Três filmes: “Um Dia de Chuva em Nova York”, “Entre Facas e Segredos”, “Jojo Rabitt”

Textos por Marcelo Costa

“Um Dia de Chuva em Nova York”, Woody Allen (2019)
Finalizado e pronto para ser lançado em 2018, mas com lançamento cancelado pela Amazon Studios devido a desdobramentos do movimento #MeToo – que, ainda que pairem dúvidas sobre o caso Dylan Farrow, resultou numa declaração inaceitável de Allen sobre Harvey Weinstein que necessitou de uma explicação –, “A Rainy Day In New York” (no original) só estreou oficialmente em julho de 2019 (na Polônia) chegando ao Brasil no final de novembro marcando o primeiro ano (2018) desde 1981 em que Woody não teve um filme seu nos cinemas. À parte de toda polêmica que cercou a produção, “A Rainy Day In New York” é mais uma comédia romântica (datada, tal qual “Café Society”, ainda que ali houvesse mais agilidade) de terceiro escalão na extensa obra do cineasta – o que é um pouco pior no caso de Woody, afinal, uma coisa é ser uma obra menor numa filmografia de 10 filmes, outra é numa carreira de mais de 50. Na trama, Gatsby (Timothée Chalamet) é um daqueles jovens bom vivant que, hoje em dia, você só vê nos filmes de Woody (elegantemente deselegante, que toca Chet Baker no piano e prefere ligar ao mandar mensagens no celular). Ele está em Nova York com sua namorada de faculdade, a bela jovem caipira e inocente Ashleigh (Elle Fanning, que entrega o que o papel repleto de tristes clichês pede), que irá entrevistar um famoso diretor de cinema, Robert Pollard (Liev Schreiber), que está em crise com seu último filme. E enquanto a namorada é cortejada por diretor, roteirista (Jude Law, excelente) e ator (Diego Luna, o melhor em cena), Gatsby se descobre apaixonado por Manhattan e por… Chan (Selena Gomez, que, escondida, não diz muito a que veio). Inevitavelmente há piadas que funcionam (ainda é um filme de Woody Allen), mas a sensação é que tudo aqui foi feito no piloto automático. Funciona para a Sessão da Tarde, mas se espera mais de Woody Allen.

Nota: 6

“Entre Facas e Segredos”, de Rian Johnson (2019)
Um famoso romancista de suspense, Harlan Thrombey (Christopher Plummer), é encontrado morto em sua residência na manhã que se seguiu após os festejos de seu 85ª aniversário. Pela polícia local, a tese de suicídio convence e o oficial que cuida do caso está prestes a encerrar o caso, quando surge em cena o detetive Benoit Blanc (um hilário Daniel Craig), que começa a acompanhar as investigações e descobrir pequenos buracos na aparente reunião feliz da família de Harlan, que inclui sua filha mais velha (Jamie Lee Curtis), o marido (Don Johnson) e o filho do casal (e, consequentemente, seu neto, interpretado por Chris Evans), seu filho mais novo (Michael Shannon), uma nora que foi casada com um filho falecido (Toni Collette) e é mãe de outros dois netos do patriarca, e, bingo, praticamente todos eles são suspeitos do assassinato do romancista. Ah, tem ainda a enfermeira (mexicana? uruguaia? Brasileira?) Marta Cabrera (Ana de Armas, a grande estrela do filme), que foi a última pessoa a ver Harlan vivo. Quem foi que matou Odet… ops… Harlan Thrombey? Ok, você pode até achar que já viu (leu) esse filme (livro) antes, e (quase que) viu mesmo, mas saiba que o roteiro (indicado ao Oscar – perdeu para “Parasita”) deste brilhante “Knives Out” ainda acrescenta espetadas de adagas em termos tão em voga quanto diferenças de classes sociais e imigração naquele coquetel tradicional de “família rica que se acha dona do mundo e pisa em todos” tão adorado pelo estilo, acrescentando algumas deliciosas camadas numa história por si só saborosa e divertida. Acredite: não tem coisa mais gostosa nessa quarentena no quesito cinema do que dar repeat na cena final umas dez vezes…

Nota: 9

“Jojo Rabbit”, de Taika Waititi (2019)
Numa casa de apostas imaginária, a cotação de “potencial catástrofe” para uma comédia que centra foco em Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial é 19.576.499.002 contra… 3. E não é que o cineasta Taika Waititi conseguiu driblar todas as possibilidades de leituras equivocadas e desastres históricos para transformar “Jojo Rabbit” numa pequena obra prima? Inspirado no livro “Caging Skies”, de Christine Leunens, e vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (batendo “O Irlandês”, “Coringa”, “Dois Papas” e “Adoráveis Mulheres”), “Jojo Rabbit” conta a história do pequeno Jojo (Roman Griffin Davis, impecável), um garoto alemão de 10 anos que integra a Juventude Hitlerista e cujo “amigo inseparável imaginário” é o próprio Adolf (interpretado com doses loucas de bobo da corte pelo próprio cineasta). Jojo vive com a mãe, a secretamente antinazista Rosie (Scarlett Johansson esbanjando candura), e acaba sofrendo um acidente em um campo de treinamento após se recusar a matar um coelho para provar seu instinto assassino, dai o apelido Jojo Rabbit. Taika maximiza os atos cômicos no primeiro terço do filme, e, sim, incomoda o espectador – bastante – enquanto o faz rir. Porém, basta o olhar para um par de sapatos femininos que toda grandiloquência anterior se desfaça em lágrimas encaminhando Jojo, o filme e a guerra para um final delicadamente soberbo. Com, ainda, grandes atuações de Sam Rockwell como um oficial nazista (depois dele ter levado um Oscar pra casa como um policia racista em “Três Anúncios Para um Crime”) e do garotinho Archie Yates, que interpreta o melhor amigo de Jojo, Yorki, “Jojo Rabbit” é daqueles filmes inesperados que você não espera se apaixonar, mas se apaixona.

Nota: 9.5

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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