Entrevista: Guilherme Silva, protagonista da série ‘Pequeno Gigante’

entrevista por João Paulo Barreto

Dentro de um choque entre raízes afetivas e culturais, ambições, escrúpulos e caráter, a construção do protagonista de “Pequeno Gigante”, série baiana que chega ao seu quarto episódio semanal (de um total de 13) na próxima quinta (11/06), se dá entre os diversos conflitos que o personagem do parlamentar Davi Passos (vivido por Guilherme Silva, de “Café com Canela”) tem no seu constante nado com tubarões dentro da política soteropolitana.

Vereador de origem pobre, defensor da comunidade onde cresceu, a Nova Nigéria, e em luta contra a especulação imobiliária que ameaça a existência do lar onde vive até hoje, Davi é um símbolo de contraste da política a qual estamos acostumados a ver. Homem negro, sobrevivente desde criança, quando ainda vivia em (e foi expulso de) Itaparica, das injúrias e tentativas de apagamento que as classes privilegiadas e predatórias infligiam em sua existência, a figura de Davi como um político de ideais firmes, mas distantes da ingenuidade, dá a “Pequeno Gigante” uma pertinente discussão acerca do que significa fazer política social.

Guilherme Silva fala nesta entrevista ao Scream & Yell acerca da importância de um personagem como Davi Passos, um homem negro e de destaque político em um cenário dominado por brancos, muitos deles racistas, oriundos de uma política coronelista. No papo, destrincha sua trajetória como ator.

Oriundo dos palcos baianos, Guilherme começou a atuar através das oficinas de teatro promovidas pelo SESI Rio Vermelho e da Escola de Teatro Sitorne, Teatro Vila Velha e pelo Bando de Teatro Olodum, onde atuou na prestigiada montagem “Cabaré da Raça e Sonhos de Uma Noite de Verão”, além da companhia Arte e Sintonia, com a peça inspirada na vida de Elza Soares, “Se Acaso Você Chegasse”. Chegou aos palcos do sudeste primeiro com o musical “O Fino do Samba” e, mais recentemente, com o musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”, que passou pelos palcos cariocas e paulistanos, mas teve sua turnê nacional 2020 interrompida pela pandemia.

Na TV, Guilherme atuou na minissérie global “O Canto da Sereia” e, nos cinemas, no premiado longa baiano “Café com Canela” (2017). Pequeno Gigante está atualmente no quarto episódio (de um total de 13) e poder ser conferida na @tvebahia às 20h (transmissão simultânea em irdeb.ba.gov.br/tveonline/), com reprise aos domingos, às 19h, além da TV Cultura, na 0h05 de quinta para sexta. Confira o papo!

Qual foi sua reação inicial ao receber o roteiro de “Pequeno Gigante” ao refletir acerca das nuances do seu personagem, o vereador Davi Passos?
Primeiro, foi um presente como ator, como profissional, ter acesso a um personagem desse tipo. Mas, também, como pessoa preta, como homem preto, ver essa representação em um roteiro escrito para uma série de televisão, é muito bom. Sabemos que ainda há dificuldades de atores negros encontrarem papéis de protagonismo. Esse fato, infelizmente, faz parte da nossa realidade. A gente ainda bate de frente com isso a todo tempo. Atuar nesta posição é um processo muito mais de sobrevivência do que vivência, até então. Mas, a gente vai conseguindo aos poucos furar o bloqueio. Como profissional, como ator, foi uma oportunidade incrível fazer a série. Porque, são justamente questões que a gente tem que discutir cada vez mais para que vá se quebrando essa conduta arraigada do racismo, dessa correlação com o senhorio, que ainda está estabelecida nas principais cidades do Brasil. Isso ainda existe. Isso ainda coexiste. É um cenário ditado por uma política coronelista que, desde a sua essência (sabemos), é racista.

“Pequeno Gigante” traz em sua estrutura de roteiro diversos temas relacionados à política como um instrumento capaz de, para o bem ou para o mal, modificar vidas. Mas o grande foco da série relaciona-se com uma denúncia para Salvador como uma cidade de política racista. Como você avalia essa reflexão trazida pela série?
Discutir essas questões dentro de uma obra como ‘’Pequeno Gigante” é uma oportunidade incrível. A importância de uma série com este conceito, ambientada aqui, em Salvador, é mostrar que, sim, podemos fazer de forma profissional, sim. E que é necessário, e que podemos começar a contar as nossas histórias. Como população pertencente a esse legado ancestral, preto, afrodiaspórico, e, também, dentro do processo político. Porque fazemos parte do conceito político, cultural, econômico, social. Toda essa construção faz parte da gente, também. Acho que a importância da série é também vir mostrar que nós podemos muito mais, sim, que devemos fazer, sim, cada vez mais, propondo essas discussões. Eu me considero um velho jovem. Mas, no processo do “fazer” artístico, eu me percebo muito novo. Há muitos mestres e mestras que sigo, me espelho. Enxergo sempre um caminho de desenvolvimento, desde que comecei minhas pesquisas e estudos artísticos. Comecei como Bando (de Teatro Olodum). O bando é mais do que um grupo. É um lugar, é uma metodologia artística que tem uma linha política muito forte, abrangendo e estimulando o fazer artístico e valorizando o processo cultural. A nossa cultura não está desalinhada do resultado buscado. Nunca está desconectada. Salvador é a cidade com o maior contingente de pessoas pretas afrodiaspóricas fora do continente africano. Quando você observa isso, surpreende perceber que a gente tem mais de 470 anos de formação, mas não tivemos ainda um prefeito negro, a não por seis meses apenas, como foi o caso do Edvaldo Brito. Não tivemos ainda uma representação negra que vá de acordo com o que buscamos com referência, que esteja de acordo com uma abertura, um crescimento, uma valorização cultural dessa formação, desse povo. Essa é uma questão para a gente discutir. A gente ainda não teve uma mulher preta como prefeita, por exemplo. E a gente tem vários exemplos de mulheres pretas que fizeram parte de movimentações rebeldes, de contestações políticas e históricas. Por isso, é extremamente importante a gente ter um roteiro como o de “Pequeno Gigante” diante de nós, termos uma história como essa sendo tratada. Faz parte, sim, do processo de valorização da cultura negra, aqui em Salvador e no Brasil como um todo, por isso é necessário discutir. Infelizmente, ainda se faz necessário discutir. Não temos essa representação pautada como a gente necessita. O contingente de população negra ainda é desumanizado, fica à mercê. Ainda fica à margem social, política e econômica. Então, é completamente necessário falarmos, sobre isso, sim. Há muitas pendências. Tanto sobre as questões políticas, tema forte, pois dita regras, dita direcionamentos dentro do nosso processo social, quanto no que diz respeito à nossa construção como cidade e como país. Percebemos que as áreas da cidade que possuem a maior parte da população negra, os bairros mais populares, são os locais que mais necessitam de infraestrutura. E, também, são os lugares que abrigam um maior contingente de fazedores culturais. A Liberdade, por exemplo, tem ali o Curuzu como representação mundial, mas, ainda assim passa por diversas carências. Ou, bairros como Itapoan e a região de Tubarão, no subúrbio. A gente vai para várias áreas da cidade e ainda encontra essa carência. Olhar pra isso, exigir essa mudança, é um processo necessário.

