Cinema: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Texto por Marcelo Costa

Antes de começar, uma questão deixada pendente neste primeiro parágrafo: será possível assistir “Bacurau” (2019) sem conecta-lo, de diversas formas, a todos os eventos históricos que colocaram o Brasil no fosso do mundo nos últimos anos? É uma pergunta necessária para encaminhar uma crítica, pois se a resposta for positiva, a sensação de estar diante da grande arte que sobrevive a si mesma e ao tempo é absolutamente inevitável. Se for negativa, temos então uma ferramenta de desespero e raiva, que pode soar esvaziada assim que esses dias tristes terminarem, caminhando então para ser uma jovem peça de museu.

É preciso observar também que nada impede que o novo esforço cinematográfico do diretor Kleber Mendonça Filho, aqui dividindo as tarefas com Juliano Dornelles, seja tanto grande arte como jovem peça de museu, algo que o prêmio do júri no Festival de Cannes apenas apimenta, para o bem e para o mal. E essa contradição talvez seja um dos pontos fortes do filme, que, inclusive, soa original picotando influências e citações (Brian De Palma, Glauber Rocha, John Carpenter, Sergio Leone…). Também cabe ainda brincar que, bem, as questões críticas que se fodam, afinal o Choque de Cultura vai reduzir tudo a uma esquete engraçadinha coalhada de memes, e o que importa, sempre, é: o filme é bom ou ruim?

Resposta fácil: “Bacurau” é bom.

Resposta fácil um tiquinho mais longa: “Bacurau” é bom, mas é masturbação e não sexo, e ainda que seja masturbação criando selváticamente desejo por sexo, não é sexo (nesse momento você pode criar um Top 10 na sua cabeça de filmes que são sexo)…

Aqui também há (novamente) uma interessante contradição: “Bacurau” é um filme fanfic, e nenhuma das duas fanfics que estão de lados opostos no Brasil deste 2019 com jeitão de século 12 está interessada em cinema (um dos lados, inclusive, quer acabar com tudo relativo a cinema e arte em geral – ok, meio ambiente, direitos humanos e por ai vai), mas sim em objetos para levantar bandeiras, inflar o peito e ganhar sobrevida numa guerra midiatica. Desta forma, com olhar envenenado pela busca por empolgação, os buracos da trama passaram despercebidos, e, na verdade, nem importam.

E o Cinema, com C maiúsculo e dourado, dentro disso tudo? Vai bem, obrigado. “Bacurau” injeta adrenalina no público, não percorre caminhos fáceis e promove vários momentos para que o público pense fora da caixinha, algo muito raro numa fase em que os roteiros made in Hollywood são tão “explicadinhos nos mínimos detalhes” que dão vontade de desconectar o cérebro e deixar só os olhos funcionando numa sessão. “Bacurau” não. “Bacurau” exige atenção e reflexão, ainda que ao inflar a torcida faça com que a raiva se sobreponha a razão, e esvazie o sentimento crítico enquanto acaricia a ira.

Agora se pergunte: quantos filmes poderão fazer isso com você em pleno 2019? Poucos, bem poucos.

E a tendência, com o desmonte da cultura perpetrado pelo excrementissimo presidente da república, é que ainda menos filmes ensejem o espectador a algo nos próximos anos. Eis a pegadinha política: quem aparentemente lutava contra “governos ideológicos” está promovendo o mandato mais ideológico que esse pobre país da América do Sul já presenciou em anos e anos de democracia. As fake news venceram a guerra, e o mundo prepara-se para viver uma nova fase, violenta e cruel.

Falado em português e inglês, “Bacurau” se passa no Brasil em um futuro (distópico) não muito distante em que o pais passou a ser dividido em Norte e Sul. No Sul, execuções publicas estão acontecendo no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. No Norte, um caminhão pipa segue com dois passageiros para uma pequena cidade no interior pernambucano que está prestes a sumir do mapa. Na estrada, o caminhão “atropela” caixões e passa por uma escola abandonada. O Brasil de “Bacurau” não está tão longe do mundo pensado por Aldous Huxley em “O Macaco e a Essência”, um livro que imaginava a desgraça da civilização após uma terceira grande guerra mundial.

Bacurau, porém, é uma vila unida no sertão pernambucano que está celebrando a partida de sua matriarca, Carmelita (Lia de Itamaracá). E que precisará se unir ainda mais para combater uma grande ameaça. Junção de faroeste (nordestino) com suspense distópico, ficção cientifica e terror gore, “Bacurau” injeta sangue novo nas veias (abertas da América Latina) e convida o espectador a luta. Como cinema, porém, não repete a quase perfeição de “Som ao Redor” nem a cuidadosa e violenta força poética de “Aquarius”, exibindo falhas que estarão mais visíveis quando a fumaça das queimadas baixarem (ou daqui 10, 20, 30 anos).

Ainda assim, é filme urgente, para ser visto, revisto, comentado e comemorado (antes de virar peça de museus, esses locais condenados ao incêndio e ao esquecimento, talvez o mesmo destino dos cinemas nesse mundo maluco que viveremos no futuro), pois tempos de guerra (virtual que se desmembra para o mundo real) não permitem nenhuma sutileza, e a violência (em qualquer momento da civilização) precisa ser discutida. O futuro é, a cada dia que passa, mais perigoso, mas se você for para Bacurau, apenas um conselho: vá na paz. Se for ao cinema, esteja preparado para o futuro.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

4 thoughts on “Cinema: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

  1. Que bosta de critica!
    Dizer que Bacurau é “masturbação e não sexo” foi o ápice de um texto raso, que se propõe vidente, como se soubesse que o filme vai envelhecer mal daqui a 10 anos.
    Muito bom exercício de futurologia, pena que é só isso!

    1. Acho que com “masturbação e não sexo” o crítico quis dizer que o filme não é tudo o que podia ser. E eu concordo. A ideia é ótima, mas não é explorada plenamente. Os vilões são muito superficiais e óbvios.

  2. Essa verdadeira desgraça de filme é nada mais que propaganda ideológica crua disfarçada em uma das caricaturas mais ridículas que já vi numa sala de cinema. É zero de sutileza, zero de criatividade, metáforas menos que adolescentes e o storytelling mais raso que você possa imaginar. Trata-se de produto de preguiça extrema feito por revolucionários de botequim: queriam “passar uma mensagem”, mas não têm a mínima ideia de como fazer isso em um contexto artístico ou criativo, e muito menos cinematográfico, usando a riqueza daquela linguagem. Não dá nem pra dizer que é um filme desonesto: diretores e roteiristas são absurdamente incompetentes e ninguém se preocupa em disfarçar isso. Infelizmente, é a isso que se reduziu o cinema nacional.

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