Domingos Oliveira: 1966, 2002, 2011

por Renan Guerra

“Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos Oliveira (1966)
Leila Diniz! Esse filme poderia ser resumido apenas em Leila e no seu olhar de moleca, sua verve arruaceira e sedução poderosa, mas esse pequeno filme da zona sul carioca conseguiu ir ainda mais além. Grande sucesso da carreira de Domingos, “Todas as Mulheres do Mundo” tem a honra de ser uma dos raros sucessos de crítica e público em nosso cinema, lotando salas e tornando Paulo José e Leila em astros da época. Com a leveza dos anos 60 e certa frivolidade sem culpas, a estreia de Domingos no cinema tem a cara da zona sul carioca, que se banhava nas areias de Ipanema sem pensar em política. Com tintas autobiográficas (o diretor era então casado com Leila Diniz), “Todas as Mulheres do Mundo” acompanha o ciclo completo do relacionamento dos protagonistas, com um olhar sagaz e uma linguagem bastante pop, com as marcas do autor já delineadas: a verborragia, o existencialismo fanfarrão e a paixão desmedida. Despretensiosamente, o filme tem uma das sequências mais belas filmadas por Domingos: completamente apaixonados, Maria Alice e Paulo dançam, sobre a cama, ao som de “Jambalaya”, até que ele se traveste com as roupas dela, enquanto ouvimos o riso apaixonante de Alice – mais Leila do que nunca.

Nota: *****

“Separações”, de Domingos Oliveira (2002)
“O amor é uma selvageria.”, diz o personagem de Domingos em certo momento do filme “Separações”, desiludido do amor e já encharcado de uísque. Como na “Quadrilha”, de Carlos Drummond, “Separações” reúne vários personagens que amam uns aos outros, porém cada um em seu momento, desencadeando situações que vão da comédia a tragédia grega. Centrado no casal Cabral e Glorinha (Domingos/Priscilla Rozenbaum), “Separações” consegue alinhar essa ciranda, criando uma mise-en-scène que faz com que suas personagens disponham-se de forma quase ordenada em meio a verborragia poética de seu texto, que mescla pequenos poemas entre as falas de cada personagem. “Separações” define Domingos que, como diz uma das personagens, “tende para a overdose no amor”. Além disso, o elenco, já tarimbado em suas obras (Priscilla, Ricardo Kosovski, Maria Ribeiro), consegue dar conta de uma história que capta a delicadeza e a intensidade do amor de forma sincera e atemporal. Certamente o poema de Cabral é um dos momentos mais apaixonados/apaixonantes do filme: “Vamos foder o dia inteiro? Vamos aceitar tudo o que o outro é? Defender tudo o que o outro é? Amar tudo o que o outro é? Vamos foder o dia inteiro?”.

Separações: ****½

“Domingos”, de Maria Ribeiro (2011)
Filmado de forma íntima durante oito anos por Maria Ribeiro, “Domingos” não se apresenta como um documentário que busca dar conta da biografia de Domingos Oliveira. Não há depoimentos buscando uma linearidade, nem há a necessidade de dar conta do todo de seu personagem. É um recorte muito claro: este é o Domingos de Maria. Com um olhar fraternal, de quem tem na figura de Oliveira um pai, Maria filma momentos de intimidade, espaços de criação e reúne poucas falas de personalidades, como Fernanda Montenegro. A principal intenção do longa é captar aquela essência de filósofo de bar do Baixo Gávea que paira sobre Domingos. Maria quer nos fazer ouvir e vivenciar as mesmas experiências que ela, como amiga íntima do personagem, vivencia constantemente. Com esse caráter, o longa se fecha em seu próprio universo, não servindo em nenhum momento de porta de entrada para quem tenta conhecer a obra de Domingos, mas soando claramente um filme para iniciados e, mais que isso, para apaixonados pela obra deste artista. “Domingos” é como uma carta de amor e amizade de Maria para Domingos.

Nota: ****

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Scream & Yell.

Leia também:
– Três filmes de Domingos de Oliveira – 1971, 1998, 2005 (aqui)

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