Três livros imperdíveis para agora

por Marcelo Costa

“Alguém Come Centopeias Gigantes?”, Organização de Fábio Massari (Edições Ideal)
Coletânea de textos do mítico fanzine californiano Search & Destroy, e da posterior RE/Search Publications, ambos comandados por V. Vale, “Alguém Come Centopeias Gigantes?” reúne 15 entrevistas escolhidas pelo reverendo Fábio Massari e textos bacanudos que servem de introdução à livros lançados pela editora RE/Search, como “Pranks” (1988), “Incredibly Strange Music” (1993), e “Modern Pagans” (2001), entre outros. Jello Biafra abre o volume com uma entrevista (de 22 páginas) empolgante de 1996, e dai pra frente o leitor irá se deparar com a inocência punk de Paul Simonon, do Clash, numa entrevista emocional, honesta e reveladora de 1977; com Henry Rollins mostrando que é gente como eu e você num papo de 2012; e Lydia Lunch enchendo as veias de adrenalina num papo excelente de 2013. Há mais: um dia na casa do casal Lux Interior e Poison Ivy ouvindo compactos de bandas desconhecidas, Patti Smith em 1977 tateando nervosamente o que J. G. Ballard, em 1988, exibe com total consciência. Aliás, os papos com Ballard, Timothy Leary, Lawrence Ferlinghetti (beatnicks, fama e independência), Paul Krassner (trolagem), Throbbing Gristle (música industrial) e Diane Di Prima (poesia, religião e paganismo) estão entre os destaques de uma coletânea que já nasce pedindo um segundo volume, pois é daqueles livros que provocam ideias, questionamentos e inspiram a olhar o mundo de uma maneira completamente diferente e distante do padrão replicador de tendências das publicações atuais, sugerindo revolução, e não conformismo capitalista movido por hypes e modismos. Absolutamente obrigatório.

Nota: 10 (leia 54 páginas)

“Geraldo Vandré: Uma Canção Interrompida”, Vitor Nuzzi (Editora Kuarup)
Existem biografias não autorizadas que buscam “decifrar” o biografado, muitas vezes de modo a denegri-lo, e com o burburinho faturar uns trocados à custa de um famoso (na via contraria, quando esse exercício de entendimento é verdadeiro, o resultado são obras geniais como a biografia dos Smiths, assinada por Tony Fletcher). Existem outras biografias não autorizadas que são exercícios de paixão, com o biógrafo tateando cada passo do biografado não apenas buscando entende-lo (o que muitas vezes descobre-se ser impossível), mas também para iluminar uma trajetória que merece ser contada. “Geraldo Vandré: Uma Canção Interrompida” é uma honrosa integrante deste segundo grupo, e se o jornalista Vitor Nuzzi não chega a desvendar o mistério Geraldo Vandré neste livro imperdível, deixa centenas de migalhas de pão pelo caminho para que o leitor não só reconstrua a trajetória de um dos artistas míticos da música brasileira, como também parte da história da República Federativa do Brasil, aquela dominada (e manchada) por militares. Vitor busca as origens de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, acompanha sua conversão a Geraldo Vandré, reconta alguns momentos históricos da música brasileira enquanto situa cada passagem, de modo impecável, no momento político e social vivido pela nação, validando a questão de que toda obra artística (tanto quanto sua censura) está inserida no tempo / espaço em que foi gerida, e é fruto inevitável deste tempo. Após 350 páginas, a sensação não é apenas a de conhecer e se aprofundar na história grandiosa de um artista outrora popular, mas do próprio Brasil. Absolutamente essencial.

Nota: 10

“Dance of Days: Duas Décadas de Punk na Capital dos EUA”, Mark Andersen e Mark Jenkins (Edições Ideal)
O prefácio escrito especialmente para a edição brasileira merecia ser enquadrado, mas “Dance of Days” não reserva apenas essas primeiras páginas de deleite, muito pelo contrário. O começo, no entanto, pode derrubar alguns leitores, ainda que seja didático e importante para a história posterior da cena de Washington DC, porque volta uma década (mais propriamente para a primeira metade dos anos 70) buscando flagrar as faíscas que causaram o incêndio harDCore que, nos anos 80, colocou a cidade no mapa mundi da música. Andersen e, principalmente, Jenkis são detalhistas ao extremo na reconstrução da cena local, e, muitas vezes no livro, cinco ou seis bandas vão começar e acabar na mesma página, dando frutos a outras bandas que implodiram antes de você pensar em bater o nome delas no Google. Esse primeiro trecho é bastante didático e cansativo, mas o leitor só poderá valorizar a segunda metade de “Dance of Days” após entender todos os tropeços pelo qual a cena de DC (que deu ao mundo o straight edge, o emocore e Dave Grohl – se você pensa em culpa-la, leia o livro correndo o risco de mudar de opinião) passou antes de se tornar adulta. Por mais que o Minor Threat seja influente e importante, a história que realmente vale a pena (e inspira) começa com Rites of Spring e se amplia com o Fugazi e a Positive Force, momentos em que a ira, a raiva e o desconforto sócio-político ganha foco e direção, deixando de cheirar a mero espirito juvenil. Desta forma, é impossível valorizar a segunda parte de “Dance of Days” sem passar pela primeira, num belo resumo que o leitor deve levar pra vida.

Nota: 10 (leia 52 páginas)


– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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