Boteco: Cinco países, dez cervejas

por Marcelo Costa

BÉLGICA

De Vlezenbeek, cidadezinha nos arredores de Bruxelas, na Bélgica, minha quarta cerveja da Brouwerij Lindemans, a Kriek da casa, uma Fruit Lambic produzida com malte de cevada e trigo mais 25% de suco natural concentrado de cereja – a maneira particular de produzi-la está esmiuçada neste texto aqui. De coloração vermelha com creme rosa de boa formação e média retenção, a Lindemans Kriek apresenta um aroma maravilhoso de cereja, que salta para fora da garrafa assim que a rolha é retirada e domina o conjunto, deixando o arisco da levedura selvagem em segundo plano. Na boca, a levemente frisante. O primeiro toque reafirma o domínio da cereja seguido de leve acidez, dualidade que persistirá por toda a experiência. O final é levemente acético. No retrogosto, cereja, acidez suave e muito amor. Bela cerveja.

Seguindo o mesmo padrão de produção (cevada local, trigo cru, leveduras selvagens, barricas de carvalho para uma primeira fermentação e adição da fruta na segunda fermentação, a Lindemans Cassis recebe adição de 25% de suco natural de cassis, conhecida como a groselha negra. De coloração roxa com creme levemente avermelhado apresentando um creme de boa formação e permanência, a Lindemans Cassis exibe um aroma que equilibra as notas doces da fruta com a aridez típica da levedura selvagem, colocando lado a lado notas que remetem a geleia de morango, cereja e cassis com sugestão de curral, couro, madeira e mofo. Na boca, a textura é suave com leve frisante. O primeiro toque traz frutado intenso seguido de acidez suave e as notas derivadas da levedura selvagem (couro, curral, mofo), criando um conjunto bastante interessante e mais complexo que as versões “vermelhas”. O final é levemente doce e acético. No retrogosto, cassis, madeira, curral e algo que remete a vinho com frutas. Uau.

BRASIL

Segundo o site oficial, a Academia Barbante de Cerveja tem foco na educação e disseminação da cultura cervejeira. Localizada no último andar do Eataly SP, a Barbante ministra diversos cursos. A Barbante Primavera é uma Belgian Wit que recebe adição de limão siciliano. De coloração dourada com suave turbidez e creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Primavera apresenta o aroma tradicional do estilo, com frutado cítrico (limão, laranja) e condimentação (semente de coentro) em destaque. Na boca, a textura é levemente picante e ácida. O primeiro toque traz cítrico seguido de rápido metálico e amargor baixo, mas eficiente e condimentado, abrindo as portas para um conjunto cítrico e refrescante, um pouco mais arisco que a benchmarking do estilo (Hoegaarden), e até por isso interessante. O final é cítrico, com percepção de limão. No retrogosto, suave acidez, limão e refrescancia. Gostosa.

A Barbante Autunno (Outono) é uma Belgian Tripel que recebe adição de polpa de cupuaçu e é produzida pela Krug Bier, em Minas Gerais – assim como a Primavera. De coloração amarela levemente puxada para o dourado e com leve turbidez, a Autunno exibe um creme branco de média formação e rápida dispersão. No nariz, doçura caramelada e frutada (pera, pêssego e cupuaçu) com suave percepção de acidez derivada da levedura e um distante defumado assim que o conjunto se assenta. A textura é frisante (de álcool) e o primeiro toque apresenta doçura frutada levemente (e gostosamente) alcóolica (são 8.5% muito bem inseridos), que age na função de amargor, marcando o céu da boca e deixando pelo caminho traços de acidez, frutas amarelas, especiarias e, claro, álcool, mas muito suave. O final é doce e suavemente frutado. No retrogosto, doçura frutada e leve adstringência. Bem (mais) gostosa.

CANADÁ

De Montreal, a Glutenberg, surgida em 2011, ambiciona “preparar as melhores cervejas sem glúten” do mercado. No cardápio atual da casa, cinco rótulos (incluindo uma IPA), dos quais vamos provar dois. O primeiro é a Glutenberg Blond, receita que deu inicio à cervejaria e que une aqui os tradicionais água, lúpulo e levedura com milho, milhete (também conhecido como painço) e açúcar demerara. Sim, não há trigo nem cereais malteados. De coloração amarelo palha cristalino com creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Glutenberg Blond apresenta um aroma… diferente. Há sugestão de maçã, papel molhado, raspas de limão, chá e xarope de milho. Na boca, a textura é frisante e levemente metálica. O primeiro toque sugere maçã verde e vinho branco com… papel molhado e milho. O amargor é médio e dai em diante o conjunto privilegia a refrescancia numa proximidade com chá de ervas gelado. O final traz papel molhado, maçã e milho, que permanecem até o retrogosto. Achei estranha…

