Cinema: “Fragmentado”, de M. Night Shyamalan

por Marcelo Costa

Lembra-se de M. Night Shyamalan, o homem que fechou a tampa dos anos 90 com um filme brilhante, “O Sexto Sentido” (1999), lançou outras três obras acima da média na sequência apoiadas no suspense (que dividiram o público na época, a saber: “Corpo Fechado”, de 2000; “Sinais”, de 2002; e “A Vila”, de 2004) e depois tropeçou num limbo cinematográfico que jogou seus cinco filmes posteriores na lama do esquecimento? Bem, boa notícia: M. Night Shyamalan está de volta, e irá atormentar seu sono com “Fragmentado” (“Split”, 2017, no original), seu primeiro grande filme após a fase áurea do começo dos 00 (“A Visita”, de 2015, quase chegou lá).

Não é a toa que no Metacritic “Split” tenha recebido a mesma nota (6.2) de “Corpo Fechado”, ambos ficando abaixo apenas de “O Sexto Sentido” (6.4), no topo da cinematografia do diretor – e grande parte da obra dos anos de esquecimento do cinema de Shyamalan não consiga passar da nota 4, sendo que “O Último Mestre do Ar”, de 2010, estacionou na incrível nota 2! – o que por si só já é um sintoma para quem se tornou fã desse cineasta indiano (naturalizado norte-americano) de que há coisa boa, finalmente, na telona. Ou seja, prepare-se, porque o mundo perturbado de Shyamalan está de volta em alto nível.

O ponto de partida de “Fragmentado” é o sequestro de três jovens estudantes. Elas estão comemorando o aniversário com uma turma de amigos em um buffet, mas assim que a festa termina, uma das “amigas” (que vive isolada na sala de aula e está ali apenas por um “convite de misericórdia”, afinal a aniversariante não poderia convidar a sala toda e deixa-la de fora, causando mais dor a garota, ela explica ao pai) perde a carona para casa (na verdade, o espectador descobrirá que ela tem sérios problemas em casa, e evita ao máximo voltar para o “lar”) e acaba estando no lugar errado, na hora errada.

O sequestrador se chama Kevin, mas essa é apenas uma de suas 23 personalidades. Isso mesmo que você leu. O rapaz sofre de Transtorno de Identidade Dissociativo (DID), e essas 23 personalidades se alternam tomando conta de seu corpo, que muda de acordo com cada uma das personalidades. O caso de Kevin é acompanhado por uma psicóloga, a doutora Karen Fletcher (a veterena Betty Buckley, que estreou no cinema com “Carrie – A Estranha”, em 1976), que tenta ajuda-lo com seu DID, e acredita que a doença pode, em casos extremos, causar alterações fisiológicas e leva-lo a um estado superior a média dos seres humanos.

O cenário que o leitor pode visualizar sem causar spoiler é a de três jovens mantidas em cativeiro por um homem de 23 personalidades. Kevin então se transmuta em algumas dessas 23 personalidades: Dennis, por exemplo, sofre de TOC, tem tendências voyeur e um lado forte que quer dominar Kevin auxiliado por Patrícia (que se veste de mulher) e por Hedwig, um garoto de 9 anos fã de Kanye West. Juntos, Dennis, Patrícia e Hedwig acreditam que uma 24ª personalidade, muito mais forte, está prestes a aflorar em Kevin, e o trio começa a preparar o território (com o sequestro) para a chegada desta nova personalidade, que eles apelidam de… A Besta.

Tentando enganar a psicóloga, Dennis se passa por Barry, a personalidade extrovertida de um estilista que vinha dominando Kevin ultimamente, mas a doutora percebe algo errado (algumas das outras personalidades do rapaz tentam avisa-la via e-mail), e começa o jogo psicológico de tentar entender o paciente, estudando-o e protegendo-o de si mesmo. Paralelamente, o roteiro tem como história secundária o drama de Casey Cooke, uma jovem com um passado traumático e uma história de autoagressão, a garota “estranha” que estava no lugar errado, na hora errada. Em flashbacks, a história de Casey é apresentada ao espectador, e as peças começam a se encaixar.

O ótimo ator escocês James McAvoy (o Professor X da franquia “X-Men”) interpreta Kevin e suas variadas personalidades num daqueles papeis que todo ator sonha cair no colo à vida inteira. A garotinha fofa Izzie Coffey interpreta Casey aos 5 anos e Anya Taylor-Joy (que ganhou vários prêmios por sua atuação no também assustador “A Bruxa”, de 2015) assume o papel do personagem jovem. E, como de costume, M. Night Shyamalan faz uma ponta. “Fragmentado” dá um leve escorregão nos minutos finais, quando o roteiro abandona o plano “real” e se aproxima dos quadrinhos, paixão assumida do cineasta, momento em que Shyamalan aproveita para uma autocitação que (surpreende e) abre as portas para uma sequencia, já prometida. O escorregão, no entanto, não tira o mérito de um grande filme de terror psicológico.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

Leia também:
– “Corpo Fechado” é um filme tão cheio de novidades quanto um disco novo do Motörhead (aqui)
– Em “Sinais”, M. Night Shyamalan testa a fé com alienígenas. E se sai muito bem (aqui)
– “A Vila” é uma metáfora brilhante sobre a manipulação nos EUA de George W. Bush (aqui)

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