Três discos: Bob Mould, Dinosaur Jr, Angel Olsen

“Patch The Sky”, Bob Mould (Merge Records)
por Adriano Mello Costa
Em 2012, Bob Mould reapareceu de fôlego renovado com “Silver Age”. Não que “Life and Times” (2009), o antecessor, fosse um disco ruim, porém não exibia nada além do (bom) mais do mesmo. “Beaty & Ruin” (2014) manteve a qualidade em alta alimentado em grande parte por brigas internas do artista e o falecimento do pai. Após seu lançamento foi a vez da mãe de Mould partir e esse é um dos assuntos que dão força a “Patch The Sky”, registro que completa uma espécie de tríade de raiva e fúria que o músico elaborou após os 50 anos. Lançado pela Merge Records em março com 12 faixas espalhadas em 41 minutos, “Patch The Sky” flagra Bob na guitarra, teclados e vocal, Jason Narducy no baixo e Jon Wurster na bateria, um trio (que veio ao Brasil em 2013) cada vez mais entrosado e o resultado disso é visível e extremamente avassalador. Todas as músicas são de autoria de Bob Mould, que se trancou sozinho por seis meses para compor. Do início potente de “Voices In My Head”, uma canção que remete a sua antiga banda Sugar, com versos de medo, vazio e solidão, até o final com a escuridão e arrependimento de “Monument”, “Patch The Sky” é o trabalho mais nervoso da trilogia, apesar de soar um pouquinho abaixo em termos gerais. Durante o percurso o ouvinte se depara com letras nada fáceis, sem felicidade aparente surgindo no horizonte, recheado com questionamentos dos mais diversos. Destaques ainda para as envenenadas guitarras de “The End Of Things”, os ecos de Hüsker Dü em “You Say You” e “Pray For Ruin” e a urgência juvenil de “Hands Are Tried”. Aos 56 anos, Bob Mould mostra com “Patch The Sky” que ainda tem muita lenha para queimar e muitas questões para serem exorcizadas através da música.

Nota: 8

Leia também:
– Bob Mould em SP: “Uma das noites mais divertidas na capital paulista em 2013” (aqui)
– Bob Mould: “Fomos uma ótima banda (Husker Dü) e nos divertimos bastante” (aqui)

“Give a Glimpse Of What Yer Not”, Dinosaur Jr (Jagjaguwar)
por Adriano Mello Costa
Namore com alguém que nunca te decepcione, tipo o Dinosaur Jr, uma banda que desde a estreia em 1985 lança discos no mínimo bons, independente dos integrantes a época. A formação original – J. Mascis, Lou Barlow e Emmett Murph – voltou a trabalhar junta em “Beyond” (2007), e seguiu na ativa com discos (“Farm”, de 2009; e “I Bet on Sky”, de 2012) e shows. Com 11 faixas em 46 minutos, “Give a Glimpse Of What Yer Not” (2016) é o décimo-primeiro registro de estúdio da carreira do trio e abre com a distorção alta de “Goin Down”, de pegada precisa e vocal de Mascis adocicando uma letra repleta de dúvidas e perguntas. “Tiny” vem na sequência e é uma das grandes músicas do ano. Até o final do disco, com “Left/Rigth” cantada por Barlow com o uso de violões em uma canção que quebra e retorna de modo constante, o Dinosaur Jr. prova que está em grande forma. Barlow canta mais outra sua (“Love is…”) e Mascis vai intercalando grandes momentos seja na guitarra caótica de “I Told Everyone”, no flerte com o metal de “I Walk For Miles”, no pop raro de “Lost All Day” ou na densa “Mirror”. Em uma carreira brilhante que destaca obras como “You´re Living All Over Me” (1987) e “Where You Been” (1993), esse “Give a Glimpse Of What Yer Not” não fica devendo em nada e faz bonito com canções mais curtas e melodia e ferocidade se alinhando em uma intensa relação de amor, fazendo assim com que depois de tantos anos o Dinosaur Jr. ainda consiga manter sua chama muito acesa.

Nota: 9

Leia também:
– Dinosaur Jr: nítido e absurdamente alto no No Ar Coquetel Molotov 2009(aqui)
– “Several Shades of Why”, de J. Mascis, tem um clima triste e melancólico (aqui)

“My Woman”, Angel Olsen (Jagjaguwar)
por Marcelo Costa
Pensar em conceito de álbum, com lado A e lado B, é algo fora de moda no mundo “muderno”, cada vez mais movido por shuffle e audição nervosa via streaming, em que 15 segundos é uma eternidade. Para seu terceiro álbum, Angel Olsen (deixou o folk na gaveta e) planejou um disco com lado A e lado B: no primeiro lado, canções étereas chocam o indie guitarreiro dos anos 90 com uma atmosfera sixtie fuzz dançante a la Phil Spector surpreendendo logo na abertura, “Intern”, que se move por quase 3 minutos sem baixo e bateria, alavancada por teclados e guitarra entorpecidas com efeitos enquanto Olsen sonha “fazer algo real” e promete: “Eu vou me apaixonar e fugir”. Tudo que é sugerido em “Intern” se cristaliza na doçura sixtie de “Never Be Mine” (“O céu me bate quando vejo seu rosto”), na crueza pop de “Give Up” e no crudelíssimo hit “Shut Up Kiss Me”, que, sorrindo, arremessa o amor na sarjeta. Esse mesmo amor, que faz do apaixonado tanto profeta quanto idiota, move outra grande canção, “Not Gonna Kill You”, e então a velocidade desacelera e, no lado b, uma balada country estilizada (“Heart Shaped Face”) avisa logo na primeira frase: “Eu vi você mudar”. E tudo muda. Com mais de sete minutos, “Sister” e “Woman” provocam o ouvinte (“Eu quero morrer da forma correta”, diz a primeira; “Eu desafio você a entender o que me faz uma mulher”, diz a segunda) psicodelisando o country e a atmosfera sixtie da primeira metade do disco. “Pops” encerra a agonia romântica com Angel garantindo: “I’m not playing anymore”. Acredite nela (mesmo que for quebrar a cara) e adentre a atmosfera romântica de um dos grandes discos do ano.

Nota: 9

Leia também:
– Angel Olsen honra “My Woman” em show em Nova York (aqui)

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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