A outra da Glutenberg é a American Pale Ale da casa (também chamada de Américaine) cuja receita (seguindo o caminho aberto pela anterior) traz água, lúpulo e levedura mais milho, trigo sarraceno, quinoa, açúcar demerara e candy syrup. Na taça, uma cerveja de coloração âmbar caramelada com creme branco de boa formação e média resistência. No nariz, herbal à frente dominando a percepção do bebedor, que ainda consegue pescar ervas, grama, resina suave e doçura de candy syrup (bastante evidente). Na boca, a textura levemente áspera e picante. O primeiro toque traz reforço da pegada herbal que o aroma adianta com presença intensa de candy syrup e resina leve. O amargor é médio e abre as portas para um conjunto que, assim como a anterior, traz um forte componente de chá, mas não de forma negativa, como a Blond. O final é herbal. No retrogosto, mais chá e candy syrup. Melhor que a anterior, mas, ainda assim, estranha.

EUA

O projeto da Kona Brewing Company começou em 1994 em Kailua-Kona, no Hawai, quando pai e filho decidiram fazer sua própria cerveja. Em 1998 eles abriram o primeiro pub da Kona, e o negócio foi expandindo até 2010, quando os havaianos entraram no Craft Brew Alliance com outras quatro cervejarias tornando-se, em 2012, o nono conglomerado cervejeiro dos EUA, o que chamou a atenção da InBev, que comprou 32% do negócio em 2013, e agora importa, via Ambev, a Kona para o Brasil. Carro chefe da casa, a Kona Big Wave é uma Blond Ale dourada de creme branco de boa formação é média alta permanência. No nariz, um aroma suave, mas delicioso de frutas cítricas (abacaxi) e herbal sobre uma base de caramelo e biscoito. Na boca, a textura é cremosa. O primeiro toque traz caramelo seguido de cítrico (abacaxi) e de amargor baixo, mas eficiente, abrindo caminho para um conjunto altamente refrescante, que consegue exibir características agradáveis de malte e lúpulo sem soar exagerado. O final é sutilmente herbal. No retrogosto, caramelo, leve cítrico e muita refrescancia. Imagina no calor do Havai…

A Kona Longboard Island Lager é Pale Lager da casa e se baseia numa receita que une o malte Premium 2-Row com os lúpulos Mount Hood, Hallertau, Sterling e Millenium resultando numa cerveja de coloração dourada cristalina com creme branco de média formação e permanência. No nariz, herbal e cereais extremamente discretos (como “manda” o estilo), mas perceptíveis – com boa vontade. Há um sutil amanteigado sobre uma base de pão e biscoito (o que já sugere café da manhã). Na boca, textura leve. O primeiro toque junta cereais, milho e leve herbal, os três logo atropelados, primeiro por doçura, depois por amargor baixo (20 de IBU). Segue-se então um conjunto que busca ganhar pontos refrescando o bebedor em um dia de sol, sem oferecer desafios ao paladar. Ou seja, para beber em quantidade sem prestar atenção. O final é… amarguinho quase esquecível. No retrogosto, refrescancia e cereais suaves. Para dias de sol no Havaí (mas só se acabar o estoque de Big Wave e não existir uma similar).

ALEMANHA

Produzida pela primeira vez em 1894 numa cervejaria de Munique cuja história remonta a 1397 (!) – Spaten-Franziskaner-Bräu, que hoje integra o poderoso conglomerado Inbev –, a Spaten Munchen (Spaten Münchner Hell na Alemanha) é uma Munich Helles de coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, percepção agradável de cereais remetendo a feno, trigo, pão e palha com suave presença de caramelo e um sútil toque herbal. Na boca, e textura é suave, mas com uma leve percepção metálica. O primeiro toque traz doçura de caramelo seguida de herbal e de amargor leve, mas eficiente, abrindo as portas para um conjunto que equilibra a doçura caramelada do malte (suave) com a sugestão campestre de feno, trigo e palha e o discretíssimo herbal formando um conjunto simples, mas agradável – principalmente para dias quentes. O final é meio amargo, meio doce. No retrogosto, trigo, feno, palha, caramelo, tudo bem discreto.

