Entrevista: Teto Preto

entrevista por Renan Guerra

Em 2016, o grupo Teto Preto lançou um EP chamando “Gasolina”, com duas faixas, a canção original que dava título ao trabalho e uma versão de “Já Deu Pra Sentir”, de Itamar Assumpção. Esse lançamento já dava o sinal de que deveríamos prestar atenção nesse pessoal. De lá pra cá, o grupo mudou de formação – atualmente são Laura Diaz (a Carneosso), Pedro Zopelar (o Zop), Sávio de Queiroz, Bica e Loïc Koutana – e lançou seu disco de estreia, o excelente “Pedra Preta”, presente em inúmeras listas de melhores de 2018.

O Teto Preto nasceu como espécie de jam session que rolava na Mamba Negra, uma festa eletrônica que leva a fama de dar novo fôlego à noite paulistana ao lado de outros rolês alternativos, afirmativos e inclusivos que têm criado outras formar de badalar em SP. A Mamba é um projeto que também tem a mão de Laura Diaz, que assume a persona Carneosso frente ao Teto Preto e que gera performances alucinantes no palco.

Despida ou com looks que mais mostram que escondem, Laura e o Teto Preto percorreram importantes palcos nacionais: RecBeat, Meca, Bananada, Dekmantel, sem falar em suas sessions geniais para o Boiler Room. De “Gasolina” (cujo refrão, bombástico, pede: “Gasolina neles”) para o álbum “Pedra Preta”, a banda teve a saída do produtor L_cio, que focou de vez em sua carreira solo e lançou o excelente disco “Poema”, em 2018, mas definiu o performer Loïc Koutana de vez como um dos integrantes. Francês de origem costa-marfinense, Loïc é um espetáculo à parte: estrela do clipe de “Gasolina”,Loïc se aproxima do butô japonês, como que um Kazuo Ohno dos trópicos, propiciando um jogo de dança e performance no palco, que instiga o público.

Com um show alucinante – conforme já contamos no balanço do Meca Festival – e um discão que leva a MPB para um passeio no techno, no punk e em outras praias, o Teto Preto é uma das bandas mais instigantes da atualidade. Já havíamos conversado rapidamente com a banda em 2016, antes ainda do primeiro álbum, e agora estendemos o papo com Laura Diaz para falar sobre “Pedra Preta” e entender mais sobre o grupo, as suas perspectivas políticas e o que os move. Nosso papo rolou nos bastidores do festival Meca, em 2018, e você pode conferir na íntegra abaixo:

Conversei com vocês quando do lançamento do single “Gasolina”, de lá pra cá vocês participaram de muitos festivas, a banda cresceu e agora vocês estão lançando o primeiro disco. Como foi esse processo? Você sente um amadurecimento ou uma mudança de lá pra cá?
O primeiro palcão que a gente pegou como banda foi em fevereiro do ano passado, no carnaval, no RecBeat e a gente ainda estava com a primeira formação do Teto, mas de alguma maneira foi um start para a gente começar a delinear um pouco melhor as nossas canções, as nossas composições e tudo mais. Mas desse meio tempo até hoje a gente teve mudanças na formação e isso foi uma coisa para encerrar esses ciclos do EP “Gasolina” e começar esse novo ciclo do “Pedra Preta”, esse amuleto de transformação do luto em luta. Então teve a entrada do Sávio [de Queiroz] e a formalização do Loïc [Koutana] como membro da banda. Então acho que são muitas coisas que são novas e muitas experiências fortes que a gente teve nesses festivais, nesses espaços que a gente teve para tocar.

Nesse sentido que você fala do “Pedra Preta”, ele funciona de uma forma muito mais política, que às vezes o techno e a música eletrônica não se impõem tanto dessa forma, nesse sentido de canções, letras e tal. Você sente algum tipo de resistência dentro do universo da música eletrônica?
Na verdade, eu não frequento (esse universo) e a Mamba (Negra) também acho que não frequenta esse lugar do techno ou dos gêneros específicos do eletrônico. Acho que a gente frequenta especificamente o oposto desses lugares, então, pelo contrário, eu não tenho visto resistência nenhuma, eu vejo muito fascínio, na verdade, no que o Teto apresenta, por que a gente rasga as composições, a gente rasga os formatos e a gente é uma banda, sabe? E acho que tem muitas ligações entre várias pessoas aí na cena se articulando que encaram assim também o som, como uma coisa política. A Linn da Quebrada, mesmo, acho que é o melhor exemplo que eu tenho, mas tem a Maria Beraldo, tem a Ava Rocha, os Deaf Kids, as Rakta, então são várias pessoas que tão se fortalecendo e se descobrindo para colocar novas questões no cenário brasileiro, que está muito estagnado, de alguma maneira, está muito acomodado em privilégios.

