Em Brasília, PicniK Festival 2017

Texto e entrevista por Leonardo Vinhas

Tendo concluído há pouco sua 27ª edição, é seguro dizer que o Picnik se consolidou como a principal feira de economia colaborativa do Centro-Oeste, e uma das mais notáveis do país. Também é possível afirmar que, do aspecto curatorial, o evento deu passos importantes no sentido de figurar também como um festival musical de projeção nacional. Mas é provável que muitos não saibam que proposta é essa, capaz de reunir cerca de 15 mil pessoas (público circulante) por dia num final de semana na capital federal. Por essa razão, o Scream & Yell foi bater um papo com Miguel Galvão, um dos fundadores e curadores do festival junto a Julia Hormann.

“Procuramos trabalhar uma estética que gostaríamos de disseminar para a cidade, que seja original, seja própria”, conta Miguel Galvão numa conversa que aconteceu em dois momentos: o primeiro, duas semanas antes da 27ª edição, que aconteceu nos dias 24 e 25 de junho na Torre de TV, em Brasília; o segundo, poucos dias depois do evento. A ideia era ter uma dimensão mais ampla das ambições e da origem do Picnik (que já ocorreu em diversos espaços públicos de Brasília, do Parque da Cidade ao Setor Militar Urbano, entre outros), e também entender os riscos assumidos com a presença de nomes de maior envergadura no cenário musical brasileiro – e até internacional.

O Picnik tem muitas faces de atuação. Qual é a base que sustenta todas essas faces?
A gente pode encarar o Picnik como um canal de distribuição no qual a gente coloca no mesmo espaço um grande mercado. Só que ali, além de alimentos, roupas e afins, você encontra também ideias, projetos, bandas, vários tipos de manifestação artística… A ideia é criar esse grande mercado que tem também a possibilidade de veicular coisas legais, projetos e ideias legais, e que estejam abertas ao grande público, semeando um horizonte mais ético. Essa é nossa proposta. Ele começou como uma feira de economia criativa, com DJs e gastronomia, mas fomos vendo que tinha espaço para workshop, ONG, banda – porque uma cena não se constrói só discotecando música dos outros. Como Brasília não tem esquina, o Picnik seria uma esquina para esse espaço. A gente cria vários círculos sinérgicos de atividades que dialogam – tem ioga e meditação, e também uma área exclusiva vegana, por exemplo. São coisas que dialogam, e que o cara talvez não encontre muito facilmente aqui em Brasília. A ideia é criar uma vitrine fértil de coisas legais que estão acontecendo dentro da cidade.

Interessante essa coisa de não se criar uma cena só discotecando música alheia. O Picnik começou escalando majoritariamente bandas do Distrito Federal, depois passou a trazer alguns nomes de outros Estados, e foi expandindo para incluir nomes nacionais maiores e até nomes estrangeiros. Essa edição de junho – com O Terno, Ava Rocha, Bixiga70, Tagore, The Blank Tapes e outros – não destoa em lineup de muito festival estabelecido no país. O que fez vocês investirem mais na música?
A gente não consegue trabalhar com banda sempre por uma questão do orçamento. Boa parte do nosso orçamento vem dos expositores. É um evento gratuito que se realiza em grande parte com o dinheiro aportado por eles. Eu diria que, até o ano passado, cerca de 70% do nosso investimento nas edições vinha dos expositores. Nesse ano, conseguimos acesso a uma Lei de Incentivo do DF, e isso nos permitiu pegar um patrocinador maior, que foi a Claro. Mas ao contrário de outros eventos que só acontecem uma vez no ano, o meu trabalha com comércio. E comércio, você sabe, é ponto e regularidade. As pessoas precisam saber que vai ter para ir lá e consumir. Agora estamos tendo melhores orçamentos: no aniversário de Brasília, em abril, a gente teve DJs, mas teve também um palco menor para bandas independentes. A gente sentiu essa demanda. Eu sou DJ, a Julia é DJ, éramos muito desse universo, mas não gostávamos só de música eletrônica. Gostamos de música. E aqui em Brasília, a dinâmica da cidade fez com que a coisa do DJ tomasse um tamanho desproporcional à sua importância. A gente é uma cidade que tem o Clube do Choro, tem um histórico impressionante… Mas chegou a um ponto em que só funcionava DJ ou cover. O Picnik tem uma coisa da identidade da cidade, então isso tinha que ser pensado [na programação]. Brasília é muito nova, e nossa geração está tendo a oportunidade de desenhar qual vai ser a cara da cidade. O brasiliense só está fazendo isso agora. No campo de artes visuais, na arquitetura, temos nossas particularidades, mas isso não acontecia no campo da música. E já temos a Lei do Silêncio, tudo é super burocrático… Mas é preciso regar a coisa. Tem que ter um espaço bom, com um backline decente para o cara tocar. Porque ele tá super mal acostumado: toca em um bar super apertado ou na casa de um amigo no Lago Norte, e aí vem uma megafestival tipo Porão do Rock e o cara vai tocar nesse palco gigante! Tem que ter outras alternativas, outros espaços.

