Entrevista – Karola Nunes: “Minha arte é política”

entrevista por Rafael Donadio

Após 15 anos de carreira profissional, a cantora, instrumentista e compositora mato-grossense Karola Nunes lançou, em abril do ano passado, o primeiro disco cheio: “Somos Som” (2019). O projeto começou em 2015, quando Karola passou a apresentar suas composições na Mostra Sesc de Música. Predominantemente autoral, o álbum contempla oito faixas de autoria de Karola, além de “C´est la Vie”, de autoria do guitarrista Augusto Krebs, e “Chorar” de Pacha Ana. Juntos esses compositores integram a nova narrativa da música autoral mato-grossense.

“Somos Som” foi gravado em uma conexão entre Cuiabá (MT) e São Paulo (SP) e tem a produção assinada por Gustavo Ruiz. A ligação entre os dois estados está refletida também nos artistas convidados. De São Paulo: Curumin, o instrumentista Almicar Rodrigues, a atriz Mariela Lamberti e Victor Rice, que também é responsável pela mixagem. Do Mato Grosso: a rapper Pacha Ana e a viola de cocho gravada por Habel Dy Anjos. A masterização é do requisitado Felipe Tichauer.

Muito influenciada pela “Nova MPB”, Karola investe forte em uma obra política, onde reivindica, como mulher, negra e homossexual, um lugar de existência das minorias. “Enquanto estão tentando nos censurar, a voz do coletivo está falando. Nós, artistas do movimento negro, do movimento gay, estamos falando. E tem gente para ouvir. Por mais que essa galera não queira aceitar, essa voz está saindo”, explica a mato-grossense.

Para ilustrar ainda mais esses discursos, a cantora e um coletivo de aproximadamente 20 pessoas lançou em fevereiro o clipe de “Tá Vendo Seu Moço?”, uma das 10 canções do álbum. O videoclipe, produzido de forma independente, traz a marca dos produtores, cineastas, roteiristas, maquiadores, figurinistas e todos os profissionais artísticos independentes de Cuiabá (MT), além de realizar e se manifestar sobre a inclusão de minorias no cenário cultural do país.

Foram mais de 15 horas de gravação, em apenas um dia, para colocar em prática o que o roteirista e diretor Pedro Brites já criava e recriava há sete meses. Com a direção assinada também pela cineasta Juliana Segóvia, o clipe desenvolve uma narrativa corporal que preenche e acrescenta ainda mais significado à letra da canção. A coreografia criada por Filipe Vinhas é apresentada por três dançarinos: o próprio Filipe, Lupita Amorim e Geovane Rodrigues. No entrelaço da música com a dança dos três protagonistas, o videoclipe carrega a discussão sobre a diversidade de corpo, gênero e sexualidade.

Conversamos com Karola sobre a produção do clipe e do disco, o começo de carreira, o trabalho com Gustavo Ruiz, o trabalho com o coletivo e algumas coisas mais. Confira.

“Somos Som” é o primeiro disco cheio da sua carreira. Como foi o processo de produção?
Nós o gravamos em duas etapas. A primeira foi em maio de 2018, que foi quando recebemos o Gustavo (Ruiz) em Cuiabá (MT), e passamos enfurnados uma semana no estúdio, das 9h até 21h, gravando a banda. A gente tinha alguns pré-arranjos das canções, mas algumas coisas mudaram quando o Gustavo chegou, ouviu e deu alguns pitacos. Ensaiamos num domingo, com ele, e na segunda entramos em estúdio e fomos até sábado. O Gustavo levou as músicas para São Paulo (SP), deu uma decupada, e em setembro eu fui para lá para gravar voz. Ele fez alguns overdubs, chamou alguns músicos de lá, para gravar instrumentos que a gente não tinha na banda. Eu achei muito massa o respeito do Gustavo pela nossa sonoridade. Ele poderia muito bem ter me chamado para São Paulo, montado uma banda lá e gravado. Mas ele achou importante a gente preservar a sonoridade da minha banda. Achei massa essa disponibilidade dele em ouvir a gente, saber enxergar a particularidade dos músicos daqui, que são músicos que estão fora do eixo, que tem muita experiência em estúdio, principalmente com gravações em discos sertanejos, que tem muito por aqui. Foi massa essa disposição dele e foi massa para os músicos também.

