Entrevista: do México, Sotomayor

por Leonardo Vinhas

Quem cresceu nos anos 80 ou 90 presenciou a discussão sobre a eletrônica ser “música de verdade” ou “enganação feita por máquinas”. Gerações mais novas já não se preocupam tanto – ou sequer se preocupam – com isso. Reza a logica atual que a eletrônica é uma ferramenta, e não há porque não ser usada, menos ainda questionar sua autenticidade. É essa a geração à qual pertencem os irmãos mexicanos Raúl e Paulina Sotomayor, dois percussionistas que deram seu sobrenome à banda que vem extrapolando as fronteiras nacionais e de “cena” para tocar para públicos cada vez maiores.

“Salvaje”, seu álbum de estreia, ainda é celebrado em resenhas dentro e fora do circuito da “música latina” como uma das grandes surpresas dos últimos tempos. Mesmo tendo sido lançado em 2015, o disco vem ganhando fôlego graças às audições repetidas e à força de suas apresentações ao vivo. E, claro, à qualidade do material. A música do Sotomayor é tão xamânica quanto dançante. A maquiagem e os trajes de inspiração indígena que Paulina usa no palco contribui para isso, mas a razão principal é no fato de ambos serem percussionistas e terem uma abordagem “orgânica” de sua sonoridade. Assim, há o uso das mais variadas batidas, misturando percussão “de verdade” e programada num cruzamento sem atropelos entre tradição e futuro.

Poucos dias depois de terem tocado no festival South by Southwest, nos Estados Unidos, Raúl e Paulina se juntaram frente a uma tela de computador para falar, via Skype, com o Scream & Yell. Visivelmente surpresos com a boa repercussão de seu disco, não escondiam a empolgação quase juvenil e o sincero espanto pelo fato de estarem viajando pelo mundo graças à sua música.

Vocês estrearam ao vivo em um festival renomado, o mexicano Vive Latino. Embora já tivessem experiência com outras bandas – a Beat Buffet, de Raúl, até gerou certo bochicho –, o Sotomayor como tal ainda não tinha pisado em um palco. Como aconteceu, então, de estrearem tocando em um dos maiores festivais do mercado latino?
Raúl: O disco ficou pronto apenas uma semana antes de tocarmos. Sabíamos que era complicado tocar em um festival se as pessoas não te conhecem, mas usamos esse convite, que já existia, para nos impor um deadline e apressar o processo de gravação e lançamento do disco. Além disso, era um festival onde estavam Bomba Estéreo, Dengue Dengue Dengue e muitos outros grandes nomes. Eu sou DJ também, e dois anos antes de tocar com a banda, eu já havia estado no Vive Latino tocando em uma das tendas para DJs. No ano seguinte, me perguntaram por bandas novas que pudessem tocar nos primeiros horários no festival, e o Sotomayor já estava preparando seu material, então falei da banda. É claro que é um choque tocar num festival desse porte, mas foi ótimo que tivesse sido assim. Foi importante para nos definir como banda.

Nessa época vocês já tocavam como banda mesmo, ou eram apenas vocês dois?
Paulina: No princípio tudo se armou entre meu irmão e eu – o conceito, a ideia da banda. Mas logo chamamos os meninos para tocarem conosco. Já tínhamos tocado em outros projetos, conhecíamos muitos músicos e chamamos um baixista e um tecladista.
Raúl: Mas sim, desde esse primeiro show já era uma banda. Na época éramos quatro, agora somos cinco. Nós dois compomos a música, mas sempre fizemos questão que no palco fôssemos uma banda, com todo um show armado.

Sei que já responderam demais sobre a história de serem irmãos e terem uma banda, então nem vou entrar nesse mérito. Porém, a banda leva o sobrenome de vocês, então imagino que escolher esse sobrenome para representar uma identidade tenha uma grande representatividade para vocês.
Raúl: Sim, exatamente. Esse é o nosso conceito. São muitas as coisas que Pau e eu compartilhamos: somos percussionistas…

Paulina: …escutamos música juntos, fomos a muitos lugares descobrir bandas juntos, há as próprias questões familiares. Não é só a música, são muitas as coisas em comum, que vêm de toda uma vida, e isso facilita muito a criação de uma canção.

Raúl: E cada um desenvolveu um trabalho e uma busca própria, que o outro conhece e respeita. Eu como DJ, Pau com as bandas dela, e com as bandas que ela descobriu – cada um formou uma identidade, uma estética. Nos dois sabemos o que o outro está buscando, então os elementos se combinam. E agora fazemos a música que queremos fazer. Então é justo adotarmos esse nome. Mas o que você pergunta é se existe um vínculo maior por sermos irmãos, e sim, existe

Uma outra coisa sobre a identidade da banda: vocês são sempre relacionados com a eletrônica. Porém, isso me soa como um elemento a mais. A banda é bem cancioneira, e os ritmos latino-americanos são mais imediatamente audíveis que a estética da música eletrônica. E por serem ambos percussionistas, há um groove percussivo que predomina. Então não me parece que essa associação seja adequada a vocês.
Raúl e Paulina: (risos) Totalmente.

Paulina: É a primeira vez que escuto esse comentário, mas é bem isso (risos).

Raúl: O conceito é exatamente esse. Gostamos de música eletrônica, mas o processo de criação envolve gravar loops tanto quanto chamar outros músicos a colaborar. Nas demos e até no disco podemos usar percussões eletrônicas, mas ao vivo gostamos muito do som da percussão “real”. Não queremos fazer aquela musica eletrônica com loops que duram 10 minutos. Queremos fazer canções, não tanto como música pop, mas algo que as pessoas possam ouvir, e não só para DJs usarem.

