Discografia comentada: Gal Costa

discografia comentada por Renan Guerra

Nascida em Salvador em 26 de setembro de 1945 (completando 75 anos neste sábado!), Maria da Graça Costa Penna Burgos tornou-se Gal Costa. Foi a voz do Tropicalismo, foi musa do desbunde, símbolo sexual e de liberdade para uma geração e é, para muitos, a maior voz brasileira, incluindo aí a opinião de Elis Regina, que certa vez sentenciou: “Neste país só duas cantam: Gal e eu”.

Ao invés de qualquer tentativa nova de definir Gal é melhor retomar a fala de Tom Zé lá no Programa Ensaio, da TV Cultura, em 1970:

“Sabe uma faca me rasgando, um mundo se acabando, num sei. Gal Costa cantora, Gal Costa a mulher, a mulher terrível, a mulher linda, a noiva, a morta, a viúva, a maravilha: é muito difícil falar essas coisas, eu não sei. A Gal Costa sempre me trata com choques elétricos, e eu chego pra ver ela e me arrebento por ela e me desarrumo por ela, não sei, é sempre surpreendente, eu nunca sei o que vai acontecer, e cada vez é como se a vida tivesse (sic) se partindo, se começando, se acabando… Gal Costa é muito maravilhosa.”

O começo
A primeira aparição de Gal, ainda como Maria da Graça, foi em 1964, no show “Nós, Por Exemplo”, em Salvador, ao lado de Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e outros. Após alguns shows na capital baiana, Bethânia mudou-se para o Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no show “Opinião” e na bagagem trouxe Caetano e Maria da Graça. Ela aparece cantando pela primeira vez na faixa “Sol Negro”, ao lado de Bethânia, em seu disco de estreia, de 1965. Nesse mesmo ano ela lança “Maria da Graça”, um compacto com as faixas “Eu vim da Bahia” (Gil) e “Sim, Foi Você” (Caetano), duas músicas curtinhas e singelas, com ares de bossa nova. Em 1966, o empresário Guilherme Araújo insiste que Maria da Graça deveria se chamar Gal, já Caetano Veloso queria apenas Gau. No fim, tornou-se Gal Costa.

Com o novo nome, Gal lança “Domingo” (1967), sua estreia ao lado de Caetano, com 12 canções bossa-novistas: calminhos, banquinho-e-violão. Desse disco se destaca o dueto em “Coração Vagabundo”, de uma delicadeza ímpar, que mostra o quanto o Caetano compositor tinha a oferecer e já define que Gal é a melhor voz para suas composições. De duração curta, “Domingo” ainda tem como destaque a delicada “Zabelê” (Gilberto Gil / Torquato Neto), que encerra o disco com aquele sabor agridoce da bossa nova apaixonada.

Depois disso, os dois apareceriam em ‘Tropicalia ou Panis et Circenses’ (1968), disco marco do movimento de mesmo nome, ao lado de Gil, Tom Zé, Nara Leão e Os Mutantes. Um dos momentos mais importantes da carreira de Gal aparece aqui: a faixa “Baby”, cantada em parceria com Caetano. Para além das canções com o grupo, o único momento em que Gal aparece sozinha é na belíssima “Mamãe, Coragem” (Torquato Neto). Daqui em diante, ela começa a lançar discos como solista. E o primeiro é…

“Gal Costa” (1969)
Mesmo após o “Tropicalia ou Panis et Circenses”, Gal ainda era uma figura atrelada à Bossa Nova, até que, em novembro de 1968, ela surge no palco do IV Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, com um visual moderno e um colar de espelhos, cantando “Divino Maravilhoso”, com toda uma potência vocal que nem ela mesma sabia ter. Era definitivo: Gal era rock ‘n’ roll; Gal era a musa tropicalista. Porém o clima era de tensão nas ruas do país, tanto que o disco de estreia de Gal, mesmo já gravado, teve seu lançamento adiado, chegando às lojas só em 1969. O lançamento foi um estouro, vendendo mais de 100 mil cópias e reunindo a avassaladora “Divino Maravilhoso” com pérolas como “Baby”, “Que Pena”, “Não Identificado” e até uma curiosa versão do clássico junino “Sebastiana” (Rosil Caetano). A versatilidade de Gal é provada nas gravações de Roberto e Erasmo Carlos (na época, desdenhados pelos músicos da MPB) em “Se Você Pensa” e “Vou Recomeçar”. Com arranjos de Gilberto Gil, Rogério Duprat e Lanny Gordin, o disco autointitulado é um pontapé na porta da comportada música nacional. E a ousadia de Gal rendeu, pois “Não Identificado” e “Que Pena” permaneceram três meses nas paradas de sucesso do país.

Nota: 9,5
Ouça: “Não Identificado”, “Baby” e “Deus é Amor”
Preferida: “Se Você Pensa”

“Gal” (1969)
Depois do sucesso do disco de estreia, o clima se tornou ainda mais tenso no país: a ditadura se torna mais repressora e Caetano e Gil vão para Londres, exilados. Gal, sozinha e com raiva, une-se a Jards Macalé e transforma sua ira em disco, intitulado apenas “Gal” e lançado ainda em 1969. Conhecido como “o disco psicodélico”, esse é o álbum mais ousado da baiana, que, influenciada pelo canto de Janis Joplin e pelas guitarras de Jimi Hendrix, transborda sua raiva em gritos agudos e numa intensidade poucas vezes vistas na música comercial brasileira. Gal berrava que não queria mais tardes “mornais, normais” em “Cinema Olympia” e não tinha medo de cantar: “a cultura e a civilização, elas que se danem”. Experimental, sujo e ousado, o disco traz dois clássicos populares: “País Tropical” (Jorge Ben), em uma versão rock, com backing vocals de Gil e Caetano; e “Meu Nome é Gal”, escrita por Roberto e Erasmo, especialmente para cantora, e que se tornaria seu hino. O álbum captura todas as tensões e o medo de Gal, que se via sozinha como porta-voz de um movimento, o Tropicalismo, que viu seus maiores expoentes irem embora. “Gal” é um álbum primordial para aquilo que chamamos de “rock nacional”.

Nota: 9
Ouça: “Cinema Olympia”, “Cultura e Civilização” e “Com medo, com Pedro”
Preferida: “Meu nome é Gal”

“LeGal” (1970)
Passando a virada do ano junto de Gil, Caetano e mais uma galera em Londres, a cantora voltou com a bagagem cheia de músicas, inclusive a clássica “London, London” (que catapultaria o RPM ao megaestrelado nos anos 80). “LeGal” é um disco múltiplo, de uma Gal que tenta encontrar seu espaço, mas deixando claro que o ideário do Tropicalismo ainda estava ali; e para isso ela canta rocks, baiões, frevos e bossas, tudo com aquele ar despreocupado e despudorado da Gal de início de carreira. As experiências de Caetano em Londres, assim como a rápida passagem dela por lá, aparecem no disco, como no frevo de guitarras distorcidas “Deixe Sangrar”, uma brincadeira com “Let It Bleed”, dos Rolling Stones, ou em “Love, Try and Die” (da própria Gal, junto de Jards Macalé e Lanny Gordin), que tem um ar moderno e zombeteiro à la Mutantes. Com capa de Hélio Oiticica, onde o mundo e as faixas surgem sobre os cabelos da cantora, este é um álbum limítrofe: entre a Gal tropicalista e a Gal musa do desbunde. Tendo como carros chefes as faixas “London, London” e a ótima versão de “Eu Sou Terrível”, o álbum foi um grande sucesso comercial, que depois culminou no histórico show “Fa-Tal – Gal A Todo Vapor”, de 1971, e no disco seguinte…

Nota: 8,5
Ouça: “Eu sou terrível”, “Deixa Sangrar” e “London, London”
Preferida: “Hotel das Estrelas”

“Fa-Tal – Gal a todo vapor” (1971)
No final de 1971, Gal se reuniu ao poeta Waly Salomão para o espetáculo “A Todo Vapor”, que seria encenado no recém aberto Teatro Tereza Raquel (atual Teatro Net Rio), em Copacabana. O espetáculo se tornaria parte daquele verão: a galera moderna ficava a tarde toda em Ipanema (ali pelo posto 9, na época as chamadas “Dunas de Gal”), depois saia, tirava a areia do corpo e ia para “Fa-Tal”. Estava posto um dos shows mais importantes da década e da música nacional. Gal era assim a musa do desbunde e “Fa-Tal” o ápice da contracultura nacional. A gravadora Philips aproveitou e gravou o show ao vivo e lançou em um disco duplo (o primeiro da música brasileira), que apresenta ruídos, falhas de improviso e até um violão que cai no chão. No quesito musical, “Fa-Tal” mescla um cancioneiro clássico de faixas como “Assum Preto” ou “Fruta Gogóia” as modernidades de Caetano e Jards Macalé. Uma das novidades trazidas no show é a faixa “Pérola Negra”, de um ainda desconhecido Luiz Melodia. Porém o momento mais forte do disco é a versão de mais de oito minutos de “Vapor Barato” (Jards/Waly), com gritos e guitarras: a versão definitiva dessa música. Disco fundamental da nossa música!

