Entrevista: Calexico

por Leonardo Vinhas

Já há muito tempo ninguém usa correntemente o termo “alt.country”, mas quando ele surgiu, poucas bandas o encampavam melhor que o Calexico. Formado por Joey Burns (voz e guitarra) e John Convertino (bateria) em 1996, a banda causou sensação no meio dos nerds da música desde sua estreia, o álbum “Spoke”. Burns e Convertino tiveram uma longa passagem pela “cozinha” da banda Giant Sand, outro nome cultuado do gênero, mas a verdade é que a música que decidiram fazer em seu voo particular ia além de rótulos, hypes e nerds. O Calexico, saberiam novos e velhos fãs nos 20 anos que se seguiriam, viria para se firmar como uma das bandas mais inventivas e marcantes do cenário norte-americano contemporâneo.

Misturando country, folk norte-americano e mexicano, e pequenos elementos de música sul-americana, o Calexico criou uma música híbrida que viria a influenciar gente tão distinta como os uruguaios Molina y Los Cósmicos e os mexicanos Mexrrissey (que recriam canções de Morrissey e Smiths como se fossem uma banda de “rock mariachi”). Embora nunca tenham alcançado um momento de grande sucesso comercial, seus nove álbuns de estúdio e seis ao vivo (sete, se contarmos o EP “iTunes Live Sessions”) encontraram um público de culto fiel e crescente – crescimento que viria principalmente da presença da banda em trilhas sonoras e dos excelentes shows que têm por hábito fazer.

Num hiato da entre a primeira parte da turnê europeia do novo álbum, “Edge of The Sun” (2016), e a trip sul-americana (que, além de Brasil, passará por Chile, Argentina e Uruguai), o baterista conversou com o Scream & Yell por telefone desde sua casa em El Paso, no Texas. De fala calma e grave, Convertino ficou genuinamente surpreso ao saber que há bandas influenciadas por eles no cenário indie local, mostrou grande paciência com a péssima ligação telefônica (que teve que ser retomada várias vezes ao longo da conversa) e, em repetidas ocasiões, confirmou o respeito pela música, especialmente em seus formatos físicos.

Como é a primeira vez no Brasil, é interessante sondar o imaginário de vocês quanto à turnê. Imagino que tenha pelo menos uma cota considerável de comunicação online dos fãs que já gere certa expectativa.
Fizemos há pouco muitos shows pela Europa – Áustria, Dinamarca, Croácia, vários países – e adoramos a conexão que se estabelece com o público, mesmo que não falemos o mesmo idioma ou não tenhamos estado naquele lugar antes. O que nós fizemos é uma música muito universal e gostamos de levá-la para o máximo de lugares que podemos. Na América do Sul já se estabelece uma conexão que já vimos que acontece nos países onde se fala espanhol – claro, o Brasil é uma exceção a isso, já que vocês são os únicos que falam português por aí. Eu acho que o que estamos esperando é que seja uma coisa aberta e celebratória, por isso acho que vamos nos divertir muito.

Não sei se você sabe, mas há muitas bandas indie no continente que citam vocês como influência. Os uruguaios Molina y Los Cósmicos, por exemplo, têm o Calexico como uma referência tão importante que mixaram seu segundo disco, “El Folk de la Frontera”, com Craig Schumacher, parceiro de vocês de longa data. Mas esse é apenas um caso. Daria para citar muitos outros.
Isso é ótimo de ouvir, fico feliz. Começamos há 20 anos atrás, e vejo que há toda uma geração de novos músicos que cresceram ouvindo nossa música. E isso aconteceu comigo, com outros artistas. Um dia desses um jornalista me perguntou sobre Los Lobos. É uma banda que foi uma grande influência para nós, que surgiu quando eu estava no fim da minha adolescência e seguiu me inspirando ao longo de toda a sua carreira. Então quando ouço que há bandas que tiveram essa relação com nossa música, é algo ótimo. Eu adoraria ouvir essas bandas, espero que consiga!