Guilherme Silva na série “Pequeno Gigante”. Foto de Caio Lirio.

O posicionamento político de seu personagem, Davi Passos, possui reflexões que levam a audiência a analisá-lo não somente dentro do conceito de parlamentar, envolto a tantas tramas e conchavos, mas, também, como uma pessoa oriunda de uma comunidade, com carências e necessidades urgentes. Como você construiu esse equilíbrio?
Tivemos várias discussões acerca desse processo de posicionamento político, estrutura, essa movimentação em prol da construção desse cara que está chegando ao poder. Houve essa discussão em relação ao Davi, inserido nessa dicotomia. Então, enxergo que há o pensamento como homem, como ser social, e outro pensamento como o ser político, como jogar com essas duas questões, como equilibrar ambas e ir dialogando com tudo à volta. Abordando a questão da postura moral dele, em termos de posicionamento político e do posicionamento dele como indivíduo, integrante daquela comunidade. O trabalho era mostrá-lo não só se promovendo como político, mas, como a galera o chama: um artivista. Ele é um artista, realmente ativo naquela comunidade, inserindo-se no local a partir da correlação com a capoeira. Ele começa fundando a instituição, a Negro Mármore, em homenagem ao seu mestre de capoeira. Após isso, implanta essa linha de estudo e educação para as crianças da comunidade. Ou seja, ele já faz política fora do ambiente político estrutural, sistemático. E aí, o que é cobrado dele, e que a gente já pode ver no primeiro capítulo, é justamente isso: Quando há um poder maior confrontando o processo de inclusão de políticas públicas ali, naquela comunidade, ou seja, a especulação imobiliária querendo tomar aquela parte da comunidade, querendo usurpar aquele entorno, aí ele pensa: “Ferrou!Eu vou ter que virar político, mesmo, para tentar reaver essa porra! Senão, não haverá jeito mesmo”. Esse é um dos grandes conflitos do personagem. Ele não queria se tornar “um deles”, por ter essa imagem que o político nos propicia, essa amostra, essa constatação, vamos dizer, de déficit de educação, desse desvio de conduta, socialmente falando. Essa representação corrompida nos faz olhar a política brasileira com asco, com distanciamento. Essa visão deturpada faz com que a gente, como população, não se aproxime tanto, mas, é a partir da movimentação política que a gente pode modificar, justamente, o entorno social. Então, cultivando esse afastamento, limitando o povo a somente votar, sem opinar, a somente escolher o político que vai representá-lo ali, e não tomando ciência do que está direcionando aquele processo de existência, dificultando o entendimento do mecanismo político, eles adquirem mais poder e mais controle. Diante desse conflito sociológico, Davi representa toda uma comunidade. Ele é uma figura que personifica a maior parte da comunidade brasileira, decepcionada, que acredita que a política é feita principalmente por ladrões e que neste cenário só tem roubalheira. Ele se vê obrigado a entrar nesse processo político para tentar modificar as coisas de forma efetiva. Da maneira como ele estava fazendo, ele se deparou com o poder corrompido, que movimenta tudo e todos, então, se viu obrigado a pensar: “Bom, se é assim, eu vou ter que virar prefeito, para assim, assegurar a comunidade.” Ele se vê forçado a saber jogar.