Nota: 10
Ouça: “Dê um role”, “Pérola Negra”, “Assum preto”, “Mal secreto” e “Sua estupidez”
Preferida: “Vapor Barato”

“Índia” (1973)
“Índia” é como o prelúdio para o sertanejo lisérgico que Tetê Espíndola exploraria nos anos 80. É delicado, é sensual, é brejeiro, mas é moderno e ousado. Inicia-se com os quase sete minutos da faixa título (um antigo sucesso na voz de cantores sertanejos), que começa calminha e acaba com contornos épicos. Vendido embalado num invólucro azul escuro para que o público não visse a capa acima, o álbum deixou os censores da ditadura de cabelo em pé: “como pode essa capa em que a tanga de Gal marca tudo ali embaixo?”, “como ela pode mostrar os seios na contracapa?”. Eles foram além: a faixa “Presente Cotidiano” (Luiz Melodia) não poderia ser tocada nas rádios nem em locais públicos porque “trata-se de letra musical cuja temática estereotipada envolve em seu bojo o sentimento de contestação, protesto, revolta”, anotou um censor. Sobre a censura, Gal comentou: “Eu dava risada. Achava tudo ridículo, não via motivo para se proibir uma capa daquela, tampouco achar aquela canção subversiva. Achava uma loucura, um absurdo, me dava raiva”. Certamente, a maior ousadia de Gal era cantar “eu me sinto feliz, eu me sinto contente”, na faixa “Pontos de Luz”, quando o mundo parecia explodir e os sonhos pareciam ruir, mas era isso que ela propunha: o desbunde. E “Índia” é o desbunde, o tropicalismo, a ousadia, a sensualidade, tudo misturado: Luiz Melodia, Tom Jobim, Tuze de Abreu, Caetano Veloso, Waly Salomão, Jards Macalé e Lupicínio Rodrigues. Gal sendo brasileira, latina, portuguesa, tudo num disco de 40 minutos, num disco que firma a baiana como uma das maiores artistas do Brasil.
Nota: 10
Ouça: “Volta”, “Passarinho” e “Pontos de Luz”
Preferida: “Índia”

“Cantar” (1974)
Há uma paz, uma beleza nesse disco, que não há explicação. Mesmo com a triste “Lágrimas Negras” quase ao final, o disco é permeado por uma alegria daquelas de gente que aplaude o pôr-do-sol ou coisas do tipo. Um disco para embalar dias de sol, dias de chuva com sol, dias de arco-íris. “Cantar” reúne faixas bucólicas, que passeiam por flores, rãs, baratas e baratos. É um disco em que quase sentimos a marofa vindo em nossa direção. Produzido por Caetano e com arranjos de João Donato, Gal disse à extinta Revista Pop que o disco mesclava esse seu canto “com clareza, com afinação, num timbre bonito” com um “cantar emocionado, sujo, onde a nota sai desafinada”. Sobre a resposta do público na época, Caetano, em entrevista a Ricardo Moreira, disse que “a crítica e o público não deram nenhuma atenção ao show e ao disco. Até Nelson Motta, que falava bem de tudo, falou mal. Senti que Gal se retraiu. Quase tudo o que ela fez a seguir parecia oposto ao que tentamos ali”. Curiosamente, hoje esse é um dos discos da cantora mais bem quistos pelas novas gerações. Além das canções poéticas de Caetano e Gil, “Cantar” traz uma singela canção de ninar da mãe de Gal, dona Mariah Costa, chamada “Chululu”; uma versão linda e singela de “Canção Que Não Morre no Ar”, de Carlos Lyra, e conta com Caetano cantando versos de “Garota de Ipanema” na faixa “Flor do Cerrado” (flor esta que adorna os cabelos da cantora na capa do disco).

Nota: 10

Ouça: “Flor do Cerrado”, “Jóia” e “Lágrimas Negras”
Preferida: “Barato Total”

“Temporada de Verão” (1974)
Ao vivo gravado ao lado de Gil e Caetano, no teatro Vila Velha, em Salvador. Dentre as nove faixas, Gal aparece apenas em duas, acompanhada pelo acordeom de Dominguinhos. São elas as delicadas “Quem Nasceu”, de Péricles Cavalcanti, e “Acontece”, de Cartola, duas músicas que, infelizmente, ela não voltaria a gravar. As canções entoadas por Caetano e Gil formam um retrato importante de época. “Temporada de Versão” ainda marca a primeira aparição da bela “De Noite na Cama” e ainda traz uma linda regravação de “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues.

Nota: 8
Ouça: “Quem nasceu” e “Acontece”

“Gal Canta Caymmi” (1976)
Em 1975, Gal havia feito uma turnê junto com Dorival Caymmi, apresentando-se em três capitais brasileiras. Além disso, a composição “Modinha para Gabriela”, de Caymmi, era um sucesso na abertura da novela “Gabriela”, da Rede Globo. Nesse clima, Gal acaba por lançar em março de 76 um disco só com composições de total autoria de Caymmi. O álbum é uma espécie de songbook da obra do baiano (nos moldes em que Ella Fitzgerald revisitava autores lá fora), algo ainda incomum no Brasil e que tornar-se-ia prática usual, vide os álbuns de Bethânia cantando Roberto Carlos e Vinícius de Moraes e Ney Matogrosso cantando Chico Buarque e Cartola. “Gal Canta Caymmi” acaba por ser um álbum popular e acessível, que traz a força de Gal, mas ainda assim não foge muito do universo sonoro do autor. A grande diferença é a delicadeza que a voz da cantora traz a essas composições, sempre atreladas à voz forte e intensa da família Caymmi. A canção “Só Louco” acabou tornando-se um sucesso na trilha da novela “O Casarão”, também da Globo, fato que faz com que a canção retorne ao repertório de Gal em seus shows esporadicamente.

Nota: 8
Ouça: “Vatapá”, “Só Louco” e “Dois de fevereiro”
Preferida: “O Vento”

“Doces Bárbaros” (1976)
Doces Bárbaros é um supergrupo formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, que se uniram para uma turnê que comemoraria os 10 anos de suas carreiras individuais. A união dos quatro artistas rendeu um dos discos mais interessantes de suas carreiras, sendo quase uma pedra fundamental para todos que querem se aventurar pelo universo de qualquer um deles. Para uma percepção mais completa da importância desse encontro e desse disco é primordial que se assista ao documentário “Os Doces Bárbaros” (1976), de JomTob Azulay, que registra os bastidores do show e, inclusive, a prisão por porte de drogas de Gil. Idealizado por Bethânia, o projeto Doces Bárbaros foi mal recebido na época, especialmente pela crítica e pelos profissionais da música, porém o tom hippie, mesclando rock e regionalismo, legou uma força gigantesca ao trabalho, que envelheceu como um dos melhores registros do desbunde e de todo esse flowerpower tardio que abarcava a desilusão política dos quatro artistas. Surgido apenas como show comemorativo, Gil e Caetano queriam que o trabalho fosse registrado em estúdio, mas Bethânia e Gal não o quiseram, assim o que temos é um registro ao vivo, em disco duplo, com todas as falhas da época, mas que marcam a força desse encontro. A pungência de “Esotérico”, nas vozes de Gal e Bethânia, é um dos momentos mais belos do disco e, por conseguinte, da música brasileira. Em 2002, 26 anos depois, os quatro se reuniram novamente, encontro registrado no documentário “Outros (Doces) Bárbaros” (assista no final do texto).

Nota: 10
Ouça: “Eu te amo”, “São João, Xangô Menino”, “Fé cega, faca amolada” e “Atiraste uma pedra”
Preferida: “Esotérico”

“Caras & Bocas” (1977)
1977 é um ano em que florescia aqueles ares de “o sonho acabou” – mesmo com a proeminente abertura política, o país parecia banhado em uma ressaca, em certa soturnez, que descambaria na “perdida” década de 80. E nesse espaço, Gal lança um disco muito sólido dentro de sua carreira, depois de suas alegrias de desbunde (o fecho desta fase foi no ano anterior, com o supergrupo Doces Bárbaros). Aqui ela surge embalada por arranjos relacionados ao rock e ao jazz, com baladas românticas e momentos de maior introspecção. Há no disco certo romantismo doloroso, certo “sofrer de amor”, que se relaciona até mesmo com a capa: negra de fontes brancas. A canção mais clássica do disco é certamente “Tigresa”, escrita por Caetano Veloso, e que foi gravada, no mesmo ano, pelo autor, por Maria Bethânia e Ney Matogrosso, mas que recebe sua versão certeira e definitiva na voz de Gal; o disco ainda traz outros sucessos, como “Louca me Chamam” (do original “Crazy He Call’s Me”, de C. Sigman / B. Russel, em versão de Augusto de Campos) e até a faixa-título “Caras e Bocas” (Caetano / Bethânia). Dois momentos marcantes do álbum se encontram na versão de “It’s All Over Now, Baby Blue”, de Bob Dylan, que virou “Negro Amor” nas mãos de Caetano e Péricles Cavalcanti, em um arranjo roqueiro poderoso, em que Gal mostra uma força dramática intensa; e por segundo na versão ao vivo de “Um Favor” (Lupicínio Rodrigues), que encerra o disco com direito a assobios, gritos e risos da plateia. Esse disco também é responsável pelo surgimento de Marina Lima, que aparece aqui como compositora da dramática “Meu Doce Amor”.