No caso, você falou da Mamba Negra, esse também é um espaço que vocês tentam criar, buscando revitalizar a cidade, bem como criando um espaço de acolhimento para as mulheres cis e trans e para os gays. É um espaço em que vocês buscam essa liberdade.
Foi uma necessidade para a gente poder existir enquanto mulher, enquanto artista, enquanto canal, enquanto tudo na cidade, na verdade. Então acho que é nessa forma que as mulheres se unem, por mulheres, em todo esse feminino que tem se colocado de uma maneira muito rica, pra maioria da sociedade, cada vez mais. É claro que talvez a gente sofra muitos retrocessos com o Bolsonaro, e da nossa parte, pelo menos, a gente se fortalece, entendeu? Por que a gente se prepara para o pior. E acho que é isso, esse foi meio que o ponto de contato entre as manas trans, as manas pretas e a gente, que mesmo com todos os privilégios que a branquitude ainda tem e apresenta, a gente também sofre muitas violências e precisou construir esses espaços de liberdade, seja na Mamba, sejam em outras festas independentes que movimentam essa cena e retroalimentam essa cena, por que isso cria um contexto para que projetos como o Teto poderem existir.

Você fala nesse sentido de criar espaços, você também atua em diferentes frentes enquanto profissional. Você trabalha como artista, mas também na produção e todo esse trabalho mais braçal.
É por que isso é o que todas as manas fazem pra poder existir, a gente não pode se dar ao luxo de ser “ai, eu sou só artista”, não, você é multiartista, então dentro dessas restrições a gente também se reinventa de uma maneira muito poderosa e muito ampla, por que a gente é obrigada a fazer tudo, é aprender a fazer tudo e fazer direito; por que a mulher o tempo inteiro tem que provar o porquê ela está lá, por que ela merece estar nos lugares em que está. Isso acontece desde relações com os técnicos de som até coisas muitos piores, mas é meio isso.

Nesse sentido do feminino, há também o fato de você usar o seu corpo como veículo de seu trabalho. Você já teve algum tipo de reação negativa de alguma forma?
Olha, eu acho que a gente, de alguma maneira, criou uma rede de proteção, um pouco como uma bolha, nesse sentido da Mamba e tal, por aqui assim, mesmo quando a gente foi para outros lugares do Brasil, a gente atraiu pessoas que já tem muito a discussão política presente, muita sede de ver alguma coisa acontecer. Então na real é uma resposta muito das mulheres, a enorme maioria, é sempre uma barricada de mina e de gay, de bicha, de sapatão que junta na frente dos shows do Teto. E a questão do meu corpo eu acho que foi uma maneira de eu me empoderar da repressão e da violência, por que durante muito tempo eu senti que eu tive que me masculinizar para poder ser levada a sério na sociedade: engrossar a voz, tomar lugares de supostamente liderança, jogar futebol, fazer coisas que supostamente associam ao masculino e que eu acho também uma besteira. Mas vendo tudo isso e enxergando que na música brasileira a mulher pode ser só um pedaço de bife ou um objeto, ainda acho que existe esse estigma, eu resolvi me empoderar do meu próprio corpo e resolvi colocar essa liberdade, expandir essa liberdade a outros corpos. E eu acho que é isso que eu sinto no feedback maior: as pessoas não vêm “ai, parabéns” ou me bajular, é sempre uma coisa muito honesta de troca que rola com o público e as pessoas falam de catarses mesmo, de processos, de ideias, de sentimentos, é meio que essa a resposta.

Você citou outros artistas e outras cantoras da sua geração, mas o que mais te inspira e te influencia, não só de música.
Eu acho que a falta de recursos, de alguma maneira. Apesar de ser consciente de que eu sou uma pessoa bastante privilegiada, tipo consegui fazer universidade pública, enfim, eu acho que as restrições são sempre o que empurram a gente a sair da zona de conforto e começar a produzir por necessidade mesmo. Necessidade de pagar as contas, necessidade de se (de)formar enquanto artista, necessidade de atuar na cidade repressora com espaços caretas e repressores, altamente repressores e elitizados, brancos, mesquinhos, então assim, tenho referências de todas as coisas que me atravessam na cidade, nos filmes que eu vejo, nas coisas que eu leio. O Teatro Oficina também foi um lugar superimportante na minha (de)formação e na minha desconstrução enquanto atriz, performer, cantora, produtora e tudo, então é meio isso.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o site A Escotilha.

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