Essa entrevista acontece justamente no mesmo período em que o menino João Pedro, de 11 anos, foi assassinado pela polícia do Rio de Janeiro enquanto estava no quintal de sua casa; e que George Floyd foi assassinado por policiais em Minneapolis. Em um estado político cujo chefe do executivo defende com sua necropolítica que a população ande armada, da mesma forma que ridiculariza movimentos contra o feminicídio, que minimizou a importância de Marielle Franco na luta contra as milícias e contra o feminicídio, trazer reflexões como as que “Pequeno Gigante” traz se torna crucial.
São patamares diferentes, porém similares. Eles não chegam a se igualar, mas fazem parte de uma consequência. Por exemplo, quando você cita a ação das milícias, acobertadas por uma estrutura de governo, percebemos que há um desejo maior de encobrir as provas do que revelá-las. Elas estão ali, escancaradas. A gente nota, vê as ações, percebemos nas notícias que chegam pela imprensa ou pelas mídias sociais. Quem tem o mínimo de pensamento crítico para acompanhar todo o cenário político e um pouco de história do nosso país, percebe. Enxergamos que algo de errado não está certo ali. A necropolítica sempre esteve presente. Costumo conversar com alguns amigos, discutir esses temas, e, costumo falar que, infelizmente, a base da política brasileira – repito –, ainda está pautada no coronelismo. O coronelismo vai arrastando tudo isso com ele. A intenção da necropolitica é subjugar essas minorias. Ou seja, controlar através das mortes sistemáticas, da nossa vivência diária, numa queima de arquivo dentro do cenário político mais condensado, na estrutura política complexa, ali dentro, com o consentimento dos poderes. Quando a gente para e identifica quem são as vítimas recorrentes, percebemos claramente, ou como eu costumo dizer, “escuramente” quem são. Sempre foi assim. A população preta é vitimada nesse país, na grande maioria dos casos. Acho que por isso tentam tanto vetar os projetos de políticas públicas. Eles temem discutir porque têm medo. Colocar em prática essas propostas abre diálogo, estimula um pensamento acerca do que não está certo e o porquê daquilo não estar certo. Quando você percebe que a estrutura governamental, a estrutura administrativa de um país é responsável pelas vivências da população, independente de etnia, independente de situação econômica, você percebe que a responsabilidade também está nela. Então, se a gente percebe na maior parte da população preta e pobre um nível de analfabetismo em alta, a gente percebe que não está sendo disponibilizada uma educação adequada para estas camadas sociais, exatamente para que esses indivíduos não se capacitem, para que não “evoluam”. Quando a gente discute isso dentro da série “Pequeno Gigante”, estamos também falando de necropolítica. Não é denominado dessa forma, mas fica evidente, sim. A gente percebe que toda a estrutura de queima de arquivo, de mortes, de lavagem de mãos com sangue, favorece a manutenção disso, dessa situação precária e dessa administração precária. Tudo para que mais crimes fiquem encobertos dentro do parâmetro legal, “resguardados” pelas brechas da lei, pra que essa situação não se modifique e que as políticas públicas não favoreçam estes indivíduos. Há vários casos que comprovam isso. O próprio caso Marielle Franco, conforme você citou. “Ainda” não temos provas efetivas e suficientes. Ou não uma confissão sobre o fato de haver um mandante. Mas, é notório que houve uma queima de arquivo. Ela era uma mulher preta que lutava pelos direitos das minorias e das pessoas negras desse país. E estava comprovando estas questões, colocando em pauta, denunciando. Então, a gente percebe evidentemente que nos calaram mais uma vez. Ou a tentativa de. Na esperança de que todos nós fiquemos quietos. Também há um movimento lento de opressão e violência para que nos mantenhamos silenciados. Sofremos nesse processo de escravidão e apagamento moderno que ainda ocorre. Acredito que tudo vá sendo modificado, aos poucos. Acho que a gente está conseguindo, sim, alcançar. Quero enxergar essa situação de uma forma… (suspiro) positiva, de fato. Costumo falar que se não houvesse a possibilidade de modificarmos o quadro geral, eles não estariam fazendo tanto esforço para nos fazer permanecer do jeito que estávamos. Ou do jeito que eles pretendiam que estivéssemos: Inertes, passivos.

Acerca do assassinato do George Floyd e a tantas mortes violentas e igualmente covardes que acontecem aqui no Brasil, e no que se refere ao racismo estrutural, gostaria de utilizar como resposta um texto que escrevi na ocasião, no meu perfil do Instagram:

“Trabalhar representando a minha motriz ancestral, cultural, traz alguns receios de não dar conta, mas também faz o sangue ferver e o brilho intenso da alma incidir através dos olhos! Por mais que o nosso legado tenha força, sapiência, ginga e beleza notórias e incontestáveis, é o tempo todo apropriado, ignorado e brutalmente assassinado, ainda que implore para respirar. Mesmo esse legado tendo sobrevivido a todas as espécies de violência, hoje, mais uma vez, se renova, se retroalimenta, semeia e amplia seus espaços, aos poucos, persistindo. Espaços esses que tentaram e tentam nos tirar, dizendo que não são, mas que, sim, sempre foram nossos, por terem sido construídos e reformados com nosso suor, nosso sangue, nossas esperanças, nossa fé e que, por isso, são nossos por direito. A nossa representação e representatividade vão além de ser um fetiche para você, de estar fazendo ‘algo novo’, ‘algo que ninguém fez, ainda’ ou ‘o que nunca aconteceu na história até agora’. Quem disse que não aconteceu, quem disse que não fizemos, quem disse que você descobriu, se tudo que você fez e faz, foi e é a partir do que já somos e criamos, “cara pálida”?! Nós construímos tudo isso. Seu único esforço foi roubar e colocar um novo nome, com tão pouca criatividade, que alguns nem diferem tanto dos que já havíamos criado. Fizeram questão de mudar os significados pra nos confundir e tentar enfraquecer nossas mentes, mas as raízes são tão profundas que, em tempos de amadurecimento e colheita, nutrem os frutos das nossas memórias que, por mais que tentem queimar, antes mesmo que os possamos colher, conseguem nos alimentar. Pois desde sempre, temos a força, a inteligência e a estratégia necessárias pra fazer o mínimo virar banquete. Isso é reconstrução, é reintegração, é reparação!”

A série traz uma cadeia de rimas temáticas em sua construção narrativa, que coloca em destaque a ancestralidade de Davi, os conflitos que ele atravessa na vida política e o modo como sua trajetória o orienta dentro desses conflitos. Os posicionamentos do personagem sempre refletem essas questões.
No caso de Davi, ele foi, vamos dizer, recrutado desde a infância. Eu não vou dar spoilers, mas ele adquire a sagacidade para as questões políticas desde cedo. Ele é um indivíduo que tem sabedoria e apreço pela manutenção dessa honra, pela valorização da cultura e desse perfil que seu mestre de capoeira passou para ele. Ele foi ensinado como um indivíduo pertencente. Então, se há uma evolução, é esta que também propicia o crescimento de todos naquele local, não somente dele. Acho que segue muito à risca. Eu estava assistindo a uma entrevista de uma jornalista da BBC que falava sobre o conceito da palavra “ubuntu”: “Eu sou porque nós somos”. Mesmo no processo de diáspora forçada que enfrentamos até chegar aqui, nós ainda carregamos esses ensinamentos da ancestralidade. Ainda trazemos dentro do nosso próprio conceito do culto do candomblé. E outra coisa que é preciso pontuar, é a presença e a força matriarcal que há na série. Por mais que se desenvolva em torno de um personagem principal masculino, quando você percebe, como sempre, toda base que favorece e propicia aquele individuo a permear aquele espaço, é feminina. Então, há também algumas discussões acerca disso.

