Entrevista: Letrux

entrevista por Pedro João

Letícia Novaes estava completamente chocada que, no camarim do Lollapalooza Brasil 2019, tinha Trident. “Eu sempre ando com Trident e os meninos toda hora pedem para mim. Aí acaba rápido porque eu sou a única que traz. Agora, aqui tem um monte de Trident, gente. Não consigo acreditar. Vocês querem um?”, ofereceu rindo. Nitidamente feliz pelo show que tinha acabado de fazer no Palco Adidas – “acho que foi um dos nossos melhores da vida” -, ela abriu uma garrafa de vinho e foi bebericando enquanto conversava com o Scream & Yell.

Da montação que vestiu no show, sobraram apenas algumas manchas do delineador vermelho. A performance da carioca realmente não deixou pedra sobre pedra – quem leu aqui a resenha sobre o show de um ano do disco já tinha uma ideia do que poderia acontecer. Tendo apenas 45 minutos para celebrar o repertório do seu misterioso e apaixonante “Letrux em Noite de Climão” (2017), ela fez de tudo: lambeu microfone, virou de ponta-cabeça, dançou freneticamente, jogou água no rosto e, entre uma música e outra, inseriu frases de protesto que passaram por mensagens de apoio ao ex-presidente Lula – hoje, preso -, gritos de “Fora Bolsonaro!”, lembrança do assassinato da vereadora Marielle Franco e suporte a causa trans.

“Eu encaro o palco sempre com o mesmo frissom do meu primeiro show. Minha barriga em chamas, meu coração entregue. Eu entrego minha vida. Se eu tiver que tomar um choque, se eu tiver que tomar um raio, se tiver que morrer em cena à la Cacilda Becker, eu vou morrer. Porque eu tô assim, nada mais importa. Eu tô ali, eu dou tudo”, confidenciou no camarim durante uma conversa em que, durante vários momentos, ela passou de entrevistada a entrevistadora para finalizar “entregando” o tema que inspira o vindouro segundo disco: se emocionar. Acompanhe!

Como é levar a noite de climão para uma tarde de climão no Lollapalooza?
Cara, eu sou mais diurna, né? Claro que o disco se chama Em Noite de Climão e eu me coloquei nessa situação noturna. Mas eu, Letícia, sou uma pessoa diurna, com certeza. Eu adoro o dia, a praia, o sol. No entanto, imagino que fui por esse caminho exatamente porque ele está fora da minha zona de conforto. Era um lugar de investigar: “Que zona sombria é essa?” Fazer uma tarde de climão é maravilhoso porque tem a luz do sol… Uma hora, até, passou um avião! Eu perguntei: “Será que o avião tá vendo a gente?” Porque eu olho muito pela janela do avião, fiquei pensando: “Será que o avião viu o pessoal no Lollapalooza?”, umas loucuras. E foi bom também porque acho que as pessoas ainda estão não tão cansadas… Então, foi tranquilo fazer Letrux em tarde de climão. A galera é solar, a gente curtiu. Foi um dos nossos melhores shows. A gente saiu de lá boquiaberto, “o que aconteceu aqui?”, a gente mandou bem. E, em geral, a gente não sai assim. É sempre “ai, a gente errou ali, né? Aquela hora deu ruim, né?”. Eu, então… Capricorniana com ascendente em virgem, eu me chicoteio o tempo todo, Brasil. Curiosamente, hoje eu falei assim: “cara… Acho que eu mandei bem! Rolou…” Acho que a gente tem que parar de falar o preço da roupa quando fala que tá bonito, sabe? “Cê tá linda”, “Ah, foi R$ 19,90”. Não, não pode ser assim! Tem que falar: “obrigado!” E fim.

