Boteco: Sete cervejas de sete países

por Marcelo Costa

Começando uma nova série de cervejas e países pela América Central, mais precisamente pela Cidade do Panamá, capital do país que abriga a Casa Bruja, cervejaria que retorna ao site com sua Sir Francis, uma American Red Ale que exibe uma coloração âmbar levemente turva com creme bege de boa formação e retenção. No nariz, uma interessante combinação de lúpulo herbal trazendo algo de pinho com a doçura maltada tradicional do estilo sugerindo caramelo. Na boca, doçura caramelada suave no primeiro toque seguida de herbal derivado da lupulagem numa combinação deliciosa com o malte e o centeio da receita. O amargor é baixo, a textura é leve com um singelo toque de cremosidade posterior. Dai pra frente, um conjunto bastante saboroso, que honra a releitura American do estilo europeu com lupulagem assertiva, mas sem apagar as características marcantes da malteação. No final, herbal bem leve. No retrogosto, doçura média, herbal suave, caramelo e pinho num bom exemplar do estilo.

Mantendo-se nas Américas, mas baixando aqui pra baixo, vamos para o Rio de Janeiro (re)encontrar uma receita caprichada e colaborativa da 3 Cariocas com a Three Monkeys, a Copacabana 2, que dobra o que havia na excelente primeira versão: 40% de aveia e o dobro de lúpulo. De coloração amarela mais para o palha do que para o dourado e creme branco espesso, bonito, de boa formação e retenção, a Copacabana 2 apresenta um aroma com deliciosas notas frutadas que remetem a abacaxi, manga e pêssego, além de sugerir leve doçura. Na boca, frutado intenso no primeiro toque (abacaxi e manga) seguido de maciez frutada e muita refrescancia. O amargor é aparentemente baixo apesar dos 66 IBUs adiantados pela casa. A textura é macia, deliciosa. Dai pra frente, uma cerveja altamente refrescante, macia, saborosa e bem frutada. No final, frutadinho delicia. No retrogosto, manga, abacaxi, pêssego e refrescancia. Uou!

Do Brasil para a Holanda com mais uma cerveja da Oedipus Brewing, de Amsterdam. Dessa vez, quem surge é a Gaía, uma India Pale Ale cuja receita traz malte Pale Ale e cinco lúpulos clássicos da escola norte-americana: Cascade, Chinook, Columbus, Centennial e Amarillo. De coloração amarela meio dourada levemente turva com creme bege bem claro de boa formação e média alta retenção, a Oedipus Gaía apresenta um aroma com um delicioso frutado tropical sugerindo manga e tangerina sobre uma base delicada de mel e resina. Na boca, tangerina deliciosamente docinha no primeiro toque seguida de reforço de manga e, então, uma pancadinha honesta de 50 IBUs de amargor, que riscam o céu da boca e seguem garganta abaixo. A textura é leve caminhando para o suave com uma discreta picância. Dai pra frente segue-se o perfil de uma bela American IPA, com sugestão deliciosa de frutas e amargor potente, mas não intimidador. No final, leve resina. No retrogosto, manga, tangerina e resina.

Da Holanda para a cidade de Valdivia, na região do Lagos, no Chile, que abriga a Cerveceria Valdivia, responsável pela linha Kunstmann, que em 2016 recebeu o acréscimo desta Session IPa, produzida com malte Pale e Munich e lúpulos Columbus, Citra e Cascade. Com 5% e corajosos 50 IBUs, a Kunstmann Session IPA apresenta uma coloração dourada levemente turva, a frio, com creme branco de ótima formação e média alta retenção. No nariz, uma combinação provocante de notas herbais (grama cortada e capim limão), cítricas (limão) e suavemente resinosas. Na boca, herbal em destaque no primeiro toque reforçando a ideia de capim limão e grama cortada com leve toque de pinho. A doçura do malte é quase imperceptível e as notas cítricas surgem rapidamente e desaparecem sob uma nuvem de resina. O amargor honra os 50 IBUs, e é marcante. Já a textura é leve com certa cremosidade. Dai pra frente, uma Session IPA corajosa, amarga e saborosa. No final, amargor e capim limão. No retrogosto, refrescancia, limão e resina. Uma das melhores Kunstmann que já bebi.

