Guerras do Brasil.Doc lança luz sobre nosso passado (e presente) sangrento

por Karina Lacerda

O brasileiro é um povo tranquilo que resolve os problemas com deboche e pizza. Bom… não. Na verdade, desde o início da colonização portuguesa, a história da nação tupiniquim é repleta de conflitos armados. Talvez não fosse bem esse o tom das suas aulas de história na escola, mas nosso passado tem muito mais sangue inocente derramado do que costumamos admitir.

A série documental “Guerras do Brasil.doc” (2018), da Buriti Filmes, reúne um time de historiadores para contextualizar e tentar explicar como a força bruta falou mais alto que a razão em diferentes épocas.

São cinco episódios de 26 minutos dirigidos por Luiz Bolognesi, roteirista de alguns dos mais bem sucedidos filmes do cinema nacional recente, como “Bicho de Sete Cabeças” (2001), “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), “Elis” (2016), “Bingo, o Rei das Manhãs” (2015) e “Turma da Mônica – Laços: O Filme” (2019).

Não é a primeira vez que Bolognesi se envereda sobre conflitos: em 2002, em parceria com a cineasta Laís Bodanski, ele contou a história da revolução de 32 no documentário “Guerra dos Paulistas” (cujo saldo foram milhares de mortes e um feriado estadual).

Em 2010, em co-produção com a TV Brasil, roteirizou e dirigiu com Sérgio Augusto “Lutas.Doc” uma série de cinco documentários sobre violência e seus contextos no Brasil, com entrevistas de especialistas e figuras centrais na história recente do país como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

“Guerras do Brasil” já foi exibida pelo Canal Curta. Mesmo não sendo uma produção original Netflix, é uma ótima iniciativa disponibilizar documentários brasileiros – BEM FEITOS – no serviço de streaming: traz visibilidade para a produção nacional e ajuda na formação de público para esse tipo de narrativa que nos ajuda a entender mais sobre nós mesmos e o país que habitamos e que é muito mais envolvente do que uma aula expositiva do ensino médio. O jornalismo é laico, mas Deus sabe o quando andamos precisando de umas revisões históricas…

01) “Guerras da Conquista”
O primeiro da série conta como índios e “brancos” disputaram e ainda disputam terras no Brasil, com direito a depoimento de Sônia Guajajara. Começa lá na invasão e colonização da Ilha de Vera Cruz, mais de 500 anos atrás, e segue em frente até os dias de hoje, com a população indígena, nativa desta terra, sendo, através dos anos, evangelizada, dominada, explorada e dizimada.

02) “Guerras de Palmares”
O segundo episódio é um tapa com luva de pelica no rosto de quem defende que não existe racismo no Brasil, que preconceito é coisa da sua cabeça. Na pauta, a resistência dos Quilombos, o nascimento de Palmares e quem foi Zumbi. Spoiler: as ilustrações do episódio foram feitas por Marcelo D´Salete, professor e quadrinista vencedor do Eisner, o Oscar dos quadrinhos, pelo seu trabalho em “Cumbe”, que fala sobre a escravidão no Brasil.

03) “A Guerra do Paraguai“
O terceiro episódio conta um dos mais infames episódios da nossa história, o maior conflito armado da América do Sul. Foi travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, composta pelo Brasil, Argentina e Uruguai, estendendo-se de dezembro de 1864 a março de 1870. Você vai agradecer aos céus que não havia imagens reais de época pra ilustrar os depoimentos.

04) “A Revolução de 1930”
O fim da política do café com leite, revolta de militares de baixa patente e a ascensão de Vargas são o tema de “A Revolução de 1930”, com participação do historiador e cientista político Boris Fausto, autor de obras seminais da história nacional, membro da academia brasileira de ciências e figurinha recorrente no ótimo podcast da Folha de São Paulo “Presidente da Semana”, produzido pelo jornalista Rodrigo Vizeu no ano passado.

05) “Universidade do Crime”
O tema mais contemporâneo ficou para o último episódio: “Universidade do Crime” mostra como criamos a terceira maior população carcerária do mundo e porquê isso não tem como dar certo a curto, médio e longo prazo. Os autores de “A Guerra – A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil”, os pesquisadores Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias fazem parte do time de entrevistados.

– Karina Lacerda (@naoeakazinha) é jornalista, trabalha na TV Cultura.

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