Com o tempo que passou, como você está olhando para o Climão agora?
Eu sou uma pessoa muito pouco efêmera, né? Eu sou profunda, só tive dois relacionamentos e eles duraram anos. Respeito quem tem relações mais efêmeras, mas eu não consigo. Então, de alguma maneira, eu fiz uma macumba sem querer ao fazer esse disco ter como primeira música “Bota na cabeça que isso aqui vai render”. É muito forte essa coisa de cantar. O canto é uma coisa que afirma e que coloca. Você cantar no planeta Terra uma frase, você está jogando isso no mundo… Então, eu mesma me avisei. “Bota na tua cabeça que isso aqui vai render” e está rendendo! Claro que tem dias que você fica: “Ai caraca, calma, calma, desconectei. Volta, volta!” Eu morro de medo de entrar no automático. Acho que é por isso que eu sou tão aberta ao público, porque o público me dá o ineditismo. Se eu toco em João Pessoa, se eu toco em Portugal, é um novo público. Por isso é que eu sou uma cantora de olho muito aberto. É uma nova cara que está ali, uma nova pessoa gritando. Meu pai tem um centro espírita e eu queria tomar um passe, recentemente, para proteção. Aí, o Preto Velho falou para mim que eu dou muito para as pessoas e que é óbvio que elas vão dar muito para mim, também. Não tem como eu ficar achando que eu vou sair de um show desses e as pessoas vão ser fofas. Se eu me doei tanto, suor e lágrimas, é claro que isso volta. Teve um momento que eu até pensei: “nossa, tá muito intenso”, mas deixa eu abraçar esse novo lugar. Eu gosto disso. A Clarice [Lispector] tem isso: “A repetição do enigma é a solução do enigma”. Toda vez que eu cantar esse disco, eu vou descobrir novas nuances. Um novo significado. “Que estrago que você fez lá na minha cama”, sabe? Eu vivi muita coisa desde que o disco saiu. Fiz várias tatuagens, meu corpo tem um novo peso.

Falando em tatuagens, eu tive exatamente essa sensação de ressignificação quando você cantou “Além de Cavalos”…
Desde que você ouviu o disco?

É, total.
O que você sentiu?

Cara, (risos). Foi engraçado, porque quando eu ouvi pela primeira vez eu pensei comigo: “do que que ela tá falando?” Eu acho que eu não entendi!
(risos), amo! Amo esses depoimentos! “Não entendi o que essa menina falou.” Prefiro isso do que alguém que afirma categoricamente: “Ela está falando sobre X, Y, Z.” Eu fico: “What?” Prefiro alguém que me “second guess” do que alguém que imediatamente assina embaixo. Me dá muito medo gente que acha que sabe do que eu estou falando. Sendo que a vida é muito mais aberta à interpretação, amei. Amei que você não sabia.

Pois é, e daí hoje parece que bateu diferente. Foi quando você começou a cantar, mas agora acho que não vou conseguir lembrar exatamente.
Vai dar trabalho cobrir essa tinta… (cantando)

Ai, é isso! Esse peso que tem o trabalho. A coisa do esforço, que não é uma bobagem tirar uma tatuagem assim como não é fácil tirar alguém da nossa história.
Sim, exatamente. Vale tanto para o laser que tira a tatuagem como a ideia de se livrar de alguém que nos marcou profundamente, meu bem: “Não é fácil”, como canta Marisa Monte, “Não é fácil não pensar em você”. Não é um laser que vai apagar alguém da sua vida. Você sempre vai ver a sombra da tatuagem. Essa pessoa, né? Esse significado… Ai, nossa, a gente vai chorar. Que barra, Brasil, que horror (risos).

As coisas não saem da gente de bobeira, né?
Não saem. Queria ser efêmera, nessa hora.

Sobre performance, qual é o papel dela na sua carreira? Quando veio a fixação e esse “chamado” para fazer shows?
Outro dia, eu lembrei que vai fazer 14 anos – dia 10 de abril – que eu fiz o primeiro show da minha vida. Em 2005, eu e minha bandinha de rock da Tijuca. Já tinha cantado no Teatro, em roda de violão, para a família… Mas um show, mesmo, foi ali: 14 anos atrás. E eu lembro – não como se fosse hoje, porque sou sequelada – do dia que foi esse show. Lembro de eu ter um feromônio, uma ocitocina, que me deixou perplexa. Eu senti uma parada assim, que não tinha volta. Brotou um bicho que já estava dentro de mim que falou: “Oi Leticia… Vou ficar aqui, do ladinho do seu estômago, do seu intestino, estarei aqui sempre.” São 14 anos fazendo show. 14 anos com vontade de fazer cocô. Só não caguei aqui no Lolla porque é de manhã, então fiz cocô no hotel. Mas, se o show é de noite, eu faço cocô em todos os lugares de tanto que minha barriga vive e sente o nervosismo do palco. Porque eu não consigo acreditar! “Essas pessoas gostam de mim?”, “As pessoas vão ouvir o que eu tenho a dizer?” E, tem uma coisa que eu preciso dizer: “Artistas, não acreditem tanto em vocês… Sempre duvidem de si.” Acreditar em si é uma armadilha do ego. Claro que precisamos fortalecer nossa autoestima, mas isso é outra coisa. Sempre se questione, se duvide, se veja como os outros te vêem também. Deixa eu ver a visão de todo mundo… Eu sempre sou prolixa, desculpa. Mas, é isso, eu gosto de encarar o palco com esse frisson do dia 10 de abril de 2005 e se perguntar: “Que porra é essa?!”. Minha barriga em chamas, meu coração entregue. Eu entrego minha vida. Se eu tiver que tomar um choque, se eu tiver que tomar um raio, se tiver que morrer em cena à la Cacilda Becker, eu vou morrer. Porque eu tô assim, nada mais importa. Eu tô ali, eu dou tudo. E ainda assim, muito capricórnio, sempre entendendo tudo. Se alguém levantar uma placa: “Termina o show!”, “Quer água?”, eu vejo. É uma coisa que eu não sei explicar. Eu tenho déficit de atenção e multi atenção. Enfim, capricórnio, mistérios…