Nota: 8,5
Ouça: “Me Recuso”, “Tigresa” e “Meu doce amor”
Preferida: “Negro Amor”

“Água Viva” (1978)
“Água Viva” coloca Gal no patamar das grandes cantoras do país, não por ser um disco inovador ou surpreendente, mas sim pela quantidade de hits radiofônicos presentes nele. Se alguém quer um disco que defina a carreira de Gal de forma acessível, “Água Viva” faz isso muito bem. Aqui ela interpreta seus autores usuais: Chico (que se tornaria um autor costumeiro em sua voz a partir daqui), Caetano, Caymmi, Gil, Tom, entre outros; e ainda passeia por ritmos múltiplos, do forró ao baião, do samba aos boleros. O carro chefe desse disco é a clássica “Folhetim”, mas a lista de sucessos é grande: “Paula e Bebeto”, “Pois é”, “O Bem do Mar”, “Qual é Baiana?” e a triste “Mãe”. É a Gal mostrando que ser popular também pode ser muito refinado. “Água Viva” é seu primeiro disco de ouro e a primeira vez que Gal se desvincula dos ares de cantora tropicalista, assumindo o posto de cantora popular de largo alcance. Um disco alegre, cuidadosamente produzido e que envelheceu muito bem. Além da qualidade musical, ressaltam-se as fotos belíssimas do encarte, feitas por Marisa Alvarez Lima.

Nota: 9
Ouça: “Paula e Bebeto”, “Qual é baiana?” e “Folhetim”
Preferida: “Mãe”

“Gal Tropical” (1979)
Seguindo os passos de “Água Viva”, este é o segundo disco de ouro de Gal, e exibe um apelo pop e um pé no samba e no frevo, revisitados de forma moderna (à época), que daria o tom da carreira de Gal nos anos 80. Este disco é marcado pela regravação de dois clássicos de Gal (“Índia” e “Meu Nome é Gal”) e também pelo sucesso de faixas como “Balancê” (um hit no carnaval de 1980) e “Força Estranha”, de Caetano, que se firma como uma música clássica no repertório da cantora. “Gal Tropical” é praticamente Gal remexendo no baú da música brasileira e de lá saem velhas marchinhas, antigos sambas-canções, músicas do cancioneiro popular e, claro, uma revisitação em faixas de seus companheiros usuais: “Índia” se torna algo delicado e brejeiro; “A Preta do Acarajé”, de Caymmi (que havia sido gravada ao lado de Carmem Miranda), ganha uma voz empostada, mezzo samba mezzo ponto de macumba em que Gal torna-se quase uma entidade; “Olha”, de Roberto e Erasmo, ganha ares de bolero, com uma latinidade sedutora em meio a melancolia. “Gal Tropical”, mesmo popular e acessível, mostra as garras da baiana na sua nova versão de “Meu Nome é Gal”, que traz um dueto entre sua voz e as cordas da guitarra, entremeada por uma bateria de escola de samba, provando que por mais popular que seja sua voz, sua alma é iconoclasta e de vanguarda.

Nota: 8
Ouça: “A Preta do Acarajé”, “Força Estranha” e “O Bater do Tambor”
Preferida: “Meu nome é Gal”

“Aquarela do Brasil” (1980)
Funcionando como um songbook da obra de Ary Barroso, “Aquarela do Brasil” segue a sequência de discos de ouro da cantora, trazendo hits fortes e marcantes. Esse disco abre a década de 1980 fincando a marca de Gal como grande cantora popular e de sucesso de vendas. Do mesmo modo que Gal impôs sua personalidade sobre a obra de Caymmi, aqui isso se repete com a obra de Ary Barroso, pois esse disco não soa como um arremedo nostálgico de sua obra, mas sim revitaliza suas canções, contextualizadas na nova década que se iniciava. O álbum surgiu de uma proposta da gravadora Polygram, que queria um disco que não interferisse muito no sucesso da turnê ainda em curso de “Gal Tropical”. Com um repertório escolhido pessoalmente por Gal, o disco mescla o lado popular de Ary com seus momentos mais românticos, destacando-se aqui a participação de Caetano Veloso na deliciosa “No Tabuleiro da Baiana”. No final das contas, esse disco virou um dos grandes sucessos da década, trazendo a faixa “Aquarela do Brasil” para o repertório usual da cantora e provando que Gal tem a manha de revitalizar compositores fundamentais do nosso cancioneiro.

Nota: 7
Ouça: “Camisa Amarela”, “Tu” e “Aquarela do Brasil”
Preferida: “No Tabuleiro da Baiana”

“Fantasia” (1981)
O disco “Fantasia” surge do show homônimo, que homenageava os musicais e o teatro de revista e que foi um fracasso completo de crítica. Ao contrário, o disco foi um dos maiores êxitos da cantora, com sucessos que marcam sua carreira, como “Canta Brasil”, “Meu Bem, Meu Mal” e “Festa de Interior” – essa última, aliás, deu o nome do novo show, agora dirigido por Waly Salomão. De caráter pop e repertório múltiplo, “Fantasia” fisga o público pela delicadeza e versatilidade das canções. Porém, além das clássicas canções de sucesso, há uma beleza quase esquecida em duas delicadas faixas: “Faltando um Pedaço” (Djavan), cantada em tom de devaneio e sonho, com um pequeno coral a repetir onomatopeias; e “Estrela, Estrela” (Vitor Ramil), que encerra o disco de forma onírica, entoada apenas com a voz de Gal, tendo como instrumentos sonoros as vozes do cantor Zéluiz e da própria Gal ao fundo. Já a faixa “O Amor” (um poema de Vladimir Maiakovski traduzido por Ney Costa Santos e musicado por Caetano Veloso) é de uma sonoridade tipicamente anos 80, um tanto quanto brega e exagerada, que marcaria muito das produções seguintes da cantora. Este disco é a prova daquela versatilidade de Gal: que grita e que sabe cantar baixinho. A faixa “Canta Brasil” seria retomada em 1992, tornando-se trilha de abertura da novela “Deus nos Acuda”, de Sílvio de Abreu, onde o Brasil e tudo que há nele afundam em lama, num trabalho de Hans Donner.

Nota: 8
Ouça: “Meu Bem, Meu Mal”, “Açaí” e “Massa Real”
Preferida: “Estrela, Estrela”

“Minha Voz” (1982)
Contrapondo-se a euforia do disco anterior, “Minha Voz” galga caminhos mais introspectivos, sendo o elo perfeito com “Estrela, Estrela”, faixa que encerra o anterior. Delicada e um tanto melancólica, Gal surge intimista, como a nos contar pequenos segredos; para isso ela é acompanhada de uma instrumentação que se aproxima do jazz, mas que quase sempre surge de pano de fundo para sua voz. Primeiramente intitulado de “Azul”, “Minha Voz” acabou sendo mais um grande sucesso e traz uma das faixas fundamentais em seu repertório: “Dom de Iludir” (Caetano). Por outro lado, o disco traz algumas faixas menos comerciais, naquela linha MPB quase nonsense, do tipo que Gal sabe muito bem como dar sentido; o melhor exemplo disso é a poética “Musa Cabocla”, de Gil e Waly Salomão, uma ode à Gal, à natureza e a outras coisas mais. Quebrando essa linha mais intimista, Gal aposta também em duas marchinhas de carnaval, “Bloco do Prazer” e a clássica “Pegando Fogo”, faixas que se comunicam com outros flertes de Gal com as marchinhas durante a década (se reunidas, essas faixas esparsas até mesmo renderiam um disco apenas com faixas de carnaval). Esse trabalho também marca a primeira aparição do grupo Roupa Nova ao lado da cantora, aqui trabalhando os arranjos do disco, dando aquele tom oitentista kitsch. No todo, “Minha Voz” não é um grande disco, que se sobressaia na discografia dela, mas é um trabalho bem resolvido, que não inova, mas que valoriza a voz e os ritmos da cantora. Vale ficar atento em “Groupie”, a faixa final, que é um medley de algumas músicas entremeadas por depoimentos, conversas e risos.

Nota: 7
Ouça: “Musa Cabocla”, “Minha voz, minha vida” e “Luz do Sol”
Preferida: “Dom de Iludir”

“Baby Gal” (1983)
Gal surge num vestido que mais parece um baby doll, em uma capa que envelheceu muito mal, mas em contraponto, surge de cabelos desgrenhados, cobrindo seu rosto na contracapa, em uma imagem que define melhor os amores intensos que ela canta nesse disco. “Baby Gal” é romântico e a cara dos anos 80, mas curiosamente envelheceu muito bem, sem ficar preso nos maneirismos da década. Utilizando de instrumentos modernos naquele período, como teclados eletrônicos e outras parafernálias, Gal consegue dar conta de mesclar sua veia mais pop com toda sua sonoridade brejeira, isso tudo conciliado pela presença de seus compositores de sempre: Caetano, Chico, Gil, Djavan. Assim vemos o samba, o jazz, os ritmos afros, tudo mesclado de forma harmoniosa; tanto que “Bahia de Todas as Contas” se apresenta quase como um prelúdio do axé music / samba-reggae e funciona muito bem ao lado de faixas tão ecléticas como “Rumba Louca”, que traz uma sonoridade que casa Cuba e Bahia. O final do disco é um momento a se prestar atenção: a voz de Gal surge perfeita em “Eternamente”, límpida, acompanhada de um piano simples, que logo se mescla a uma nova versão de “Baby”, acompanhada da banda Roupa Nova, num encontro que poderia ter tudo para dar errado, mas que soa saborosamente anos 80. Dentre os trabalhos de Gal produzidos por Mariozinho Rocha, esse é o melhor: o único em que ele consegue organizar toda a versatilidade da cantora, dando espaço para que ela se sobressaia como uma intérprete delicada, entregue e cada vez mais perfeccionista.