A atriz Evana Jeyssan em “Pequeno Gigante”. Foto de Caio Lirio.

Sim. De fato. A série traz em seu leque de personagens femininas mulheres que contrapõem essa história machista e clichê da “grande mulher por trás do grande homem”.
Sim. Contrapõe esse conceito machista que foi se arrastando conforme o tempo. E daí a gente percebe que desse lugar, desse lugar feminino, o Davi traz, também, esse embasamento da resiliência acerca do ser político. É preciso muito sangue no olho (risos). Outra coisa que eu costumo tratar com meus amigos: “Velho, a gente veio de uma caminhada onde o sangue no olho foi primordial. Ele ainda é primordial. Agora, a gente precisa de estratégia”. E eu aprendi isso com as divindades, também, através dos preceitos do candomblé. Nosso entendimento de resiliência é um processo político. Ela ajuda a estudar o cenário e a deslocar as considerações em prol de um todo. Não corrompendo, como a gente vê acontecer em nossa política a todo tempo, mas, abrangendo o todo e enaltecendo o que realmente precisa de uma reavaliação, de uma reconstrução, de um novo conceito, de uma atenção maior. O Davi ainda vai enfrentar alguns percalços adiante. Ele traz essa ânsia, essa vontade de brigar, de guerrear. E a gente percebe que, desde cedo, Negro Mármore trazia com ele esse perfil observador, do saber brigar e saber a hora de brigar. Essa é conduta que ele quer ensinar. Nem tudo é briga. Às vezes, basta uma boa conversa. Ou, quase sempre, uma boa conversa e pouca briga.

Você usou a palavra que, em minha opinião, é precisa nessa importância de ir contra esse sistema opressor: Estratégia.
Davi usa esse ponto que eu acho que é algo que a comunidade negra está trazendo agora. Trouxe sempre, na verdade. Mas, a gente foi resgatando e aprendendo a aplicar. Quando a gente percebe a Revolta dos Malês, enxerga todo um conceito estratégico. Tem a sabedoria, tem um conceito, tem tática. Não foi só luta, não foi só sangue. Teve cabeça, muita cabeça aí. Todas as revoluções que nós participamos – e a maioria delas dentro da Bahia e do Brasil, nós participamos –, tem esse conceito de pensamento tático. O Davi, a gente percebe, vai sofrendo esse amadurecimento em relação à estratégia. Já no primeiro capítulo, ele demonstra isso. É cansativo de certa forma para um indivíduo que está acostumado a lutar “sozinho”, enfrentar a todo tempo bloqueios, como nós negros enfrentamos na sociedade, a própria questão do racismo sistemático é exaustiva. Mas, ainda assim, a gente continua perfurando bloqueios para chegar onde a gente precisa e onde a gente quer chegar. A proposta do “Pequeno Gigante” é essa: Trazer um elenco majoritariamente negro, para tratar de questões e discussões populares de um contingente, sim, que é o maior populacional brasileiro, e mostrar que essa população negra passa por percalços o tempo todo, à mercê de conchavos políticos. Tratam a gente ainda como moeda de troca, e não como indivíduos que fazem parte desse contexto, desse conjunto. Nós mobilizamos esse conjunto. É necessário trazer à tona, recontar de forma verdadeira toda essa história. Temos que usar nossas palavras, para que a gente se reconheça. Isso está começando a acontecer mais agora. É necessário trazermos nossas narrativas. Todas essas histórias são tratadas a partir de uma perspectiva eurocêntrica, hegemônica, branca, e a gente precisa, sim, vestir com a nossa roupagem, real. Trazer histórias que são reais à tona para que a gente se sinta representado, para que a nossa perspectiva, política e econômica, se evidencie e modifique esse contexto passivo que nos impuseram.

Essa relação de Davi com as suas raízes ancestrais é algo que a série traz de maneira bem precisa, na relação dele com o passado, com sua história de luta e com a necessidade de dar um basta, não só como individuo, mas como alguém pertencente a um todo.
É necessário expurgar isso para que tenhamos, como povo negro, um respiro. É um conceito de filosofia ancestral, também. Você não pode deixar se afogar por dentro. Você precisa expor aquilo que incomoda. Você precisa expor a dor. Muito do que a gente perece como povo e população, culturalmente, é acerca de retrair nossas dores. Nós fomos obrigados e fomos (des)educados a diminuir nossas dores. Suprimir nossos choros. Quando nos damos conta disso, a gente percebe o quanto é nocivo. Seja fisicamente, através de doenças causadas por tudo isso, ou pelo próprio processo da depressão. Percebemos que, na população negra, a depressão surge com o escravagismo. Então, cabe a nós buscar uma forma de cura. Muito mais que filosófico ou metafórico. Temos que aprender a falar de nós, de nossas dores, recuperarmos nossa autoestima e nos vermos além, como um povo Real. Vindos da realeza, mesmo. Vindos de um contexto de conquistas. De um processo de pertencimento histórico, cultural, que é o que tínhamos então, antes de sermos sequestrados.