Você falou que está há 20 anos nessa estrada com o Calexico, mas sua história com Joey Burns na música vai ainda mais além, pegando os anos em que vocês fizeram parte do Giant Sand. Sei que a maioria dos músicos pretende, corretamente, se focar no momento presente, mas gostaria de saber como é a relação de vocês com esse material próprio mais antigo: se vocês o veem com carinho, ou se é algo que vocês entendem apenas como parte do processo de crescimento e por isso preferem deixar para trás.
Isso é algo interessante de se pensar. Recebi agora um box set de seis discos do Giant Sand e parei para ouvir cada um deles. Eu realmente gostei de ouvi-los de novo. Uma coisa que notei nesses álbuns e nas primeiras coisas com o Calexico é que havia muito mais improvisação. Pensando no Calexico agora, acho que não fazemos mais isso com tanta frequência. Temos tantas canções agora que já confiamos mais no nosso repertório. Mas nos primeiros dias, não tínhamos tantas canções para podermos fazer um show de duas horas, então esticávamos as canções tanto quanto podíamos, improvisamos. E é provável que retomemos isso em nosso próximo disco, para que ele seja mais espontâneo e um pouco menos direcionado a formatos pré-definidos.

Na mesma ideia da espontaneidade: examinei os setlists dessa turnê europeia e deu para ver que não houve um padrão. Apesar da grande presença de canções de “Edge of the Sun”, nem mesmo as ordens das faixas se repetia muito. Como vocês decidem as canções da noite? Baseiam-se no local do show, se já tocaram ali ou não, na reação do público?
Com certeza há momentos em que tocamos algo mais estabelecido e direcionado, mas na maioria das vezes não gostamos de tocar a mesma coisa toda noite. Então o humor já é um fator de mudança. Também quando tocamos em teatros, tendemos a escolher canções mais atmosféricas, aquelas que você pensa que seriam bacanas de ouvir enquanto se está sentado. E outra coisa é quando você está em uma casa noturna ou ginásio onde estão todos em pé. Aí você pensa: “hum, pode ser bom tocar algo que faça as pessoas dançarem, se moverem mais pelo lugar”. São esses tipos de fatores que nos levam a não tocar a mesma coisa toda noite. Até porque seria chato. E Joey sempre gosta de incluir um cover ou uma canção antiga a qual não tocamos muito. Às vezes, nossa equipe vai fazer alguma sugestão, ou nosso empresário, e também gostamos disso. Porque o show também tem que ser legal para eles, não pode ser chato. Ah, e outra coisa ainda: com a internet hoje em dia, as pessoas daquela cidade onde vamos tocar começam a pedir canções, e se vemos alguma ali que está sendo muito requisitada, ou se há algum pedido que nos surpreenda, gostamos de incluir também.

Sendo uma banda cujo núcleo tem um guitarrista e um baterista, é curioso imaginar como nascem as canções. Pois os arranjos, bem diversificados, não dão pistas para deduzir se aquilo surgiu de uma melodia ao violão ou de uma levada rítmica. Como se dá o processo compositivo de vocês?
Trabalhamos de muitas maneiras diferentes. Às vezes, Joey vem e aparece com uma ideia de uma canção completa, e nós a gravamos em um ou dois takes. Em outros momentos, nós podemos experimentar diferentes tempos, andamentos e tons, e em outras vezes encontramos uma canção no meio de uns acordes improvisados que se adequam ao humor do dia. A tonalidade e o clima são os guias mais poderosos para nossas canções, e com sorte nós podemos acertar o timing e capturar isso em fita.

E quanto à gravação? Calexico sempre foi uma banda muito atenta à sonoridade dos discos, com uma escolha cuidadosa dos instrumentos utilizados. Sei que todos os álbuns estão disponíveis em vinil, mas a maior parte do público vai ouvir o disco em um formato de áudio digital altamente comprimido. Como vocês lidam com esse quase paradoxo?
Tento não pensar a respeito, nós basicamente vamos com o que sabemos, e isso significa registrar tudo em fita e permitir que o desempenho e a espontaneidade assumam a precedência. Conforme o disco vai ser formando, mantemos a ideia de que há uma história a contar, e permitimos que as canções entrem na sequência na qual essa história é melhor contada.