Por que a escolha do Gustavo Ruiz para produção?
Desde sempre, quando eu pensava em gravar algum projeto maior, eu tinha a intenção de gravar com alguém do eixo. Nessa escolha de possíveis produtores, a Larissa, minha companheira, sugeriu o Gustavo, porque a gente é muito fã do trabalho dele com a Tulipa e outros trampos. É um cara que tem muita sensibilidade com timbres e, para mim, timbre é o segredo da parada. Curto muito os timbres que ele trabalha, que ele escolhe. Acho que a escolha foi super acertada, porque ele é um cara muito querido, foi super atencioso e respeitoso no processo. Inclusive, por eu ter bastante referência do reggae, ele teve a sensibilidade de dizer que ele não tinha tanto conhecimento com aquela área, mas sabia quem poderia ajudar, que foi o Victor Rice.

E as participações, como foram escolhidas?
O Curumin foi uma sugestão do Gustavo. A gente estava no estúdio gravando “Chorar” e ele perguntou se eu curtia o trampo do Curumin. Falei que era uma das referências que eu tinha. Ele achou que essa música tinha muito a ver com ele e perguntou se poderia apresentar a música a ele. E rolou. Já a Pacha é uma parceirona minha, que é a compositora da faixa “Chorar”, e é uma mina muito foda que está desenvolvendo um trampo muito foda aqui no estado, em relação ao rap. Ela acabou de lançar o primeiro CD de uma rapper mulher do Mato Grosso. Ela também tem batalhado bastante pela cena e achei que seria legal ela somar em alguma das faixas, para realmente a gente fortalecer essa ideia das mulheres que estão produzindo aqui no estado. O Victor (Rice) participou como baixista em duas faixas. Foi bem natural, ele chegou ao estúdio para pegar os bounces da música e demonstrou interesse no que a gente estava gravando, e acabou gravando.

Atualmente, quais artistas te influenciam na produção e composição?
Ouço muito a galera da Nova MPB, Céu, Anelis Assumpção, Curumin, Tulipa Ruiz. Basicamente, o que tenho mais ouvido é isso. Sempre fui muito ouvinte de MPB, ouvia muito Marisa Monte. Em 2007, quando me mudei para Florianópolis, tive muito acesso ao reggae, então me influenciou bastante também. Mas foi lá que eu conheci essas novas artistas, e me apaixonei, foi uma descoberta: não preciso compor desse jeito para ser MPB. Eu sinto muito isso dessa Nova MPB, não tem rótulo. A galera bebe de várias fontes e essa mistureba acaba virando a Nova MPB. Eu comecei a ouvir muito isso e acabou me influenciando na maneira de compor e na liberdade de fazer um reggae, uma balada, uma coisa mais pop, e tudo isso está dentro desse balaio da nova MPB.

Mato Grosso é muito conhecido pela música sertaneja. Como é a cena de música brasileira e da “Nova MPB” por aí?
Aqui realmente a gente é esmagado pelo mercado sertanejo, mas existe um desejo da galera daqui, da galera das artes e tal, de ser reconhecido por outras formas. Então, por mais que o sertanejo seja esmagador, ele é esmagador no mainstream. Existem baladas específicas para sertanejo e tal. Isso foi um ponto muito forte para eu investir no trampo autoral. O primeiro show que eu fiz lotou, deu lotação no Teatro do Sesc. Então tive a percepção de que tinha gente querendo ouvir o que eu tinha para dizer. Isso me deu um gás muito grande para continuar tocando minhas músicas e começar a encarar o trampo autoral como carro chefe. A galera está a fim de ver e saber o que está sendo produzido fora desse mercado mainstream. Esse circuito da MPB e do reggae é um circuito um pouco menor aqui, mas que a galera consome. Sempre bato na tecla de que sei que não vou ser uma artista que o Mato Grosso vai consumir, porque para isso acontecer eu vou precisar acabar com uma cultura de anos daqui. Consegui ter um destaque estadual, porque participei de um concurso que é da filiada da Globo. É como se fosse um The Voice regional (o Programa Novos Talentos, TV Centro América). Fui para cantar minhas músicas e mostrar para o mato-grossense que existia uma cantora que compunha e tal. A gente já estava com o CD engatado, então era uma maneira de tentar mostrar para o interior do Mato Grosso que existia uma compositora. Os outros concorrentes cantaram cover e eu fui com música autoral. Acabei ganhando o programa e isso me deu um destaque bem legal na mídia estadual. Tem muita gente que me ouve no interior por conta dessa janela que teve nesse programa.

