Livros: A. Smith, J. Vandermeer e K. Ishiguro

por Adriano Mello Costa

“Selva de Gafanhotos”, de Andrew Smith (Intrínseca)
Uma pequena cidade do estado de Iowa nos Estados Unidos pode ser a responsável por desencadear o final do mundo como conhecemos. Aliás, pequena não, seria elogio chamar Ealing de pequena. É uma cidade que está só sumindo cada vez mais desde que uma antiga empresa cessou as atividades. É lá que mora o jovem descendente de poloneses Austin Szerba, que tenta suportar a vida andando de skate na companhia do melhor amigo Robby Brees e da namorada Shannon Collins. Porém, tudo ganha outros contornos quando os dois amigos se deparam com vários objetos esquisitos dentro da sala de uma loja de antiguidades. Junte-se isso a uma desavença com outros garotos, um bom tanto de estupidez e algum azar, que o fim do mundo tem seu início. Esse é o argumento geral de “Selva de Gafanhotos” (Grassopper Jungle, no original), livro de Andrew Smith que a editora Intrínseca colocou no mercado nacional em 2015 com 352 páginas e tradução de Edmundo Barreiros. O autor tem vários romances juvenis como “A Cura Invisível” (2008) e “A Lente de Marbury” (2010) e navega tranquilamente por esses mares. O incidente resulta na liberação de uma cepa que transforma seres humanos em insetos parecidos com Louva-a-deus, mas de 1,80m cada. O que se desenrola a partir daí é a luta pela sobrevivência e o caminhar de ações cada vez mais surreais, enquanto Austin e Robby vão descobrindo pouco a pouco mais sobre os fatos que envolvem cientistas malucos, experimentos para o governo e muito narcisismo. No pano de fundo estão todas as dúvidas adolescentes em relação a amor e sexo, embalados com bom humor e Rolling Stones. “Selva de Gafanhotos” apresenta um autor que sabe muito bem onde pisa e utiliza todas as ferramentas a disposição para agradar ao público que se direciona. Contudo, não consegue ir além do razoável e não acrescenta nada de novo a essa categoria de literatura.

Nota: 5,5
Leia um trecho: http://www.intrinseca.com.br/selvadegafanhotos

“Autoridade”, de Jeff Vandermeer (Intrinseca)
Quando se termina a leitura de “Aniquilação”, o primeiro livro da trilogia “Comando Sul”, do escritor Jeff Vandermeer, lançada toda em 2014, a expectativa para a continuação é bem boa. “Autoridade” (Authority, no original) é essa sequência e ganhou edição tupiniquim em 2015 pela editora Intrínseca com 384 páginas e tradução de Braulio Tavares. Os fatos narrados no livro são diretamente posteriores ao fracasso da expedição de número 12 contada antes. O desastre com que resulta mais essa missão dentro da área explorada pelo governo com o intuito de descobrir razões e porquês é o suficiente para que um novo diretor seja indicado para a instalação. John Rodriguez (mais conhecido como “Controle”) é esse agente. Com uma missão no mínimo indigesta, sem contar com a colaboração dos seus subordinados e um passado pesado dentro da mochila que carrega nos ombros, as chances de sucesso não são nada animadoras. Se em “Aniquilação” a aventura guiava a trama dentro dos aspectos da ficção científica, em “Autoridade” o drama e o terror psicológico é que tomam a frente. Jeff Vandermeer vai aos poucos soltando novas revelações sobre o que realmente representa a Área X ao mesmo tempo em que insere novos questionamentos e receios dentro do jogo. O autor cria uma atmosfera psicológica tão pesada que o medo e o terror daquilo não anunciado servem como combustível suficiente para tocar a trama, apesar de isso acontecer em um ritmo menor e mais cadenciado. Nesse novo volume da trilogia temos uma guinada importante não somente de caminhos propostos pelo roteiro como também de estilo, sem deixar que o leitor perca o interesse. Porém, a qualidade total da série fica condicionada ao seu término com “Aceitação” (já lançado por aqui), já que esta não consegue funcionar bem individualmente como se percebe agora em “Autoridade”. A conferir.

Nota: 7
Leia um trecho: http://www.intrinseca.com.br/comandosul/autoridade

“O Gigante Enterrado”, Kazuo Ishiguro (Cia das Letras)
Situado na Inglaterra, provavelmente entre os séculos V e VI, anos após a época arturiana e os confrontos entre bretões e saxões, “O Gigante Enterrado” (400 páginas, tradução de Sonia Moreira e um belo projeto gráfico) apresenta Axl e Beatrice, um casal de velhinhos que mora em uma aldeia que, nos últimos tempos, tem sofrido nas mãos dos vizinhos e das regras da comunidade. Isso só alimenta a vontade que o casal possui de sair da aldeia em busca do lar do filho que não veem há muito tempo. E é isso que ocorre. Só que nem tudo é simples e fácil, uma vez que uma estranha névoa permeia os céus e faz com que os habitantes não consigam lembrar-se do passado e esqueçam rapidamente até coisas feitas horas antes. Adentrar o percurso correto então vira uma intrincada tarefa que durante o desenrolar faz com que o casal se depare com criaturas lendárias, assim como outras pessoas que acabam sendo inseridas na jornada como um jovem e um hábil guerreiro, além do sobrevivente cavaleiro da Távola Redonda, Sir Gaiwan. Depois de paquerar um pouco com a ficção científica em “Não Me Abandone Jamais”, Ishiguro agora assume um namoro com a fantasia e a usa como escape para fazer delicadas e sutis analogias e metáforas sobre memória, amor e morte. No bojo da trama temos um dragão e alguns ogros, fadas, duendes e magos, porém a correlação com obras famosas que exploram as mesmas coisas como as de Tolkien e George R. R. Martin fica somente na ambientação, já que os temas explorados e o tom da narrativa são inteiramente distintos. Além de um livro enternecedor e extraordinário, talvez o melhor da carreira do autor até aqui, “O Gigante Enterrado” é um trabalho construído com audácia e ousadia por Kazuo Ishiguro, que sai bastante da seara que está acostumado a trabalhar. Como seria bom se isso ocorresse com mais escritores por aí, que abdicassem do conforto e buscassem novos rumos, novas ideias, novas sensações. “O Gigante Enterrado” é o tipo de livro que merece ficar com destaque na sua biblioteca.

Nota: 9,5
Leia um trecho: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13722.pdf


– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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