Nota: 8
Ouça: “Mil Perdões”, “Rumba Louca” e “Olhos do Coração”
Preferida: “Sutis Diferenças”

“Profana” (1984)
Sob a efervescência de um ano politicamente fundamental na história do Brasil, Gal surge de cabelos curtos, vestido vermelho justo e brilhante na tela do Fantástico cantando versos como “derrama o leite bom na minha cara / e o leite mal na cara dos caretas”, em meio a guitarras new wave. Ousada que só, ela lança um disco sob o provocativo título “Profana”, onde aparece quase histriônica na capa, de pele branca e lábios vermelhos, porém a ousadia acaba aí, pois o que temos é um disco interessante, porém confuso. Indo do rock new wave as marchinhas de carnaval, passando pelo forró e por baladas românticas típicas dos anos 80, o disco transforma sua versatilidade em ponto fraco, soando mais como uma compilação de sucessos múltiplos, do que um álbum original. Mesmo assim, alavancada pelo hit estrondoso “Chuva de Prata” (tocado ao lado da banda Roupa Nova), o disco se tornou um sucesso gigante, vendendo mais de um milhão e meio de cópias. Trazendo velhas marchinhas de carnaval ao lado de clássicos do forró, “Profana” não consegue dar conta de organizar toda a explosão sonora da cantora, um problema da produção de Mariozinho Rocha. Nessa salada toda, destaca-se a participação de Luiz Gonzaga na divertida faixa “Tem Pouca Diferença” (em pot-pourri com “Cabeça Feita” e “Tililingo”). “Profana” atualmente soa datado, quase esquizofrênico em sua multiplicidade, mas funcionam as faixas deslocadas do todo, trazendo assim pequenas pérolas perdidas num caldeirão rítmico. O viés mais interessante de “Profana” é aquele em que Gal interpreta canções de versos difíceis e quase incompreensíveis (“Vaca Profana” / “Topázio” / “O Revólver do Meu Sonho”), deixando tudo pop e sedutor, algo que só a cantora tem a manha.

Nota: 6
Ouça: “Onde está o dinheiro”, “Chuva de Prata” e “Topázio”
Preferida: “Vaca Profana”

“Bem Bom” (1985)
Gal em sua fase mais sensual (nesse ano ela posaria nua na revista Status, aos 40 anos), aparece linda e sorridente em seu vestido preto de couro na capa. Com a mão de Waly Salomão, a cantora retorna a sua verve mais roqueira, mais ousada, mesclando inúmeros gêneros em um só disco, desde o pop de uma faixa como “Sorte”, em parceria com Caetano, até o romantismo (um tanto brega) de “Um Dia de Domingo” (Michael Sullivan e Paulo Massadas), ao lado de Tim Maia. “Bem Bom” foi um sucesso estrondoso (como quase tudo dela nos anos 80), vendeu mais de um milhão de cópias, teve vários hits tocados à exaustão e é um dos momentos em que Gal mais representa a figura de popstar nacional. Porém, assim como o anterior, esse disco também envelheceu mal, soa datado (certamente o disco mais incrustado nos maneirismos da década de 80) e não vem acompanhado de todo o burburinho midiático que teve na época, o que acaba diminuindo o seu glamour, mas, no fim das contas, nos traz um clima de “saudades do que não vivemos”. E é completamente irresistível ouvir Gal nos seduzindo com os versos de Antônio Cícero e Marina Lima: “cara, a vida é brisa”. Gal é mesmo “musa de qualquer estação”.

Nota: 6,5
Ouça: “Sorte”, “Acende o crepúsculo” e “Todo amor que houver nessa vida”
Preferida: “Musa de Qualquer Estação”

Rio Revisited (1987)
Show ao lado de Tom Jobim gravado em Los Angeles, que na verdade funciona mais como um disco dele, com participações pontuais da cantora. Primordialmente, esse disco marca o encontro de Gal com um de seus ídolos e um dos ícones maiores da música nacional, mas assim como suas incursões subsequentes na obra de Tom, esse lançamento também serve mais ao público estrangeiro ou a iniciantes em bossa nova. Funcionando mais como registro histórico, de um encontro único, “Rio Revisited” não acrescenta nada de novo nem na carreira de Gal e muito menos a bossa nova.

Nota: 4
Ouça: “Dindi” e “Corcovado”
Preferida: “Wave”

“Lua de Mel como o Diabo Gosta” (1987)
Depois do sucesso de “Bem Bom”, Gal fez uma turnê internacional e lançou um disco ao vivo com Tom Jobim, e com isso criou uma expectativa em torno de seu novo disco, que só chegou em 1987. “Lua de Mel como o Diabo Gosta” tem uma das capas mais lindas da discografia da cantora, com ela fumando, de costas, uma ousadia para uma cantora tão popular como Gal em não mostrar seu rosto na capa. E essa ousadia explode logo na primeira canção: “Arara” é raivosa, gritada e exagerada. Exagero é a palavra desse disco: exagero romântico, vocal e sonoro. São baladas quase melosas, de um amor sensual, que não foram bem recebidas nem pela crítica nem pelo público. Posteriormente, a própria Gal consideraria esse álbum o mais irregular de sua carreira, mesmo assim é um álbum que envelheceu bem, que não soa tão datado quanto “Profana” ou “Bem Bom”. Ouvindo agora, esse álbum apresenta uma artista irrequieta, que não quer se aprisionar e busca novos caminhos, há uma entrega e uma busca de algo novo, por isso a voz tão exposta, tão alta (e esse volume vocal não é um real problema, já que a cantora domina as nuances de sua voz de forma intensa). Nessa busca por caminhos diferentes, Gal grava três músicas de Lulu Santos e traz uma versão nacional de “Here, There and Everywhere”, dos Beatles, aqui chamada “Viver e Reviver”. Ela ainda tenta repetir o sucesso com uma nova música de Michael Sullivan e Paulo Massadas, “Sou Mais Eu”, certamente a música mais anos 80 do trabalho. É realmente um disco irregular, com problemas e exageros, mas ainda assim bem melhor que um disco comum e repetitivo.

Nota: 7
Ouça: “Todos os instrumentos”, “Tenda” e “Me faz bem”
Preferida: “Arara”

“Plural” (1990)
Gal é a primeira artista a apresentar ao resto do Brasil os sons vindos da Bahia e que dominariam os anos 90: o samba-reggae e a axé music, tudo misturado num disco pop, assertivo, festivo e classudo. Com ecos dos blocos afro, como o Ilê Aiyê ou o Olodum, Gal surge alegre e popular, cantando as ladeiras da Bahia, o amor de forma livre e a liberdade em sua totalidade (inclusive dos cabelos). Impulsionado pelo sucesso “Cabelo”, o disco vendeu mais de um milhão e meio de cópias, encerrando uma fase de grandes sucessos de venda da cantora. No todo, “Plural” dá conta de seu título: é samba-reggae, bossa nova, romântico, afro, pop, sedutor. Essa multiplicidade aparece também nos compositores gravados: de Cole Porter, Jorge Ben, Arnaldo Antunes e Marina Lima até artistas baianos novos (na época) como Carlinhos Brown e Beto Jamaica. É um disco que não busca reinventar a canção nem que exija grandes arroubos vocais de Gal, mas é um álbum de canções sinceras, em que a cantora aparece diversa, talvez por conta da produção de Léo Gandelman, que consegue mesclar o erudito e o popular de forma que nada soe forçado. A onipresença de Waly Salomão, que cuidou do repertório, da concepção artística e do show, dão esse tom leve, despojado, de poesia cotidiana ao álbum. Inclusive, no texto de lançamento, Waly Salomão escreveu: “ser plural é detonar toda raiz e detonar-se enquanto raiz. É subdividir-se e multiplicar-se”. Uma frase que resume muito da carreira de Gal, mas que infelizmente não se sobrepujaria em seus discos futuros.

Nota: 7
Ouça: “Salvador Não Inerte / Ladeira do Pelô”, “Holofotes” e “Brilho de Beleza”
Preferida: “Cabelo”

“Gal” (1992)
Depois de mais de um ano de turnê do disco “Plural”, Gal lança um trabalho autointitulado que se reutiliza de inúmeras faixas cantadas na turnê, ao lado de um repertório clássico, com faixas de Noel Rosa, Cartola e até mesmo uma regravação da seminal “Tropicália”, de Caetano. Waly Salomão, o diretor do show “Plural”, não ficou nada feliz com o uso de suas concepções artísticas em um disco do qual ele não participou, mas a verdade é que a produção de Mazolla é um dos grandes trunfos desse álbum, dando uma coesão importantíssima à obra. “Gal” segue as explorações afro-brasileiras que apareceram em “Plural”, mas aqui de forma mais intensa (vide as três “Saudações aos Povos Africanos” que aparecem no início, no meio e no final do disco). É certamente um dos álbuns em que a cantora mais se comunica com a arte e os artistas negros: há o samba, os ritmos africanos, a participação dos Filhos de Gandhi na faixa “É d’Oxum” e de Bobby McFerin em “The Laziest Gal in Town”, e há também um respeito à cultura e ao sincretismo afro-brasileiro. Um dos méritos desse disco é que Gal revisita faixas clássicas, mas insere-as no contexto proposto, onde tudo soa conectado, como se esse fosse um disco apenas de inéditas, feitas especialmente para a voz dela. Outro detalhe saboroso do disco é que Tom Jobim toca piano na singela faixa “Caminhos Cruzados”.

