A Babilônia sob o olhar de Black Alien: rapper faz showzaço em Salvador

Texto, fotos e vídeos por Nelson Oliveira

Apocalypse Now. O clássico do cinema, dirigido por Francis Ford Coppola e estrelado por Marlon Brando, Robert Duvall e Martin Sheen, é uma referência recorrente nos versos do rapper Black Alien. O épico de guerra é citado tanto no seu álbum de estreia solo, “Babylon By Gus Vol. 1 – O Ano do Macaco”, de 2004 (na faixa “América 21”), quanto no mais recente – e igualmente aclamado –, “Hello Hell: Abaixo de Zero”, de 2019 (no encerramento, em “Capítulo Zero”). O ex-integrante do Planet Hemp, porém, talvez não esperasse que teria de subir ao palco num contexto similar ao de preparativos para uma guerra, com medidas restritivas anunciadas por prefeitos e governadores para tentar conter o avanço do coronavírus.

A participação de Gustavo Ribeiro no Flow Festival, que ocorreu no último sábado (14), foi o último show de grande porte que ocorreu em Salvador antes da suspensão temporária de aglomerações, anunciada pelo prefeito ACM Neto em uma série de decretos que começaram a valer a partir de segunda na capital baiana (16). Black Alien encerrou uma noite regada a álcool gel, que contou ainda com shows de Underismo (BA) e Braza (RJ).

Underismo

O show de abertura da segunda edição do festival começou por volta de 18 horas, quando o amplo espaço do Trapiche Barnabé ainda estava longe de sua lotação. Os baianos do coletivo Underismo fizeram o que deles se espera: uma algazarra que costuma envolver o seu público. Os MCs Ares, Alfa, Kolx e Senpai, juntamente ao DJ Moura – que até canta em algumas ocasiões –, têm bastante energia para isso e levaram os presentes junto com eles.

Inquietos no palco (e até mesmo fora dele, quando descem para as rodinhas de bate-cabeça), os integrantes da Underismo ainda têm um percurso natural de amadurecimento pela frente, mas mostram talento ao misturarem beats caros e trap ao pagode baiano e criarem imagens irônicas, bem-humoradas e que – aditivadas com cafeína – dialogam com cultura pop e a periferia de Salvador. Como em “Pretx Chave”, maior hit do coletivo (O prostituto, barrunfado, gostoso, afrofuturista / Tô tipo cafezin preto, quente, uma delícia / Não vai dar o que preste, eu to de “boreste” / Arrastando a massa igual A Bronkka no Salva Fest). Outros destaques no repertório do grupo são “Sodikeke” e “$alv4dorP0rnStreet”.

Braza

Depois do som bastante urbano da Underismo, foi a vez dos cariocas da Braza e de sua levada praiana. A banda, formada por Danilo Cutrim, Vitor Isensee e Nicolas Christ (ex-integrantes do Forfun), não tocava em Salvador desde 2016. Isso fez com que alguns fãs se aglomerassem na fila do gargarejo para cantarem junto com o grupo o seu repertório, bastante influenciado por ritmos como ragga e reggae.

Apesar de a Braza ter feito um show apenas correto, os mais fanáticos pela banda ficaram bastante satisfeitos por terem visto ao vivo faixas como “Segue o Baile”, “Oxalá”, “Exército Sem Farda”, “Ela Me Chamou Pra Dançar um Ragga”, “Qual É o Rosto de Deus?” e “Liquidificador”. Também houve espaço para um medley curioso, que começou com “Zóio de Lula”, do Charlie Brown Jr., e terminou com “Maria da Vila Matilde”, de Elza Soares.

Para a maior parte do público presente no Trapiche Barnabé, no entanto, o show da Braza funcionou mais como uma entrada pouco atrativa para o prato principal – uma espera entre higienizações de mãos com os frascos de álcool gel disponibilizados pela produção do festival. E Black Alien não decepcionou ao fornecer um banquete riquíssimo.

Black Alien

Em sua trajetória de vida e artística, Gustavo construiu algo que ele pode dizer com propriedade, como o faz em “Que Nem o Meu Cachorro”: a sua zona de conforto é a zona de conflito. Isso já ficava claro no início de sua carreira solo, quando transitou entre versos apocalípticos, heróicos e até premonitórios em “Babylon By Gus”, onde alude à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), doença que também é causada por um tipo de coronavírus. Nessas duas faixas, que se destacaram no show do último sábado, o eu-lírico – o próprio Black Alien – aparece como um sobrevivente que resistiu ao pior. Tal energia, somada à teimosia de sobreviver, foi transmitida com sucesso ao público soteropolitano.

Hitmaker, com versos fortes e flow inconfundível, Gus levou o show em alta voltagem do início ao fim, “salvando” e honrando a noite de saideira para ele e os seus fãs. Ao menos por um tempo, até que a pandemia de Covid-19 seja contida. Dando o melhor de si, ao lado do DJ Erick Jay, Black Alien mostrou o poder de canções do seu último álbum, como “Carta Para Amy”, “Vai Baby”, “Take Ten”, “Aniversário de Sobriedade” e “Jamais Serão”, que estavam na ponta da língua do público.

O rapper de São Gonçalo ainda foi aclamado pelos soteropolitanos quando abriu espaço para tracks do seu primeiro trabalho solo, que está entre um dos discos mais importantes dos anos 2000. “Caminhos do Destino” e “Na Segunda Vinda” levaram o público ao delírio, enquanto o romantismo sensual de “Como Eu Te Quero” e “Perícia Na Delícia” derreteu os casais e incentivou o clima de paquera – talvez desaconselhável em tempos de coronavírus, mas de difícil contenção.

No fim das contas, a apresentação de Black Alien teve um quê de mister superhero, persona que o rapper criou em “Mister Niterói”. Ao superar, dia a dia, a sua dependência química, Gustavo é prova viva de que tudo pode ficar bem depois que o terror se dissipar.

– Nelson Oliveira é graduado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, atua como jornalista e fotógrafo, sobretudo nas áreas de esporte, cultura e comportamento. É diretor e editor-chefe da Calciopédia, site especializado em futebol italiano. Foi correspondente de Esportes para o Terra em Salvador e já frilou para Trivela e VICE. 

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