Como vocês começaram a viabilizar isso, em termos práticos?
Já no segundo ano, com um patrocinador e um crowdfunding, conseguimos começar a mudar isso. Falamos, à época: “olha, pessoal, não temos dinheiro para gastar com equipamentos, botar um P.A. decente, vocês topam rachar essa conta com a gente?” Isso rolou, deu super certo, e começou a balançar o status quo da cena aqui. No ano seguinte a gente repetiu isso, conseguimos trazer o Beach Combers (RJ) e o Black Drawing Chalks (Goiânia). Até então, chamávamos de minifestival, porque era um dia só. Mas em 2015 decidimos estender para dois dias, com uma programação mais robusta. Teve Boogarins, Carne Doce, e outros. Fomos vendo o impacto disso na cidade de duas maneiras: a primeira é que, quando tem banda, atraímos um público que tem a cara e o lifetsyle que a gente acredita pro Picnik. Como o evento acontece quatro vezes ao ano, não é toda hora que a galera tá vindo. Mas a curadoria dos shows nos permite enxergar nossa tribo ali. Por isso no final do ano passado fizemos novamente uma edição com bandas. Conseguimos trazer o Gypsydelica, da Inglaterra, que eu tinha visto no Glastonbury, imagina! E a outra maneira é que, com bandas, a gente atinge as pessoas em outro nível de sensibilidade, e assim sensibilizado, ele fica mais aberto a interagir com o evento – e, por consequência, com os itens expostos ali nas nossas prateleiras. É como se eu tivesse um acesso mais efetivo a essas pessoas.

Quem faz a curadoria?
Eu e a Julia. Procuramos trabalhar uma estética que gostaríamos de disseminar para a cidade, que seja original, seja própria. Tentamos seguir um caminho único. Durante um tempo, houve uma onda neohippie, flower power, e fomos vendo que essa era uma estética que os boys da cidade conseguiam facilmente pegar. A gente até cunhou o termo “hippies de porcelana” (risos). Não acho isso legal, não tem coerência nenhuma. Quando a gente teve a oportunidade de fazer o show do Mac DeMarco – investimos todo o nosso lucro para viabilizar que ele viesse e tocasse de graça – vimos que essa pegada lo-fi, psicodélica, meio indie era algo a apostar. Tipo, o cara que saber rir muito de si mesmo para querer imitar isso. Ao mesmo tempo, não representa uma coisa que é só fazer uma tatuagem e botar uma roupinha. Nossa curadoria tem, então, um olhar misto: a gente procura esse movimento com conteúdo, olhando ao redor atrás de coisas novas que não vieram para Brasília ainda, e ver também como está o cenário aqui. E como eu e a Julia somos DJs, montamos o lineup como se a estivéssemos discotecando. Assim criamos uma linha que faz sentido na programação, com oportunidade de apresentar bandas para quem talvez não a conheceriam não fosse pelo Picnik. E buscamos a qualidade de conexão entre o artista e as pessoas. Algo de o cara falar daqui a uns anos que viu a Ava Rocha num palco quase na cara dele, que ele se sentiu próximo do som, pôde interagir com a artista… Isso que queremos proporcionar às pessoas.

