Entrevista: Bruno Schiavo

entrevista por Ananda Zambi

Se você está ligado na nova música experimental brasileira, pode ser que conheça “Revirá”, canção gravada por Negro Leo. Se você gosta da Ana Frango Elétrico, revelação de 2019 para a APCA e presente em diversas listas de Melhores de 2019, certamente deve conhecer o hit “Tem Certeza?”. O autor e o co-autor dessas músicas, respectivamente, é Bruno Schiavo, cantor e compositor de Campinas que lançou, no começo de março, “A Vida Só Começou” (2020), seu primeiro disco solo, que apesar de ser seu primeiro trabalho, já carrega uma certa maturidade.

Arquiteto de formação, Schiavo já fez parte das bandas Eueueu, Bruno & Bruno e Dodecafunk, e participou de apresentações de improviso livre, brincando com palavras e ruídos. Além disso, já fez trilhas sonoras, como a do longa-metragem “Inaudito”, junto com o lendário guitarrista e compositor Lanny Gordin.

Em “A Vida Só Começou”, Bruno debutou em trânsito intenso entre São Paulo e Rio de Janeiro, absorvendo o melhor das duas cenas e transmitindo ao ouvinte um resultado bem-sucedido. Ele é, sim, um disco pop, mas um pop denso e até mesmo complexo – talvez a definição de “metapop”, que aparece no release, seja a ideal –, com uma grande quantidade de camadas sonoras e melodias improváveis, mas agradáveis (para Ana Frango Elétrico, por exemplo, ele é “Anos 90-delicado-pop-grunge-insano”).

Lançado pelo selo Rockit!, de Dado Villa Lobos, o álbum contou com participações de Ava Rocha, Ana Frango e Marcelo Callado além de contar com uma seleção de músicos tarimbados (três bateristas, dois baixistas, quatro guitarristas etc) que tem seus nomes envolvidos a Gal Costa, Arto Lindsay e Jards Macalé. No bate papo abaixo, Bruno conta como as canções se originaram, fala sobre a questão música pop vs barulho, e elenca o que está ouvindo no momento. Confira.

Dizem que o primeiro disco é uma reunião de músicas escritas ao longo da vida. Mas seu disco tem uma coesão, uma maturidade. “A Vida Só Começou” tem um contexto pré-estabelecido ou é mesmo uma espécie de coletânea inicial?
Nada pré-estabelecido para dar coerência, nenhum projeto. Alguns sentidos dessa coleção de músicas que resultou em “A Vida Só Começou” ainda continuam a aparecer na medida em que as pessoas dizem o que têm achado ali. Até fico curioso: quando você fala em coesão, como é o todo que se forma para você? Durante a produção, a ideia de variação ou multiplicidade era a que parecia mais próxima a uma imagem geral, tendo vindo daí a imaginação da capa pela arquiteta Bea Andreotti e por mim: cada composição parecia partir de uma abordagem ou construção diferente, um desafio outro, como se cada uma exigisse e possibilitasse um começo; a gama timbrística e certo multicolorido impressionista resultante, ao que corresponde a variação de instrumentistas (três bateristas, dois baixistas, quatro guitarristas etc); e a própria assimilação da contradição, a dificuldade em aceitar a regência por uma identidade fixa que desse conta de modo integral. Tanto que, em dado momento, a consciência dessa variabilidade me fez cogitar maneiras diversas de canto, investigar o quanto a mutação entre as supostas personas poderia ser expressa através da voz. Um amigo fez uma leitura do disco que o aproximou do drama, de cenas em sequência. Assim, esses fios já existem.

