Ao vivo: Juntos em Salvador, Afrocidade e Russo Passapusso fazem show memorável

 Texto, fotos e vídeo por Nelson Oliveira

O caminho de renovação da música baiana começou a ser traçado pelo BaianaSystem uma década atrás e ganhou muitas bifurcações nos últimos anos. Nomes tão distintos como Luedji Luna, Larissa Luz, Josyara, Teago Oliveira, Vandal e Giovani Cidreira mostraram as grandes potencialidades dessa cena tão diversa. Um panorama musical que também inclui a banda Afrocidade, que tem um dos trabalhos mais interessantes da geração.

A big band de Camaçari, cidade localizada na região metropolitana de Salvador, vem construindo seu percurso de forma mais intensa nos últimos três anos, nos quais tem transitado entre letras de temática política e influências do rap, da música jamaicana e dos ritmos populares e dançantes baianos, como o pagodão. A intersecção de referências entre Afrocidade e BaianaSystem é tamanha que chegava a ser curioso o fato de que os integrantes das duas bandas nunca houvessem dividido um palco até o último sábado, 18 de janeiro, quando Russo Passapusso foi um dos convidados do Afrobaile. O encontro, tão esperado pelo público soteropolitano, resultou num show memorável e lotou o Largo Quincas Berro D’Água, no Pelourinho.

Febre da música alternativa de Salvador desde meados de 2018, o Afrocidade vem trabalhando em seu segundo álbum, que será lançado pela Natura Musical, e movimenta o verão da capital com seu Afrobaile, no qual experimenta canções do disco “Cabeça de Tambor” (2016) e faixas inéditas, como “As Minas Param o Baile”. Neste sábado, o grupo também convidou Nikima, ex-vocalista da Lampirônicos, mas a plateia estava mesmo ansiosa pela presença de Passapusso.

Enquanto o frontman do BaianaSystem não aparecia, a banda de Camaçari colocou o público para dançar junto com os bailarinos Deivite Marcel e Guto Cabral, que rebolavam ao som de hits de autoria do Afrocidade, como “Que Swingue É Esse?”, “Daquele Jeito” e “Tá Mó Barril”. Perto das 23h, uma hora depois de a festa ter começado, Russo foi apresentado e cantou quatro músicas do repertório do BaianaSystem, que ganharam o aporte do peso da percussão de quebradeira da big band, comandada por Eric Mazzone, seu diretor musical. Estava formado o cenário ideal para a catarse dos presentes – um combo que pode vir a se repetir no carnaval.

Ao lado de José Macedo (MCDO) e Fernanda Maia, Passapusso começou com um medley de “Arapuca” e “Calamatraca”, para passar para outro medley, dessa vez de “Capim Guiné” e “Cabeça de Papel”. Chamou atenção como a sonoridade mais orgânica, sem programações e com ênfase na percussão, se aproximou do que o BaianaSystem fazia em seus primeiros anos – ainda que todas as canções tocadas por Russo sejam posteriores ao álbum “Duas Cidades” (2016), no qual o MC, Robertinho Barreto e SekoBass já estão acompanhados dos beats de Daniel Ganjaman e João Meirelles, além da percussão eletrônica de Japa System.

Depois da participação de Russo Passapusso, já se aproximava da meia-noite – horário-limite para os eventos que ocorrem nas praças do Pelourinho. Na saideira, o Afrocidade ainda abriu espaço para uma roda de “pivetes e pivetas metedores de dança” freestyle na quebradeira de “Eu Vou no Gueto” e finalizou com a mensagem política de “Arrocha Dub Bala e Fogo”. Cada vez mais madura no palco, a banda de Camaçari já conquistou Salcity, sua região metropolitana e tem feito shows em festivais fora do estado há um tempo. O salto definitivo está próximo.

– Nelson Oliveira é graduado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, atua como jornalista e fotógrafo, sobretudo nas áreas de esporte, cultura e comportamento. É diretor e editor-chefe da Calciopédia, site especializado em futebol italiano. Foi correspondente de Esportes para o Terra em Salvador e já frilou para Trivela e VICE. 

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