Das 10 faixas do álbum, oito são suas. Tendo 15 anos de carreira profissional, queria saber se as músicas são novas, criadas para o disco, ou de outras épocas também?
Tem composições antigas, como “A Pressa”, que eu compus em 2007, e acho que a música mais recente foi “Somos Som”. Eu tinha o nome do CD, “Somos Som”, mas não tinha o nome da canção que levava esse nome. São canções de 2007 até 2017, 10 anos de canções.

Você começou a carreira pensando em ser artista de barzinho, interpretando canções de outros músicos, mas hoje você canta suas próprias músicas. Quando isso mudou? Como foi?
Comecei muito cedo tocando na noite em Rondonópolis (MT), minha cidade natal. Desde criança eu achava muito bonito músico de barzinho. Com 15/16 anos eu tocava na noite e conheci uns amigos e fizemos uma banda. Essa banda já fazia um trampo autoral. Quando a gente montou a banda, que também era uma banda para tocar em barzinho, um dos músicos compunha e a gente chegou a lançar um CD demo, em 2005. Foi assim que eu descobri que era massa cantar músicas próprias. Esse CD chegou a ter três canções minhas, mas não era uma bandeira que eu levantava sozinha. Em 2007, a gente mudou para Florianópolis (SC), mas a banda acabou em 2008. Em 2009 eu vim para Cuiabá sem ter essa questão de mostrar meu som. Eu compunha, mas não tocava minhas canções. A chave deu uma mudada quando eu fui convidada por alguns amigos do teatro. Eu fazia sonoplastia para algumas peças teatrais daqui de Cuiabá (MT) e em um ensaio a galera perguntou se eu compunha, eu mostrei, eles curtiram e me propuseram fazer uma peça de teatro com as minhas músicas e os poemas e textos de uma escritora aqui do Mato Grosso, com interpretação deles. Minha estreia como compositora foi no teatro. No ano seguinte, fui chamada para participar de um projeto do Sesc que chamava Estreia, em que compositores tem a chance de subir no palco e cantar suas composições pela primeira vez. Isso foi em 2015.

Você se auto denomina “compositora autobiográfica”, ou seja, que escreve sobre você mesma. Quando compôs a música “Tá Vendo Seu Moço?”, estava falando sobre o quê?
Essa música é uma tentativa de diálogo que não sai disso. É esse lance do “faria”, “teria”. É um desejo de falar, “tenho muito para te mostrar, mas enquanto você não prestar atenção eu não vou conseguir te falar isso”. Quando cheguei a Cuiabá e comecei a me envolver com a galera da música, da faculdade, essa música expressa, meio que inconsciente, essa questão de eu ter vergonha das minhas canções, não mostrava para a galera. Achava que a galera daqui compunha bem pra caramba, já tinha um movimento de compositores em Cuiabá, de alto nível, então eu tinha vergonha. Apesar de eu ter o que dizer, eu tinha vergonha do que eu tinha para falar. Inconscientemente, acho que eu coloquei isso nessa canção, porque acho que foi uma das primeiras que compus em Cuiabá. É essa coisa: “Eu tenho muito para dizer, mas se você não quiser ouvir eu não vou ficar forçando, não vou ficar insistindo”. Compus ela em 2013 e acabou que quando gravei em São Paulo, foi exatamente no dia daquela manifestação do “Ele Não”, em setembro. Foi então que entrou o poema da Mariela (Lamberti). Eu voltei da manifestação com muita vontade de tornar essa música um discurso político, porque eu sentia justamente que era necessário ter um posicionamento enquanto artista naquele momento. A gente passa por um momento que a galera não entende que arte é política. Isso casou muito bem com o discurso do clipe, essa posição política, porque esse momento que a gente está passando agora, essas diretrizes de não incentivar a arte LGBTQI+ é esse lance: os artistas gays têm muito para dizer também, se a galera não quiser ouvir, vai perder, mas a gente vai continuar falando, resistindo, produzindo. Esse monólogo que eu citava em 2013 é muito presente hoje em dia. A comunidade gay resistindo e produzindo cada vez mais, independente se a galera quer ver ou ouvir, mas a gente está fazendo.

