Boteco: Cinco cervejas da Inglaterra

por Marcelo Costa

De Bury St. Edmunds, terra da Greene & King, que comprou a Morland no ano 2000, minha terceira Old (…) Hen surge após a tradicionalíssima Old Speckled Hen (1979) e a Old Crafty Hen (2008) e é a terceira da linha: Old Golden Hen, lançada em 2011 (há ainda uma quarta Old, a Hoopy Hen, lançada em 2014), uma Golden Ale que traz como diferencial a utilização do lúpulo Galaxy, da Tasmânia, na Austrália. De coloração muito mais âmbar do que dourada e creme branquinho de média formação e retenção, a Old Golden Hen exibe um aroma bastante suave que traz algo de cereais, cítrico leve, mel e biscoito. Na boca, textura leve. O primeiro toque oferece suave doçura (mel) seguida de sugestão de biscoito e cítrico discreto. O amargor é baixo e, dai em diante, surge uma cerveja bastante suave oferecendo refrescancia e sabor. O final é maltadinho enquanto o retrogosto reforça mel, biscoito e leve cítrico. Agradável.

De Buxton, cidade do condado de Derbyshire próxima de Sheffield e Manchester, minha sexta cerveja da Buxton Brewery, a Gold, uma Golden Pale Ale com dry-hopping de lúpulos Amarillo, Liberty e Nelson Sauvin. De coloração alaranjada com creme branco de boa formação e média alta permanência, a Buxton Gold exibe um aroma sensacional que se divide quase que metade a metade entre notas cítricas (tangerina, mamão e pêssego) e notas herbais (pinho) com leve percepção de doçura caramelada e resina. Na boca, a textura é cremosa e ao mesmo tempo picante. O primeiro toque confirma o domínio do lúpulo na receita com uma pancada tanto herbal (pinho) quanto cítrica (maracujá e tangerina) que desemboca em outra pancada, a de amargor, não tão potente (60 IBUs talvez?), mas extensa, arranhando a garganta até o final, amargo, levemente resinoso e herbal. No retrogosto, amargor, resina, pinho e maracujá. Ótima!

De Dunbar, na Escócia, a Belhaven, outra cervejaria comprada pelo império Greene & King, marca presença com sua Scottish Oat Stout, uma Oatmeal Stout de coloração preta intensa com creme marrom espesso de boa formação e longa retenção. No aroma, o láctico derivado da aveia salta à frente das sugestões de toffee e caramelo levemente queimado assim como das notas que rememoram chocolate amargo e café, este último presente de forma sutil na base. Na boca, a textura é cremosa. O primeiro toque traz doçura caramelada intensa seguida com toques lácticos seguida de toffee e chocolate amargo, que dão uma impulsionada no amargor, que ainda assim permanece baixo. Dai pra frente surge uma cerveja com graduação alcoólica muito bem trabalhada (7%), bastante doçura (um pouco a mais do que eu gosto) e final levemente melado. No retrogosto, toffee, caramelo queimado e calda de ameixa. Ok.

De Manchester com um ícone da cidade, a Boddington’s Pub Ale, uma Bitter lançada em 1994 pela cervejaria de mesmo nome fundada em 1853 e adquirida pelo império Anheuser-InBev em 2000 (que demoliu a fábrica histórica da marca em 2005 e transferiu a produção para Lancashire e País de Gales). Essa Boddington’s Pub Ale foi uma das primeiras a utilizar uma cápsula propulsora de nitrogênio (bastante conhecida hoje na Guiness Draught) que deixa a espuma muito mais cremosa. De coloração âmbar acastanhada com creme espesso, branco e leitoso, de belíssima formação e longa retenção, a Boddington’s Pub Ale exibe praticamente nada no aroma: um rastro indistinto de cereais e caramelo há anos luz de distância. Na boca, textura seca e sem graça. O primeiro toque reafirma o que o nariz adianta, ou seja, caramelo e cereais ralos e facilmente esquecíveis. O amargor é baixo e, dai em diante, surge uma cerveja que pode funcionar em dias quentes (e só em dias quentes). No retrogosto, decepção.

Voltando para Derbyshire com outra cerveja da Buxton, Tsar, a elogiada Russian Imperial Stout da casa, de coloração preta intensa com creme bege espesso de formação excelente e longa retenção. No nariz, um belíssimo aroma sugerindo notas derivadas de malte torrado, primeiro café, depois chocolate amargo, cacau e baunilha distante. Há ainda percepção de defumado, nozes, calda de ameixa, uva passa, notas herbais e sutil presença de álcool. Na boca, textura sedosa e picante. O primeiro toque traz doçura achocolata seguida praticamente no mesmo instante por amargor herbal e de malte torrado (café) envolvidos apaixonadamente em álcool. O amargor é bastante potente (80 IBUs) e turbinado por álcool e malte torrado. Dai em diante surge um conjunto complexo e viciante que finaliza com amargor herbal e torrado. Enquanto isso, o retrogosto, calda de ameixa, café, leve defumado e amargor herbal. Sensacional.

Balanço
A mais tímida da Old (…) Hen, essa Golden ainda consegue ser agradável e, num dia quente, pode soar a melhor cerveja do mundo. Está tudo aqui de forma simples, mas correta. Já a Buxton Gold é uma baita surpresa, uma bela American IPA travestida de Golden Ale lupulada que tem tudo para colocar sorrisos no californiano fã de India Pale Ale made in USA mais ranzinza do mundo. É até difícil de acreditar que é uma cerveja (tão lupulada) britânica! Palmas. A Belhaven Scottish Oat Stout me soou um tiquinho mais doce do que o agradável, mas é uma cerveja interessante com bastante potencial, o que infelizmente não pode ser dito da Boddington’s Pub Ale, uma Bitter águada e esquecível. O mesmo não pode ser dito da Buxton Tsar, uma Russian Imperial Stout lupuladissima e sensacional.

Old Golden Hen
– Produto: Golden Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4.1%
– Nota: 3,15/5

Buxton Gold
– Produto: Golden Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3,63/5

Belhaven Scottish Oat Stout
– Produto: Oatmeal Stout
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,14/5

Boddington’s Pub Ale
– Produto: Bitter
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 2,05/5

Buxton Tsar
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 9.5%
– Nota: 3,88/5

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