Nota: 8
Ouça: “Coisas Nossas”, “Cordas de Aço” e “Feitio de Oração”
Preferida: “É d’Oxum”

“O Sorriso do Gato de Alice” (1993)
Este é certamente o melhor e mais complexo disco de estúdio de Gal durante a década de 1990 e também o último disco da cantora pensado para o formato do vinil (com lado A e lado B), contando com um repertório baseado em cinco compositores: Caetano, Gil, Jorge Ben, Djavan e Arto Lindsay. A mãe de Gal faleceu durante as gravações e essa perda se reflete nos momentos mais delicados do disco, que mescla uma alegria quase soturna com violões melancólicos, marcantes de uma virada de “Gal sucesso da MPB”, para sua fase mais introspectiva, baseada em suas intenções vocais. O show surgido desse disco certamente foi o ponto mais polêmico da carreira de Gal: dirigida por Gerald Thomas, ela surge com roupas pretas, minimalista, estranha, culminando com a sua já histórica interpretação da faixa “Brasil”, com os seios à mostra. Deixando crítica e público confusões (em um sentido mais negativo), Gal não se arrepende dessas escolhas, pelo contrário, considera “O Sorriso do Gato de Alice” um marco de ruptura em sua carreira. No todo, esse disco é melancólico, até quando enverga por caminhos mais alegres (vide as faixas de Jorge Ben). A voz de Gal soa difusa e solitária, como quem pede um afago, como que clamando um carinho, é assim o seu pedido de que o sofrimento se vá em “Nuvem Negra” (Djavan). Acompanhada por músicos como Paulinho da Viola, Marcos Suzano e Paulo Belinati, Gal faz deste um disco essencialmente devotado a sua voz: solene, intensa e múltipla. Certamente um disco a ser redescoberto e melhor compreendido.

Nota: 9
Ouça: “Mãe da Manhã”, “Nuvem Negra” e “Alkahool”
Preferida: “Errática”

“Mina D’Água do Meu Canto” (1995)
Este disco dá o tom que sua carreira assumiria a partir daqui: de revisitação em faixas e universos já conhecidos, de um sem-número de regravações, algumas com a marca de Gal e outras bastante aleatórias. Aqui ela revisita o universo de Caetano e de Chico, cantando oito canções de cada um deles e uma parceria inédita dos dois. Este disco marca o início de uma nova fase de Gal, onde ela deixa de lado os figurinos exuberantes, optando por seus terninhos soltos; deixando de lado os arroubos enérgicos de cantora pop e optando por caminhos tidos como mais maduros. Isso tudo é marcado pela produção límpida, delicada e minuciosa desse disco, com destaque primordial a sua voz e todas essas nuances. Porém, mesmo com a produção e os arranjos de Jaques Morelenbaum, tudo aqui acaba soando monótono, mais do mesmo, não fazendo jus nem a Gal nem aos compositores que ela grava. Canções intensas como “O Quereres” ou “Língua” poderiam ter versões mais ousadas, mas mesmo assim ainda são os pontos altos desse disco. As músicas de Chico, muito românticas, marcam os momentos mais desinteressantes de “Mina D’água”. Talvez a revisitação de “Odara”, em uma versão bem próxima daquela flowerpower feita por Caetano no disco “Bicho”, com seus mais de sete minutos, seja o único ponto alto, já que surge leve e despojada, ao ponto de ter se tornado o primeiro videoclipe feito pela cantora para a MTV. Talvez o maior problema desse disco seja sua extensão: mais de uma hora de faixas já conhecidas, em versões que não trazem novidade alguma.

Nota: 3,5
Ouça: “O Quereres”
Preferida: “Odara”

“Acústico MTV” (1997)
O ponto alto dos anos 90 para Gal, este show marca um momento de revisitação de faixas clássicas de seu repertório e serve como apresentação de sua obra para o público jovem da MTV. O show reúne faixas básicas de seu repertório, como “Baby” e “Força Estranha” e traz parcerias clássicas, como seu encontro com Luiz Melodia, nas faixas “Pérola Negra” e “Como 2 e 2”. Acompanhada da Orquestra Petrobrás e com regência do maestro Wagner Tiso, cada faixa do álbum deixa Gal em primeiro plano, toda a intensidade da orquestra e suas cordas servem apenas de pano de fundo para a voz da baiana. Este acústico não propõe inovações em sua obra, mas sim certo respeito por aquelas faixas, o que traz momentos de rara delicadeza, como em “Sua Estupidez” ou “O Amor”. Os momentos de destaque são as participações de Herbert Vianna numa versão dolorosa de “Lanterna dos Afogados” e de Zeca Baleiro (um quase desconhecido à época) em “Vapor Barato” seguida de sua “faixa-irmã” “Flor da Pele”, composta pelo maranhense. O disco foi um sucesso de vendas, levando Gal para uma turnê de 19 meses e trazendo novamente ela para o centro das atenções. Uma das pérolas resgatadas nesse show é “Teco-Teco”, uma faixa leve, de moleca, que ela tinha lançado apenas em compacto.

Nota: 8
Ouça: “Barato Total”, “Vapor Barato/Flor da Pele” e “Você não entende nada”
Preferida: “Vaca Profana”

“Aquele Frevo Axé” (1998)
Um álbum em que Gal prometia flertar com o universo eletrônico e todas as novidades computadorizadas da época resulta num disco morno, de gravações amenas e de sonoridade comum. Com um tracklist invejável, que traz composições de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Herbert Vianna, Adriana Calcanhotto e José Miguel Wisnik, Gal não parece tão intrépida como em outros tempos. Canções que poderiam ter suas versões definitivas em sua voz, aqui ganham ares monótonos, como a clássica “Esquadros”, de Calcanhotto, que ganha uma versão pop anos 90 que hoje soa datada. Produzido por Celso Fonseca e mixado em Nova York, o disco tenta se comunicar com as sonoridades da época e nesse afã moderno só se sobressaem as versões de Tim Maia, “Imunização Racional” e “Você”, que ganharam um ar despojado e pop. O álbum conta com participações de Milton Nascimento, Pedro Aznar e Ron Carter, mas mesmo assim não foi bem recebido na época, vendendo pouco e não chamando muita atenção. “Aquele Frevo Axé” não é um disco ruim, só é fraco para uma cantora com tanta intensidade como Gal. A prova disso é sua interpretação para “Assum Branco” (faixa de José Miguel Wisnik, que conversa com a clássica “Assum Preto”, de Luiz Gonzaga), onde Gal expõe sua intensidade, sua delicada força, acompanhada de um piano lamurioso tocado pelo próprio Wisnik; é uma faixa que prova que este poderia ter sido um disco poderoso, mas não o é.

Nota: 4
Ouça: “Imunização Racional”, “A Voz do Tambor” e “Você”
Preferida: “Assum Branco”

“Gal Costa Canta Tom Jobim” (1999)
Nesse ao vivo lançado em forma de disco duplo, Gal reencontra a menina Gracinha, que encantada pela bossa nova se apaixonou pela música e pelo canto. O álbum funciona praticamente como um songbook do compositor (e, por conseguinte, da bossa nova), onde ela revisita as faixas mais marcantes dele. Aqui estão “Garota de Ipanema”, “Corcovado”, “Desafinado”, entre outras. Tudo é cantando com poder, com entrega e com uma limpidez da voz de Gal, cada faixa deixando transparecer a importância que elas possuem para a cantora. São versões lindas, delicadas, bem produzidas, tudo muito classy, mas a verdade é que no final das contas é um disco chato. Tudo aqui soa mais do mesmo, aqui tudo é muito subserviente ao original, tudo é muito “homenagem à bossa nova”. É um disco bem feito, de bom gosto, mas completamente esquecível.

Nota: 5
Ouça: “Chega de saudade” e “A Felicidade”
Preferida: “Wave”

“Gal de Tantos Amores” (2001)
Este é o primeiro dentro da tríade dos álbuns mais desanimados e esquecíveis da carreira de Gal. Composto por regravações de clássicos de sua carreira, “De Tantos Amores” traz três faixas inéditas: “Caminhos do Mar” (Dorival e Danilo Caymmi), feita especialmente para a trilha da novela global “Porto dos Milagres”; “Abandono”, de Caetano Veloso e “Apaixonada”, que serviu de trilha pro filme “A Partilha” (de Daniel Filho, 2001). Com produção do cineasta Daniel Filho ao lado de Wagner Tiso, esse disco foi construído sob o tema “amor”, mas o que salta aos ouvidos é ver canções tão clássicas dentro do repertório de Gal ganhando arranjos antiquados, com ecos de um romantismo brega. Todas as versões aqui apresentadas são o suprassumo da “trilha sonora de restaurante classe A”, isto é, tudo tão monótono e esquecível, que não causa incômodo se tocada bem de leve ao fundo do nosso jantar. A voz de Gal jamais merecia arranjos tão preguiçosos, porém o mais terrível desse disco é ter que ouvir maravilhas como “Índia” ou “Que Pena” em versões monocórdicas. Pouco se salva desse disco, até a voz de Gal soa mais do mesmo, parecendo que a cantora está eternamente presa em algum piano bar de novela do Manoel Carlos.