Outra estrela da Spaten produzida em Munique, a Optimator faz bastante sucesso nos Estados Unidos. Trata-se de uma Doppelbock de 7.6% de graduação alcoólica, coloração âmbar escura com creme bege espesso de boa formação e média alta permanência. No nariz, muita doçura sugerindo caramelo, açúcar mascavo, frutas escuras (ameixa, passas e alcaçuz), rapadura e leve amadeirado. Na boca, a textura é sedosa. O primeiro toque apresenta todas as armas: doçura frutada juntando ameixa com caramelo. O amargor suave na sequencia traz consigo leve percepção de álcool abrindo as portas para um conjunto doce e frutado, mas sem nada de enjoativo, muito pelo contrário, harmonizando a doçura frutada caprichada com álcool e leve lúpulo herbal. O final sugere algo de xarope de propólis com álcool e ameixa. No retrogosto, mais ameixa, leve baunilha, açúcar queimado e sorrisos. Uma boa Doppelbock.

Balanço
Com um pouco mais de álcool do que a Lindemans Framboise (3.5% aqui contra 2.5% lá), a Lindemans Kriek mantém a doçura frutada em primeiro plano deixando a acidez da levedura selvagem na retaguarda, apenas com o intuito de evitar com que a doçura enjoe. E funciona. É uma bela cerveja de entrada (com uma salada) e saída (com sorvete). Aliás, tomei um sorvete de cerveja kriek em Bruxelas que vou te contar, viu. A seguinte é a Lindemans Cassis, que eu sempre tive receio em experimentar, e agora me arrependo: das Kriek Lambic da Lindemans, essa Cassis passa a ser a minha preferida, por equilibrar muito bem as notas frutadas e doces com o mergulho na fazenda das leveduras selvagens (curral, mofo, couro). Uma delícia. A Wit da escola paulistana, Barbante Primavera, é um pouco mais arisca (e alcoólica) do que as witbiers famosas, e por isso interessante. Gostei mais dela na garrafa do que na pressão. É uma ótima companheira para um prato de entrada. A Barbante Autunno é uma Belgian Tripel com polpa de cupuaçu, e por mais que essa modinha de inserir frutas tropicais em receitas clássicas buscando encontrar uma “brasilidade cervejeira” soe conversa para gringo beber, a coisa toda funciona aqui deixando o conjunto mais… frutado e com maior drinkability. Desceu bem. De Minas Gerais para a América, primeiro para o Canadá, casa da Glutenberg, cervejaria que produz cervejas sem glúten. Primeira receita deles, a Blond é estranhíssima, com milho e milhete tomando o lugar do trigo e da cevada, e o conjunto sugerindo maçã e papel molhado. Parece um chá de ervas. Não gostei. A Glutenberg Américaine melhora tudo que soa confusão na Blond, mas ainda assim soa estranha, com o candy syrup visivelmente inserido na receita para distrair a atenção de um conjunto mediano. Do Canadá para o Havaí com duas cervejas da Kona: a primeira é a Big Wave, uma cerveja leve que, segundo o site oficial, é indicada para depois de um dia na água (e nas ondas). A receita caprichada valoriza os lúpulos Galaxy e Citra sobre uma base suave de maltes Premium 2-Row e Caramel. Se um dia eu for para o Havaí, não beberei água: só beberei Kuna Big Wave. Tudo que a Big Wave soou bacana, a Kona Longboard soou dispensável. Uma American Pale Lager com um tiquinho de sabor a mais que as mainstream, mas muito pouco para bater mesmo uma Heineken. Inclusive, se fosse você, eu pegava uma Big Wave e uma Spaten Munchen, uma Munich Helles digna para beber uma Oktoberfest inteira e não se desequilibrar tanto. Bem simples, mas tem seu charme (alemão). Já a Spaten Optimator não é uma Ayinger Celebrator, mas é um baita custo / benefício na forma de Doppelbock. Doçura frutada caprichada e 7.5% de álcool muito bem inseridos. Palmas.

Lindemans Kriek
– Produto: Fruit Lambic
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 3,5%
– Nota: 3,55/5

Lindemans Cassis
– Produto:  Fruit Lambic
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 3,5%
– Nota: 3,59/5

Barbante Primavera
– Produto: Belgian Wit
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,15/5

Barbante Autunno
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8,5%
– Nota: 3,50/5

Glutenberg Blond
– Produto: Cerveja sem Glúten
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 1,70/5

Glutenberg Pale Ale Américaine
– Produto: Cerveja sem Glúten
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 2,81/5

Kona Big Wave Golden Ale
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4,4%
– Nota: 3,24/5

Kona Longboard Island Lager
– Produto: Premium American Lager
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4,6%
– Nota: 2,65/5

Spaten Munchen
– Produto: Munich Helles
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,00/5

Spaten Optimator
– Produto: Doppelbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,47/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.