Queria saber dos seus outros projetos também, para além do Climão. Como está a produção do novo disco? Tem os shows que você fez em paralelo… Aliás, que coisa mais linda, o “Línguas & Poesias” [série de shows sem o repertório do Climão, com um mix de poesia recitada e músicas tocadas com voz, piano e vibrafone].
Cê foi? Aonde?

No Sesc Ipiranga!
Que lindo! Você amou?

Eu chorei do começo ao fim.
Eu também (risos). Do que você mais gostou?

A hora do Radiohead traduzido para o português foi realmente intenso… E o momento do poema “É preciso aprender a ficar submerso por algum tempo” também foi forte. Aquele poema é bonito, mas em cena ele ganhou outra proporção.
É porque ele é muito repetitivo (risos). Cara, eu estava tão focada no Climão e uma hora chega essa coisa de se questionar: “Caramba, eu tô precisando brincar”. Antes de ser cantora, eu sou uma artista. Eu preciso sentir coisas e me questionar. E aí, eu moro com o Thiago que é meu boy. O Titi estuda Bach, Beethoven, essas coisas. Ele tá fazendo faculdade de música, UniRio. E eu fico assim, “uau”. Disse para ele: “Baby, essa é a nossa realidade”. Ele tocando piano e eu meio cantando… E mais, o Lourenço, nosso batera, toca vibrafone. Pensei comigo, imagina um show só com um piano e um vibrafone… Plim! Foi uma combinação inesperada, inusitada e foda, né? Eu sou pouco intérprete e sou muito compositora. Apesar de algumas pessoas acharem que as composições do disco não são minhas… Gente, eu compus o disco! É um machismo, isso. Eu sou cantora e compositora do disco! Mas, me considero pouco intérprete porque eu tenho medo de abraçar a música dos outros. Eu fico, “me dá licença?”. Tenho muito medo de colocar um cover ou uma releitura, mas eu falei: “Chega! Preciso desse momento”. Fiz um apanhado de todas as músicas e poesias que me acompanham, que me emocionam, desde que eu sou criança. Tem de tudo: tem Hilda Hilst, tem Sylvia Plath, tem La Lupe, tem Geraldo Azevedo. O show brinca com isso. Chama “Línguas & Poesias” não à toa. Por isso que veio a loucura de “E se eu traduzisse Radiohead?” Eu amo “Fake Plastic Trees” e um dia eu olhei a letra dela traduzida e falei: “Isso é muito forte”. “If I could be who you want to / Se eu pudesse ser quem você quisesse / It wears me out / E isso me desgasta” (cantando). Nossa… É muito forte. Esse projeto foi muito bom de fazer. A gente vai gravar disco esse ano, mas só sai ano que vem. Tudo com calma. Para ser de verdade.

E sobre o que vai ser?
Mais uma vez e sempre sobre emoção. A coisa mais linda do mundo é se emocionar, é nunca ser alguém que não se emociona. Eu preciso me emocionar. Eu amo me emocionar. Ah, socorro! É isso o segundo disco.

Pedro João é jornalista tendo passado pelas redações da Elle Brasil e da Veja Comer e Beber. Conheça seu canal no Medium. Fotos de Mila Maluhy / Equipe MRossi / Lollapalooza Brasil / Divulgação

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