, trazer novos valores para elas e, também, trazer à tona o debate sobre a preservação da nossa memória, dessa região. Então, assim, defendemos muito isso. E inclusive, como já foi pontuado, não temos esse espaço de fazer esse processo de uma digitalização de um filme, de uma recuperação de um filme, seja uma remasterização ou, enfim, trabalhar em cima da película restaurando. Não temos ainda esse projeto em curso. Ainda que esteja escrito, ainda que a gente estude isso, pensamos em fazer isso no futuro. Mas acho que é esse movimento que é interessante, também, como primeiro passo. Para que deixe de ser uma coisa distante sobre filmes que foram feitos há muito tempo e que parece que não têm nada a trazer de novo para a gente. Nem para região, para o cinema ou para a cidade, ou para as pessoas que estão aqui. Mas quando a gente mostra essas imagens, quando compartilhamos, quando temos o contato com a opinião das pessoas sobre essas imagens, não tem quem não fique boquiaberto, não tem quem não olhe com paixão, não tem quem não fale: “meu Deus!” A gente consegue trazer esse valor para esse material. E acho que é um primeiro passo. Acho que eu também enfatizaria isso que você falou, Iago, que é um primeiro lugar. Não dá para a gente desejar preservar aquilo que desconhecemos. Então, acho que o nosso primeiro movimento é esse: trazer à tona para que tenha um valor e um discurso atribuído para esse material.

Iago – Tem alguns filmes, e acho isso muito interessante, que estão na plataforma disponíveis para as pessoas assistiram completo, e eles já estavam na internet. Tem um caso específico, que chama “A Baiana”, que está no YouTube do CTAV, Centro Técnico do Audiovisual, que eu vi como um achado bem interessante. É um filme que foi todo gravado em Cachoeira, praticamente. Mas ele não tem essa informação de que foi gravado em Cachoeira. Aí uma das coisas que eu acho que é um papel do projeto é esse: localizar. Dar a informação agregada ao filme. É um filme que registra algumas baianas de acarajé daqui, filma um samba de roda, mas não tem essa informação nele. Ninguém pesquisando sobre Cachoeira teria acesso a esse filme. Porque uma informação não está conectada a outra. Então, o filme já estava na internet, todo mundo poderia assistir, mas, talvez, não tivesse essa informação de que ele foi gravado aqui em Cachoeira. Uma pessoa que tem me dado muito auxílio é o historiador Cacau Nascimento, aqui de Cachoeira. Eu mando fotos para ele, e ele sempre sabe me falar sobre aquelas imagens, identificando quem está registrado. E ele vai me ajudando a construir essa história, identificar quem são essas pessoas. E com esse filme ele ficou bem surpreso. Pois são várias pessoas que ele conhece, que ele conheceu, mas que ele nunca tinha visto. Então, eu acho que é um pouco desse trabalho, também. De retornar essas imagens com essa informação contextualizada. Foi gravado aqui, está falando de pessoas daqui, e que a gente pode, agora, ter esse acesso contextualizado a essas histórias.

Anteriormente, eu falei sobre a questão afetiva da relação de vocês com esse projeto pelo fato dele destacar obras sobre a região onde vocês vivem. Para fechar, queria abordar novamente essa questão afetiva dentro do desenvolvimento desse trabalho.
Camila – Eu defendo muito o afetivo. E também acho que é uma das formas de lidarmos com esse material (do site). Inclusive, estrategicamente. Para fazer com que aquelas as pessoas reconheçam um valor existente, também, muitas vezes vem por essa afetividade. E o recôncavo baiano é um lugar, também, onde há muito olhar afetivo para esse local. Seja de quem vem aqui uma vez por ano, seja de quem mora aqui, seja de quem ouve aqui através de música, da literatura, da poesia. E vai além do romântico. Acho que é um lugar que pode, até de uma forma meio pedagógica, nos atrair, e atrair a defesa da importância dessa memória, através dessa afetividade. E fora, também, o que eu defendo muito é a paixão que temos por esse lugar, de trabalhar com esse material, com essas imagens. É o que nos trouxe aqui. E. entre todas as coisas que poderíamos estar fazendo na nossa vida, decidimos fazer isso assim. E olhar com mais carinho, também, para isso.

“Coronel Delmiro Gouveia” (Geraldo Sarno) / Frame do filme, fotografia Lauro Escorel Filho

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.