Entrevista: Arthur Nogueira

entrevista por Renan Guerra

O paraense Arthur Nogueira chega ao seu quarto disco, chamado “Rei Ninguém” e lançado através do edital Natura Musical. De pouca idade e carreira longa, Arthur já foi gravado por Gal Costa e produziu um disco completo em homenagem aos 70 anos do amigo Antonio Cicero, poeta e filósofo recentemente transformado em imortal da Academia Brasileira de Letras.

Em seu novo disco, Arthur vivenciou uma experiência de gravação distinta de seus trabalhos anteriores, que resultou em um repertório mais orgânico, com o acompanhamento de uma banda que conta com Allen Alencar (guitarra), Filipe Massumi (violoncelo), João Paulo Deogracias (baixo e sintetizadores), Richard Ribeiro (bateria) e Zé Manoel (piano e teclado).

Com participação da musa Fafá de Belém e de Zé Manoel, “Rei Ninguém” é um disco que cria um cenário bastante delicado para a voz etérea de Arthur e para seu universo poético, onde distorções de guitarras e o dedilhar de um piano conversam de forma natural, compondo um universo de bela maturidade.

Para entender o processo criativo desse trabalho, papeamos mais de uma hora com Arthur Nogueira via Skype. Falamos sobre Antonio Cicero, Rimbaud, Bob Dylan, Fafá de Belém, Zé Pedro e outras muitas histórias. Arthur declamou poemas e quando vimos a conversa rendeu um bocado. Confira abaixo a entrevista:

O novo disco foi produzido através do Edital da Natura Musical, em sua edição paraense. Como foi produzir pela primeira vez um disco com uma grande marca por trás?
É muito importante, por dois motivos: meus dois últimos discos, “Sem Medo Nem Esperança” (2015) e “Presente” (2016), são eletrônicos. Nós fizemos esses discos sem necessariamente ir para um estúdio – eu geralmente ia para o estúdio apenas para fazer as vozes definitivas do disco, mas a parte musical ela era feita em casa. Exatamente por ter um orçamento reduzido, essa possibilidade que a tecnologia oferece hoje em dia é muito boa de podermos produzir num esquema alternativo, então meus discos foram gravados dessa maneira, metade aqui em São Paulo, uma guitarra aqui, um músico lá de Belém, o Antonio Cicero gravava no Rio, eram discos assim. E aí, quando eu tive a possibilidade de ter esse patrocínio da Natura, de ter pela primeira vez uma grande empresa patrocinando um disco meu, eu fiquei muito animado com a idéia de tocar, que era algo que nos outros discos não acontecia, a gente programava uma base, depois vinha alguém e gravava um baixo em cima, mas tocar todo mundo junto, isso só aconteceu no show, quando a gente ia ensaiar. Nesse sentido, foi muito bacana pra mim, por que então decidi que era o momento de tocar, e é por isso que esse disco é tão diferente dos outros. Esse disco foi feito ao vivo, praticamente. Acaba que a produção do disco é minha, por que alguém precisava assinar, a verdade é essa. Mas a verdade é que eu escolhi os músicos, eu escolhi o repertório, eu pensei todo disco, então a produção foi minha, mas a criação do disco foi totalmente coletiva com a banda, era uma coisa que eu queria, encontrar os músicos, eu queria olhar pros músicos, ouvir o piano, tudo tocando junto e ao vivo, que era uma experiência diferente dos meus outros discos.

Para isso vocês fizeram uma experiência de imersão durante a gravação do disco em estúdio, não?
Sim, selecionei esses músicos e nós fizemos uma semana de ensaios aqui em São Paulo primeiro. A gente se encontrava todo dia e eu chegava com as músicas, dizia “olha, a música é assim”, tocava e aí a partir desse momento do violão a gente ia encontrando os arranjos, uma criação totalmente coletiva, nesse sentido, a partir da sonoridade que eu queria. Que também, pra ser diferente dos outros discos, eu queria o mais ao vivo possível, então esse disco é bem menos eletrônico que os outros, ele é um disco mais de canção, talvez. Ele é um disco pop, mas é um disco de canção, ele não é um disco eletrônico, como os outros, que a gente praticamente tinha músicas que não tinham harmonia, era mais base, sintetizador e voz. E essa minha vontade de ir pro acústico também veio da minha parceria, do meu contato com o Zé Manoel.

