Entrevista: Neurosis

entrevista por Bruno Lisboa

Formada em 1985 em Oakland, região metropolitana de São Francisco, na Califórnia, a Neurosis começou com mais uma banda barulhenta da efervescente cena hardcore punk local – algo que pode ser ouvido no disco de estreia, “Pain of Mind”, de 1987. Porém, nos anos 90, o grupo começou a pavimentar sua própria sonoridade, desacelerando o ritmo, mas não diminuindo a violência, que passa a se unir com elementos de post-metal e sludge, o que, combinadas as letras existencialistas, acabariam por influenciar toda uma geração de devotos do som pesado. A ética de trabalho também sofreria drásticas modificações a partir do momento em criam o próprio selo, Neurot Recordings, em 1999.

Da formação original, de 1985, mantém-se o núcleo Scott Kelly (guitarras e vocais), Dave Edwardson (baixo) e Jason Roeder (bateria). Steve Von Till (guitarras e vocais) entrou em 1989 e Noah Landis (teclados) em 1995, concluindo a formação que gravaria mais oito discos em 20 anos (1996/2016), incluindo “Neurosis & Jarboe”, de 2003, colaboração o ex-Swans, que assina todas as letras do álbum. No total são 12 álbuns estúdio, entre eles clássicos como “Souls at Zero” (1992), “Through Silver in Blood” (1996) e “Times of Grace” (1999), discos que demonstram como a banda soube se reinventar musicalmente. O mais recente lançamento é “Fires Within Fires”, de 2016, produzido por Steve Albini.

Em entrevista por e-mail em virtude da turnê sul-americana que passará por São Paulo (08/12), Buenos Aires (09/12) e Santiago (10/12), Steve Von Till fala do porquê da demora da primeira vinda ao Brasil (“Esta é a primeira oportunidade séria que apareceu para nós”), sobre a evolução sonora da banda (“A estagnação poderia ser a morte para a nossa música”), a parceria com o produtor Steve Albini (“Ele entende os aspectos técnicos da gravação de som de forma profunda e experiente”) e da importância de ser lançar discos através de selo próprio (“Esta parece ser a forma mais pura de entregar a nossa arte para as pessoas que tem interesse”) além de muitas outras coisas. Confira a entrevista e prepare-se para um dos possíveis melhores shows do ano.

Esta será a primeira vez que o Neurosis tocará na América do Sul. Por que a demora?
Nunca fomos convidados antes. Esta é a primeira vez que surgiu uma oportunidade séria para nós.

Cada disco da banda soa diferente um do outro (e melhor). É um desafio que vocês colocam em mente antes da gravação de cada álbum? Como é o processo de gravação de vocês?
O processo criativo é fluido e está sempre mudando. A única ideia preconcebida é que estamos comprometidos a evoluir e a crescer e constantemente, levar o nosso som a um novo nível. A estagnação seria a morte de nossa música.

Desde os anos 90, Steve Albini é um membro honorário da banda. Quais contribuições o trabalho dele traz para a banda?
Ele é um grande engenheiro no sentido tradicional da palavra. Ele entende os aspectos técnicos da gravação de som de forma profunda e experiente. Seu processo é sem firulas, sem truques, escola completamente old school e analógico. Nós simplesmente entramos no estúdio com nosso equipamento e tocamos nossas músicas. Ele coloca os microfones nos lugares certos e nos grava. É uma forma antiga de gravar e eu ainda acho que é a melhor. Se você está numa banda, então se organize e toque como uma banda. O estúdio dele é muito confortável para nós, podemos dormir lá e sabemos que tudo é artístico e funcional. É muito tranquilo.

A Neurot Recordings foi criada em 1999 e desde então é o seu veículo para lançar álbuns do Neurosis e outras bandas também. Como é essa experiência ter seu próprio selo? Esta é a melhor maneira de trabalhar?
Eu acredito que sim. Não precisamos dar satisfação a ninguém ou questionar as motivações de outra pessoa. Esta parece ser a maneira mais pura de entregar nossa arte às pessoas que tem interesse. Trabalhar diretamente com o artista é definitivamente o meu método preferido.

Um dos últimos lançamentos da Neurot foi uma banda brasileira chamada Deaf Kids (“Configuração do Lamento”). Como vocês selecionam um grupo para fazer parte do catálogo do selo?
Nós lançamos artistas com os quais sentimos alguma proximidade. Trata-se da originalidade, intensidade, do conteúdo emocional e de sua ética de trabalho. Nós apreciamos os artistas que não esperam por alguém para fazer algo por eles, mas têm a vontade e desejam criar sua própria sorte.

A banda comemorou 30 anos de carreira. Existe uma receita para a longevidade?
Eu chamaria isso de perseverança. A capacidade de perseverar e superar todas as diferenças pessoais, mudanças na vida, provações, adversidades, dedicar-se verdadeiramente à música e não dar por certo a irmandade que construímos ao longo de todos esses anos.

Vocês fizeram apenas alguns shows para divulgar seu álbum mais recente “Fire in Fires”. Então acredito que cada apresentação é diferente. Vocês estão preparando algo especial para o público brasileiro?
Ainda não discutimos o nosso set para o Brasil, mas posso dizer que só tocamos o que nós estamos inspirados a tocar, com a máxima intensidade e honestidade. O que posso garantir é que vamos deixar 100% de nós mesmos no palco.

Vocês tem muitos projetos paralelos. Como organiza-los e conciliá-los com a agenda do Neurosis? Você acredita que eles contribuem para a dinâmica da banda?
A vida é ocupação. É o que pedimos quando abrimos os portões de inspiração para fora de nós mesmos. Todos trabalhamos diariamente em empregos normais para sobreviver. Nossas bandas não são as maneiras como sustentamos nossas famílias financeiramente. A maioria de nós são pais, maridos ou parceiros e todas essas coisas devem encontrar um equilíbrio. Acho que simplesmente temos mais coisas onde podemos nos expressar artisticamente do que tempo para elas. Mas pelo menos morreremos inspirados e tentando.

A revista Rolling Stone norte-americana comparou vocês com o Black Flag e Fugazi como um exemplo da ética do “faça você mesmo” que funcionou. Quais as lições que você pode dizer para alguém que está começando?
Realmente coloque a música em primeiro lugar e não se preocupe com o que alguém pensa. Quando você descobrir seu verdadeiro eu e o que o move, compartilhe com o mundo da melhor maneira possível.

O Brasil está prestes entrar em colapso, pois temos muitos problemas (sociais, políticos, economicos). Nós temos uma piada aqui (relacionada ao jogo Brasil vs. Alemanha na Copa do Mundo de 2014) onde dizemos que diariamente vivemos um “7 a 1 diferente”. Nos EUA, depois da vitória de Trump, parece que vocês estão tendo muitos problemas também. Esta situação caótica inspira você a escrever?
O ruído do mundo é muito ensurdecedor agora. A política não me inspira, pois ela nos distrai da espiritualidade. Não dá para evitar a realidade, mas toda essa energia negativa tem crescido demais. Sempre há beleza dentro de nós e em nossas relações com nossos entes queridos, neste belo planeta que vivemos. Nossa música sempre foi sobre tentar superar alguma merda e encontrar o que é real. Esta guerra não é nova e não é recente, mas provavelmente é constante na civilização humana.

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