Nota: 0,5
Ouça: “Força Estranha” e “Caminhos do Mar”
Preferida: “O Amor”

“Gal Bossa Tropical” (2002)
Produzido por Marco Mazzola, esse disco também se encaixa dentro da fase de regravações da cantora, mas apesar do que o título possa transparecer, aqui o repertório é múltiplo, indo de cover dos Beatles até Rita Lee, passando por faixas dos Titãs, de Vander Lee e, claro, Caetano. Fugindo da monotonia (e do fracasso) do disco anterior, “Bossa Tropical” aposta em faixas mais pops, numa tentativa de sucesso radiofônico, porém o que se tem aqui é um disco esquecível, frágil e comum. Soa como aqueles discos de cantoras de MPB que emulam a própria Gal. “Epitáfio”, dos Titãs, que havia sido um hit da banda na época, ganha uma versão pueril. A clássica “Ovelha Negra”, de Rita Lee, ganha uma versão terrível, que numa tentativa de soar jovem e moderna, acaba se tornando completamente esquecível, minimizando a força da composição. O disco foi recebido de forma mais positiva pela crítica na época, mas não fez o sucesso esperado. Os momentos mais agradáveis são aqueles em que Gal consegue se mostrar mais alegre, mais solta, mesmo assim, no todo, esse disco apresenta uma Gal meio deslocada de seu tempo, buscando se conectar com um novo público, que na verdade ela nem sabe quem é. As faixas em que o baixo de Paulo César Barreto se sobressai mostram que esse disco poderia ser melhor se houvesse um pouco mais de ousadia e menos preocupação com as vendas.

Nota: 2
Ouça: “Socorro”
Preferida: “Marcianita”

“Todas as Coisas e Eu” (2003)
Seguindo a onda de regravações, esse disco tem um repertório quase memorialista, com Gal retomando canções clássicas que datam dos anos 20 até os anos 60/70. A cantora remexe no repertório de artistas como Noel Rosa, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Humberto Teixeira, Ary Barroso e Herivelto Martins, num setlist que parece saído de algum show de Maria Bethânia. Porém esqueçamos essa comparação, pois o que Gal faz é despojar tais canções dos exageros dramáticos usuais, dando a todas um tom que pretende-se classudo, artsy, mas que soa como uma longa trilha de novela (talvez fruto da produção de Mariozinho Rocha, diretor musical da Globo). O tempo, aliás, é um problema do disco: são mais de 50 minutos de uma toada excessivamente homogênea, que soa monótona. As escolhas de repertório são, obviamente, pérolas do cancioneiro brasileiro, mas as versões aqui apresentadas não trazem novidades, não aparecem modernizadas, como seria o usual da cantora. Tudo em “Todas as Coisas e Eu” soa repetitivo, lugar-comum, de forma menos delicada, tudo aqui é chato demais. Aparentemente há uma subserviência às versões originais ou mais clássicas dessas faixas, deixando claro que esse poderia ser um grande disco, se fosse um pouco mais ousado, menos careta, visto que a voz de Gal está em um dos seus melhores momentos: afinada, certeira e forte.

Nota: 1,5
Ouça: “Nossos Momentos” e “E daí?”
Preferida: “Nervos de Aço”

“Hoje” (2005)
“Hoje” foi feito no ano em que Gal completava 60 anos e é seu primeiro disco de composições inéditas em 12 anos. Aqui ela traz canções novas ou desconhecidas de compositores em sua maioria jovens, como Moreno Veloso, Junio Barreto, Tito Bahiense, Moisés Santana e o congolês Lokua Kanza. Este trabalho marca uma tentativa da cantora de se comunicar com um público novo, investindo em novas propostas, uma atitude usual em sua carreira. Este álbum foi lançado pela gravadora Trama, que na época investia em possibilidades diferentes, sendo possível (à época) ouvir o álbum em streaming no site da gravadora. Apesar de cercada de juventude, a produção do disco ficou a cargo de César Camargo Mariano, pianista que já havia trabalhado no disco “Baby Gal” e que dá esse tom sério do disco, com toques de cool jazz. Mesmo assim esse ainda é um trabalho muito pessoal, em que Gal surge solta, sincera, em canções que ela própria escolhera (entre as mais de 300 composições que ela possuía para selecionar). “Hoje” é certamente o disco mais pessoal de sua carreira: aqui não vemos as personas de Caetano, de Chico, de Tom Jobim, vemos apenas as escolhas de Gal, sua voz límpida, suntuosa e sensual. Além dessa sensualidade madura e imponente, o disco tem ecos africanos, que vão além das composições de Lokua Kanza, mas sim pelos backing vocals de Silvera, cantor e instrumentista paulistano, que por acaso estava gravando no mesmo estúdio e acabou participando do disco. Aliás, o disco foi todo gravado com Gal e banda juntos no estúdio, dando ainda mais intimismo e verdade ao projeto. “Hoje” não é um marco na carreira de Gal, mas certamente é um belo disco, que mostra a sua gana por novidades, sua entrega e a verdade de seu canto.

Nota: 6
Ouça: “Mar e Sol”, “Pra Que Cantar” e “Santana”
Preferida: “Sexo e Luz”

“Ao Vivo” (2006)
Levando o repertório do disco “Hoje” para o palco, Gal não traz grandes mudanças em relação ao disco, tudo segue sua linha minimalista, que preza pelo protagonismo de sua voz. Talvez o melhor desse ao vivo seja o fato dele ter sido feito pela gravadora Trama, que não interfere explicitamente nas escolhas da cantora, uma vez que seu repertório não faz concessões aos seus sucessos radiofônicos, nem traz todo aquele revisionismo bossa nova que tinha dominado seus shows nos anos anteriores. Gal traz quase todas as faixas de “Hoje”, acompanhado de alguns clássicos, como “Feitio de Oração” e “Juventude Transviada”. Não é um ao vivo arrebatador ou surpreendente, mas é saboroso poder ouvir Gal à vontade no palco, cantando de forma alegre, fazendo com que seu sorriso surja através do áudio. Depois de anos de shows monótonos, esse é um trabalho digno da força de Gal.

Nota: 6,5
Ouça: “Fruta Gogoia”, “Santana”, “Sexo e Luz”, e “Meu nome é Gal”
Preferida: “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”

“Live at the Blue Note” (2006)
Esse ao vivo é praticamente o “Gal canta Tom Jobim”, só que em Nova York. Acrescido de algumas faixas de outros compositores, como Ary Barroso e Dorival Caymmi, o show de Gal na famosa casa de jazz nova-iorquina é na verdade um grande espetáculo para os gringos, funciona como uma apresentação de bossa nova que eles adoram, aqui com os vocais límpidos e singulares da baiana. Entre uma faixa e outra ela conversa com um inglês cheio do seu saboroso sotaque baiano. Eis um disco mais do mesmo que pode sorar interessante na gôndola de “world music” na Europa e nos EUA, mas completamente desnecessário ao público brasileiro.

Nota: 2
Ouça: “Fotografia”

“Recanto” (2011)
Depois de seis anos de hiato de estúdio, Gal retorna com um registro moderno, minimalista, com bases eletrônicas. Quebradiço, poético e quase gélido em suas experimentações, “Recanto” afugentou muita gente e apresentou uma Gal renovada e ousada para as novas gerações. O disco foi todo composto por Caetano, que também produziu as faixas ao lado de seu filho, Moreno Veloso. É um álbum que praticamente poderia ser assinado como o primeiro disco dos dois: “Caetano Veloso & Gal Costa”. Gal até aparenta um tanto de frieza e desconforto em um território tão diferente, baseada no rock, na eletrônica e na música ambiente, mas mesmo assim soa corajosa quando põe sua voz em contraponto com o autotune ou quando canta desavergonhadamente um funk-poético típico de Caetano. “Recanto” é um disco que pode ser chamado de engessado, mas que com o passar do tempo vai mostrando-se um elo forte entre Gal e as novas plateias. Atualmente, “Recanto” já pode ser visto como o marco de uma cantora que se reinventa constantemente e que não abandona sua força tropicalista.

Nota: 8,5
Ouça: “Recanto Escuro”, “Tudo dói” e “Miami Maculelê”
Preferida: “Neguinho”

“Recanto Ao Vivo” (2013)
O show decorrente do disco “Recanto” é um marco do reencontro de Gal com as plateias mais jovens e com um público que não é o dos teatros caros que costumeiramente recebem os shows de MPB. Aqui Gal retoma sua força como uma voz de gerações e mescla seu repertório mais eletrônico com suas faixas clássicas, fazendo um registro único, que deixa pra traz qualquer desconforto que sua voz aparentava no disco de estúdio. Entre guitarras e programações eletrônicas, Gal se mostra entregue num show que revisita faixas seminais, como “Vapor Barato” e “Força Estranha”, em versões poderosas. Acrescente-se aí a volta de faixas esquecidas no seu repertório, como “Da Maior Importância” e “Mãe”, que voltam repaginadas e se comunicando perfeitamente com nosso tempo. No palco, Gal aparece mais solta, dançando funk ou abrindo espaço para as guitarras pesadas de sua banda. O disco, assim como o DVD de mesmo nome, marcam uma fase de suntuosa ousadia da cantora, mas mais que isso, servem como cartão de visitas da obra da baiana às novas gerações. No fim das contas, “Recanto Ao Vivo” é como um manifesto em que Gal proclama: “estou viva e cheia de coragem” (entrevista com Gal sobre esse disco no Scream & Yell).

