Três filmes: Espaço Além, Elvis & Nixon, Punks SP

por Marcelo Costa

“Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”, de Marco Del Fiol (2016)
Filmado no Brasil entre 2012 e 2015, este documentário é um mergulho de uma das principais artistas performáticas da história (prestes a completar 70 anos em 2016) em diversos rituais religiosos brasileiros na busca por algo que, segundo ela, curasse seu coração do fim de um relacionamento (provavelmente com Ulay, seu partner performático, com o qual ela dividiu 12 anos de trabalho, entre 1976 e 1988, e que ainda mantém conexões: frente a ele, Marina protagonizou um momento delicado e repleto de simbolismos no MoMa, em 2010, e em 2015 ele processou-a por violação de contrato). O ponto de partida é questionável (a busca por conforto das dores do amor na religião), mas a percepção é de que Marina construiu um motivo (tanto psicológico quanto artístico) para sua peregrinação performática que envolveu rituais no Vale do Amanhecer, xamanismo na Chapada Diamantina, candomblé na Bahia, ayahuasca em Curitiba, curas com facas do médium João de Deus e com cristais de Minas Gerais. De peito aberto, Marina se entrega aos rituais sem questiona-los e quando alguém da equipe discorda dela ao olhar uma foto de Pierre Verger, ela retruca, esperta (e com sutil dose de cinismo): “É preciso ter fé”. Há certo tom de humor (como quando Marina tenta se “reenergizar” comendo um dente de alho mineiro e surpreende com sua potência) e muita provocação (por lidar com um tema tabu) num filme que surpreende por mostrar um Brasil que muita gente tenta esconder e/ou finge desconhecer. Se curou o coração são outros quinhentos…

Nota: 7

“Elvis & Nixon”, de Liza Johnson (2016)
Em dezembro de 1970, diante das “condições críticas” pela qual passava os Estados Unidos da América (“hippies drogados, Panteras Negras, a beatlemania, Lennon…”), Elvis Presley decidiu que precisava ajudar a nação. Imerso em Graceland, o Rei do Rock vivia uma fase conturbada com a esposa Priscilla e o pai Vernon, que o acusavam de gastar muito dinheiro, quando decidiu redigir de próprio punho uma carta de seis páginas endereçada ao presidente Richard Nixon visando um pedido: Elvis queria um distintivo para atuar como agente federal disfarçado do Departamento de Narcóticos. Calma, esse é apenas o começo da história maluca que envolve o excêntrico Rei do Rock e o excêntrico presidente dos Estados Unidos, protagonistas da foto mais buscada (entre tantas icônicas) no arquivo federal: após escrever a carta, Elvis decide pegar um avião para Washington (armado até os dentes, como praxe) visando entregar a carta pessoalmente na Casa Branca e ele consegue deixa-la com seguranças atônitos, que repassam a missiva para o alto escalão do governo, que vê com bons olhos o encontro. É dada a largada para o embate entre gigantes: no ringue da sala oval eles duelam por MM’s de chocolate, Dr Pepper e presentes de astronautas até se descobrirem iguais, solitários em seus reinados. Michael Shannon brilha como Elvis enquanto Kevin Spacey dá um show como Nixon. Espertamente, a diretora Liza Johnson deixa a trama fluir divertidamente sem ceder ao pastelão e faz de “Elvis & Nixon” um pequeno grande filme.

Nota: 7

“O Fim do Mundo, Enfim”, de Camila Miranda (2016)
Em setembro de 1982, as rádios brasileiras foram abduzidas por uma canção de uma banda carioca cujo refrão dizia: “Você Não Soube Me Amar”. Trilha das praias do Rio (não à toa, o refrão foi composto por um surfista, Zeca Proença), o imenso hit da Blitz não traduzia a vida na selva de pedra chamada São Paulo (e muito menos no Brasil ainda governado pela Ditadura), e a molecada da capital paulista trataria de mostrar isso em dois dias de novembro de 1982, quando o recém-inaugurado Sesc (Fábrica da) Pompéia seria invadido por uma horda de 3 mil punks para um festival com 20 bandas da capital e da região do ABC (numa trégua acertada entre gangues) se apresentando no que ficou conhecido como “O Começo do Fim do Mundo”. Para festejar 30 anos do evento histórico (que foi lançado em vinil e correu o mundo), o Sesc Pompeia reuniu em 2012 parte do elenco original do festival (Inocentes, Ratos de Porão, Cólera, Lixomania) e mais novos convidados (Questions, Attaque 77, Devotos, Garotos Podres) para uma reedição daquele fim de semana histórico. Quatro anos depois, “O Fim do Mundo, Enfim” ressurge em DVD lançado pelo selo da instituição com trechos empolgantes dos shows e um documentário eficiente de 40 minutos que intercala cenas de época com entrevistas atuais (Clemente, João Gordo, Ariel, Fabio Sampaio, Callegari, Antonio Bivar e outros) buscando não apenas contextualizar o cenário e a importância do primeiro grande festival punk do país, mas também servir como mais um registro do momento histórico.

Nota: 7

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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