Três perguntas: Luísa Maita

por Leonardo Vinhas

Muito rapidamente, “Fio da Memória”, segundo álbum de inéditas da cantora paulista Luísa Maita, se sobressai. O destaque não é apenas em relação ao seu antecessor, “Lero-lero” (2010), mas em relação à própria produção corrente do… pop? MPB? eletrônica? Difícil especificar o rótulo. Há no Brasil, tanto por parte de crítica como de público, a tendência de tratar “cantoras brasileiras” como um gênero. Entende-se que isso possa ter raízes em uma tradição de grandes intérpretes, que começa na Era do Rádio e segue até os dias atuais com uma lista ampla de ótimos nomes. Mas não dá para colocar Clara Nunes e Elza Soares no mesmo filão, como se sua música tivesse alguma ligação, assim como não dá para negar que esse “gênero” ficou associado à assepsia, à modorra causada por interpretações tecnicamente “perfeitas” e sem nenhuma alma. Assim sendo, esforcemo-nos para não perpetuar nesse erro de jogar tudo numa vala comum.

“Fio da Memória” está em seu próprio lugar. Sim, você já ouviu/leu bastante esse papo de “não cabe em rótulos”, e deve estar cheio de justificável ceticismo. Pense, então, em algo imprecisamente “eletrônico” como primeira referência. Obra conjunta de Luísa com os produtores Tejo Damasceno e Zé Nigro, o disco usa a eletrônica como ponto de partida e aceita elementos mais acústicos para mudar a paisagem em alguns trechos da jornada. Assim a audição conjunta e ordenada das faixas reforçam o clima particular do disco e dão sentido maior à experiência.

A isso chamam “álbum”, um conceito que perde força nos tempos de consumo voraz e algo aleatório de musica digital. Mas esse é um aceno ao “passado” que os autores fazem com alegria: a unidade sonora realmente trabalha a favor da união dessas 11 faixas, de modo que mesmo momentos mais convencionais – como “Volta” e “Asa” – funcionem mais como respiros do que pontos baixos. A faixa-título, “Olé” e “Música Popular”, por sua vez, apresentam construções harmônicas nunca ouvidas antes por aqui, com uma hipnose grave gerada por percussões eletrônicas e acústicas amparando a voz de Luísa, que não tem medo de usar seus recursos vocais como mais um instrumento (também tratados como tais pela produção).

Aqui e ali, escutam-se alguns elementos que já se ouviram em trabalhos do Instituto ou mesmo no ótimo “Anelis Assumpção & Os Amigos Imaginários” (2015). É natural: Damasceno é um dos integrantes do coletivo paulistano, enquanto Nigro é parceiro de Anelis. Porém, o que acontece aqui é um misto da continuidade do trabalho de ambos, somada à identidade e à busca sonora de Luísa, que entrou em estúdio em 2012 disposta a romper com a sonoridade MPBista de “Lero-lero”.

Os discos de Luísa têm distribuição internacional pelo selo Cumbancha, o que significa que ela continuará a se apresentar na Europa e nos Estados Unidos. A presença de duas faixas de seu debute, “Desencabulada” e “Lero-lero”, na trilha sonora do filme “Boyhood” ajudou a impulsionar essa carreira no exterior. No Brasil, seu trabalho, que inclui ainda o álbum “Remixed” (2012), é distribuído pela Tratore. Por telefone, Luísa Maita falou sobre o porquê da ruptura com a sonoridade que a levou aos palcos estrangeiros, e o processo criativo que culminou em “Fio da Memória”.

Você saiu de um som muito marcadamente brasileiro, que talvez até fosse mais interessante para o mercado estrangeiro, e partiu para uma proposta nova e ousada. Qual foi o ponto de partida para isso?
É uma escolha mesmo. Não queria de jeito nenhum fazer um “Lero-lero 2”. Tem muitos artistas que, ao longo da carreira, mudam muito de estilo de um disco pro outro. E é isso que eu quero fazer. É muito difícil para mim fazer um som que eu não esteja a fim, e um segundo disco como o “Lero-lero” é muito o que eu não estava a fim. Paga-se um preço por essa mudança, mas assim você se realiza. Na verdade, se fosse para continuar no mesmo estilo, também haveria um preço. Mas é muito legal se reinventar, ver que você não é uma coisa só. Nesse caso, o preço é pago, mas ele traz outras possibilidades.

Como aconteceu essa mudança? Foi influência do Tejo Damasceno em um primeiro momento, ou já era uma busca sua?
Eu iniciei a produção desse segundo disco com muita vontade de entrar na estética eletrônica. Procurei o Tejo para desenvolvermos esse lado juntos. Ele já tinha feito um remix (da faixa “Atento”) do qual eu tinha gostado muito. Eu queria me ver em outro contexto, saber aonde eu queria chegar. Não tinha a referência de um determinado artista, mas estava muito a fim de entrar nesse caminho. Trocamos muitos sons, eu e o Tejo, mas não necessariamente eram coisas que tinham a ver com o resultado final. A partir disso e das nossas conversas fomos construindo essa sonoridade, e as pessoas estão nos dizendo que é um disco bem original. Eu mesmo não imaginava que pudéssemos chegar a uma faixa como “Fio da Memória”, sabe? Fomos construindo instrumento por instrumento, e foi muito além do que eu imaginava. “Around” também foi uma coisa inesperada, ela chegou a um resultado que nem passava pela minha cabeça.

Você sente que há algum contemporâneo seu que esteja em sintonia com o que você está buscando, esteticamente?
Putz… Não sei se posso dizer isso especificamente de alguém. Estou numa geração de pessoas muito talentosas, com muitas cantoras que admiro, como Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Tiê… Elas são artistas muito legais, mas não acho que elas façam um som que vá pro mesmo lado do meu.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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