Três Discos: Lupa, Ayrton Montarroyos e Laura Petit

Resenhas por Renan Guerra

“Lupercália”, Lupa (Agente Digital)
Lupercália era um festival romano de fertilidade, cerimônia na qual sacerdotes sacrificavam ovelhas e cães, retirando suas peles e com elas açoitando pessoas pelas ruas, especialmente as mulheres inférteis, deixando assim sua carne em cor púrpura — essa festa é um dos prelúdios do nosso atual carnaval. “Lupercália” também é o título do disco da banda Lupa, e é a cor púrpura que domina a capa do trabalho, um exercício de espírito festivo e sexual, com canções de ritmo forte e refrãos pegajosos. A estreia da banda brasiliense foi lançada através de um exitoso financiamento coletivo, apoiado pelos fãs que eles vêm colhendo desde seu EP de estreia, em 2014. Versando sobre amor, encontros casuais e sexuais, “Lupercália” se sustenta no padrão usual do rock alternativo dos últimos anos, porém mesmo com uma fórmula já conhecida, a Lupa consegue criar um universo realmente envolvente, que diverte e nos leva a pôr o disco no repeat. Fiquem atentos as ótimas “Lunático”, “Contra a Parede” e “Justo eu”, que ganhou um clipe sacana (assista mais abaixo), reencenando ditados clássicos como “descabelar o palhaço” ou “bater um bolo”.

Nota: 8

“Ayrton Montarroyos”, Ayrton Montarroyos (Independente)
O recifense Ayrton Montarroyos já possuía um respaldo no mundo musical quando entrou na quarta edição do The Voice Brasil, programa do qual foi vice-campeão em 2015. De voz intensa e com um repertório refinado, Ayrton sempre pareceu ir na contramão do que é usual no The Voice: nada de firulas, de gritos ou exageros vocais; e é essa sua delicadeza que toma conta de seu disco homônimo de estreia. Com ares da “era do rádio”, Ayrton navega por um repertório diversificado: de Cartola e Zeca Pagodinho passando por Caetano Veloso e chegando a Zeca Baleiro, sempre por escolhas nada óbvias. Com produção de Thiago Marques Luiz, “Ayrton Montarroyos” traz arranjos de Yuri Queiroga, Arthur Verocai, Diogo Strausz, Vitor Araújo, Zé Manoel (Ayrton, inclusive, participa do álbum “Delírio de Um Romance a Céu Aberto“), Vinícius Sarmento e Rovilson Pascoal, que também assina a direção musical. Nesse encontro entre referências ao passado e artistas extremamente inventivos da atualidade, Ayrton cria um disco sólido, que mostra sua sabedoria em pinçar um repertório distinto, que soa como que feito especialmente para esse disco. Entre tantos grandes nomes, é a mão firme e segura de Montarroyos que toma conta dessa estreia: um disco que reverencia o passado, mas que mira no futuro.

Nota: 8,5

“Monstera Deliciosa”, Laura Petit
Cantora de MPB é quase uma gôndola onde todas as artistas femininas são encaixadas no Brasil e é essa caixinha que Laura Petit consegue desconstruir em seu disco de estreia. “Monstera Deliciosa” versa o feminino sob diferentes olhares, desde uma liberdade conquistada sob luta até o olhar masculino sobre o corpo feminino – vide a releitura de “Tarado” (Caetano Veloso e Jorge Mautner), que ganha aqui uma sensualidade e uma ironia na voz de Petit. Com 23 anos e uma carreira como bailarina, Laura demonstra uma mão firme na criação de seu disco, que vai para além da tag MPB: com sintetizadores, guitarras e ambientações específicas, ela consegue se aproximar de Céu e Bárbara Eugênia, por exemplo. Produzido por Felipe Fernandes, Eduardo Manso e Estevão Casé e gravado no estúdio RockIt!, no Rio de Janeiro, a estreia de Laura já demonstra uma artista muito consciente dos caminhos que quer seguir e preparada para desbravá-los. “Monstera Deliciosa”, o título, vem do nome científico da Costela de Adão (a planta hipster que domina os catálogos de moda ultimamente), remetendo diretamente ao exemplo bíblico: Eva teria sido criada a partir da costela de Adão; mais que isso, Eva sempre é o arquétipo de monstra que seduz os homens com suas delícias; essas referências bíblicas servem para que Laura cante de forma debochada “nem adianta oferecer maçã, quero temperada essa costela de Adão”, na ótima “Paraíso Menu”. Nesse universo múltiplo da artista, destacam-se as canções “Al Dente”, “Bicho” e “Engole-me”, faixas inteligentes e prontas para se tornarem “hits do underground”.

Nota: 9

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

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