Entrevista: Vanguart homenageia Bob Dylan

entrevista por Bruno Lisboa

Com trajetória iniciada em 2002 em Cuiabá, o Vanguart construiu até aqui uma das carreiras mais bem sucedidas no cenário independente nacional deste século. O álbum de estreia, autointitulado, foi o abre-alas, consolidando sucesso de público e de crítica, sendo eleito o disco do ano nos Melhores de 2007 no Scream & Yell. Após outros três discos autorais, o quarteto se enfurnou no estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2018, junto do produtor Rafael Ramos para registrar seu primeiro álbum não autoral: um tributo ao mestre Bob Dylan.

Uma das paixões musicais assumidas da banda desde seu início, “Vanguart sings Bob Dylan” é fruto da experiência prévia ao vivo adquirida nos palcos e de um especial feito para TV, que prepararam o terreno para que o grupo gravasse as versões presentes no álbum. As 16 canções registradas foram gravadas ao vivo e perpassam por várias fases de Dylan, trazendo também à tona hinos diversos como “Hurricane”, “Blowin in the Wind”, “It´s All Over Now, Babe Blue”, “One More Cup a Coffee” e “Like a Rolling Stone”, entre outros.

Hélio Flandres fala sobre a experiência de gravar um disco com intérprete, a seleção do repertório e a atemporalidade das letras de Dylan (“Vivemos tempos nefastos como nunca vivemos, mas que nossos velhos ídolos já viveram no passado. É muito louco sentir na pele o que Dylan, Nina Simone, Pasolini, Brecht viveram… com as devidas proporções, tem-se ainda mais noção do quão difícil é falar poeticamente de um mundo rachado, de um conservadorismo que varre as ideias e um ódio que oprime e mata milhões”), independente e mainstream, longevidade, realizações e… Walt Whitman.

“Vanguart sings Bob Dylan” é a primeira incursão indireta da banda na ala dos intérpretes. Como foi esta experiência?
O álbum nasceu de forma muito natural, pois já havíamos tocado Dylan em várias outras situações. No início da banda, entre 2004 ou 2005, eu já brincava com alguns temas solo, ou com a banda, e posteriormente, em 2010, por conta de um projeto do Sesc Pompéia, tivemos a primeira apresentação apenas com músicas do Dylan. Esse show, inclusive, marca nosso primeiro show com a Fernanda Kostchak (violino). Na época que estávamos ensaiando nosso amigo Zé Mazzei (Forgotten Boys) disse: “Tenho uma amiga que toca o ‘Desire’ inteiro!”. Então convidamos ela pra ensaiar e fazer esse show, e a química entre nós no palco foi tão gigante que meses depois ela estava trabalhando conosco nas canções do nosso segundo álbum, “Boa Parte de Mim Vai Embora” (2011). Nos anos seguintes, acabamos fazendo esse show em outras ocasiões, especialmente no Sesc Santana, onde também acontecem os shows de lançamento do álbum, nos dias 5, 6 e 7 de Julho. Foram vários dias tocando repertórios diferentes, o que nos permitiu testar bastante coisa. Por fim, no ano passado, gravamos o programa Versões, do Canal BIS, e foi ali que nosso grande amigo e produtor Rafael Ramos, da DeckDisc, deu a ideia de transformarmos aquilo que já estava pronto em álbum.

Dylan tem uma discografia extensa e repleta de fases distintas. Este disco tributo, a sua maneira, procura percorrer por vários caminhos. Como se deu a seleção do repertório?
Na verdade esse disco acabou percorrendo um caminho muito mais afetivo nosso do que propriamente didático acerca do Dylan, tanto que basicamente todo o repertório foi lançado por ele até o ano de 1975, com exceção apenas de “Make You Feel My Love”, de 1996. Logicamente pensamos que podemos estar de certa forma “apresentando” o Dylan para alguns fãs jovens do Vanguart, então canções emblemáticas como “Like A Rolling Stone” e “Ballad of a Thin Man” estão ali de forma quase obrigatória, mas sempre natural também.