Paulina: É importante valorizar esse processo de criação. Quando já éramos quatro, ficou mais evidente esse aspecto da canção. É algo que nos é particular em nossa expressão.

Mas vamos retomar a eletrônica, pois de uma forma ou de outra, vocês estão inseridos nessa cena. E parece que aí no México essa é uma cena particularmente forte, bastante movimentada – talvez a mais forte do gênero na América Latina. Isso é “visão do turista que não viajou” ou é a realidade local?
Raúl: Acho que temos uma movimentação boa por aqui, sim. Algo que acabamos de entender é que o México, e em especial a Cidade do México, viraram um ponto de reunião para a América da Latina. Não sei bem porque, mas o fato é que há bandas de outros países, como os argentinos do Frikstailers, que vêm para cá e fazem toda uma carreira aqui. Mas são muitos os exemplos. E artistas que vivem nas províncias, em Monterrey ou Gudalajara, é muito mais fácil vir para cá. No caso da cena eletrônica, as cenas de techno e house são muito fortes, assim como a de global bass, que é o pessoal que mistura a eletrônica com ritmos tropicais. Muitos artistas desses gêneros do Chile, da Argentina e principalmente da Colômbia tocam direto por aqui. É só ver o caso do Bomba Estéreo, que há dois anos parecia até que moravam por aqui, de tantos lugares que tocavam (risos). Não vejo uma explicação específica, são apenas umas suposições, mas realmente nos tornamos um mercado grande.

Falando em presença internacional: como foi para vocês estar no festival South By Southwest?
(os dois riem) Paulina: Foi uma viagem bastante complicada, pois fizemos tudo por terra, indo de caminhonete até os EUA, fazendo várias paradas. E é um festival no qual muitas bandas tocam ao mesmo tempo. É muito difícil que uma banda eletrônica que vá a tocar em SxSW, a maior parte são de bandas de rock, que tem outro tipo de equipamento e de linguagem. Essas diferenças geram dificuldades com o público e com os técnicos de som. Mas foi uma experiência bastante bonita para nós. Atravessar para outro país e ver que aí há pessoas que foram para te ver é algo lindo. Os últimos shows que fizemos nesse último ano tiveram respostas muito positivas, parece que de algum modo nossa música flui de uma maneira tranquila para muita gente.

Raúl: Creio que a chave para definir o SsSW foi que nos demos conta de qual é nossa posição real como banda. Para mim, foi muito importante estar ali e ver que, quando me apresentei à primeira pessoa e disse que era do Sotomayor, ouvi: “Ah, sim, conheço! Vocês fizeram um dos 10 melhores discos que ouvi no ano passado”. E aí você fala com outra pessoa e escuta o mesmo! Dar-se conta de que há tanta gente que conhece o que você está fazendo…

Paulina: … por mais que a gente veja algumas coisas falando isso na internet (risos)…

Raúl: … e ver que estão ali esperando para ver seu show, isso tudo é um sinal de que as coisas estão dando certo e estão funcionado.

A presença cênica da banda é muito forte. Principalmente na maneira como Paulina se coloca, com a maquiagem e os trajes. Há ainda projeções em vídeo, dependendo do lugar onde vocês tocam. Isso é parte do conceito da banda ou é algo que vocês estão experimentando?
Raúl: Está totalmente dentro do conceito. No começo, pensamos que Sotomayor podia ser uma cantora, um VJ e um instrumentista. Mas não queríamos fazer isso, algo mais visual que musical. Queríamos oferecer algo que fosse um espetáculo, mas que trouxesse esse elemento visual. E todos nós da banda já temos claro que a imagem da Paulina tem que sobressair, com a maquiagem colorida, as roupas tribais, os movimentos. Essa maquiagem podia ser algo bobo ou simples, mas é só Paulina aparecer que as pessoas já entram num outro astral (risos). Inclusive em Chicago fizemos um show que foi mais acústico, as pessoas estavam mais contemplativas nas duas primeiras canções, e quando Pau saiu com seu poncho e sua máscara, tudo mudou. Uma moça que estava ao meu lado até arregalou os olhos (risos). Essas são coisas simples, mas que têm muito poder. Faz parte de uma experiência que é muito importante para nós. E temos uma preocupação clara de cuidar para que as coisas não se repitam.

Paulina: (ri) Temos que sempre dar algo novo.

Raúl: Mas não temos muito tempo de ensaiar e as coisas vão se fazendo a cada show. Agora estamos pensando em ter um show mais de luzes. No musical, estamos resolvendo as coisas a cada apresentação. O bom é que no Vive Latino definimos o que a banda tinha que ser e é nesse padrão que estamos buscando nos manter. Porque uma coisa é ser uma banda nova. Você senta e toca com seus amigos e compõe algo, arruma um bar e toca. Mas aí você toca no Vive Latino, tem um palco que preencha esse espaço, e depois precisa manter essa consistência.. Neste ano estamos desenvolvendo isso, para crescer ainda mais.

Parece que vocês realmente estão impactados pela situação – como se estivessem em uma praia e fossem colhidos por uma onda. Estão ali, no meio dela, mas não conseguem entender como foram parar ali.
Os dois: Sim!

Pau: temos muito pouco tempo desde que isso começou; É um ano, só. Nem temos muito tempo de ensaiar, é quase como se os shows estivessem virando ensaios.

Raúl: Talvez seja um processo de descobrimento de nosso potencial. Mas ao mesmo tempo está acontecendo o que nós gostaríamos que acontecesse. É para isso que estamos trabalhando. E ninguém vai chegar ao ponto de dizer: “ah, chegamos aqui, podemos parar”. Podemos sempre fazer coisas para melhorar.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

MAIS SOBRE MÚSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM & YELL

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *