Balanção: Festival CoMA 2018, em Brasília

Texto e fotos por Marcelo Costa

“A mulher não domesticada que habita em mim saúda a mulher não domesticada que habita em você”, ecoava Claudia Daibert, da banda Consuelo, no Clube do Choro de Brasília. Em outro canto bem próximo dali na capital federal, Elza Soares intimava: “Não aceite violência! Um oito zero neles”! E depois constatava: “Hoje a mulher pode dar para quem quiser, comer quem quiser, é a nossa vez!”. Em outro palco, Hélio Flanders, do Vanguart, distribuía carinho e frases apaixonadas saudando o pôr-do-sol, Renato Russo, Brasília e todos aqueles que acreditam “no amor livre, no amor sem gênero”. Entre muitas coisa, o Festival CoMA foi um ambiente para se posicionar com microfone aberto e muita festa.

Flora Matos

Ainda novato no calendário de festivais nacionais, mas com forte potencial para se tornar um dos eventos mais importantes do centro oeste brasileiro, o CoMA (Conferencia de Música e Arte) celebrou no final de semana de 11 e 12 de agosto em Brasília sua segunda edição recebendo 9 mil pessoas no sábado e 7 mil pessoas no domingo, que precisaram lidar com um atraso constante nos quatro palcos, mas cuja paciência foi premiada com alguns dos melhores shows nacionais da atualidade e com a liberdade de gritar #ForaTemer por dois dias com o Congresso Nacional disposto ao fundo da paisagem. Foi bonito.

Xenia França

Tomando uma área delimitada pelo Centro de Convenções Ulysses Guimarães de um lado e do Complexo Cultural Funarte de outro, e tornando espaços do festival tanto o Planetário quanto o Clube do Choro acrescidos a dois enormes palcos montados exclusivamente para o evento, o CoMA programou mais de 50 shows para os dois dias. Logo na abertura, para um Planetário tomado em sua capacidade de 80 pessoas, a banda Augusta (que havia se apresentado pouco anres no pitch da conferencia para imprensa e contratantes) mostrou sua “MPB expressiva” adiantada pelo bom álbum “Tudo Que Podia” (2018) num show competente, que ganhou força com o ambiente lúdico repleto de planetas e estrelas. Fique de olho neles!

Consuelo

No Clube do Choro, após um longo atraso, Rafael Ops subiu ao palco e o show demorou a engrenar, com Ops se soltando apenas após a quarta música numa postura meio Ian Curtis que combina com as boas letras de seu disco de estreia, “Não Tá Tudo Bem” (2017), mas falta ainda um pouco de punch de palco para a banda. Punch sobra para Consuelo, banda de “gipsy dark” que conta com músicos tarimbados da cena local e uma poderosa frontwoman, Claudia Daibert, com um discurso afiado e muita presença de palco a ponto de convidar e receber o Demônio em seu corpo para que o Tinhoso passasse um recado ao público: “Eu e minha família queremos nos desculpar por Michel Temer. Ele só nos faz passar vergonha”, confidenciou.

Maglore

Nos palcos principais, provas claras de que o pop rock brasileiro vai muito bem, obrigado. Primeiro com a Maglore, que colocou quase que seu último disco (“Todas as Bandeiras”) inteiro na votação de Melhores de 2017 do Scream & Yell, e teve grande parte das canções cantadas em coro pelo público de Brasília – nem um problema no som, que silenciou o palco por 10 minutos, baixou o pique do quarteto e do vocalista Teago, que estava em dúvida se era Bell Marques ou Anitta. Depois com o Vanguart, vivendo um momento alto astral como banda, que farreia no palco como uma empolgada trupe cigana, e entrega um show competente para um público apaixonado. Ali pelas tantas, celebrando o evento, Hélio mandou: “A gente é fruto de festivais como esse!”. Importante.

Vanguart

Voltando ao Clube do Choro (com uma capacidade de 300 pessoas), lotado, Mauricio Pereira driblou com destreza uma torção na mão que o atrapalhou de tocar trompete e a equivocada iluminação do local (que só melhorou quando ele fez a direção) para mostrar seu novo álbum, “Outono no Sudeste”, indicado entre os melhores do primeiro semestre para a APCA, que ainda soa melhor ao vivo – e o acréscimo de “Trovoa” no set foi um presente festejado pelos fãs. Voltando a um dos palcos principais, Rincon Sapiência acompanhado por percussão, guitarra e beats mostrou porque é um dos grandes nomes da música brasileira na atualidade em mais um show arrasador.