Que também integra a banda que lhe acompanha nesse disco…
Sim, ele toca piano e teclado. Então por isso mesmo eu pensava muito no piano do Zé com o cello do [Filipe] Massumi, os dois absolutamente acústicos. Fizemos esse ensaio de uma semana e fomos pro interior de São Paulo, pro estúdio, que é uma fazenda, um “estúdio paraíso”. Brinco que a gente fez um disco no paraíso, por que foi realmente uma das experiências mais bonitas que a música já me proporcionou. O estúdio tem várias salas, então cada um ficava numa sala, guitarra numa sala, piano numa sala e eu numa sala de voz, ouvindo tudo. Então era assim: “vamos gravar tal música, tá bom?” e todo mundo gravando junto. E isso tem uma coisa, uma quentura, uma espontaneidade, por mais que a gente tenha ensaiado, por mais que tudo aquilo seja pensado, surge, no momento da gravação, uma espontaneidade qualquer que acontecem coisas que a gente não previa e que são muito legais. Então a gente passou esses dias nesse esquema, a coisa foi tão fluida que todas as bases do disco, inclusive a minha voz, foram gravadas em dois dias. Depois a gente ficou só ouvindo… ah, na verdade, o cello não gravou junto, foi depois e o sintetizador também a gente gravou depois. Mas ficamos só ouvindo, escolhendo os takes, decidindo o que ficava e o que não ficava. Enfim, foi um disco praticamente gravado em dois dias e isso também é absolutamente novo pra mim. Foi uma experiência linda de acordar e dormir junto com os músicos, conversando, rindo, essa fluência, essa fluidez. Música, para mim, na verdade é isso: é tocar, estar junto com as pessoas. Então esse foi o disco mais musical que eu já fiz. Essa talvez seja a grande diferença e a Natura, voltando a sua primeira pergunta, entra como a possibilidade de isso acontecer, por que sem esse patrocínio não seria possível fazer o que a gente fez.