Desde o começo do atual governo, ficou claro o completo desinteresse em manter uma política voltada para a Cultura como um bem do país, como uma identidade, como algo para a posteridade e distante de interesses individuais de projetos políticos.
Essa é a premissa de uma política arcaica, equivocada, que diz que a cultura, como manifestação artística e resgate ancestral, não serve para nada. Nossos grandes políticos foram fazedores culturais. A gente reconhece uma Estela de Oxóssi, percebe várias figuras que implementaram e avançaram nesse contexto. O próprio Gilberto Gil, quando foi ministro da cultura, mesmo sendo contestado, mesmo quando a maior parte das pessoas não acreditavam nele como gestor ou como ministro em potencial, ainda assim, ele demonstrou maestria em administrar nossa cultura. Desfrutamos de vários avanços promovidos por ele. E a gente percebe, aqui na Bahia, por exemplo, Mário Gusmão, um dos grandes atores e artistas que tivemos na cena brasileira, mas que morreu pobre. Foi um dos grandes artistas que tivemos, e hoje, é pouco falado. Foi um grande ícone, assim como Ruth de Souza, por exemplo. No caso de Dona Ruth, vimos um avanço em termos de mobilização da comunidade negra, que fez com que seu legado não fosse esquecido após sua morte. Estamos começando a resgatar esses conceitos de preservação. Não podemos deixar os nossos morrerem sem enaltecê-los, sem contarmos as histórias destes que vieram antes, sem fazer jus ao que foram para nós e continuam sendo. Eles abriram o caminho. A gente vai permeando esse caminho e deixando para outros. É extremamente necessário contar essas histórias.

Você citou o Bando de Teatro Olodum como sendo um dos grupos onde você teve experiência. Poderia falar um pouco sobre sua trajetória como ator?
Eu comecei a fazer teatro no começo dos anos dois mil por intermédio de um amigo, Anderson Souza. Isso ainda no colegial. Anderson fazia teatro no SESI do (bairro) Rio Vermelho. Quem supervisionava era o Antônio Bandeira. Eu comecei em uma turma administrada pela Luciana Rocha, que era aluna de Bandeira. Eu comecei nessa turma, com 17 anos. E aí, fui tomando gosto. Era tímido pra caramba, mas gostava de atuar. Quando assisti ao espetáculo que Anderson fazia, fiquei maravilhado. Era uma comédia muito bem estruturada. Gostei muito e falei: “Quero fazer isso”. Pedi referência a ele e me inscrevi. Quando a gente estava fazendo a primeira mostra, havia um processo de mais ou menos cinco meses de aulas. Fizemos uma mostra final, na qual apresentamos um espetáculo chamado “Censura Retalhada”. No segundo ano, “Opinião por Assinatura”. Márcia Gilbraz, que era aluna da Sitorne, convidou Roberto Sales para assistir ao espetáculo “Opinião por Assinatura”. Roberto foi um indivíduo muito importante na minha trajetória. O reencontrei agora, como preparador de elenco da primeira etapa de “Pequeno Gigante”, inclusive. Roberto Sales é um estudioso, um diretor de teatro que agora está evoluindo para a área de cinema, também. É um grande diretor. Bem, à época, ele me viu em cena e me convidou para fazer o espetáculo “As Trouxas”. Era um espetáculo de comédia. Ele dava aulas lá na Sitorne, que era a única escola técnica que possibilitava tirar registro profissional de ator. Era uma escola técnica com todos os processos, administrada por Teresa Costa, a Tuca, uma pessoa muito presente no teatro daqui. Roberto me ofereceu uma bolsa de estudos lá e comecei a cursar teatro na Sitorne. Nesse período, havia algumas oficinas no Teatro Vila Velha, sob administração de Fábio Espírito Santo. Naquele período, eu tinha entrado no meu primeiro emprego. Era o primeiro ano da política de primeiro emprego. Eu fazia curso de WEB na Cipó e fui direcionado para o RTV da UNIFACS, que era coordenado por Daiane Sena. Lá, eu tinha três opções: roteirista, câmera ou apresentador. Como eu já fazia teatro, pensei que seria bom trabalhar como apresentador. Comecei a apresentar um programa chamado “Pátio”. Também queria muito fazer artes plásticas, gostava muito de desenho. Isso era meados de 2005. Nesse meio tempo, fui estudando, saí da UNIFACS e fui trabalhar em callcenter. Quem nunca (risos)? Um processo bizarro. Mas, não queria parar com o teatro…

Ah, sim. Quem nunca, mesmo. O telemarketing foi minha fonte de renda por alguns anos, também.
Pois é. Atento, aquela sede ali no bairro do Cabula, né? (risos).

Exatamente. Ali mesmo (risos).
Enfim, nesse período, o SESI só abrigava jovens até os 18 anos de idade. O projeto era o “Superação Jovem”. Então, dali do SESI, a gente queria sair com um espetáculo que a gente tinha feito, só que tinha “tramites” burocráticos. Então eu, tirado a encabeçar a revolução (risos), eu e Paulo, conhecido como Beto Cerqueira – outro amigo –, conseguimos contestar e levar o espetáculo para outros lugares. Como a gente já estava estudando na Sitorne, fizemos a produção por lá mesmo e apresentamos o “Opinião por Assinatura”. Formou-se um pequeno grupo. Desse grupo, a gente começou a participar de oficinas. Havia uma chamada “Toma Lá da Cá”, no Teatro Vila Velha. Sob supervisão de Fábio Espírito Santo. Vinicio de Oliveira Oliveira também fazia parte da equipe. Eles disponibilizavam vários profissionais da área técnica, cenografia, iluminação, maquiagem para os grupos. Era como uma política de fomento aos grupos. Então, eu soube de outras oficinas e comecei a fazer. Fiz uma que era voltada para iluminação. Passamos três meses trabalhando, fazendo oficina. Marcos Dede, que nessa época era iluminador, hoje é chefe de palco do Teatro Vila Velha. O chefe de palco era Rivaldo Rios, que é iluminador do Bando de Teatro Olodum. Comecei a fazer oficina com os caras e fiquei trabalhando na parte de iluminação no Teatro Vila Velha. Nesta mesa época, fiz uma oficina com o Bando de Teatro Olodum. Era um curso de formação com Zebrinha, com Chica Carelli, Márcio Meirelles e Jarbas Bittencourt, fora outros profissionais do Bando, que eram os atores, fazedores, enfim… Pessoas como Zebra, eu acompanho até hoje. José Carlos Arandiba, mais conhecido como Zebrinha. Trocamos várias ideias. É um grande Exú que a gente tem. Ele é muito assertivo no que diz respeito a arte. É um mestre, um grande professor. Zebra é diretor artístico do Bando de Teatro Olodum e diretor artístico do Balé Folclórico da Bahia e da Companhia dos Comuns, e tem grande influência em outros grupos e companhias de dança pelo mundo. Onde você encontrar artistas pretos, você também encontrará Zebrinha fazendo parte daquilo, movimentando tudo. É uma figura renomada, por merecimento e conquista. Passou pelas principais companhias de dança, no Brasil e no exterior. Um currículo impressionante. Ele vale uma entrevista sozinho…