E em relação a essa mensagem da música, o que o clipe acrescenta?
O clipe evidencia o discurso político do meu trampo. Tem gente que vê e acha que é simplesmente mais uma música de amor, quando na verdade não é. E aí a gente coloca artistas gays, negros e uma citação direta ao “ele não”, para cair a ficha de quem ainda não caiu. Eu sou uma artista que me exponho muito nas redes sociais, principalmente na época da campanha, da eleição. Algumas pessoas que pensavam diferente me falavam que eu devia só fazer música e não palpitar politicamente. Eu achava que eu me expressava politicamente pela minha música, mas naquele momento eu entendi que tem gente que não entende. Então, é como se fosse uma mensagem direta: estou aqui levantando uma bandeira e entendam de uma vez por todas que minha arte é política. Acho que a gente conseguiu ilustrar isso com o clipe. Encontramos bastante dificuldade em conseguir patrocínio e apoio, pelas marcas não quererem vincular com esse tipo de tema.

Como surgiu a ideia do clipe, dessa narrativa corporal com as dançarines?
Pela pegada eletrônica da música, eu pensava muito em ter uma temática de dança, alguém dançando. A princípio eu tinha sugerido só o Filipe (Vinhas), que é o coreógrafo, e passei isso para o Pedro (Brites) e para a Juliana (Segóvia), os diretores. Quando a galera começou a destrinchar a letra, eles sugeriram a Lupita (Amorim), por ser uma mulher trans, e em seguida veio a ideia de colocar o Geovane (Rodrigues), com esse corpo fora do padrão estético que a gente vive. A princípio era só um vídeo de dança e o Pedro foi criando o roteiro e essas possibilidades e houve a necessidade de colocar mais gente. Eu não participaria do clipe, falei que não queria participar, mas com a construção do roteiro eles acharam que precisaria da minha presença para amarrar a narrativa. Eu como mulher, simbolizando o matriarcado, como se estivesse validando o discurso corporal dos dançarines.

Como foi a produção e gravação com esse coletivo de aproximadamente 20 pessoas?
A gente tinha o núcleo duro, que era eu, a Larissa Sossai, Juliana Segóvia e o Pedro Brites. O Pedro que fez todos os convites da equipe, de todo mundo envolvido, mas a gente ia autorizando. Eu estava mais presente nessa coisa do roteiro e como filmaríamos. A Lari ficou no corre junto à produção. A Ju conversando mais com o pessoal da direção artística e fotográfica. Mas no dia da gravação, como todo mundo estava lá, todo mundo ajudou na hora de montar o clipe, o cenário. Todo mundo com a mão na massa, cortando fitinha, arrumando os detalhes. A gente trouxe uma ideia que vem da produção musical, em que todo mundo dá pitaco em tudo, então todos foram ajudando. O trabalho foi coletivo do início ao fim. Foi um trampo de muito aprendizado para todo mundo, acho que deu uma pontinha de esperança nessa coisa da coletividade, de todo mundo se doar realmente pelo produto final.

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista maringaense.

2 thoughts on “Entrevista – Karola Nunes: “Minha arte é política”

  1. Parabéns pela matéria. Karola realmente é um talento de Mato Grosso, estamos muito orgulhosos com o álbum lançado ano passado, que tem dado destaque a outros estilos musicais que são produzidos no estado no estado e que não deixam a desejar no quesito qualidade para outros estados do país. Karola Nunes é a voz necessária neste momento crítico da cultura nacional. Amo muito!
    Vejam o videoclipe que trabalhamos com muito amor.

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