Da Argentina, conheça a Barco

entrevista por Leonardo Vinhas 

Formado em 2010, o quarteto argentino Barco quer ser e soar grande. Avessos à estranheza e à falta de modos pop que tomou conta de boa parte do indie sul-americano nos últimos anos, eles não têm medo de combinar grandes referentes do pop de seu país (notadamente Soda Stereo e Vírus) com coisas mais recentes e de apelo ainda mais popular, como MGMT e LCD Soundsystem. Alejandro Alvarez (voz e guitarra), seu irmão Francisco (bateria), Ramiro Cremona (teclados e percussão) e Justo Scipioni (baixo) já conseguiram feitos tão distintos como abrir para Damon Albarn quando este tocou em Buenos Aires, ou fazer três miniturnês por El Salvador.

“Antes del Desmayo” (2013), o disco de estreia do Barco, ganhou elogios da crítica por seu espírito pop, mas foi “Era Es Será” (2016) que fez com que eles fossem percebidos como mais do que novatos promissores. Se é verdade que o primeiro álbum era agradável, é também verdade que ele pouco se compara com seu sucessor, que traz harmonias mais bem cuidadas, com as partes de Cremona e Scipioni em destaque, ajudando a criar um clima dançante e sedutor, enquanto as guitarras e a bateria avançam em sua vocação para soar bem em grandes espaços – não à toa, o show de apresentação do álbum contou com um Teatro Vorterix lotado – mil pessoas para ver uma banda “nova” não é um fato corriqueiro.

“Era Es Será” contou com um aliado importante na definição de sua sonoridade: Hector Castillo, engenheiro de som que já trabalhou com David Bowie, Bjork, John Legend e Anthony and The Jonstons (além do ídolo Gustavo Cerati, ex-Soda Stereo). Castillo ajudou a lapidar as canções até que elas chegassem ao ponto buscado entre a sofisticação e o popular, sem que nenhum dos dois lados pesasse na balança. O resultado disso combinado com o talento compositivo da banda é um álbum no qual as nove faixas passam sem cansar, e pelo menos sete delas têm cara de hits. Além disso, Alejandro Alvarez é um pop star nato, desde sua postura de palco até suas entrevistas cheias de declarações propositadamente estapafúrdias (ele adora tirar sarro dos clichês do estrelato).

Porém, não foi Alvarez que conversou com o Scream & Yell, e sim o baixista Justo Scipioni – bem mais versado na desanimadora arte de ser articulado e não se comprometer. Apesar disso, o rapaz falou sobre os bastidores de “Era Es Sera” (“A ambição é, basicamente, fazer canções cada vez mais lindas”), shows (“Muitas vezes ficamos mais nervosos por tocar em um lugar menor do que em um palco enorme de um festival”), o momento atual da banda e a dita influência de Soda Stereo e Virus: “Nossa inspiração vai bem mais longe do que só isso”. Assista aos vídeos e confira a entrevista na integra abaixo.

No encarte de “Era Es Sera”, vocês dizem que decidiram não ter direção artística, preferindo criar o som do álbum na sua sala de ensaio. O resultado acabou ficando mesmo bastante diferente de “Antes del Desmayo”.
Isso se deu naturalmente. Quando estávamos na gestação do “Era Es Será”, éramos uma banda que já tinha tocado muito ao vivo e em todo tipo de lugar. Ainda que, para nós, o som de um disco e a busca sonora do show sejam coisas muito diferentes, algo desse último conseguiu se infiltrar na gravação desse segundo disco, por isso prevalece uma aura mais roqueira, viva e menos plástica que no primeiro. E não contamos com um produtor artístico mais tivemos algumas orelhas amigas que apresentaram ideias disparadoras para as canções.

“Era es Sera” tem um ar pop evidente. Foi essa a ambição quando começaram a escrevê-lo?
A ambição é, basicamente, fazer canções cada vez mais lindas. Como se consegue isso? Acreditamos que não dá para ter medo de experimentar. Às vezes as canções se voltam para um lugar mais estranho e complexo. Nesse caso, vamos e voltamos até que, em algum momento, a composição se converte em algo que nos diverte a todos. É nesse momento que podemos dizer que a canção amadureceu. E aí é preciso saber soltar, largar mão.

Mesmo com essa filosofia, queria saber se ter Hector Castillo na mixagem foi definidor no resultado final. Afinal, a carreira dele traz uma marca que não pode ser negada.
A mixagem do Héctor impulsionou o disco para outro nível, pelo menos se estamos falando do áudio. Você pode gostar ou não das canções, mas não tem como não dizer que soam bem. No início, a ideia era que ele só mixasse, mas ele se interessou tanto pelo material que acabou realizando algumas modificações de produção – mexeu, por exemplo, em alguns fragmentos percussivos, entre outras cosas. Não temos dúvidas de que seu aporte foi crucial.

Os arranjos também mudaram, ficaram mais ricos, com timbres de guitarra com personalidade, aportes de percussão… Vocês parecem ter mudado mesmo a relação com o ambiente do estúdio.
Nossos ouvidos estão sempre abertos a consumir todo tipo de música, assim como nossa cabeça para continuar experimentando na sala de ensaio e no estúdio. E a real é que pode acontecer qualquer coisa, estamos com muita vontade de fazer colaborações com outros artistas. Deste Barco pode sair qualquer tipo de música que nos deixe felizes.

Eu os vi no Cosquin Rock (fevereiro de 2018) e deu para sacar que, mesmo não estando no palco principal, vocês fizeram um show voltado para uma grande arena. Vocês mantém essa pegada até mesmo quando tocam em lugares menores?
Cada show é único. Claro que existem diferentes propostas em relação ao set list e a alguns detalhes: talvez privilegiemos a potência em um show de festival enquanto em um show só nosso temos chance de buscarmos outras matizes. Mas muitas vezes ficamos mais nervosos por tocar em um lugar menor e íntimo, com o público bem perto de nós, do nos apresentarmos em um palco enorme como o do Cosquín Rock ou outro festival.

A imprensa argentina falou, e fala, muito do quanto vocês estão influenciados por Soda Stereo e Virus. Por mais que sejam bandas clássicas, não é comum ver músicos novos citando-os como influência nesses tempos. Você diria que Barco é uma das poucas bandas que assume essa referência hoje em dia?
Na verdade, achamos que estas bandas são referentes para a maior parte das bandas do nosso país. Que isso esteja refletido em maior ou menor medida na música contemporânea é outra conversa, mas eles são, sim, ícones do rock e do pop nacional que deixaram uma trilha importante para as gerações que vieram depois deles. De qualquer maneira, nossa inspiração vai bem mais longe do que só isso: Nós nos nutrimos de música nova o tempo todo, seja local ou internacional.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

 

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