Entrevista: José Palazzo, do Cosquín Rock, um dos maiores festivais da América Latina

entrevista por Leonardo Vinhas 

Quando realizou a primeira edição do Cosquín Rock em 2001, o produtor argentino José Palazzo não desconfiava que seu festival se tornaria um dos maiores de seu país, menos ainda que o evento se internacionalizaria e chegaria a 10 países. Mas foi o que aconteceu: além das 19 edições em seu país natal, o Cosquín Rock chegou também a Uruguai, Paraguai, México, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru e até Espanha e Estados Unidos. Foram quase 2 mil shows para mais de 1,7 milhão de pessoas.

Ainda assim, Palazzo diz, nesta conversa telefônica com o Scream & Yell, que seu festival é “pequeno”. De fato, as edições em outros países são menores que a da Argentina – a próxima, em 4 e 5 de outubro no Uruguai, terá 26 atrações em três palcos, enquanto a “original” tem mais de 100 shows distribuídos em sete espaços. Porém, é difícil encontrar um modelo comparável ao do Cosquín Rock em toda a América Latina.

O festival não é a única ocupação de Palazzo, que também produz a banda de hard rock La Renga – uma verdadeira instituição do rock pesado argentino, cujos shows em solo natal nunca têm menos que 30 mil pessoas. Também opera grandes shows, muitos deles cercados de atenção midiática, como a volta de Charly García aos palcos depois de anos de problemas de saúde e vexames públicos, ou os shows de Don Osvaldo, banda que tem a frente Pato Fontanet, ex-vocalista dos Callejeros, banda cujo show deflagrou a tragédia de Cromañon: 194 mortes (por queimadura ou asfixia) que resultaram em condenações criminais para os músicos, promotores e até gestores públicos envolvidos (Anibal Ibarra, então prefeito de Buenos Aires, foi destituído do cargo por conta das investigações da tragédia).

Ou seja: o empresário está acostumado a lidar com controvérsias e com questões delicadas de opinião pública. Sua postura objetiva, e algumas vezes desafiadora, ajudaram para que sua figura se tornasse quase tão conhecida como muitos dos músicos que tocam em seu festival. Na edição de 2018, vi-o caminhando em meio ao público, e sendo parado por espectadores de todas as idades para assinar um autógrafo ou fazer uma selfie.

Hoje, a edição argentina nem acontece mais na cidade que lhe empresta o nome: Cosquín, uma pequena cidade mais conhecida por abrigar um famoso festival de folclore, deixou de ser sede a partir de 2005, quando passou a acontecer em um povoado ainda menor, a Comuna San Roque. Em 2011, mudou de casa novamente: foi para o Aeródromo de Santa Maria de Punilla, onde está até hoje. Todas essas localidades se localizam nas serras da província de Córdoba, região bucólica que, ao longo do ano, recebe alguns visitantes mais interessados em turismo rural e de aventura do que em riffs e solos.

Estive presente nas edições de 2008 (que rendeu uma cobertura para o S&Y) e 2018. A diferença de estrutura, tamanho, oferta de serviços e amplitude de curadoria eram abissais. Na primeira ocasião, a lama e a comida ruim deixaram lembranças tão fortes quanto os melhores shows; o merchandising era incipiente, e ainda se comercializavam discos em formato físico. Na segunda, uma área muito maior acomodava sete palcos, havia áreas de descanso e opções de comida para todos os gostos (e bolsos), o som não vazava de um palco para outro e a curadoria trazia uma amplitude notável, abarcando diversas variações de blues, reggae, ska, metal, indie, noise, garage, rockabilly, pop, e, claro, rock. A cerveja continuava sendo a insossa Quilmes, mas pelo menos estava gelada e abundavam banheiros, espalhados por todos os cantos. Só a área de imprensa que continuava sendo a mesma tenda precária, mas enfim, que tipo de jornalista cobre festival a partir da área de imprensa?

Uma semana após a realização da edição paraguaia, Palazzo concedeu essa entrevista ao Scream & Yell, que fará a cobertura da edição uruguaia. Objetivo e sem meias palavras, Palazzo repassou a história do festival, explicou porque o Brasil (ainda) não entrou na rota do evento e deu seu aprendizado sobre como lidar com o povo que xinga muito no Twitter.

Cosquin Rock é uma marca internacional, presente em mais países que o Lollapalooza ou o Rock In Rio, por exemplo. Além da questão de branding propriamente dita, qual é a identidade essencial que se observa no evento, onde quer que ele se realize?
O festival nasceu na província de Córdoba, na Argentina, em uma cidadezinha que realizava um tradicional festival de folclore. A essência do nosso festival é a mistura de artistas argentinos com artistas de outros países da América Latina (nota: e eventualmente europeus ou norte- americanos. Deep Purple, Suicidal Tendencies, Ska-P, The Wailers, Rich Robinson, CJ Ramone e outros já tocaram nas serras de Córdoba). A comida, a experiência e a música identificam a experiência do nosso festival. A comida, a experiência e a música identificam nosso festival. Isso é basicamente Cosquín Rock. Obviamente que não vou nos comparar com o Rock In Rio ou com o Lollapalooza por dois motivos: o primeiro é que somos muito menores, e o segundo é que não desembarcamos nos países com toda a nossa “embalagem”, mas chegamos para ir nos instalando aos poucos. Nós fizemos três edições no México, faremos a segunda no Uruguai, fizemos duas no Paraguai, e ainda Chile, Colômbia, Peru, Bolívia, Espanha, Estados Unidos, e em todas entramos paulatinamente, com um mínimo de três palcos, mas não como na Argentina, que são sete. É um festival bem menor que esses que você citou.