Nota: 9
Ouça: “Tudo dói”, “Mãe”, “Miami Maculelê” e “Força Estranha”
Preferida: “Vapor Barato”

“Live in London ’71” (2014)
Durante o exílio de Gil e Caetano, Gal acabou indo visitar os dois em Londres e é lá que a cantora se fortaleceria para voltar ao Brasil como a porta-voz dos dois e do desbunde. Em novembro de 1971, Gal e Gil se apresentaram no Student Centre, na City University London, num trabalho que é praticamente um acústico do “Fa-Tal”, show que Gal havia estreado um mês antes no Brasil e que seria lançado em disco em dezembro do mesmo ano. A gravação desse show ficou perdida até 1998, quando o produtor Marcelo Froés foi até Londres buscar as fitas de um disco inacabado de Gil e acabou descobrindo essa raridade. Remasterizado e editado, o show foi lançado em forma de disco duplo em 2014 pelo selo de Fróes, o Discobertas, tendo o primeiro disco grande parte do repertório de “Fa-Tal” e o segundo mais baseado nas músicas de Gil, especialmente as que comporiam o vindouro “Expresso 2222” (1972). Despreocupados e em um ambiente informal, esse show é marcado por experimentações, improvisos e um clima raramente captado nos ao vivos dos dois. Sendo este um texto sobre Gal, nosso foco de análise fica baseado no primeiro disco, que é o show da cantora, onde ela apresenta versões completamente diferentes de suas faixas em solo brasileiro, aqui elas aparecem na forma acústica e recheadas de vocalizações dela e de Gil. O segundo disco, com as faixas de Gil, é mais experimental ainda, com versões de mais de 10 minutos, cheias de ousadia e improvisações. Mais que um registro histórico, esse show capta uma efervescência e uma empatia entre os dois artistas que não há comparativo em suas obras. “Live in London ‘71” é uma pérola de versatilidade e ousadia dos dois e, mais uma vez, confirma Gal como ícone de uma geração.

Nota: 8,5
Ouça: “Vapor Barato”, “Maria Bethânia / Bota as Mãos nas Cadeiras” e “Acauã”
Preferida: “Sai do Sereno”

“Estratosférica” (2015)
Depois do sucesso de “Recanto”, Gal se sentiu mais confiante e percebeu que havia um público pronto para suas ousadias. Sendo assim, ela delegou aos produtores musicais Kassin e Moreno Veloso: “Enlouqueçam nos arranjos. Não quero nada careta. Quero um disco arrojado”. E assim é “Estratosférica”. Cercada de jovens artistas, tanto na produção quanto nas composições, Gal se apresente múltipla, indo do rock ao samba, perpassando pelas eletronices agora usuais. Gal apresenta aqui um repertório com nomes como Céu, Thalma de Freitas, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Criolo e, como sempre, Caetano Veloso (aqui ao lado do filho Zeca). A produção de Kassin e Moreno dá o tom ao disco, legando unidade e coesão a essa miscelânea, trazendo ecos (ou arremedos?) da Gal tropicalista. A voz de Gal soa enfraquecida nesse disco, mesmo assim sua força mutante é sacramentada logo na faixa de abertura, “Sem Medo nem Esperança” (Arthur Nogueira/Antonio Cicero), onde em meio a guitarras poderosas, ela afirma: “Nada do que fiz / por mais feliz / está à altura / do que há por fazer”. Passado certo tempo, “Estratosférica” pode ser visto como um disco um tanto quanto esquecível, porém ainda assim interessante (entrevista no Scream & Yell).

Nota: 6,5
Ouça: “Espelho D’Água”, “Quando Você Olha Para Ela” e “Anuviar”
Preferida: “Sem Medo Nem Esperança”

“Estratosférica Ao Vivo” (2017)
A turnê de “Estratosférica” segue os padrões estabelecidos em “Recanto”: Gal em versão mais roqueira, em casas de show mais despojadas, com público em pé, em comunicação mais clara com uma plateia mais jovem. Com direção geral novamente de Marcus Preto e produção musical de Pupillo (Nação Zumbi), esse ao vivo traz arranjos mais focados no conceito de banda de rock, com baixo, guitarra e bateria, tudo bem solto, com Gal mais livre no palco. De todo modo, o mais interessante desse disco é a escolha de repertório, que consegue unir as canções do disco “Estratosférica”, alguns clássicos de Gal e, ainda assim, pinçar canções que ela há anos não cantava, como “Acauã” ou “Arara”. É claro que há adaptações para a voz atual da cantora, que já não canta de forma tão alta como em outros momentos, mas mesmo assim é muito forte vê-la se comunicando de forma tão direta e crua com as guitarras – a nova versão de “Mal Secreto” é um deleite para os fãs daquela Gal dos anos 70. Além disso, vale ressaltar a reedição de “Meu Nome é Gal”, que aparece aqui com o acréscimo de diferentes nomes no momento do “pessoal da pesada”; é muito bonito ver Gal celebrando e trocando com essa nova geração de músicos e compositores. Vale acrescentar que a gravadora Biscoito Fino disponibilizou essa apresentação na íntegra, de forma gratuita (assista no fim do texto e leia entrevista no Scream & Yell).

Nota: 8
Ouça: “Meu nome é Gal”, “Mal Secreto” e “Arara”
Preferida: “Sem Medo Nem Esperança”

“Trinca de Ases” (2018)
“Trinca de Ases” é o nome da turnê que reuniu Gal, Gilberto Gil e Nando Reis durante o ano de 2017. Esse encontro virou disco duplo lançado em 2018 e que conta com uma mescla do repertório dos três artistas – incluindo aí três canções inéditas, “Tocarte”, escrita por Gil e Nando, “Dupla de Ás”, de Nando, e “Trinca de Ases”, de Gil. Com direção musical de Gil e Nando, “Trinca de Ases” não tem nada musicalmente surpreendente ou novo, e funciona mais como um deleite para fãs dos três artistas, pois é muito mais sobre esse encontro e essa troca, do que realmente sobre a criação de algo diferente. Por isso mesmo, é válido para quem tem ânimo para as quase duas horas de duração do que parece um grande “greatest hits” do trio.

Nota: 6
Ouça: “Trinca de Ases” e “Esotérico”
Preferida: “Dois Rios”

“A Pele do Futuro” (2018)
Embalado pela dance music e pelos ritmos dos anos 70 e 80, “A Pele do Futuro” surge como mais uma tentativa de Gal de se comunicar com o moderno enquanto remexe no seu baú. De cara, o mais evidente é que a voz de Gal não tem mais a mesma potência e parece áspera, sem a limpidez usual. Em segundo lugar, destaca-se a profusão um tanto confusa do disco: não há unidade, mas sim tiros em diferentes direções. Faixas como “Sublime” (Dani Black), “Livre do Amor” (Adriana Calcanhotto) e “Palavras no Corpo” (Silva / Omar Salomão) soam belas e interessantes, enquanto a grande maioria soa frívola ou até mesmo esquecível – “Puro Sangue (Libelo do Perdão)” (Guilherme Arantes) chega ao ponto de ser incômoda de se ouvir. Sua parceria com Marília Mendonça em “Cuidando de Longe” é curiosa: o encontro das duas vozes é estranho e o backing vocal de Maria Gadú, Céu e Felipe Catto é uma das coisas mais bregas do disco; no final das contas, torna-se o momento mais pop de Gal nos anos 2010, sem que isso seja necessariamente bom. Já seu esperado dueto ao lado de Maria Bethânia em “Minha Mãe” é outro momento estranho do disco: a voz límpida de Bethânia expõe as fissuras da voz de Gal. “Minha Mãe” é uma faixa linda e funcionaria perfeitamente no repertório de Bethânia, mas aqui soa desconexa. Com direção artística de Marcus Preto (também responsável por “Estratosférica”) e produção de Pupillo, “A Pele do Futuro” acaba oscilando entre o interessante e o repetitivo. Sem surpresas relevantes.

Nota: 6
Ouça: “Livre do Amor” e “Abre-Alas do Verão”
Preferida: “Sublime”

“A Pele do Futuro Ao Vivo” (2019)
Se no disco de estúdio “A Pele do Futuro” a voz de Gal parecia frágil e com nuances estranhas, o ao vivo já mostra na primeira faixa, “Dê Um Rolê”, um calor e uma força que arrebatam. E isso só se expande em cada canção: Gal está em momento de sublime maturidade e isso se espalha em sua voz de forma interessantíssima. Marcus Pretto e Pupillo repetem a parceria de “Estratosférica Ao Vivo” e o interessante é como o roteiro e a escolha das canções embaralha o tempo e constrói esse panorama muito forte da vanguarda musical de Gal. Canções clássicas como “Mamãe, Coragem” e “London, London” conversam de forma coesa com as recentes “Sublime” (cantada em coro pela plateia) ou “Motor” (faixa de Teago Oliveira, da Maglore, que havia ficado de fora do setlist original do disco de Gal). Ao vivo, “A Pele do Futuro” consegue fechar as arestas que haviam no disco e soa mais coeso, tanto que “Cuidando de Longe” (originalmente um dueto com Marília Mendonça) se fecha bem em momento pop dançante quase ao final do show. De todo modo, o momento mais delicado é o medley entre “Minha Mãe” e a clássica “Oração da Mãe Menininha”, uma faixa de mais de seis minutos, que mostra essa dualidade entre a força e a delicadeza de Gal. “A Pele do Futuro Ao Vivo” é o “explicando para confundir” de Gal, pois consegue dar um panorama histórico de sua carreira, costurando passado e futuro e ainda assim apresenta a artista de forma tão viva, lúcida e intensa, que mais uma vez nos encanta e nos atordoa.

