Três filmes: “Judy”, “Um Lindo Dia na Vizinhança”, “Destacamento Blood”

por Marcelo Costa

“Judy – Muito Além do Arco-íris”, de Rupert Goold (2019)
Existem diversas mortes trágicas na cultura pop que são tratadas com reverencia mórbida (“a necrofilia da arte”, diria uma canção do Pato Fu), como se aqueles que partiram tenham ido apenas em alma, deixando o “corpo” (ou o ideal dele) para ser explorado, reverenciado e usurpado por gerações e gerações. Estranha-se, porém, que Judy Garland não faça parte de nenhum desses clubinhos: falecida aos 47 anos de overdose acidental de barbitúricos, a mãe de Liza Minnelli foi sugada pelo showbusiness, por ex-maridos e contratantes até ser quase esquecida, e, por fim, entregar os pontos. É uma daquelas trajetórias que deveriam ser aula obrigatória para futuros artistas, e se o personagem não é tão dissecado quanto qualquer um do clube dos 27 anos, “Judy”, cinebiografia assinada pelo diretor Rupert Goold e baseada na peça da Broadway “Judy Garland – O Fim do Arco-Íris”, já está disponível nos principais aplicativos de streaming após render a Renée Zellweger um merecido Oscar de Melhor Atriz em 2020. O recorte do roteiro flagra a fase final da vida de Judy, sendo escanteada pelo showbizz norte-americano, e encontrando refúgio em uma turnê em Londres para tentar levantar a carreira e dar a volta por cima. Porém, com problemas na voz, insegurança, a famosa rebeldia de diva e uma saudade imensa dos filhos, tudo isso inflado pelo iminente desastre do quinto casamento, colocam o emocional da artista em frangalhos, e quem paga é o público, que será recompensado com um momento emocionante. Como obra completa, porém, “Judy” exibe um roteiro fraco, peca nas idas e vindas do tempo e só é salvo pela grande atuação de Renée, que se entrega ao papel como se estivesse vivendo a “volta por cima” que sua diva inspiradora não conseguiu realizar. Ainda assim, serve como lição do quanto, até hoje, a indústria do entretenimento pode destruir a vida de uma pessoa (e produzir uma cinebiografia futura para contar como fez isso – e ganhar mais dinheiro).

Nota: 6

“Um Lindo Dia na Vizinhança”, de Marielle Heller (2019)
Em um mundo cujo cinismo, a crueldade e a falta de amor parece estar vencendo a batalha contra a candura, a compaixão e o amor ao próximo, é quase impossível assistir aos primeiros minutos de “A Beautiful Day in the Neighborhood” sem olhar para os lados acreditando que alguém está pregando uma peça em você. O filme começa com um Tom Hanks cândido, de gestos doces calculadamente desajeitados e fala lenta e delicadamente professoral recriando Fred Rogers (falecido em 2003 aos 74 anos), apresentador e animador do programa televisivo infantil “Mister Rogers’ Neighborhood”, produzido desde 1968 a 2001 – e pouco conhecido no Brasil, o que aumenta o choque em ver tanta doçura no meio de um momento amargo do mundo. Fred Rogers, no entanto, é o coadjuvante do filme (que deu a Tom Hanks mais uma indicação ao Oscar, merecidíssima). O personagem principal é mais afeito aos nossos tempos atuais, um jornalista da Esquire especializado em destruir reputações, que é enviado por sua esperta editora para fazer um perfil de Rogers para uma matéria sobre heróis reais. Inicialmente, o repórter acha que a editora está aplicando uma peça nele, mas conforme mergulha na vida do entrevistado dividindo-se ainda com o desastre do relacionamento com seu pai, Lloyd Vogel (Matthew Rhys), é colocado frente a uma realidade que colocará todo o seu cinismo a prova. Baseado na reportagem “Can You Say … Hero?”, de Tom Junod, “Um Lindo Dia na Vizinhança” soa quase como um conto de fadas cinematográfico, que encontrou saídas espertas para o roteiro e uma direção delicada de Marielle Heller, que está se especializando em personagens atípicos (além de dirigir um episódio da série “Transparent”, Marielle despontou em 2018 com o delicioso “Poderia Me Perdoar?”). No meio de um 2020 imensamente triste em diversos aspectos, dê folga a sua falta de fé e mergulhe nessa história (de tons reais) comovente.

Nota: 8

“Destacamento Blood”, de Spike Lee (2020)
Escrito em 2013 como “The Last Tour”, o roteiro que deu origem a “Da 5 Bloods” foi abandonado por Oliver Stone, que ia dirigir, e caiu nas mãos de Spike Lee e Kevin Willmott, que, após “Infiltrado na Klan” (2018), reescreveram a história para uma perspectiva afro-americana. O fato de estrear (no Netflix) em meio a série de protestos mundiais antirracistas “Vidas Negras Importam”, desencadeados pelo cruel assassinato de George Floyd em maio por um policial branco de Minneapolis, não é uma triste coincidência, e sim a perfeita simbologia de que, como canta Zé Manoel em sua nova canção, “essa é uma história antiga que se repete desde sempre”. Ou seja, “Destacamento Blood” já é o filme do ano não apenas por exibir de maneira soberba o quanto a América virou as costas para os negros (que lutaram na Guerra do Vietnã (e tantas outras guerras enquanto outra guerra contra eles acontecia em seu próprio país), mas também porque é um filmaço do ponto de vista cinematográfico. Na trama, quatro veteranos afro-americanos retornam ao Vietnã para buscar os restos mortais do líder de seu pelotão, morto na guerra. Essa é o motivo emocional, mas há outro: um tesouro em barras de ouro que eles enterraram em meio a guerra nos anos 70, e que agora irá reparar muitos dos danos que a América causou ao seu povo. No meio do caminho, citação de “O Tesouro de Sierra Madre” (1948), sobre como o dinheiro pode colocar irmãos contra irmãos, e de “Apocalipse Now” (1979), e zombaria com Rambos e Chuck Norris (e Tarantino), soldados brancos que “venciam” guerras sozinhos (ahhhh, Hollywood), com o roteiro cinicamente usando aqui e ali artifícios semelhantes. No final, brilha a força do personagem (e da atuação) de Delroy Lindo (uma das várias indicações certas do filme – favorito – ao Oscar 2021), que voltou tão destruído emocionalmente da guerra para um país que não o reconhece, que canaliza toda sua fúria desfocada transformando-se num anti-imigrante eleitor de Trump. É dele uma das falas mais fortes de “Destacamento Blood”: “Lutámos numa guerra imoral, que não era nossa, por direitos… que não tivemos”. Os 15 minutos finais são uma aula de cinema e atualidade. Palmas.

Nota: 10

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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