Entrevista: Pio Lobato

por Lui Machado

Quando tinha pouco mais de 15 anos, Pio Lobato viu no colégio onde estudava, uma banda tocar covers dos Beatles. Se há um ponto que pode soar como definitivo para a intenção de Pio vir a tocar guitarra, aquele foi o momento. A partir daí, buscar, experimentar, tocar e descobrir o próprio estilo e desbravar melodias e timbres tornou-se uma constante na trajetória do guitarrista paraense que consegue unir, em doses iguais, as influências de ritmos regionais, como a guitarrada, o tecnobrega e variações de carimbó com o rock progressivo, a world music e o pop. E é essa soma de influências que acompanha o músico ao longo da carreira.

Elo central entre a tradição e a modernidade na música do Estado do Pará, Pio é um dos principais responsáveis pela revalorização da guitarrada como gênero musical aceito pelos músicos e pelo público de classe média, formador de opinião, que antes viam o gênero como algo menor. Chegou a criar o conceito de Mestres da Guitarrada, unindo ícones do ritmo paraense. Dividido entre o rock brasileiro dos anos 80, o pós-punk inglês e o rock progressivo (Yes, King Crimson, Rush e Pink Floyd, principalmente) Pio Lobato enxergou na sonoridade trazida pelo guitarrista Mestre Vieira, um alargamento dos próprios horizontes musicais.

Agora o guitarrista paraense se prepara para lançar o sexto álbum, “Brinquedo”, um álbum que marca uma volta às origens, equilibrando-se de forma igualitária entre as nuances da música regional com as tinturas de rock progressivo, folk rock e power trios típicos dos anos 1970, incluindo até uma canção de 18 minutos: “(Essa faixa) é uma grande narrativa criada com colagem de climas”, explica Pio no bate papo abaixo, em que ele fala sobre guitarrada, a criação musical como uma brincadeira e o ato de correr riscos na composição: “Acho importante experimentar outras formas de ouvir nossa música, sempre, porque é importante arriscar, é importante a provocação”. Confira.

“Brinquedo” tem a ver com o fato de você dizer que estar no estúdio é como estar brincando, diversão pura… Como é esse processo de criar em estúdio?
“Brinquedo” tem a ver com fazer música. Em casa, no estúdio, improvisando no show ou qualquer coisa nesse sentido, é tudo como se fosse um brinquedo, uma brincadeira. Esse disco tem muito a ver com isso. O processo no estúdio é trabalhoso e se não fosse esse combustível para mover a gente durante meses, ficaria muito difícil. Trabalhar em cima de um conceito e levar isso adiante sem que mesmo os parceiros com quem tu trabalha tenham muita noção disso, em um processo de criação constante, não é tão simples assim, pelo menos para mim. É sempre um processo de descoberta e redescoberta sozinho ou com as parcerias musicais. O resultado tem que ser um brinquedo.

Há um conceito por trás de “Brinquedo”? Tem uma faixa de 18 minutos e um ambiente que remete ao que as bandas faziam nos anos 70.
Tem sim. Sabe, o que mais admiro nessa geração do rock progressivo foi a concepção de que o vinil long-play, com os seus 40 minutos divididos em dois lados, pode configurar uma forma musical. Logicamente que o que nos chegou até hoje tem influência do conceito que eles criaram. Então comecei a engatinhar nessa área, buscando uma identidade baseada na minha informação musical, ancestral cultural, e no que pode ser descoberto a partir disso. A faixa maior é praticamente uma grande narrativa criada com colagem de climas. Tanto fazer a música quanto ouvi-la depois é um processo de descoberta. Um grande jogo de memória emotiva. Ao tocar ao vivo ganha também outras cores.

Como é o teu processo de criação junto ao baterista Vovô?
Vovô é o grande parceiro de toda essa trajetória. No processo criativo de lapidação de construção ele é decisivo, pois tudo que a gente faz é adaptando o jogo da imaginação entre os instrumentos e os sons que constroem a música. No caso desse disco foi particularmente provocador criar músicas para trio sem a presença do contrabaixo, que foi adicionado depois. Temos ideia de fazer uma redução para um pocket show onde tudo vai ser novamente readaptado. Nesse disco a música é um brinquedo de montar.

Teu estilo passou a ser muito associado ao “gênero” da guitarrada e a novas leituras do tecnobrega. Se tornou um ambiente restrito e você sentiu a necessidade de buscar novos caminhos ou é tudo uma coincidência?
Acho que a gente tem um manancial de gêneros musicais praticamente puros em nossa cultura que poderiam ir além da superficialidade. Poderíamos mergulhar mais neles e criar novas linguagens, buscar o diferente. Mas isso é só uma opinião minha, cada um faz o que acha necessário para si. Nesse momento acho importante buscar outra forma de traduzir isso num disco. Claro, sempre tenho um olhar para nossa música, isso é inerente. Mas esse disco é o que menos têm guitarrada explícita. Acho importante experimentar outras formas de ouvir nossa música, sempre, porque é importante arriscar, é importante a provocação.

Fale um pouco da sonoridade desse disco novo. Fala um pouco das faixas.
Bem, “Casa Velha” é um tema que estava guardado aqui em casa há alguns anos. O disco todo é construído com temas assim. Não tem um ritmo muito comum para música pop, mas é muito gostosa de tocar, no meio muda o clima completamente e remete aos anos 70 para em seguida voltar ao tema inicial e finalmente terminar num baião elétrico. “Derrapada” tem esse nome porque durante as gravações tivemos que ajustar algumas coisas que estavam saindo da estrada. Durante a infância eu sonhava muito que dava grandes saltos, quase chegando a voar. A impressão que tenho é que nesse arranjo a batida de 3 em 3 dá essa sensação de flutuação, de caminhada leve, tranquila, como quem leva o cachorro para passear na praça. “A Ladainha” tem conexão direta com os cânticos de procissão do Pará. A música religiosa é a base para maioria das músicas de todo planeta, até o que é considerado profano por uma determinada religião pode ser muito sagrado para outra. Nessa música, desse tipo de conexão, tentei traduzir nesse jogo de sons costurado no estúdio. Ainda há muito que percorrer nesse caminho, nessa nossa ladainha em busca do sagrado. “Quarto” é a suíte de “Brinquedo”, cujo nome era para ser “Purruda”, que é a gíria para a palavra ‘grande’ aqui em Belém. Essa é uma música que no começo surge do nada. Ela vem do silêncio e vai aparecendo pela repetição. De repente ela vai surgindo e explode, sendo transformada em vários temas. Esses temas são colados e desenvolvidos no decorrer da música no meio a um grande solo do Nazaco, nosso percussionista, que marca a transição da música já se preparando para o final. Conectando texturas e construções, sobretudo de ritmo, que se alegram e chegam e chegam ao final com uma variação do começo. Toda essa caminhada percorre os 20 minutos do lado B do vinil, logicamente influenciado pelos clássicos do rock progressivo. A diferença é que possui o sabor dos gêneros regionais com que nós temos bastante intimidade.

– Lui Machado é jornalista e roteirista do documentário “Território Entre Fronteiras”. Já colaborou com Caros Amigos, Brasil de Fato e Amazônia Real.

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