Como se dá a curadoria nas edições internacionais? O quanto você influi nela?
Cada edição, dependendo de onde se realiza, conta com produtores locais. O formato do festival e da curadoria está feito da seguinte maneira: por um lado, cada um dos produtores que se associam conosco em cada um dos países, aporta toda sua informação e todo seu conhecimento de mercado e tudo o que gostaria de ter no seu festival, e nós vamos aportando um pouco do que em geral, são as idiossincrasias do festival. Mas é um trabalho mancomunado, no qual o curador local tem protagonismo na hora de selecionar o lineup que quer para o festival.

Ainda sobre esse assunto: Cosquín Rock sempre alia nomes consagrados como novos artistas. Ainda assim, é raro vermos headliners mais jovens. A renovação acontece mais lentamente no rock?
No mundo, mas sobretudo na América Latina, estão aparecendo figuras muito importantes, muito convocantes e muito jovens. Esses vão ser os próximos headliners. Hoje, depois de muitos anos de rock latino-americano, temos nosso rock clássico, e sempre vamos precisar dele, porque nosso festival se alimenta de muita música nova, mas também de clássicos.

Com quase 20 anos de festival, você já encarou vários episódios de resistência e crítica por parte do público. Como você atua para encontrar meio-termo entre o que as pessoas pedem e aquilo que você quer fazer?
Para saber o que as pessoas querem, não é preciso se basear nas questões que movem as paixões. Desgraçadamente, no caso da Argentina, o festival é muito passional, é como se fosse dirigir uma equipe de futebol e você chegasse diretamente no técnico. Então, quando está a banda que algumas pessoas gostam, está tudo bem; e quando não está, está tudo mal. E a verdade é que vamos escutando o que as pessoas que vão ao festival dizem, mas o fazemos através de pesquisas menos visíveis que as conversas de redes sociais. As redes não expõem o que as pessoas querem, e sim o que elas não querem. Ou melhor, o que as pessoas que não vão ao festival querem. Então nós nos ocupamos das pessoas que vão ao festival e as escutamos. Tudo que é crítica positiva, agregamos para construir e melhorar. E o que é crítica destrutiva só usamos como diversão.

Além de Espanha e EUA, o festival passou por muitos países da América Latina, muitos deles com mercados musicais menores que os do Brasil. Ainda assim, o maior país da América do Sul ainda está fora. Quais os fatores que excluem o Brasil da rota do Cosquín Rock?
A primeira etapa do Cosquín Rock na América Latina se deu como uma turnê, e não como ir para os países e aí ficar. Como se aproximavam os 20 anos do festival, pareceu-nos muito bonito celebrar percorrendo a América Latina. Depois nos demos conta de que alguns países meio que se apropriaram do festival. Um dos fatores porque não desembarcamos no Brasil é porque não tivemos ofertas de empresários brasileiros. E também porque a indústria brasileira é tão forte e tão autônoma, e as características da linguagem fazem com que muitos dos artistas com quem trabalhamos não sejam muito conhecidos aí. Porém, de modo algum descartamos a possibilidade de fazer um Cosquín Rock no Brasil. Seria um sonho, e vamos lutar por ele.

Na Argentina, são vários palcos, uma ampla oferta de comida e bebida, um espaço físico enorme. Como oferecer a mesma experiência nas edições internacionais, que são menores?
A comida, a bebida e os palcos variados são mesmo maiores na Argentina, mas no resto da América Latina, temos experiências muito boas. No México, tivemos muita comida mexicana e argentina, muita variedade de bebidas, tivemos experiências com os palcos e outros tipos de atividades. No Paraguai, tivemos mais de 50 postos de alimentação e três palcos, além de uma ativação especial. No Uruguai também vamos ter três palcos e muita, mas muita mesmo, variedade gastronômica.

Especificamente sobre a vindoura edição uruguaia, qual o impacto que ela terá para a cena local?
No Uruguai, vamos montar três palcos e uma grande praça de alimentação em um bosque maravilhoso (Parque Roosevelt, em Canelones, próximo a Montevidéu). Acredito que nossos sócios uruguaios conseguiram uma curadoria incrível, na qual cabem desde artistas super consagrados como Buitres, Agarrate Catalina, Peyote Asesino, La Vela Puerca e No Te Va a Gustar, bem como artistas novos da cena uruguaia que estão comovendo e começando a chamar muita gente. Isso somado a artistas da Argentina, alguns muito importantes, como Babasónicos, Skay y Los Fakires e Guasones, e outros artistas não tão grandes, como os Ojos Locos. É uma curadoria, para mim, dos artistas mais importantes no que se refere a esse aspecto de música roqueira no Uruguai.

O festival é uma operação gigante, que exige demais de quem trabalha nela. Você ainda consegue aproveitar o evento, ou o trabalho não o permite mais?
Eu aproveito, aproveitei e aproveitarei sempre da aventura que é o Cosquin Rock. É um festival que eu vi nascer, e que nas primeiras quatro edições me ocupei pessoalmente da produção geral e de tudo que tinha que ver com segurança e com a montagem do festival. A partir daí, eu fui me metendo cada vez mais na produção. E hoje tenho imenso prazer de que nos lugares que não são Córdoba – como pontualmente nesse caso do Uruguai, ou do que aconteceu há pouco no Paraguai, ou no de Nova Iorque, ou no do México – posso relaxar um pouco mais e curtir. Meu modo de curtir não é ficar de braços cruzados vendo as bandas, mas resolvendo problemas e ficar de olho nas coisas que podem melhorar. Minha curtição passa por ver essas coisas para que o festival do ano seguinte seja maior, mais divertido e mais cômodo para as pessoas.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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