Nesse caso do edital da Natura você teve um prazo de produção do trabalho, como foi compor com esse tempo limitado?
Também foi muito bom. Se você pensar assim: eu tenho um disco de 2009, “Mundano”, que o Felipe Cordeiro é o produtor e é um disco que quase ninguém conhece, por que na época não tinha Spotify e, como eu não gosto de passado [risos] – eu gosto do disco e tal, o problema nem é o disco – não tenho muito isso de dedicar o meu tempo ao passado, não me anima, então nunca botei esse disco no Spotify (mas ele está disponível para download gratuito aqui). O Arthur Kunz, que produziu os outros dois discos, gravou bateria no “Mundano”, então é um disco seminal de tudo que fiz depois. Mas esse disco é de 2009! Até o “Sem Medo e Sem Esperança” (2015) foram seis anos, e nesse meio tempo eu fiz uns EPs, fiz coisas que botei na internet, mas disco mesmo só o “Sem Medo e Sem Esperança”. Então nesses seis anos tive muito tempo pra compor, selecionar repertório, por isso acho que o disco “Sem Medo e Sem Esperança” tem essa cara de uma reunião das melhores coisas desses seis anos. Depois fiz o “Presente” (2016), que não é um disco autoral, não fiz músicas pra ele, mesmo “Onda” é uma faixa desses seis anos, que não tinha entrado no “Sem Medo Nem Esperança” e que achei que tinha mais a ver com o “Presente”. Então era assim: primeiro a surpresa da aprovação no edital: “uau, fui aprovado!”, “tenho que fazer”, “o que vou fazer? Eu não tenho um disco”. O Zé Pedro [da gravadora Joia Moderna] ria muito, brincava comigo: “Ô veia, você tem que gravar um disco”. E eu dizia: “Sim, eu tenho que gravar um disco”. E ele: “Mas cadê as músicas? Não existe esse repertório”. E eu morria de rir: “Realmente não existe esse repertório, não existe o disco”. Mas é incrível que quando entendo o que tenho que fazer, quando crio na minha cabeça o que o disco representará pra mim, que caminhos ele deverá percorrer, parece que as canções aparecem. Primeiro pensei o que tinha que ser esse disco, e comecei a ter as ideias. Depois veio a vontade de fazer com o Zé Manoel e o Massumi, unindo com os músicos dos meus discos anteriores, o Allen [Alencar] e o João [Deogracias]. Primeira coisa que propus foi: “Zé, vamos fazer uma música?”. Então as coisas começam a se encaixar umas nas outras. Resumidamente, vou te dizer que… eu vou fazer 30 anos, e alguns amigos meus riem, eu tenho amigos mais velhos, e eles sempre começam a gargalhar quando eu falo isso, como se fosse assim: “Ó, grande coisa”, mas pra mim tendo saído de casa, de Belém, toda barra que isso significa… Eu senti que envelheci 10 anos com essa experiência, por que você ganha uma bagagem da vida prática, das coisas. Então, ter saído de casa, ter feito esses dois discos, o reconhecimento que o meu trabalho teve, a possibilidade de homenagear o [Antonio] Cicero quando ele fez 70 anos. Todas essas coisas me fizeram ter muita tranquilidade a respeito de quem sou, da minha música. Vejo que a gente vive um momento de muita informação, de muito conteúdo toda hora e não sou uma pessoa que me encaixo nisso, eu tenho meu tempo e comecei a entender que apesar das dificuldades e dos desafios, consegui, de alguma maneira, compor no meu tempo, porque a minha música vive pelo que ela é. Não estou urgente pra querer a capa da revista, eu estou querendo fazer o que a minha música me diz. E isso está muito ligado a coisa da poesia. No livro novo “A Poesia e a Crítica” (2017), o Antonio Cicero até fala sobre isso de uma maneira muito bonita, perguntando por que é tão difícil ler poesia hoje em dia? Porque a poesia ou você esquece tudo e se dedica a ela, se doa aquele poema, sai desse tempo e se dá ao tempo do poema ou você não vai apreender, fruir aquele poema. Aquele poema não vai te dizer nada. Porque a poesia tem essa capacidade de te tirar dessa nossa temporalidade do dia a dia, que é utilitária, corrida, pro tempo do poema. Entendo um pouco a minha relação com a música, com as coisas que eu faço, dessa maneira: elas têm o tempo delas. Então acho até que consigo fazer isso com certa responsabilidade e objetividade, sendo que faço muita coisa, fiz todos esses trabalhos em pouco tempo, mas a minha música tem um tempo dela. Entendo que esse disco fala sobre o fato de que as coisas começam e acabam, mas essa idéia do acabar não é de um modo triste ou que talvez possa estar ligado a fracasso, com a morte, na verdade significa um recomeço, por que tudo que acaba é pra que algo novo tenha lugar. A última canção do disco, que é só minha, fala disso, diz assim: “’’Não pense’, diz o coração / sobre o passado sobre o futuro / é tudo uma questão de tempo / e é sempre aqui: / há tanta vida passando por mim; / gente que veio e se foi; / um rosto lindo no metrô, passou.”. Então resumidamente é isso. Quando entendi essa tranqüilidade para poder situar a minha música, pra poder fazer o que eu queria, como eu queria, como eu acreditava. Resolvi ter essa tranqüilidade em relação a quem sou, as coisas que me formam, que vivi, as relações que tive, que acabaram e que tudo bem, acabaram na hora certa. Tem outra música, que é inédita, minha e do Cicero, que diz assim: “Certas coisas acabam na hora certa, mas essas são tão raras” e fala sobre coisas que continuam mesmo depois de mortas, em estado de decomposição e que isso não é bom. É bom quando as coisas acabam por que elas se realizam plenamente na hora certa, ou seja, quando elas começam e acabam quando tem que acabar. Fui entendendo mais claramente e essas coisas foram surgindo, também tive uma clareza de que esse disco deveria perseguir novos caminhos, então tem duas músicas minhas com o Cicero, mas tem outros poetas, tem Rose Ausländer, tem Eucanaã Ferraz, tem uma homenagem ao Ferreira Gullar, tem uma versão do Bob Dylan…

No caso do Edital da Natura, a sua seleção foi na edição regional do Pará…
Sim, ter sido selecionado no edital Pará também foi uma coisa muito legal, um artista que nunca foi identificado com o Pará, apesar de ser de lá, isso é muito importante pra mim. Mas também gosto do sentimento desterrado. Nesse disco eu quis entender o que eu tinha do meu lugar, tanto que tem a Fafá que, pra mim, é a voz mais importante do Pará, a serviço de uma canção minha e que me faz voltar. Então encontro a Fafá, ela fala “égua”, fala de coisas de Belém e a gente tem essa troca que pra mim é muito prazerosa. Mas também tem a música título do disco, que chama “Ninguém”, e onde tem a expressão “rei ninguém”, que fala exatamente sobre essa liberdade de você poder ser o que quiser e de onde quiser, a autoridade pra negar ao rei ninguém, você ser soberano em sua liberdade. Rei Ninguém praticamente uma palavra anula a outra né? Rei [pausa] Ninguém. Adorei, é de uma poeta de língua alemã, chama Rose Ausländer.