Do Chile para a Espanha com a Imperial Chilli Stout da Nomada Brewing Co, de Sabadell, na Catalunha, uma cerveja cuja receita, extrema, combina os maltes Pale, Caramel, CaraAroma, CaraMunich, Smoked, Abbey e Chocolate com os lúpulos Magnum e Sorachi Ace e adição de Gianduia e extrato de pimenta. De coloração marrom escuro, quase preto, e creme bege de boa formação e média retenção, a Nomada Imperial Chilli Stout apresenta um aroma com o malte tostado sugerindo caramelo e chocolate amargo, percepção delicada da pimenta além de sugestão de alcaçuz. Até ai, o conjunto parece “controlado”, mas as coisas mudam no paladar: o primeiro toque traz sugestão de chocolate seguida de caramelo tostado e, então, uma pancada intensa de pimenta, que amortece a boca do caboclo enquanto risca com fogo a garganta. Esqueça amargor, o calor da pimenta não vai te deixar pensar em mais nada. A textura, por sua vez, é picante, e muito mais de pimenta do que dos 10% de álcool. Dai pra frente, uma cerveja extrema com a pimenta atropelando tudo, mas deixa malte tostado aqui e ali pelo caminho. No final, queimação de pimenta. No retrogosto, fogo.

Da Espanha para San Diego, na Califórnia estadunidense, para mais uma cerveja da Modern Times, desta vez a Fortunate Islands, uma American Wheat Ale cuja receita combina trigo com os maltes Two Row e CaraViena mais lúpulos (clássicos) Citra e Amarillo. De coloração dourada levemente alaranjada com creme bege clarinho, quase branco, de boa formação e ótima retenção, a Modern Times Fortunate Islands apresenta um aroma repleto de sugestões de frutas tropicais (abacaxi, laranja, manga, goiaba) acompanhadas de leve sugestão de doçura de trigo e um toque sutil herbal. Na boca, frutado cítrico no primeiro toque (abacaxi à frente, mas laranja também) seguido de doçura suave, mais frutado e um amargor médio, 46 IBUs que não agridem, mas estão ali encarando o bebedor. A textura é leve caminhando para o suave. Dai pra frente, uma APA clássica, bastante frutada e bem saborosa. No final, abacaxi e manga. No retrogosto, mais frutado cítrico e bastante refrescancia.

Da Califórnia para Copenhague, na Dinamarca, casa da Mikkeller, que tradicionalmente produz suas cervejas na fábrica da De Proefbrouwerij em Lochristi, na Bélgica, primeiramente com uma Berliner Weisse que recebe adição de suco de maracujá e atende pelo nome de Wood Will Fall Down. Trata-se de uma cerveja de coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, muito maracujá e leve doçura de trigo além de intensa percepção de acidez. Na boca, maracujá no primeiro toque seguida no microssegundo seguinte de uma pancada de acidez que honra as Berliners alemãs, causa intensa salivação e alta refrescancia. Como é uma Berliner, o lance aqui não é amargor, e sim acidez, intensa. A textura sobre a língua é frisante, com discreta remissão a sal (algo se Gose, mas tudo bem). Dai pra frente mantém-se o perfil de uma Berliner incrível, saborosíssima e com muita presença de maracujá e acidez. No final, secura, adstringência e maracujá, sensações que se estendem ao retrogosto. Uau!

Balanço
Do Panamá, a Casa Bruja Sir Frances é uma American Red Ale honestíssima, na medida. A 3Cariocas e Three Monkeys Copacabana 2 é uma delicia que só me faz pensar em bebe-la na praia… de Copacabana. Quero. Muito. A Oedipus Gaía utiliza cinco lúpulos batidos da escola made in USA, mas os holandeses conseguem algo novo e saboroso, ainda assim. A Kunstmann Session IPA foi uma surpresa agradabilíssima, pelo arisco de uma Session IPA chilena que não cede ao mercado. Falando em não ceder, a Nomada Imperial Chilli Stout avisa: é uma cerveja pra quem curte pimenta… se você não curte, nem chegue perto. Te contar, é uma pancada de fogo! A Modern Times Fortunate Islands é uma APA tradicional, frutada e bem refrescante. Encerrando com a deliciosa Mikkeller Wood Will Fall Down, uma Berliner digníssima!

Casa Bruja Sir Frances
– Produto: American Red Ale
– Nacionalidade: Panamá
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3.33/5

3Cariocas e Three Monkeys Copacabana 2
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.66/5

Oedipus Gaía
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.50/5

Kunstmann Session IPA
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Chile
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.37/5

Nomada Imperial Chilli Stout
– Produto: Imperial Stout
– Nacionalidade: Espanha
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3.47/5

Modern Times Fortunate Islands
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.39/5

Mikkeller Wood Will Fall Down
– Produto: Berliner Weisse
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 4.2%
– Nota: 4.00/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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