Brasília parece estar vivendo uma reapropriação do espaço público, com as pessoas dando uso a lugares que ficaram inativos por anos. Claro, tem a Lei do Silêncio e tinha várias questões legais que dificultava, e ainda hoje dificultam (a Lei em questão é bastante ambígua, de modo que até uma rodinha de violão entre amigos pode ser qualificada como violação dela). O Picnik é uma das iniciativas que leva as pessoas de volta à rua, então queria te perguntar se você acredita que o brasiliense está mesmo retomando a própria cidade .
Sim, com certeza. Brasília, como eu disse, é uma cidade muito nova. A gente ainda está descobrindo como utilizá-la, e seria pretensioso da nossa parte dizer que já dominaríamos o pleno uso dela com apenas 57 anos, ainda mais no Brasil, onde sempre temos forças atrasadas querendo desvirtuar o caminho das coisas. Há uma magia muito bacana aqui, que é a vontade de fazer diferente e o vínculo com o belo, com a simetria. Esse podem ser dois nortes muito interessantes para uma nação carente, e é por isso que a gente escolhe viver nessa cidade e se arriscar nessas aventuras. Por conta de umas mentalidades mais – vamos dizer “antigas”, uma geração que já está passando – a gente tem uma queda-de-braço. Sabe a mentalidade de que “essa planta é tão bonita que temos que engessar”? E no fim, não se deixa a planta crescer, mostrar tudo o que pode… Estava conversando com um arquiteto, e ele me disse que o Lucio Costa defendia que, se o público cria um “caminho-de-rato” – que é aquele trecho para pedestres onde não havia nada para eles – ele tem que ser pavimentado. Porque se as pessoas transformaram aquilo em um caminho, que vire então um caminho de verdade. Essa geração nova, que está se encontrando agora, tá mostrando que os espaços que a cidade oferece podem representar o novo.

Picnik Festival na Torre de TV – Balanção

“O Picnik é o único festival que representa o que Brasília é hoje”, disse João Victor Canizares, vocalista da Cassino Supernova. De fato, o festival mostra uma Capital Federal na qual os jovens não parecem acreditar no serviço público como rota de salvação, as causas LGBT são tema mais de diálogo que de confronto, e na qual o “velho” não precisa ser substituído pelo “novo” – ambos podem conviver no mesmo espaço.

E nos dois dias de junho em que ocorreu na Torre de TV, “mesmo espaço” era literal. Era impressionante como tantas atividades transcorriam normalmente sem maiores tumultos e desencontros. Sim, houve falhas estruturais – os shows chegaram a atrasar em mais de uma hora, houve interrupções no som da Pista de Dança no domingo, o fluxo de alguns espaços ficou apertado, não havia iluminação nos banheiros químicos, e em muitas das cabines faltava água e papel higiênico. São situações que não se mostraram frequentes em edições anteriores.

Sobre isso, Miguel Galvão pontua: “Foi a primeira vez que trabalhamos na Torre de TV, num evento que já chegou lá muito grande, o que torna muito mais complicado de realizar ajustes já com o evento em andamento. Direcionamos muita atenção à questão da segurança, que havíamos identificado como maior ameaça – a região fica perigosa depois das 20 horas em ‘dias normais’ . Temos consciência que temos muito a melhorar, mas nossa avaliação é que essa edição superou todas as nossas expectativas. Tivemos muitos pontos positivos, como o envolvimento desse público mais família, muito identificado com a cidade. Apesar de ter tido alguns gargalos, sobretudo na praça de alimentação, o fluxo circular favoreceu bastante os expositores e manteve o PicniK muito vivo a todo momento. E comércio é fluxo, né? E acredito que conseguimos criar uma oportunidade das pessoas reviverem as saudosas tardes gostosas de final de semana na Torr de TV, hábito candango que se perdeu um pouco depois que mudaram a feirinha [da Torre] de lugar, mas que não pode ser esquecido”.