Você falou de algumas parcerias, mas no caso de alguns poetas, o que você faz é musicar seus poemas, isso?
Ah sim, é verdade. O disco tem parceiros em que fiz a letra e ele fez a música. Cícero, por exemplo, “A Hora Certa” é um poema que ele me deu para fazer. A música que a Fafá gravou também é um poema que o Cícero me deu, só que ela é a única música que não é nova, apesar de eu nunca tê-la gravado. O Cícero há muito tempo, em 2011, acho, me deu essa letra e eu nunca consegui fazer. Acabou que não fiz e ele a publicou no livro “Porventura” [2012], mas estou com essa letra há muito tempo, então digamos que também é uma parceria, nesse sentido, por que não musiquei do livro, musiquei do que ele me deu, mas realmente você tem razão. A Rose até por que ela já morreu. Eu musiquei o poema traduzido do alemão pelo Erick Monteiro de Moraes, que é um poeta que é do Rio, amigo… ele tem tipo 20 anos, fiquei impressionado pela idade. Ele começou a traduzir a Rose, essa poeta judia que nunca foi publicada no Brasil, e sempre me manda, por que estudo alemão e gosto muito e o Cicero também fala alemão. O Erick já traduziu muitos poemas, a idéia é fazer um livro, em algum momento, mas ainda não saiu. Eu fiquei encantado com esse poema “Rei Ninguém”, que o título é “Ninguém”. E como o Erick é muito bom… gosta de estudar idiomas, por exemplo, estudou latim sozinho, ele é realmente um geniozinho. E convidei-o também pra fazer comigo a versão do Bob Dylan, porque fazer versão é uma coisa complicada, ainda mais do Bob Dylan, que é um grande letrista, então você verter aquilo pra outro idioma, uma canção, acho que tem que ser feito de uma maneira rigorosa. E o Erick tem esse rigor da poesia escrita, ele gosta de contar as sílabas, gosta da forma, quase João Cabral, então chamei e nós fizemos juntos a versão. O Erick é outro poeta parceiro mesmo, nesse sentido que é importante.

Qual é a faixa do Bob Dylan que você adaptou?
“Vou Ficar Tão Só Se Você Se For” é uma versão de “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go”, que tem uma história: eu estava em Londres em setembro do ano passado, e nessa época eu estava lendo a correspondência completa do Arthur Rimbaud. A única vez que o Rimbaud e o Verlaine conseguiram viver juntos de fato, foi em Londres. E pensei: “Caramba, onde é essa casa?”. Vi no livro o endereço e fui atrás, ver se tinha um museu, alguma coisa, mas não tinha, era uma casa, mas eu quis ir. Um dia eu acordei, estava um dia como hoje aqui em São Paulo, um dia bem londrino, frio, um pouco nublado, um pouco de chuva. Eu desci em Camden Town e fui andando até a casa. E eu fiquei muito emocionado por que eu imaginava o Rimbaud e o Verlaine naquelas calçadas, por ali. Demorei pra encontrar a casa, por que a pessoa plantou uma hera na parede, então essa hera cobriu a placa “aqui viveram os poetas Arthur Rimbaud e Paul Verlaine”. E realmente não é nada, é uma casa, nem tive coragem de bater, se a placa está tampada, significa que a pessoa não está muito receptiva as pessoas que vão ali falar desse assunto. Saí de lá e fui prum café e imediatamente me lembrei dessa música do Dylan, por que ela fala, em português: “Nosso caso particular não dá nem pra comparar com o de Verlaine e Rimbaud / as coisas sempre acabam mal / tudo é tão triste no final / vou ficar tão só se você se for”. E na hora pensei: “Vou fazer uma versão aqui mesmo”. Peguei o meu caderno pra fazer uma versão, mas achei que não dava pra fazer de qualquer jeito, tinha que ser uma coisa séria. Então resolvi fazer quando eu voltasse pro Brasil e convidei o Erick pra me ajudar nesse sentido. Como o Erick mora no Rio e eu moro em São Paulo, a gente fez algumas noites por Whatsapp. Foi um exercício bacana. E essa música abre o disco e eu acho engraçado também porque ela tem um mistério qualquer, quando você começa a se dedicar parece que as coisas se encaixam e acontecem naturalmente, então essa música diz assim: “Vi o amor dobrar a esquina / ele nunca esteve tão perto / nunca foi tão simples ou tão certo”; porém no final ele diz assim: “Eu sei, você vai me deixar / mas vou lhe buscar no azul / onde o céu encontra o mar / ou no olhar de um novo amor / ou vou ficar tão só se você se for”, ou seja, ele não ignora que certas coisas acabam na hora certa. E quando me toquei, essa música tem tudo a ver com o que estou falando naturalmente. É engraçado, mas no fim significa que inconscientemente minha cabeça estava com essa mesma ideia, essa música do Dylan tem um verso que diz: “Não consigo nem imaginar / outra vida inteira sem você” e a última música do meu disco diz assim: “De repente era a vida inteira / agora é tarde demais pra nós”. Ou seja, o disco tem esse conceito muito bem fechado e que é proposital, mas que também me surpreendeu em muitos momentos. Parece que você está ligado, sentindo as coisas tão fortes, que aquilo meio que se revela.