Guilherme Silva na peça “Bacad”. Foto de Dinho Vianna

Fale no Teatro Vila Velha, com o Bando de Teatro Olodum e com o Teatro da Queda:
Nesse período, eu continuei fazendo oficina com o Bando. Consegui começar a trabalhar no Vila Velha. Abriram duas vagas. Requisitaram a mim e a outro colega para trabalhar como ilumino-técnicos. Enquanto eu trabalhava lá, continuei a estudar com o Bando. Ao final das oficinas, servi de stand in para os espetáculos em que alguns atores não podiam participar, às vezes estavam viajando ou tinham outros trabalhos, daí me acionavam. Foi assim que fiz “Sonhos de Uma Noite de Verão”, em 2008. Foi a última montagem do Bando com “Sonhos de Uma Noite de Verão”, que é um espetáculo sensacional. Muito foda, velho! Sabe aquele trabalho que você gostaria de ver de novo? Ainda mais em teatro? Um deles é “Sonhos de Uma Noite de Verão”. É fenomenal. Apresentamos pelo FIAC (Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia). Continuei minha experiência com o Bando. Eu tinha uma namorada na época que fazia parte de um grupo que estava chegando a Salvador, se estabelecendo. Chamava Teatro da Queda, que veio através de Thiago Romero, diretor da montagem de “Madame Satã”. Comecei, então, a fazer espetáculos com Thiago. Fizemos três espetáculos. Tínhamos um chamado “Breve”. Fernanda Julia estava se formando em direção teatral pela UFBA nessa época. Ela é diretora do NATA (Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas). Fernanda me convidou e eu fui fazer “Siré Obá – A Festa do Rei”, com direção artística de Thiago Romero. Fiz ainda “Bacad”, um espetáculo muito interessante, mas a gente só conseguiu montar uma vez. A gente chamava o espetáculo de “Bacad – Memórias Afetivas da América Latina”. Fizemos uma pesquisa em termos filosóficos, espirituais e sociológicos, que ligam a América Latina como um todo nesse processo de ancestralidade. O Teatro da Queda foi um dos últimos grupos com o qual trabalhei. Depois, parti para carreira solo (risos). Na verdade, nunca deixei meus estudos individuais. Eu buscava participar desses grupos como desenvolvimento pessoal, como implementação de técnica profissional, etc. A primeira experiência com dança de forma técnica foi com Zebra, dentro do Bando. Em “Bacad”, trabalhamos com Jai Bispo. Um grande bailarino. Trabalhei com uma galera… Marcelo Jardim, que aplicava o trabalho vocal… Depois de um tempo, eu fui jubilado da Faculdade de Artes Plásticas (risos). Eu dou risada, hoje, mas foi uma parada muito… A faculdade eu fiz em paralelo a todas as atividades com teatro. Quando eu vi, estava me ferrando pra conseguir cumprir. São duas áreas artísticas que exigem presença a todo tempo e exigem dedicação integral: Artes Plásticas e Teatro. Fora que o curso era caro… Então, ou eu trabalhava para conseguir estudar, para fazer dinheiro para estudar, ou eu parava de estudar para trabalhar. E foi diante dessa situação que ocorreu um equívoco na UFBA… Vou chamar de equívoco para ser gentil… Enfim, acabei sendo jubilado e me dedicando ao teatro mais a fundo.

Saída da Bahia
Em 2013, fui pra São Paulo para participar da seleção do musical “Fino do Samba”. Foi muito bom porque eu me deparei com muitos baianos lá. O texto era de Elísio Lopes Júnior. Foi uma fase muito boa. Eu, inclusive, já tinha feito um texto do Elísio aqui em Salvador, com o grupo Arte Sintonia. O espetáculo era o musical inspirado na vida de Elza Soares, “Se Acaso Você Chegasse”, com direção de Antonio Marques. O musical teve uma segunda etapa, onde a gente convidava cantores e cantoras. Pude trocar momentos interessantes com uma galera, como por exemplo Lazzo Matumbi, um cara a quem eu admiro muito como artista, como pessoa. Enfim, fui para São Paulo, consegui passar no teste que eu pensava que não ia passar e isso me abriu outro entendimento em relação ao fazer artístico… Outra conversa sobre o que o profissional daqui de Salvador precisa fazer, precisa desbravar para, enfim, alcançar algumas metas. Ainda vivemos um mercado, principalmente para a área de atuação, muito fechado. Infelizmente, nesse contexto, a arte ainda é muito elitista. Principalmente aqui em Salvador. Agora é que estamos percebendo uma maior movimentação, mas, mesmo assim, perdemos alguns locais que forneciam propostas de estudo gratuito e diverso. A gente não tinha muita coisa, mas tínhamos algumas possibilidades de implementar ações de estudo artístico. Pra mim, que vim de periferia, sem grana, tinha que peitar e procurar os cursos que eram gratuitos para me capacitar. Ou então me jogar nas seleções e dar o máximo de mim para conseguir passar e começar a lutar para ter uma carreira. Quando eu fui a primeira vez a São Paulo, foi para esta seleção do “Fino do Samba”. Velho, eu me achava completamente despreparado. Despreparado, assim, de acordo com o que entendemos do cenário de teatro musical, acerca de estudo de voz, de conhecimento de dança… Eu costumo dizer que um dos maiores pólos produtores artísticos e culturais brasileiros é o Nordeste. Quando eu cheguei a São Paulo, encontrei muito baiano fazendo arte. E fui no peito e na raça, como essa galera que já estava lá. Eu me sentia despreparado. Mas, quando eu olhei pra mim mesmo, e me percebi, pensei em todo o meu “fazer sempre tudo com sangue no olho” – aqui a gente faz isso –, entendi que a gente vai fazendo de tudo em termos de pesquisa e prática. Então, isso nos enriquece. Enfim, passei na seleção do “Fino do Samba” e fizemos uma temporada em São Paulo.

