Entrevista: Cida Moreira

por Renan Guerra

Em mais de 30 anos de carreira, a cantora e atriz Cida Moreira nunca abandonou sua veia de ousadia, que busca cantar aquilo que a toca de verdade, sejam os velhos ou novos. Com um repertório que mescla clássicos do cancioneiro nacional e compositores jovens da nova cena brasileira, Cida apresenta agora “Soledade Solo” (2017), disco ao vivo gravado na Casa de Francisca, em São Paulo, na mesma época em que gravava seu último disco, “Soledade” (2015).

Lançado pelo selo Joia Moderna, de Zé Pedro, “Soledade Solo” tem uma lista ampla de compositores: Caetano Veloso, Milton Nascimento, Belchior, Tom Waits, Leonard Cohen, Chico Buarque, Mariane Faithfull, entre outros. Cida considera que nesse repertório e nesse show há “um estado poético e musical, um sentimento de soledade pessoal, referenciado em canções que não entraram em ‘Soledade’; e outros muitos sentidos vindos da memória, da poesia, de uma viagem antiga pelas cidades, pelos amores, pelas grandes referências a um estado de alma feminino, de uma artista que em tudo canta um Brasil profundo”.

Como é natural de sua produção, Cida dá novo caráter a canções conhecidas, resgata pérolas perdidas e nos apresenta encantos novos, tudo com sua voz marcante e seu piano forte. Sempre outsider, Cida é uma artista que sempre precisa ser descoberta e redescoberta por todos, por isso conversamos com ela sobre o disco novo, seus projetos e sua carreira. Confira:

“Soledade Solo” é apenas o seu segundo disco ao vivo, desde a sua estreia, com o clássico “Summertime”, de 1981. Como você explica todo esse tempo sem registros ao vivo em disco?
O “Soledade” não é meu segundo CD ao vivo (mas sim o terceiro). Tenho o “Summertime”, “A Dama Indigna” e o “Soledade Solo”. E todos os demais são gravados com todo mundo junto no estúdio, ao vivo, todos eles, pois é assim que faço meus discos. Pequenas correções são feitas depois, mas é todo mundo tocando junto.

Este ao vivo segue o seu padrão mais minimalista de cantar apenas acompanhada do piano, diferente do seu último disco, que possui outros instrumentos e até mesmo intervenções eletrônicas. Essa foi uma escolha natural para essa versão do show?
“Soledade Solo” não é outra versão do “Soledade”, é um CD completamente diferente, com músicas escolhidas no mesmo caráter de sempre: que falem de mim como artista livre, independente e dona de seu trabalho. O minimalismo não é um padrão, é, desde criança, minha melhor expressão. Sempre. É de dentro pra fora e não o contrário. Sou uma mulher que toca piano e canta, desde sempre.

Do repertório de “Soledade” reaparecem aqui apenas “Forasteiro” (Hélio Flanders e Thiago Pethit) e “Preciso Cantar” (Arthur Nogueira e Dand M), duas faixas de compositores mais jovens. Como é sua relação com essa nova geração?
A minha relação com novos compositores é de encantamento e crença na sua qualidade e existência. Sempre busquei o não óbvio, sempre cantei os compositores que amo, pois não tenho nenhum outro vínculo com a música, a não ser minha total liberdade. E essa liberdade é uma escolha de vida.

O repertório de “Soledade Solo” passeia por diversos universos, desde Belchior até Tom Waits e Leonard Cohen, passando por duas fases distintas de Caetano Veloso. Como foi a construção desse repertório?
Posso considerar que de um aparente caos musical de tudo que amo, acabo cantando o que me diz respeito naquele momento, pois conto histórias, minhas e dos outros. Sou uma mulher que canta sua própria história, e elege os compositores que me dão a beleza deles para compartilhar comigo.

O show foi gravado na Casa de Francisca, em 2015, na mesma época da gravação do álbum de estúdio. Ao que se deve esse espaço de tempo até o lançamento do disco?
Esse tempo todo não significa nenhuma jogada. Apenas esperamos o “Soledade” cumprir seu caminho, e daí fizemos o CD de um show já gravado. O difícil foi deixar várias belezas de fora…

Você possui uma carreira de mais de 30 anos, sempre mantendo seu olhar à margem e mantendo essa veia independente. Seria esse um ato de coragem em um país que desvaloriza tanto a arte?
Sou corajosa, louca e respondo por mim, sem me arrepender.

Esse ano, inclusive, você voltou a ministrar aulas de canto: é uma atividade que também lhe dá prazer? Como funciona isso?
Dou aulas há 30 anos. Voltei a dar aulas este ano depois de dois anos por causa inclusive de uma cirurgia cardíaca que fiz em 2015. Precisava ficar boa de vez, pois trabalho muito, muito…

O Cacá Rosset está preparando o retorno do Teatro do Ornitorrinco, ele estreará o musical “Ornitorrinco Canta Brecht e Kurt Weill”, podemos esperar a sua participação nesse espetáculo também?
Ah… a falta de informação é dura. Este show a que se refere foi criado por mim, Cacá e [Luiz Roberto] Galizia em 1977, na fundação do Teatro do Ornitorrinco. Teve uma longa carreira de sucesso e é um clássico do teatro brasileiro. E em 2012, já voltamos com ele em seis pequenas temporadas na Francisca, comigo, Cacá e Antônio Carlos Brunet, que também foi do Ornitorrinco. Paramos um pouco e voltaremos daqui a pouco; mas já havíamos voltado com o sucesso de sempre. Quero esclarecer que quando eu e o Galizia saímos do Ornitorrinco, em 1982, o Cacá ficou com o nome da empresa com ele, só isso. Estamos aí… reinformando gerações do melhor teatro e da melhor música, pois é no que acreditamos e fazemos. Sem medo, com dúvidas e coragem, na mesma proporção.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *