A crueza emocional de Lucy Dacus

por Gabriel Innocentini

Há muitos fardos numa existência. Por exemplo, quando você fica sozinho com ninguém além de você no escuro. A hora da verdade, a noite escura da alma, a solidão de não poder mentir nem pro espelho apagado. E o que você faz se é artista? Os dois caminhos mais óbvios: você se afoga nisso e é eventualmente tragado; você se afoga nisso e eventualmente arruma um jeito de se safar. Num caso, são os destinos trágicos; noutro, os que retornam pra contar sua história. Aqui entra em cena uma garota vestindo macacão e tocando uma Epiphone com boca em F e afinada em open D. Lucy Dacus, senhoras e senhores.

Gravado em apenas um dia e lançado de forma independente em 26 de fevereiro via selo Ehse Records, de Baltimore, “No Burden” é o disco de estreia desta garota de Richmond, Virginia. “I Don’t Wanna Be Funny Anymore”, o primeiro single (com a capa sugerindo uma página arrancada de um diário) e a canção que abre “No Burden”, já adianta o universo que Lucy pretende explorar nos pouco mais de 35 minutos do álbum, eleito disco da semana da Spin, e definido pela Pitchfork como um disco de indie rock incomum. Por aqui preferimos focar na crueza emocional.

Nesta década temos acompanhado o surgimento e o amadurecimento de compositoras que estão alargando o vocabulário do indie-rock. Todos sabem os nomes: Angel Olsen, Ywoler, Sadie Dupois, Katie Crutchfield, Elena Tonra, Romy Madley Croft, Sharon Van Etten, Jessica Jalbert, Abi Reimold, Julien Baker, Skylar Gudasz (detentora do melhor verso do ano até aqui: “Dont ask me if I believe in God / I just believe in Gibson guitars”) e por aí vai. Cada uma de um jeito, sem saber cantar, sem saber mais do que três acordes, com phd em literatura, de família hippie, virtuoses nas escalas à Malkmus, com ironias devastadoras, sem aliviar, todas essas e mais outras rimando ou sem rimas mostram sua força em nossos fones de ouvido.

Lucy Dacus, de meros 20 anos, diz versos que poderiam estar na boca de um indie-hero como Jeff Mangum: “But here we are and something about it doesn’t feel like an accident. / We’re all looking for something to adore / and how to survive the bending and breaking”. A canção “Map On A Wall”, sozinha, já justificaria a inclusão de “No Burden” entre os melhores da temporada 2016. Sete minutos e vinte e oito segundos de vulnerabilidade, entrega, abertura, expectativa, pedidos, e finalmente consciência & descoberta. Nada mau pra uma letra que começa com um desinteressante “Oh please don’t make fun of me”.

“Trust” merecia ser citada inteira, a inscrição intimista num território lírico de sobrevivência. Podem lembrar do poema “Uma arte” da Elizabeth Bishop, e até mesmo de uns versos do Bob Dylan sobre ser mais jovem do que antes. Lucy fala em queimar diários e duvida estar mais sábia. Mas não é apenas sobrevivência, é uma espécie de relato do que um artista passa nessa luta de foice no escuro consigo próprio. Machado de Assis dizia: alguma coisa temos de sacrificar. Num tempo em que até estadistas dizem não ser a favor nem contra ninguém, Lucy sabe o preço de sua escolha.

Fosse um lado A, lado B, o disco já ganharia espaço eterno em nossos corações. O jogo está ganho e tanto Lucy quanto nós somos os vencedores. Mas quem fala de vitórias? Ainda há sete canções por explorar, uma inclusive com um dos melhores títulos dos últimos tempos: “Troublemaker Doppelgänger”, com os versos “I wanna live in a world where I can keep my doors wide open,/but who knows what’d get in and what’d get out?”.

– Gabriel Innocentini (@eduardomarciano) é jornalista e dissecou a discografia completa de Bob Dylan no Scream & Yell. Confira aqui.

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