Teste de elenco para “Faroeste Caboclo”, minissérie global e metas profissionais cumpridas.
Viajei para o Rio um pouco antes para participar do processo seletivo para o filme “Faroeste Caboclo”. Fiquei feliz que o aprovado tenha sido um ator baiano: Fabrício Boliveira. Foi uma experiência ótima com o Sergio Pena, preparador de elenco. Fiz três dias de workshop com ele e mais uma galera, também. Depois disso, voltei para Salvador. A minha meta de realização profissional até aquele período havia sido contemplada. Eu vinha de uma batida. Eu pedia muito, rezava para que a primeira vez que eu saísse de Salvador fosse à trabalho. E consegui. Sair daqui e batalhar pelo que eu queria, me deu uma outra visão de mundo. Depois,fiz uma oficina no CTAC (Centro Técnico de Artes Cênicas), no Centro do Rio de Janeiro. Nessa época, eu estava vivendo outra crise com relação ao fazer artístico. Eu pensava: “Caramba, fico muito tempo sem trabalho…”. Sinto que esta é ainda uma triste realidade do artista preto, principalmente aqui em Salvador. E, agora, no Brasil como um todo, ainda mais no cenário atual. Por isso eu considero o projeto “Pequeno Gigante” extremamente importante, com elenco majoritariamente preto. Até mesmo aqui em Salvador não encontramos muitas opções de trabalho na área artística com espaço para gente preta. Então, na época, pensei: “Tenho que investir essa pouca grana que eu tenho em um aprendizado técnico, para quando o bicho estiver pegando buscar oportunidade em outra área”. Escolhi fazer algo relacionado ao que eu já conhecia: a iluminação. Quando cheguei no CTAC, o curso que estava sendo disponibilizado não era de iluminação. Acabei fazendo uma oficina de performance com um grupo chamado Labirinto Urbano, muito bom, por sinal. No início, abri meu coração: “Fudeu. Não é o curso que eu queria”. Mas, fiz. Contei com a ajuda de uma brodona no Rio, Mônica Nêga, uma figuraça, uma produtora artística incrível, integrante do movimento cultural do Vidigal. Quando voltei para Salvador, fiz alguns poucos trabalhos, até que surgiram os testes da minissérie da Rede Globo, “O Canto da Sereia”. Um conhecido me perguntou: “E aí, como você conseguiu? Alguém te indicou?” Eu ri. “Indicar o quê, cumpadi? Se você soubesse o pau da porra que tem que dá… O corre que é…”’ (risos) Foram três etapas de teste, não foi fácil. Fiz o meu melhor, mas acredito que também foi presente, de orixá. Foi um personagem bacana dentro de um trabalho grande. Gravamos em 2012 e a Globo exibiu em 2013.

Aprimorando a dança e a primeira experiência profissional no exterior.
Em 2015, eu havia entrado no curso técnico na escola de dança da FUNCEB (Fundação Cultural do Estado da Bahia). Estava tendo várias experiências com dança, e, sempre que estava em Salvador, procurava por Zebra e fazia aulas no espaço do Balé Folclórico. Eu buscava manter o corpo sempre ativo, apesar de pensar: “Já estou começando a dançar ‘velho’. Não vou virar um dançarino clássico… (risos). Para mim, não vai dar. Mas eu vou fazer o máximo que eu posso”. Decidi entrar no curso profissionalizante de dança (na FUNCEB mesmo). Como eu já reproduzia os movimentos com muita organicidade, eu conseguia uma desenvoltura bacana. Fui frequentando as aulas, com assiduidade. Neste mesmo período, abriram inscrições para um processo de residência artística da companhia Vila Dança (um programa de residência artística com coreógrafos profissionais do mundo todo). O período de residência era de três meses. Foram escolhidos cinco bailarinos. Eu estava entre eles. Gostei muito da maneira como foi feita a seleção, através de aulas, não apenas como análise de desempenho. Eram rotinas diárias nas quais trabalhávamos construção textual associada à dramaturgia e a parte coreográfica, juntando todos os elementos, já que se tratava de um espetáculo de dança. O coreógrafo era Asier Zabaleta, um cara com um currículo riquíssimo, com passagens por vários lugares do mundo trabalhando com dança contemporânea. Depois desse trabalho, criamos o espetáculo “Tirania das Cores”. O resultado ficou muito bacana. Cristina Castro, que administra e coordena o Vila Dança, deu muita força para a gente. Ela disse que, por eles, não seria possível dar seguimento ao projeto, mas se quiséssemos poderíamos tentar fazer a produção. A gente conversou com Asier. Havia um festival aberto na cidade natal dele, San Sebastian, na Espanha, o “dFERIA”. É um evento onde vários grupos internacionais participam, como numa feira de empreendedores artísticos. Nós fizemos parte disso. Conseguimos nos organizar e levantar verbas de custeio das passagens. Foi um processo desafiador. Tivemos que traduzir e executar o texto em espanhol, em menos de dez dias. Sair do Brasil inserido em um processo de trabalho artístico inaugurou outra etapa da minha carreira.