Rincon Sapiência

Para fechar o sábado, uma Deusa: auxiliada por duas pessoas, Elza Soares subiu ao praticável que abriga seu trono para mostrar em Brasília, pela primeira vez, as canções do álbum “Deus é Mulher” (2018), praticamente uma sequencia de “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), sucesso mundial de crítica. Demonstrando muita lucidez, Elza aproveitou quase todas as brechas entre as canções para mandar recados ao público: “O Brasil precisa de colo, precisa de prece, precisa de amor. Vamos dar amor a nossa terra!”, pediu em certo momento. O show replicou canções dos dois grandes álbuns, e foi um encerramento perfeito, já na madrugada de domingo, para o primeiro dia do CoMA 2018.

Elza Soares

A rigor, erros no primeiro dia de um festival costumam ser consertados no segundo dia, mas o novato CoMA deixou a peteca cair novamente no quesito atrasos, que praticamente deixou às cegas o público do domingo nos quatro palcos do evento. Em certo momento, a fila para o show de abertura do Clube do Choro triplicou de tamanho porque juntou o público de A Engrenagem, Marcelo Jeneci e Sr. Gonzales Serenata Orquestra. No Planetário, rolou bate boca entre fãs na tentativa de conseguir um dos 80 lugares para assistir Ana Muller, e nem bola de cristal revelava o horário em que Beto Mejia e Vitor Araújo se apresentariam – sabe-se lá que horas eles tocaram, mas tocaram e foram elogiados por quem deu sorte de assistir.

Scatolove

Num dos palcos principais, o pop rock adolescente e ingênuo da Scatolove arrebatou um bom público, que dobrou quando Flora Matos pisou no palco para fazer, segundo ela própria, um de seus melhores shows na capital federal (onde nasceu). Ainda foi possível assistir a três músicas de Jeneci escudado pelo Quinteto da Paraíba (que música é “Feito Pra Acabar”, hein?) e o último número do Sr. Gonzales Serenata Orquestra. Tudo que havia se encaixado no dia anterior pelos atrasos, desencaixou-se no domingo. Mas isso não intimidou Xenia França, que fez um dos grandes shows do dia, abrindo caminho para que Céu retornasse aos palcos na sequencia, seis meses após dar a luz a seu segundo filho, empolgadíssima cantando de “Enjoy The Silence” e “Menino Bonito” a grandes sucessos de sua carreira. O público foi junto e a festa foi grande.

Céu

Quem não conseguiu ver Marcelo Jeneci no Clube do Choro teve uma segunda chance, com o músico batendo ponto no show de Chico César, que vinha fazendo um show bonito ainda que silencioso e poético, e emendou uma série de canções para casais apaixonados grudarem e forrozarem, uma forma de aquecer o ventinho frio do eixão. Fechando a programação, o Mundo Livre S/A surgiu empolgado com disco novo, punk manguebeat no talo e clássicos como “Livre Iniciativa”, “Melo das Musas” e “Bolo de Ameixa” matando a saudade dos anos 90. Na dobradinha “Computadores Fazem Arte” e “Bola do Jogo”, Fred Zero Quatro incentivou o pogo, e a poeira vermelha subiu encerrando uma edição de grandes shows e muitos atrasos.

Mundo Livre S/A

O saldo do final de semana (de conferencia e shows) como um todo foi positivo. Responsáveis por festivais de vários cantos do país caminhavam pelo espaço fazendo anotações para futuros line-ups enquanto o nome de Martin Atkins, britânico autor do livro “Welcome To The Music Business: You’re Fucked!” que já trabalhou com nomes PiL, Nine Inch Nails e Ministry, era comentado em várias rodinhas de conferencistas após sua elogiada palestra. Já os palcos do festival mostraram um Brasil bem diferente do que se vê compartilhado por robôs em grupos de Whatsapp e redes sociais, um Brasil que mesmo com toda crise dá gosto viver, um Brasil livre, feminino e feminista, um Brasil para todos os gostos, religiões e cores, um Brasil que sonha com um futuro melhor. Vida longa ao CoMA. Que venha a terceira edição! E que ela não se atrase!

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

One thought on “Balanção: Festival CoMA 2018, em Brasília

  1. O show de abertura dos palcos principais não foi Maglore, foi Menores Atos. Que foi excelente, por sinal – apesar de não combinar a densidade e tristeza do show com aquele solzão, que realmente tava casando muito mais com Maglore, Scatolove, essas bandas fofinhas.

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