Esse você precisa ouvir: “Voto de Silêncio/Horror Vacui”, Dolores Fantasma

texto por Luciano Ferreira

Às vezes bate um enorme vazio, aquela página em branco à frente parece um desafio imenso a superar. As palavras parecem se esconder nos cantos mais escuros da mente e então há dois caminhos: seguir ou esperar. Há uma terceira via, dialogar com essa sensação, algo como “quebrar a quarta parede”, às vezes funciona.

Foi a partir dessa via que surgiu em 2020 o desconcertante e, por que não dizer, intrigante “Voto de Silêncio/Horror Vacui”, álbum de estreia do projeto Dolores Fantasma da dupla (pai e filho) Olavo Rocha (Lestics, Os Gianoukas Papoulas) e Pedro Canales (Carcaju, Os Gianoukas Papoulas), e que conta com as parcerias/participações de Ivan Santos, Loop B, Luiz Miranda, Marcelo Patu, Rubinho Troll, Thomas Pappon e Umberto Serpieri.

Olavo conta que tudo começou a partir de uma crise criativa que, ao invés de fazer jogar tudo para o alto foi justamente o motor para que a criatividade brotasse e as letras fossem ganhando forma: “Naquele tempo eu estava esgotado, meio batendo pino, como tanta gente [NE: em relação aos convidados para o projeto]. Aí me veio a ideia de que eu poderia, finalmente, desistir de escrever, de cantar, de fazer música. Pensei isso, ato contínuo escrevi uma letra registrando o achado. E foi ótimo. Me senti tão aliviado que logo escrevi outra letra, e outra, e mais outra. Entrei por ali, pelo esgotamento das palavras, pelo fim do discurso”.

Esse desfecho “feliz” presenteia o ouvinte com um álbum de tons soturnos, espécie de trilha sonora para um passeio na madrugada de uma cidade grande. O eletrônico, o experimental, o acústico surgem em formatos diversos e permitem que a voz de Olavo, às vezes surgindo como que amplificada, paire como o elemento que unifica todos os sons, batidas e camadas sonoras.

As letras são um dos pontos a focar ao longo da audição das 10 faixas, são frases que surgem com sacadas interessantes embutidas em versos aparentemente despretensiosos: “Na cidade eu arranjo um emprego e preencho as lacunas do dia, se a paz triunfasse eu morria, minha alma desconhece o sossego” (“Horror Vacui”). E mesmo no tom politizado, que em momento algum desliza para o piegas, Olavo opta pela linguagem poética: “Apodreceu na boca o último argumento / Restou nas mãos, esfarrapado, esse despojo /Olhamos para o mesmo quadro, eu com nojo / Você embriagado de contentamento” (“Agora”).

Embora aparentemente simples, seja na música ou no discurso, “Voto de Silêncio/Horror Vacui” é cheio de detalhes e sutilezas (ponto para a produção esmerada de Pedro) que exigem uma escuta atenta. Os significados parecem mudar a cada audição, e é nisso que reside justamente o lado desconcertante e também atraente de um disco que apareceu em diversas listas de melhores discos do ano passado (foi o 14º mais votado nos Melhores do Ano do Scream & Yell) e que você precisa ouvir.

– Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta e colabora com o Scream & Yell.

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