Nesse resgate das tardes, dava para comer bem sem gastar os tubos – um prato de galinhada por R$ 10, paella valenciana por R$ 20, tapiocas por até R$ 3, entre outras opções, que iam desde arroz com carne de jaca (!) até um simples saquinho de pipoca. Havia também cerveja para todos os gostos e bolsos (inclusive um stand de degustação de produtos das cervejarias locais), drinks e vinhos. Nesse cenário, e com uma temperatura atipicamente amena para o cerrado, ficava fácil circular pelo gramado da Torre de TV. No domingo, a praça de alimentação teve os seus gargalos, mas nada que impossibilitasse a compra de comida. Para quem encara os custosos e lentos bares das casas de shows de São Paulo, era um cenário tranquilo, até.

No quesito shows, mesmo com o Bixiga 70 comandando seu groove eficiente de sempre, que ainda teve a estreia ao vivo do single “Primeiramente” (tocado com o Congresso Nacional e a Praça dos Três Poderes ao fundo), o dia foi de Ava Rocha. Uma semana antes, no Vento Festival, a experiência de ver Ava Rocha no palco fora totalmente performática e impessoal, diversa do show suarento, empolgante e pesado do Picnik. No final da tarde ainda rolou Firefriend, que proporcionou uma descoberta: ainda existem bandas indies repetitivas e ensimesmadas que cantam em inglês. Já no domingo, teve mais shows e mais variações. The Blank Tapes combinou o cancioneiro californiano, power pop e uma ou outra guitarreira lisérgica em um show simples, convidativo e sexy. Matt Adams e Veronica Bianchi se fizeram acompanhar de dois outros músicos brasileiros e entregaram vários de seus hits de culto, como “Long Ago”, “Sexxy Skyype”, “Look Into The Light” (com direito à tradicional jam no meio da canção) e “Coast to Coast”, mas especial mesmo foi vê-los tocando “Brazilia” na cidade que inspirou a canção (e que Adams nunca visitara até então).

O Terno era esperado com status de headliner (mesmo sendo a antepenúltima), e entregou um show mais pesado e imprevisível que seus discos. Logo na sequência, Tagore fez um set encurtado (a pedido da produção, devido aos atrasos), e parece ter usado o tempo reduzido a seu favor: trouxe quatro canções de “Movido a Vapor” (2014) e quatro de “Pineal” (2016), mais uma inédita, em versões pesadíssimas. Parecia um show de estádio, tamanho o corpo da sonoridade e o entrosamento dos cinco músicos. Um dos shows do ano! Teve ainda Supervibe e Glue Trip, a boa surpresa The Ráulis, de Pernambuco, com sua mistura de cumbia amazônica e surf music; teve o surf rock veterano e sempre certeiro dos são-carlenses The Dead Rocks, o folk agringalhado e meio fantasiado de Mustache e Os Apaches, e a homenagem ao baixista Pedro Souto (Almirante Shiva, Judas), feita pela Cassino Supernova, recentemente reformada para saudar o antigo integrante, recentemente vitimado por um aneurisma. Ainda tinha o palco da Lombra Records, Fusca de cervejas, árvores coloridas, fontes de água, comida e tantas outras coisas que não consegui usufruir nem da metade. O PicniK concilia uma envergadura considerável com uma proposta comercial não-agressiva. Poucos são os eventos que conseguem igualar tal equação no país, se é que há algum. É um exemplo para se olhar de perto, aprender e multiplicar. Podemos todos ter muito a ganhar.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell. Fotos do texto por Tomas Faquini / Divulgação. Confira a galeria completa de fotos aqui.

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