Nota: 8
Ouça: “Lágrimas Negras”, “Motor” e “Vaca Profana”
Preferida: “Minha Mãe / Oração da Mãe Menininha”

Compactos e Raridades
Gal lançou poucos compactos em sua carreira, a maioria ali pelo início dos anos 70, posteriormente ela até lançaria singles, mas todos com faixas que retornaram em discos. Dentre os compactos, um dos melhores e mais interessantes é o “Compacto Duplo” (1971), lançado alguns meses antes do ao vivo “Fa-Tal” e que traz uma versão delicada de estúdio para “Sua Estupidez”, que fez sucesso na época. Além disso, apresenta a quase concretista “Zoílógico”, de Gil, e a versão de estúdio de “Vapor Barato”, um rock acelerado e poderoso que marca Gal como ponto central dos primórdios do rock nacional. O compacto se encerra com a swingada “Você Não Entende Nada”, de Caetano, faixa que ela só traria novamente ao seu repertório no “Acústico MTV”, nos anos 90. Outra faixa que ela retomaria em seu acústico está presente no “Flor de Maracujá Compacto” (1975): a delicada “Teco-Teco”, que vem acompanhada das faixas “Flor de Maracujá”, “A Rã” e “Barato Total”, num prelúdio do disco “Cantar”. Antes disso, ela já havia lançado o compacto “Estamos aí/ Barato Modesto” (1973), com duas faixas raras, que ela não retomaria em sua carreira e que hoje aparecem apenas na coletânea dupla de (28) raridades “Divina Maravilhosa”, presente no box “Gal Total” (2010). Aqui ela canta duas faixas de carnaval, o frevo “Estamos aí” e a divertida “Barato Modesto”, um misto de samba e ritmos nordestinos, uma pérola que deveria ser revisitada. Esse compacto é como um prelúdio de seus momentos mais pops e carnavalescos no início dos anos 80. Nessa mesma linha e também integrante Da coletânea “Divina Maravilhosa”, o compacto Acorda pra cuspir / Sem grilos (1974) traz duas deliciosas faixas carnavalescas que também merecem mais ouvintes.

Gal e o audiovisual
Diferente de seus amigos Caetano e Bethânia, as incursões cinematográficas de Gal são poucas. Em 1970 ela protagonizou o curta “Meu Nome é Gal”, de Antônio Carlos da Fontoura, que é uma espécie de videoclipe, de experimentação audiovisual. O único outro filme que tem Gal como protagonista é “Gal: do Tropicalismo aos Dias de Hoje”, de Carlos Ebert e Marcello Bartz, que na verdade usa a carreira da cantora como fio condutor para contar a história da Tropicália e da música popular brasileira. O melhor registro de Gal, infelizmente, segue não exibido: o show “Fa-Tal” foi filmado na época pelo cineasta Leon Hirzman, mas nunca lançado e segue hoje guardado na Cinemateca Brasileira. Em 2017, esse material de Hirzman foi utilizado na produção da série documental “O Nome Dela é Gal”, de Dandara Ferreira, exibida pela HBO Brasil.

Mesmo nas trilhas sonoras, Gal tem poucas participações. Em 1969, ela participa da trilha de “Brasil Ano 2000”, de Walter Lima Jr., da qual Gilberto Gil e Rogério Duprat eram os responsáveis. Ela canta “Não Identificado”, “Canção da Moça”, “Homem de Neandertal” (ao lado de Bruno Ferreira e Rogério Duprat) e “Show de Me Esqueci” (ao lado de Bruno, Rogério e Ênio Gonçalves).

Duas outras incursões importantes da voz de Gal no cinema (e na TV) estão como trilha das personagens de Jorge Amado. “Tieta do Agreste” (1996), de Cacá Diegues, tem trilha composta por Caetano, que chamou Gal para um dueto na faixa homônima, uma espécie de axé libertinoso para Tieta, uma maravilha! Já “Gabriela” (1983), de Bruno Barreto, tem trilha composta por Tom Jobim, na qual Gal canta “Tema de amor de Gabriela”, ao lado do compositor. Gabriela aliás é dona de uma das faixas mais clássicas do repertório da baiana, “Modinha para Gabriela”, de Dorival Caymmi, faixa que ela nunca registrou oficialmente em disco, mas que se tornou um clássico na abertura da novela “Gabriela”, de 1975, e mais recentemente em seu remake, em 2012. As trilhas de novela são até um capítulo à parte na carreira de Gal (bem como de outros artistas dos anos 70 e 80), tendo ela dado voz a inúmeros romances e traições na TV, mas sendo em grande maioria faixas já gravadas em disco ou registradas posteriormente. No quesito novelas, é de rever-se a deliciosa participação da cantora em “Dancin Day’s” (1978), em que canta “Folhetim” e “Louca me Chamam”, com uma flor vermelha no cabelo, sentada no chão, em uma festa poderosa da personagem de Sônia Braga.

Mais recentemente, a voz de Gal pode ser ouvida no longa “Meu Tio Matou Um Cara” (2004), de Jorge Furtado, onde toca uma nova versão de “Barato Total”, gravada ao lado do Nação Zumbi, numa ótima onda de desbunde afrociberdélico.

Universo Infantil
Sempre sensual, Gal poucas vezes foi atrelada ao universo infantil. São apenas duas incursões, mas que merecem atenção: em 1985 ela participou de “Trem da Alegria do Clube da Criança”, primeiro disco do Trem da Alegria, pupilos de seu amigo Michael Sullivan. Gal canta “Lili (Hi-Lili Hi-Lo)”, uma antiga canção popular, tema do filme “Lili” (1953), de Charles Walters, que até já havia sido gravada por Bethânia. Acompanhada do Trem da Alegria e de Moreno Veloso (na época com 13 anos), Gal canta com terna delicadeza e um ar que remete aos filmes da Disney. É impossível sair imune após a risada da baiana no final da música. Uma pérola!

Mais recentemente, em 2014, ela participou da regravação de “A Arca de Noé”, projeto infantil de Toquinho e Vinícius, que fez muito sucesso nos anos 80, onde canta a delicada “As Borboletas”, que ganha uma roupagem nova, meio eletrônica, que casaria bem com o seu show “Recanto Ao Vivo”; é o tipo de faixa enquadrada como infantil, mas que poderia fazer parte facilmente do repertório adulto da cantora.

Gal & Caê
Caetano é onipresente na carreira de Gal, isso já é um fato. Bethânia inclusive já disse em entrevista: “Caetano decidiu que Gal seria a sua cantora já no show ‘Nós, Por Exemplo’ (1964)”. E Gal é a cantora que melhor entende suas canções e sua poética quase concreta. Nessa parceria de mais de 50 anos, o fato é que Gal também marca presença na carreira de Caetano, mas certamente o ponto mais alto de suas incursões na discografia dele seja no disco “Transa”, um dos melhores de Caê. No álbum clássico, a voz de Gal surge em algumas faixas, entoando versos, fazendo vocalizações, backing-vocal-dona-do-dom. A verdade é: “Neolhitc Man” jamais seria a mesma sem Gal. Dentre os muitos encontros dos dois, talvez um dos momentos mais delicados seja o clipe feito para o Fantástico da faixa “Alguém Cantando”, em 1978. Um resumo do que é cantar, um momento de suntuosa beleza nessa irmandade artística.

Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz. A foto que abre o texto é de Liliane Callegari / Scream & Yell.

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4 thoughts on “Discografia comentada: Gal Costa

  1. Sempre considerei Gal ‘a cantora’. Gosto mais dela que de Elis. Mas a abandonei praticamente nos anos 80, com as escolhas equivocadas que ela fez. Na verdade, não só ela. A década foi muito complicada pra muita gente boa da MPB, que se perdeu para mais adiante se reencontrar. Lembro quando vi o acustico e achei constrangedora a versão de Vapor Barato, com ela cantando burocraticamente. O contrário do que ocorreu na versão mais recente. A Gal final dos 60 e inicio dos 70 continuará sendo insuperável.

  2. Na realidade, o Roupa Nova começa a aparecer no “Fantasia”, os arranjos de “Açaí” são deles e creio que o coro em “Faltando um pedaço” também.Abraço

  3. Acho que “Rio Revisited” merecia uns dois pontinhos a mais por um único motivo: Dindi. Considero aquela execução um um primor na carreira de Gal, uma das melhores interpretações que uma composição de Tom Jobim já recebeu (certamente a melhor interpretação dessa música Bethânia que não nos ouça). E exagero mais um pouco: Dindi por Gal Costa encerra a Bossa Nova.

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