Você já foi gravado por Negro Leo e Ana Frango Elétrico. Como é pra você o reconhecimento por esses artistas que são referências na atual cena alternativa e experimental?
Para mim, são referências para a arte e para a vida, Leo e Ana. Me aproximei pela identificação extrema e à primeira vista com as produções, e as amizades vieram junto. Suspeito que exista uma conexão geracional entre algumas pessoas que é como aquele estudo que fala da senciência e interconexão subterrânea no mundo vegetal, “A Vida Secreta das Plantas”. Nada instiga mais o trabalho do que a troca com um contemporâneo amigo, vale para qualquer área de pesquisa, mas desconfio que aqui ainda mais pelo fato de a composição ser um exercício intenso de alteridade, processo de descoberta de um outro a partir de si e de descobrir-se ali no outro, no caso das parcerias. Gravei músicas de Tazio Zambi e da dupla Farme e Hixizine, que são André Camarero e Felipe Kouznetz, com quem também sinto esse tipo de afinidade. São casos específicos em que você gosta do corpus, do repertório completo, como se cada passo daquele artista estivesse conectado ou fosse integralmente apreensível para você, resumindo, distanciamento zero, afeto e envolvimento totais.

Você sente a presença da arquitetura no teu processo de composição?
A única música em que um sentido arquitetônico se fez mais presente e, ainda assim, inconsciente durante o processo de composição, é “Revirá”. A engenharia só foi percebida depois. Existe uma contraposição complementar, uma compensação de vetores descendentes e ascendentes e uma relativização ou harmonização dessa dinâmica no eixo horizontal do refrão. Isso se dá tanto no plano formal do desenho da melodia quanto no semântico, numa relação que a gente pode chamar de cartesiana, próxima da teoria da canção de Luiz Tatit que, por sua vez, é tão próxima da arquitetura quanto a FFLCH é da FAU USP e o Butantã da Vila Madalena. Com a diferença crucial que tudo veio sob o encanto involuntário da Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto, já que finalizei a música para entrar no “Action Lekking” (2017), de Negro Leo, disco bastante Jorge Ben. Mais precisamente o segundo item: “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.”

Você já revelou que o foco desse trabalho é o pop. Mas noto que ele tem também elementos que não são muito vistos no pop, como, por exemplo, o ruído. Como você convive com esses dois universos e como pretendeu trabalhá-los em conjunto no álbum?
Apesar da presença da noção extraordinária de Eduardo Manso para as camadas subjacentes, para os efeitos de sobreposição de ruídos mínimos, esse trabalho não é tão norteado por uma pesquisa do som propriamente, em sua materialidade, reverberação etc. Essa dimensão integra o referencial dos músicos, mas no disco isso aparece como índice, apenas. Apesar disso, a abertura para essa dimensão é um caminho sem volta, o ouvido que passa pela eletroacústica do mundo não é mais o mesmo, arranjos ou sonoridades mais convencionais perdem um pouco a graça. O ruído enquanto categoria que suscita uma compreensão expandida da música, mais ambiental talvez, vai além da mera caracterização do som como ruidoso e também das suas formas aplicadas nos circuitos especializados. Na música pop recente, a busca por soar mais alto através da compressão gera uma distorção que virou intrínseca ao gosto.

Em entrevista ao Alexandre Matias você contou quais são suas referências musicais, mas disse que aquela era uma lista daquele dia, meio que fluida, passageira. E hoje, o que você chamaria de influências?
“Briga de Família”, do Vovô Bebê. A cada audição descubro uma coisa, um detalhe novo no arranjo, um novo ângulo pra ser fisgado pela melodia, gosto demais. Uma versão pré-misturada do “Desejo de Lacrar” do Negro Leo, uma musicalidade altíssima sob produção insana, uma bomba H contra-ideológica. Estou na espera ansiosa também pelo próximo de Thiago Nassif, “Mente”, que já ouvi algumas vezes com ele mesmo e sempre balança muito. Também as bases gravadas no Rio de Janeiro do disco do Farme e Hixizine, que olham pra canção de um jeito ao mesmo tempo torto e clássico, geniais. Daquela lista que passei ao Alexandre Matias só Nina Simone permanece, agora junto com Caymmi, Schoenberg, Miles Davis, Jorge Ben.

Quais são seus próximos planos?
Aprender piano e arranjar um gravador de fita cassete pra fugir da comodidade das gravações digitais enquanto componho, o que gera um excesso de material, impossível de ouvir depois. No analógico, você é obrigado a errar de primeira, é mais parecido com a vida, não tem volta.

– Ananda Zambi (@anandazambi) é jornalista e editora do Nonada – jornalismo travessia. Nas horas vagas, também brinca de fazer música.” 

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