Três livros: “Ingresia”, “Os Salgueiros” e “Os Caminhos Para a Liberdade”

Resenhas por Adriano Mello Costa

“Ingresia”, de Franciel Cruz (P55 Edição)
Franciel Cruz nasceu na pequena Irecê, na Bahia, e ainda adolescente se mudou para Salvador onde virou torcedor apaixonado do Vitória e seguiu na sina de pecar e ficar do lado dos deserdados como ele mesmo diz. Com publicação da P55 Edição e viabilizado através de financiamento coletivo em 2018, “Ingresia” é o primeiro livro do jornalista e faz um compêndio de crônicas publicadas em jornais, revistas, redes sociais e blogs. Insere constantemente um humor cortante e muita ironia em textos que utilizam gírias regionais e palavrões e que frequentemente conversam diretamente com o leitor sobre música, carnaval, política, desigualdade econômica, exclusão social e segregação racial no estado que tanto ama e defende. Achincalhando tudo e todos (inclusive si mesmo), o autor apresenta um olhar revelador sobre a Bahia que, por conseguinte, podemos estender para o Brasil nos escritos mais acintosos e sérios. Entre causos, memórias e um punhado de histórias preenchendo o recheio, Franciel atravessa da galhofa pura e mordaz para a acidez mais crítica sempre tratando o leitor como um parceiro de copo no meio de um boteco qualquer da primeira capital do país que trata visitantes da melhor e mais lúdica maneira enquanto destrata os habitantes locais por conta de cor, classe social ou local de moradia. Entre as mais de 90 crônicas espalhadas nas 260 páginas do livro, algumas das mais interessantes são as que falam da música e do amor do autor por nomes como Luiz Gonzaga, Odair José, Gilberto Gil, Lazzo Matumbi e Belchior.

Siga o autor no Twitter: https://twitter.com/fsmcruz

Nota: 7

“Os Salgueiros”, de Algernon Blackwood (Editora Empíreo)
Dois amigos se aventuram pelo extenso Rio Danúbio em uma pequena embarcação apreciando as paisagens e conhecendo novos lugares num ritmo lento e tranquilo de aventura. Ao atracar para passar a noite em uma ilha pequena afastada de tudo, o cenário passa a mudar e pequenas coisas vão acontecendo aqui e ali lentamente o que leva os dois a perceberem (ainda que de modo relutante em certos momentos) que não estão sozinhos como imaginavam, existe alguém ou algo circundando temerosamente ao redor. Esse é mote de “Os Salgueiros” (The Willows, no original), obra clássica do britânico Algernon Blackwood (1869 – 1951) publicada pela primeira vez em 1907 e que H.P Lovecraft considerou como “a melhor weird story que já lera”. A editora Empíreo fez uma cuidadosa edição nacional bilíngue e ilustrada que passou por um processo de financiamento coletivo e saiu esse ano com capa dura, 152 páginas e tradução conjunta de Stefano Danin e Anna Civolani. Com um texto elegante, o autor insere gradativamente o medo, um medo que não tem forma, não se exibe, não se apresenta para que o leitor possa ter um alvo a quem destinar o foco. É um medo do desconhecido que aparece sem explicação podendo tanto ser uma pessoa, um animal, um alienígena ou forças sobrenaturais que não se tem a mínima ideia do que sejam. A escolha dos salgueiros na paisagem natural tanto do caminho navegado quanto na própria ilha aumenta ainda mais a sensação desse pânico silenciado explorado habilmente pelo autor.

Nota: 7,5

“The Underground Railroad – Os Caminhos Para a Liberdade”, de Colson Whitehead (Harper Collins Brasil)
Este é o livro que deu ao escritor Colson Whitehead o consagrado prêmio Pulitzer de 2017. Publicado nos EUA em 2016, “The Underground Railroad” ganhou edição nacional pela Harper Collins Brasil no ano seguinte com 320 páginas e tradução de Caroline Chang. Ambientado no século XIX, a trama assume ao pé-da-letra a história da “ferrovia subterrânea” – uma rede constituída por brancos e negros livres que ajudava escravos que fugiam a migrar para as terras livres do país ao norte – e cria nas páginas efetivamente uma estrada com trilhos funcionando debaixo da terra. Usando a jovem Cora como protagonista, nascida escrava em uma fazenda de algodão, onde sua mãe também era escrava, assim como a avó, o autor traça uma narrativa muito bem escrita de um período histórico para lá de sombrio. Withehead, que esteve no Brasil para a Flip 2018, constrói uma trama que ao cortar os estados americanos provoca sentimentos diversos ao leitor tais como a raiva pelos atos cometidos e a emoção pelas parcas vitórias conseguidas. É uma constante ficar inquieto na leitura, largar um pouco as páginas para respirar ao mesmo tempo em que se envolve mais e mais com os personagens. Passagens como a estadia de Cora trabalhando em um museu enquanto tem um pequeno alívio na fuga ao caçador de recompensas no seu encalço, como também o final apresentado exibem situações (ainda mais) revoltantes, situações que se olharmos com precisão infelizmente não estão tão distantes assim dos nossos dias.

Nota: 8,5

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop ( http://coisapop.blogspot.com.br ) e colabora com o Scream & Yell desde 2009!

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