Em “Edge of The Sun”, essa história se nota claramente. Mas o que me chama a atenção é que na edição deluxe do disco, há as faixas do disco 2 que realmente soam como parte dessa história. Evidentemente, o disco é tratado comercialmente como duas coisas diferentes: a versão “normal” e a “deluxe”, mas realmente a última soa mais completa. Por que, então, fazer duas versões do disco?
Em primeiro lugar, eu realmente gostaria de agradecer por você ter parado e se dado o tempo de ouvir todas as canções. E você está certo, todas elas fazem parte da mesma história. Quando estávamos finalizando o álbum, entramos no estágio de definir a sequência das canções e sentíamos que todas aquelas que ali estão tinham que estar no álbum. Não pensávamos, então, em uma edição deluxe. Mas nessa época em que gravadoras e serviços digitais ainda pautam o modelo do disco, tivemos muitas discussões sobre qual deveria ser o tamanho do álbum final. Não queríamos dar apenas uma parte do que tínhamos feito, queríamos lançar todas as faixas. Então tivemos essa ideia da edição deluxe, que seria, sim, uma espécie de presente, e uma maneira de todos terem acesso a essas faixas. E nós mesmos refletimos um pouco, também, vale dizer, porque há discos que duram demais e…

Olha, “discos que duram demais” é um conceito bem discutível hoje em dia. Acho que é mais o caso de dizer que as pessoas não têm mais paciência para ouvir álbuns.
(risos) Com certeza. Sabe, estou sentado em uma sala agora, e aqui eu tenho um aparelho de som muito bom, com boas caixas. Eu sento e ouço música. Não lavo a louça ou vejo meus e-mails enquanto estou ouvindo música. E acho que as pessoas hoje não fazem mais esse tipo de coisa. As pessoas têm seus aparelhos e seus telefones e saem por aí ouvindo musica enquanto caminham ou enquanto estão no trem. É preciso tempo para realmente sentar e ouvir música (suspira). Mas acho que porque Calexico é uma banda que faz discos que ainda têm lado A e lado B, acreditamos que muitos dos que nos ouvem escutam discos. É por isso que todos os nossos discos estão disponíveis em vinil. É muito importante para nos fazer discos com lados A e B, com começo, meio e fim.

Além de terem muitas canções em séries de TV e filmes, o Calexico compôs música original para filmes como “The Guard” (2011) e “Circo” (2010). Já que vocês são tão orientados para compor álbuns, é curioso pensar no que muda quando se é necessário compor para uma obra audiovisual.
Compor para um filme pode ser mais fácil do que elaborar suas próprias canções, porque você tem a cena para sua orientação. As escolhas parecem mais subliminares, às vezes, tendo que encontrar a subtrama da cena e melhorá-la com o tema [instrumental] ou melodia é algo desafiador e divertido. Também conversamos tanto quanto possível com os realizadores do filme, para entender o que eles desejam em termos de ‘momentum’ para aquela cena ou para aquela outra. Eu gostaria que pudéssemos fazer mais trabalhos de trilha sonora, mas o campo é extremamente saturado (nota: existe um grande mercado de licenciamento de canções para cinema e TV, bem como composição de material original para esses produtos culturais, nos Estados Unidos).

Os países ocidentais estão passando por um momento de xenofobia. Aí nos EUA há o risco de os imigrantes verem seus direitos restringidos ou suprimidos caso Donald Trump seja eleito presidente. A Europa também tem aprovado leis mais rígidas para barrar ou mesmo extraditar imigrantes. Sendo o Calexico o oposto desse fechamento cultural, gostaria de saber como vocês veem esse panorama.
Esse ano eleitoral tem um ambiente perturbador, e muitas das notícias sobre migração e imigração têm sido negativas, mas eu posso garantir que também ocorrem histórias positivas sobre migração na Europa, e aqui nos EUA a maior parte das pessoas vê Trump de um modo desfavorável, e isso inclui até republicanos. Nós [do Calexico] sempre estivemos abertos para encontrar nosso caminho com todos os estilos musicais, encontrando aquela conexão e interpretação para inspirar. A música e a arte não têm fronteiras, e por isso elas sempre nos lembram que somos irmãos e irmãs. Todos temos que viver juntos.

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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