Cinema: A Juventude

por Marcelo Costa

Pretensioso. O adjetivo, que na grande maioria das vezes reduz um artista (e sua obra) ao que ele gostaria / pretenderia ser, mas não consegue, funciona como elogio para Paolo Sorrentino, o diretor napolitano que vem injetando adrenalina numa sétima arte cada vez mais óbvia, refém do mercado e de seus próprios vícios. “A Juventude” (“Youth”, 2015) é mais um capítulo que amplia a estranheza (quase sempre cômica, muitas vezes lírica) do cinema de Sorrentino, escancaradamente influenciado por Fellini, e se não alcança a magnitude de “A Grande Beleza” (2013) é mais por mérito deste do que por defeito de “Youth”, que cumpre sua função com galhardia, ainda que avance além do necessário em algumas passagens.

Se o mote de “A Grande Beleza” era atualizar “La Dolce Vita” (1960) buscando um acerto de contas com fantasmas do passado (e com o passar do tempo), esses fantasmas agora povoam (literalmente alegóricos – como num filme de Fellini) o cenário de “A Juventude: corpos velhos e enrugados passeiam pela tela demarcando com deliciosa crueldade a velhice em contraste com a perfeição dos corpos jovens, aquilo que os amigos Fred Ballinger e Mick Boyle, do alto de seus 70 anos, nunca mais irão ter. Fred e Mick estão passando uma temporada em um spa de luxo nos Alpes Suíços, e toda (grande) beleza (que o dinheiro pode comprar) do lugar não preenche o vazio que a proximidade do fim amplia.

Fred Ballinger (Michael Caine extremamente à vontade em um bom papel) foi um grande maestro que, agora aposentado, foge de biógrafos e da lembrança da esposa ao mesmo tempo em que tenta negar o pedido da rainha da Inglaterra por uma última performance privada. Mick Boyle (Harvey Keitel tão à vontade quanto Caine), por sua vez, é um velho cineasta que planeja encerrar sua carreira com um grande filme e, cercado de jovens roteiristas, passa o tempo no spa definindo os detalhes de “O Testamento”. A rotina de Fred e Mick é caminhar pelo spa confessando quantas gotas de urina eles conseguiram despejar na manhã anterior e relembrar um velho caso de amor que está desaparecendo da memória.

Completam o cenário a filha e assessora do maestro, Lena (Rachel Weisz sempre competente), um jovem ator frustrado por ser reduzido a um único personagem (Paul Dano, muito bom), um velho craque argentino que viveu sua época de ouro jogando pelo time do Napoli, mas que agora, bastante acima do peso, sofre com seu estado físico enquanto sonha com os melhores anos que viveu (Roly Serrano interpretando Diego Maradona – em passagens cruelmente e deliciosamente cômicas) e a Miss Universo, que entre os prêmios da coroação ganhou uma estadia no spa (Madalina Diana Ghenea deixando homens e mulheres sem respirar na sala) ousando questionar a redução besta que “defende” que a beleza é inversamente proporcional a inteligência.

Em um cenário idílico (algumas vezes notadamente piegas) que ainda traz Mark Kozelek (Sun Kill Moon) e a cantora pop Paloma Faith interpretando a si mesmos (a única indicação do filme ao Oscar veio em Melhor Canção Original: “Simple Song #3″, de David Lang), “Youth” propõe uma caminhada vagarosa (são duas horas de filme, mas parece mais) pelo que seus personagens ainda têm de (pique e) memória: se ao ser jovem, Fred Ballinger compôs um grande clássico (a tal canção indicada ao Oscar), o que resta para ele durante o resto de sua estadia neste planeta azul além de viver a sombra do que um dia ele foi? Paolo Sorrentino propõe essa questão e a discute de maneira ampla, deixando em aberto todas as possibilidades (incluindo desistir).

Se não apresenta nada de novo tematicamente (a quantidade de artistas que já se debruçou sobre o tema “envelhecer” é tanta que provavelmente intimidaria um diretor “tradicional”, mas nunca um dedicadamente pretensioso como Sorrentino), “Youth” deslumbra com uma fotografia esplendorosa que valoriza quadros (no sentido artístico) e locações (a Piazza San Marco inundada é deslumbrante), as boas atuações do elenco estelar (que ainda tem Jane Fonda brilhando) e a delicadeza profunda do roteiro, que se por um lado sugere enfrentamento (o que, nessa fase da vida, pode ser reduzido a acordar todos os dias – e não é fácil), por outro reconhece que a magia sedutora da juventude é eterna, ainda que nós não sejamos.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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