Você citou a participação da Fafá de Belém, como foi esse encontro de paraenses? Você que convidou ela para cantar?
Engraçado porque a gente não se conhecia. A Fafá fez um disco pela Joia Moderna, que é a minha gravadora também. Então quando do lançamento de “Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso” (2015), eu fui convidado, assisti, mas não conhecia a Fafá. Então a gente se viu algumas vezes assim, e a Fafá tem uma coisa que admiro muito que tem a ver com a música dela, com a carreira dela, ela se joga, ela é apaixonada, acho isso incrível. Quando ela vai cantar, ela vai como se fosse a primeira vez, não tem um ranço da idade, não tem um ranço do nome Fafá de Belém. Ela encara tudo, quando ela gosta, está apaixonada, como quando a gente se apaixona por alguém, que a gente larga tudo e se joga naquilo de cabeça, a Fafá é assim em tudo. Rolou essa coisa também por eu ser de Belém, também tem uma coisa um pouco maternal, no sentido de gostar de mim, do que eu fazia, de querer um pouco me proteger em São Paulo, como alguém que já passou por isso, então senti que tem um pouco isso também e a gente se aproximou, mas nós ficamos amigos mesmo depois dessa história. Fui ver um show que ela fez, no Sesc Pompeia, de voz e piano, e ela cantou “Dona de Castelo”, do Jards Macalé e do Waly Salomão, e fui pego de surpresa, nunca imaginei que a Fafá cantasse essa música, e ela cantou muito, parecia que a música tinha sido feita pra ela. Foi muito bonito, fiquei muito emocionado. E entendi que Fafá e Waly nesse ponto eram parecidos, por que Waly também era essa pessoa que não tem nada de cool ou blasé. Então achei incrível Fafá & Waly, fiquei com aquilo na cabeça, e consegui que… quando o Cicero escreveu essa letra, ele me ligou e disse assim: “Arthur, você sabe que fiz um poema diferente das minhas coisas, parece coisa do Waly até”. Por que era muito cheio de palavras, de coisas e ele achou que parecia coisa do Waly, imaginou o Waly dizendo aquilo tudo. Só que como eu disse, eu deixei essa letra (na gaveta), e só consegui dar a música por terminada de verdade depois desse dia em que vi a Fafá cantando Waly. Então liguei pro Cicero e disse assim: “Vamos fazer uma homenagem pro Waly?”, já que ele é um poeta tão importante pra mim e ele foi tão amigo do Cicero. E o arranjo tem uma coisa latina que eu adoro na música cubana, por exemplo, o piano do Zé Manoel me lembra Buena Vista Social Club, por que ele fez um piano bem salsa, e a levada me remete por outro lado ao brega do Pará. Então acho que essa música foi tudo que eu queria, uma letra do Antonio Cicero pensando em Waly Salomão, numa música que me lembrava o meu lugar, com a Fafá, que é a voz que a abriu as portas pra todos nós, pra todo mundo que vem de lá. A Fafá passou por muita coisa sendo mulher, sendo fora do padrão de beleza e ainda assim sendo símbolo sexual. E tem outra coisa que eu gostei: Cicero e Fafá se conheciam assim: “Olá Fafá, Antonio Cicero”, mas eles nunca tinham se encontrado, Fafá nunca gravou nada de Antonio Cicero. E eu também fiquei feliz com isso por que Fafá e Cicero, pra mim, são as duas pessoas mais deliciosamente boêmias que eu conheço. Sair com eles é demais, por que eles são engraçados, gostam de falar besteira, gostam de beber, gostam de comer, adoram a noite. São muito boêmios, festeiros, animados, o Cícero tem esse jeito dele mais tímido, mas quem conhece na intimidade sabe que ele é uma pessoa muito expansiva, engraçada, e a Fafá também. Então a participação da Fafá é muito simbólica por todos esses aspectos pra mim.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Ana Alexandrino / Divulgação

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