Guilherme Silva na peça “Tirania das Cores”. Foto de Diney Araujo

O adentrar no cinema com o curta metragem “Cinzas” e o longa “Café com Canela”.
Em 2016, eu voltei à São Paulo para cumprir a segunda temporada do “Fino no Samba”. Erlon Souza era produtor e Kleber Borges Sobrinho dirigia. Quando retornei para Salvador, surgiu um teste para um trabalho do coletivo Tela Preta. Fizemos o curta “Cinzas”, com direção de Larissa Fulana de Tal. Eu já vinha flertando com o cinema desde antes dos testes para “Faroeste Caboclo”. Quando comecei a fazer teatro, eu queria entender de tudo para conseguir fazer bem. Isso faz parte da minha criação. Meus pais sempre falavam para estar entre os melhores, caso não conseguisse ser o melhor. Meus estudos sempre partiram desta premissa. Eu não queria aprender e dominar, mas sim, entender tudo isso me movimentava. No teatro, tudo está conectado. Se a gente faz uma produção de teatro musical, percebe que tudo está interligado. Para mim, a arte é como no culto ancestral. Tem canto, tem dança, tem música. Nada dissonante. Tudo é linkado. Minha curiosidade me motivou a aprender as técnicas.Sempre fui interessado por tudo, inclusive por maquiagem, figurino cenografia, iluminação… Continuei tomando gosto pela área de cinema: “Isso também é algo que eu quero fazer para a minha vida”. Teatro, televisão e cinema são vibrações diferentes, mas cada um me desafia e atrai à sua maneira. Adoro fazer parte disso. Depois do trabalho com o Tela Preta, veio a Rosza Filmes, com o convite para o “Café com Canela”. Ary Rosa e Glenda Nicácio, que dirigiram o filme, haviam me visto no “Cinzas” e gostaram muito, disseram que queriam muito trabalhar comigo. Então, fiz o teste e passei. Fiquei praticamente dois meses direto na cidade de Cachoeira, filmando. A vivência com todos os envolvidos foi muito boa. Reencontrei Aldri Anunciação, Arlete Dias e Valdineia Soriano, parceiros com os quais já tinha trabalhado no Bando de Teatro Olodum. Aline Brunne, que é de Salvador, mas estava estudando na UFRB, em Cachoeira. Trabalhei também com Babu Santana, uma figuraça. Ele é cinco vezes mais interessante do que o Brasil conheceu no BBB. Um cara muito gente boa, com uma trajetória consistente, que veio do Vidigal, do Nós do Morro. Um excelente profissional.

Período no recôncavo baiano para gravar “Café com Canela” e o tempo de Cachoeira.
Vivenciei momentos muito bacanas no trabalho com Ary e Glenda em “Café com Canela”. Eu não tinha tanta experiência com cinema, mas, já tinha vivenciado algumas coisas, e, tanto Ary quanto Glenda eram completamente despidos, abertos ao diálogo. A gente sentava e trocava ideias acerca do roteiro, apesar do que eles já tinham trazido. A questão de tratar a família preta com esse contexto de afeto que a gente tem, e não com esse contexto hostilizado de violência e agressão o tempo todo, me move. Foi um trabalho que eu agradeço muito por ter feito parte. Até hoje ouço pessoas falando que se sentiram contemplados pelo filme. A primeira vez que assisti, foi engraçado. Sou muito autocrítico. Ao final do filme, a minha sensação, para além da parte técnica, que é muito bem cuidada, foi admiração: “Velho, eles conseguiram representar o tempo de Cachoeira”. O tempo do Recôncavo, que na verdade é um tempo espiritual, também estava ali. Há diálogo dentro do silêncio, ou o silêncio dentro do diálogo. Eles conseguiram transpor aquele silêncio para a tela, entende? Isso, pra mim, foi das coisas que mais me impressionaram. Esse silêncio de Cachoeira (que é uma conversa), estava lá. Como uma conversa amistosa, com um avô ou uma avó. Quase como quando você vai no Candomblé e a zeladora ou o zelador falam: “Senta aqui, meu filho, para esfriar o sangue um pouquinho”. Então, você fica lá, quarenta minutos, uma hora depois (risos)… Só depois disso você vai começar a trocar uma ideia… Você chega ansioso pra resolver as coisas, mas você precisa entender aquilo, sabe? Você só entende espiritualmente o que significa aquele tempo, o que significa relaxar, respirar e respirar aquilo, com serenidade. Aquele tempo só observando, só sentindo, só ouvindo, faz parte. E é isso, mesmo. Para mim, eles conseguiram passar tudo isso no filme.

Guilherme Silva na peça “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”. Foto de Celino Vitorino

Fase pós “Café com Canela” com o musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”.
Aqui em Salvador, nessa fase, houve uma pausa no espetáculo de dança “Tirania das Cores”. Nós havíamos feito apresentações em algumas cidades da Bahia, como Feira de Santana, Jequié, Porto Seguro e Salvador. O projeto teve ótima aceitação e dialogou muito bem com o gosto do público. Depois da primeira temporada de “Dona Ivone Lara– Um Sorriso Negro”, que foi em 2018, eu fiquei no Rio por cinco meses. Foi uma experiência incrível poder conhecer a galera da velha guarda do samba, conhecer outros aspectos da cultura preta brasileira no Rio de Janeiro. Eu nunca tinha passado tanto tempo lá. Conheci o jongo, que é muito forte lá no Rio, e que a gente não tem muita referência aqui em Salvador. Foi enriquecedor. Aqui, a nossa referência é com o samba de roda, e, quando cheguei no Rio, a galera vivia falando do jongo. O jongo da Serrinha é o mais popular. E quando a gente bate o olho, velho, a gente reconhece a mesma energia do samba de roda do Recôncavo. Foi muito bom sentir e resgatar isso. Na verdade, quando a gente percebeu, já estava com os movimentos incorporados, já sabia como se movimentar. Ano passado, fizemos uma temporada em São Paulo, no Teatro Sergio Cardoso. Houve uma resposta muito boa de público, também, muito bacana. Voltei à Salvador no final de 2019,e, em janeiro desse ano, voltei ao Rio para começar um projeto de TV. Quando a pandemia começou, retornei à Bahia, mas, quando tudo passar, espero voltar ao trabalho, rápido. Sou movido a desafios.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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