O Terno encerra turnê 2019 e festeja #LulaLivre no Sesc Pompeia

Texto por Daniel Abreu

O ano de 2019 está recheado de lançamentos importantes na música brasileira, trabalhos de alta qualidade que chegaram às lojas e plataformas digitais, como o primeiro disco de inéditas do instigante Jards Macalé em muitos anos, “Besta Fera”, o rap sempre contundente e contestador de Black Alien em “Abaixo de Zero: Hello Hell”, e, ainda “O Futuro Não Demora”, do BaianaSystem, e “Violeta”, do Terno Rei, entre tantos.

Outra banda que também tem “terno” no nome, O Terno, lançou um ótimo disco em 2019, <atrás/além>. Para fechar as apresentações da trupe de Tim Bernardes no Brasil neste ano, os caras fizeram dois shows na comedoria – ou choperia, se você preferir – do Sesc Pompeia com os cerca de 800 ingressos da capacidade do local completamente esgotados (dias 8 e 9 de novembro).

Com cerca de 19 graus na capital paulista e um pouco de chuva, boa parte do público já estava dentro da comedoria quando o relógio apontava 21 horas e 30 minutos. Antes dos meninos entrarem em ação, uma olhadela na plateia deixava transparecer que a maioria dos presentes era bastante jovem. Talvez 16, 17, 18 anos – uma garotada que resolveu sair numa sexta à noite para prestigiar a boa música nacional merece elogio.

Toda essa juventude virou histeria no momento em que Tim Bernardes (vocais, guitarra e piano), Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria e percussão) subiram ao palco acompanhados de um quarteto de metais. Logo de cara eles mandaram “Tudo Que Eu Não Fiz”, faixa do novo trabalho, no qual Tim canta docemente “eu quero ficar velho / eu quero tudo que eu não fiz” para uma plateia extasiada.

O show foi calcado no novo disco, mais da metade do repertorio da noite saiu de <atrás/além>. Com todos vestidos de branco, sentados na maior parte do tempo, a música do O Terno ficou um pouco mais refinada desde “Melhor Do Que Parece”. Isso se tornou ainda mais proeminente no primeiro álbum solo de Tim, “Recomeçar” (2017), com belíssimos arranjos de cordas.

Em entrevista ao Scream & Yell, Tim contou que “essa sonoridade tem muito a ver com o nosso momento presente“. Dessa forma, o lado mais sentimental do trio é mais pulsante nesse novo trabalho e isso se reflete principalmente no show. Músicas que começam minimalistas, ao piano, mas que terminam num crescente catártico. Algo que parece agradar aos fãs. Uma conexão total entre eles e a banda que é quase palpável.

Influenciados por diversos tipos de sons, de Tom Jobim a Beatles, O Terno consegue criar uma música que é fresca para os ouvidos. Ao mesmo tempo em que ela é refinada, também gruda na sua cabeça, como chiclete de menta. Além disso, existe bastante contestação social nas letras. Um grande exemplo é “Passado / Futuro”, uma crítica pontual ao atual presidente da república e o momento conservador que vivemos.

Outro ponto que chamou bastante a atenção na apresentação é o sentimento de amizade que envolve os três músicos. Sempre brincando entre eles, Tim, Gui e Biel soam como grandes amigos que fazem música juntos. É uma relação quase telepática. E isso é um privilégio, sem sombra de dúvidas e eles sabem muito bem disso. A energia ao vivo desses caras é algo ímpar, eles conseguem tornar o que já bom em disco ainda melhor ao vivo. Com mais força e emoção.

Um fato externo ao show também marcou presença no Sesc Pompeia. O ex-presidente Lula foi solto pela Polícia Federal em Curitiba na mesma sexta-feira do show da banda, devido a uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Esse momento histórico não passou despercebido pelo trio, no qual Tim entoou os dizeres “Lula livre” no meio do show, para o delírio da maior parte do público. Ótimo exemplo de que eles não estão fazendo música e se alienando do resto.

O Terno é uma banda que tem uma grande estrada pela frente. Com quatro bons discos no currículo, eles seguem sempre olhando para frente, sempre preocupados em fazer arte, em crescer como pessoas e artistas. São três rapazes que gostam de fazer música, de se divertirem, sem “grilos” de falar de seus sentimentos, incertezas e esperanças para o futuro. No palco, isso tudo funciona a perfeição, e ao mesmo tempo em que o show coloca um ponto final na turnê de 2019, deixa no ar a expectativa do que eles vão aprontar em 2020. O que será que vem por ai, Tim, Gui e Biel?

– Daniel Abreu é jornalista responsável pelo Geleia Mecânica e colaborador do Whiplash. As fotos são da equipe do Sesc Pompeia.

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