De modo geral vocês optaram por retrabalhar os arranjos das músicas, inserindo a marca do Vanguart, mas também se mantiveram próximos aos originais. Vocês encontraram dificuldades nesta transição?
Acho que não pensamos tanto em “inserir a marca do Vanguart”, pelo menos não conscientemente. Me lembro de ter evitado ouvi-lo meses antes de gravar, porque as canções já estavam interiorizadas e queria tentar me afastar um pouco dele, por isso é até difícil identificar onde o arranjo se aproxima, no geral, das originais. Existem algumas exceções como “I’ll Keep It With Me”, que nos baseamos na linda versão da Nico, do álbum “Chelsea Girl”, de 1967, e “House of Risin’ Sun”, que inevitavelmente bebe em Animals e Nina Simone. Mas no geral as músicas do Dylan tem esse modelo folk, harmonicamente falando, com repetições das estrofes, o que permite grande liberdade de interpretação. Certamente se estivéssemos gravando Beatles, por exemplo, teríamos o triplo de dificuldade para resolver certas coisas dentro das músicas, com Dylan foi muito fácil, natural, prazeroso. Tivemos basicamente dois ensaios onde tocamos uma vez cada música porque sabíamos que o melhor aconteceria no estúdio, então tive cuidado e pedi para não “gastarmos” nossa espontaneidade preparando algo “perfeito demais”. Quem conhece Dylan sabe que ele nunca tocou nenhuma canção da mesma forma duas vezes, então nos permitimos descobrir momentos, moods, e acabamos gravando o álbum 95% ao vivo, voz e violão junto, todos os instrumentos ao mesmo tempo, a maioria das canções sem metrônomo. Foi um processo muito livre.

Dylan têm como marca letras atemporais. De certa forma parte do repertório selecionado em – “Vanguart sings Bob Dylan” traz a tona esta característica. Como vocês vem os nossos tempos e como Dylan se encaixa nesta realidade?
Acho que vivemos tempos nefastos como nunca vivemos, mas que nossos velhos ídolos já viveram no passado. É muito louco sentir na pele o que Dylan, Nina Simone, Pasolini, Brecht viveram… com as devidas proporções, tem-se ainda mais noção do quão difícil é falar poeticamente de um mundo rachado, de um conservadorismo que varre as ideias e um ódio que oprime e mata milhões. Isso só prova que esses artistas são mais atuais do que nunca e que as doenças do mundo não mudaram tanto. Ademais, é interessante notar como Dylan esteve sempre à frente até mesmo dos cantores de protesto de sua época, com uma sagacidade poética muito sofisticada, talvez não falando sobre a guerra, mas fazendo a gente refletir mais profundamente sobre ela.

Novamente vocês tiveram o Rafael Ramos como produtor do disco. Qual a contribuição que traz para o trabalho do Vanguart?
Nós sempre tivemos um processo caótico de criação e de gravação, coisa de gente que se conhece há muito tempo, então o Rafael ajuda muito a organizar o material que levamos e objetivar isso pra termos um álbum coeso. A experiência dele funciona pra nós em vários sentidos, é um produtor que eu poderia ter pro resto da vida.

“Estive” (do álbum “Muito Mais Que Amor”, 2013) entrou recentemente como parte da trilha sonora da série global “Shippados”. Acredito que o fato de ter uma música veiculada numa grande emissora de TV faça com que vocês alcancem um novo público. Como tem sido esta receptividade? Vocês acham que se faz necessário um maior diálogo entre as mídias para que o trabalho de bandas independentes ganhe em visibilidade?
Tem sido muito boa a receptividade, e ficamos ainda mais felizes porque nos identificamos de verdade com a série. Vi ali uma beleza poética delicada, me identifiquei com os personagens, que anteriormente eu poderia chamar de “desajustados”, pois é totalmente um espelho de como éramos na adolescência, mas que hoje fico muito feliz de ter sido assim. Acredito que esse abismo entre indie e mainstream sempre existirá, mas que sempre alguns conseguirão içar uma passarela onde conseguiremos atingir as pessoas que, SIM, estão querendo ouvir bandas como o Vanguart, a Maglore, a Dingo Bells, e tantas outras que a gente gosta.

A banda tem 17 anos de estrada. Qual o segredo da longevidade?
Acho que nunca pensamos exatamente em longevidade… se pensássemos talvez não estivéssemos mais aqui. Acho que no fundo sempre colocamos os objetivos, tudo que construímos e a vontade de fazer música à frente das outras coisas. Tivemos e ainda teremos alguns momentos ruins, mas tivemos e teremos tantos momentos bons que seguimos fazendo. Ainda há um grande sentido em estarmos juntos. Esse disco do Dylan foi um carinho e tanto pra nós.

Quando vocês olham para trás e veem o que alcançaram vocês se dão por satisfeitos? Há algo que vocês ainda não realizaram?
Quando eu olho para trás eu vejo que temos uma trajetória tão bonita. Me orgulho muito do que somos, e acho que temos muito ainda a fazer, pelo simples prazer que ainda existe em tocarmos juntos. Finalizo com alguns versos do meu poeta favorito, Walt Whitman: “Hoje, antes do amanhecer, eu subi numa colina e contemplei o Paraíso lotado, e eu disse pro meu espírito Quando nos tornamos os donos dessas esferas, do prazer e do conhecimento de cada coisa que elas possuem, estaremos por fim satisfeitos e realizados? E o meu espírito disse: não, vencemos essa etapa só para seguir adiante”.

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Juan Pablo Mapeto / Divulgação

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