Ao vivo: Living Colour em SP

Texto por Leonardo Vinhas
Fotos por Fernando Yokota

“Vivid” (1988) é o álbum que definiu o som do Living Colour. Ou melhor: definiu como sempre nós nos lembraremos da banda (pelo menos, “nós” que temos idade para lembrar-se de quando a banda surgiu). Por mais que seu sucessor (“Time’s Up”, de 1990) tenha os hits mais emblemáticos (“Type”, “Elvis Is Dead” e “Love Rears Its Ugly Head”, além de “Pride” e “Solace of You”), foi “Vivid” quem nos mostrou de uma forma pra lá de convincente o quanto aqueles quatro caras eram bons (e bote ênfase nesse “bons”).

Só que, para muita gente, o Living Colour que existe na memória é esse mesmo dos dois primeiros álbuns, e só. É uma galera que começou a perder o interesse na banda quando eles lançaram o confuso “Stain” (1993), e que, dos discos que vieram depois (“Collideoscope”, de 2003; “The Chair on The Doorway”, de 2009; e “Shade”, 2017), no máximo se lembram dos covers entre o interessante e o esquisito que colocaram no tracking list e não saberiam citar de memória, quanto mais identificar, qualquer uma das faixas autorais que pintou por ali.

Então, não é surpresa nenhuma que no show que a banda fez no Tropical Butantã, em São Paulo, no dia 14 de junho, a plateia fosse composta majoritariamente por pessoas que aparentavam ter mais de 40 anos (este repórter incluso). Apesar de um “hiato” entre 1995 e 2000, o Living Colour está aí até hoje, mas não parece ter angariado muitos fãs jovens por aqui.

Mais que isso, o show era parte da turnê comemorativa de 30 anos (agora 31) de “Vivid”. E como a banda já havia tocado no Brasil no ano passado, dava para entender porque a casa estava com um bom número de pessoas, mas ainda com espaço mais que suficiente para se transitar sem atropelos ou conseguir achar um lugar para ver o palco sem ter a visão prejudicada pelos celulares daquela gente impotente de alma que só consegue viver a partir do registro de seus aparelhinhos (minoria entre os espectadores da noite, diga-se).

Ou seja: em um lugar confortável, com boa estrutura e um público que estava ali para de fato ver a banda, não tinha como a festa ser ruim. E não foi: deu para dançar, bater cabeça ou simplesmente ficar parado apreciando o que Corey Glover (voz), Vernon Reid (guitarra), Will Calhoun (bateria) e Doug Wimbish (baixo) sabem fazer de melhor. Mas show sempre ajuda a pensar um pouquinho sobre o que as pessoas que estão no palco representam.

“Vivid” foi tocado na íntegra, com as faixas na mesma ordem do disco, e a duração estendida por conta dos longos solos a que todos os quatro têm direito – incluindo Corey Glover, que força a barra do oversinging na introdução à “Open Letter (To a Landlord”), numa performance que faz mais jus a um candidato do The Voice do que ao grande cantor que ele é. Além do álbum homenageado, três outras faixas antes e três depois. Essas 17 faixas, mais o longuíssimo (e chatíssimo) solo de bateria e percussão eletrônica de Will Calhoun após “Which Way to America?”, renderam mais de duas horas de show, de modo que muita gente foi saindo antes do final, para não perder o metrô (que, para piorar, funcionava parcialmente devido à greve contra a reforma da previdência).

Desses “extras”, o fim teve os três maiores hits de “Time’s Up”: “Love Rears…”, “Elvis Is Dead” e “Type”. Mas o começo foi mais interessante: a pesadona versão de “Preachin’ Blues” (Robert Johnson) abriu a noite, sucedida por “Who Shot Ya?”, (outro cover, esse de The Notorious B.I.G.) e pela autoral “F.O.X”. “Who Shot Ya?” foi dedicada por Vernon Reid “à ativista Marielle Franco”, para delírio da maior parte do público – havia uma meia dúzia de vozes solitárias berrando contra com todos os palavrões possíveis, e deve ter muita gente que gastou uns segundos pensando porque esse tipo de gente vai ao show de uma banda formada por negros queers. Deve ser o mesmo tipo de cidadão que reclamou do show do Roger Waters ser “político”. Mas enfim.

Evidentemente, “Cult of Personality” introduziu o álbum homenageado, e já deixa evidente o quanto será refrescante ouvir as canções de “Vivid” sem a sonoridade datada que a produção de Ed Stasium conferiu ao álbum. Só “Memories Can’t Wait”, a famosa versão do Talking Heads, desacelera além da conta e soa inferior à gravação de 1988. Mas fora isso e os já citados exageros em “Open Letter”, tudo o mais funciona melhor que há 31 anos – “Broken Heats”, em especial, perde a grandiloquência e ganha em sutileza, enquanto o groove de “Middle Man” e “Funny Vibe” fica ainda mais solto.

O show é um apelo à nostalgia? Claro que sim! Como é o caso de toda e qualquer “turnê comemorativa” do que quer que seja. E por que parece funcionar melhor que tantos outros caça-níqueis que passam pelos palcos? Porque existem coisas na arte que não são mensuráveis, e “entrega” é uma delas. Por mais que saiba estar jogando para “animar a geral”, o Living Colour nunca soa burocrático ou apenas “profissional”. Mesmo com as repetições e os eventuais exageros, no palco o Living Colour nunca deixou de fazer jus à fama conquistada por aqui com aquele show em 1992.

A banda não tem entregado nada de novo, e quando tenta, mais erra que acerta. Mas quando olha para si mesmo como a grande banda de hard rock que é – uma banda, aliás, que foi nutrida com muito jazz, soul e funk antes de optar subir o volume de seus instrumentos – o Living Colour supera de longe qualquer um de seus contemporâneos que se arrastam mundo afora ganhando a vida às custas de shows protocolares e truques fáceis. O Living Colour parece ter sacada que só é bom em um tipo de coisa, e decidiu fazê-la muito bem feita. Já está de ótimo tamanho.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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