Juntos, Almir Sater e Renato Teixeira

por Marcos Paulino

Renato Teixeira está a todo vapor. O autor de “Romaria” (quem não conhece “Sou caipira, Pirapora”?), aos 70 anos, está trabalhando como nunca. A novidade que apresenta neste momento – depois de lançar, em 2015, “Amizade Sincera II”, segundo disco que fez com Sérgio Reis – é “AR”. O “A” do nome do álbum é de Almir Sater, seu parceiro há três décadas, mas com quem, curiosamente, nunca tinha gravado. Vizinhos na Serra da Cantareira, os dois têm até algum parentesco: um irmão de Renato foi casado com a filha de Almir; este é avô de duas sobrinhas daquele. Assim, até dentro da família havia a pressão para que produzissem um CD juntos.

Desde que se propuseram a levar o projeto adiante, até seu término, passaram-se longos seis anos. E o próprio Renato admite que a coisa só saiu do campo das ideias quando chamaram Eric Silver, produtor norte-americano que é figurinha carimbada entre os artistas brasileiros, pra dar uma acelerada no processo. “AR” tem 10 faixas, quase todas inéditas, nas quais Renato e Almir se revezam nos vocais. O trabalho foi tão frutífero que, mal lançaram o primeiro volume, um segundo já está engatilhado. E Renato, incansável, ainda está envolvido em outras frentes, como conta nesta entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell.

Você e o Almir tem uma parceria de mais de 30 anos. Por que demorou tanto tempo pra gravarem um disco juntos?
Tanto eu quanto o Almir sempre cuidamos das nossas carreiras individualmente, trabalhamos muito, viajamos muito, são quase 200 viagens por ano que cada um faz. Até que um dia surgiu a ideia de fazermos um disco juntos. Sempre houve uma expectativa das pessoas em relação a isso, já estava virando até pressão familiar. Mas pra podermos fazer esse trabalho, precisávamos da ajuda de alguém. Então chamamos o Eric Silver, de Nashville, um amigo que há mais de 20 anos frequenta nossas casas na Serra. É um grande produtor e sabíamos que, se déssemos na mão dele, o disco iria sair. Gostamos tanto do resultado que, mesmo que nenhuma gravadora lançasse, já estava bom, ficaria pra gente mesmo ouvir. Mas a Universal veio, lançou o disco e as pessoas estão gostando muito. Este é um momento ótimo, de renascimento da música brasileira, despertando de uma linda história que aconteceu anteriormente. Hoje a música com origem na cultura caipira, esta que a gente faz, domina 70% do mercado musical brasileiro. Isso é um grande prêmio.

Foram-se seis anos entre a ideia de se fazer o disco e o seu lançamento. Por que tanto tempo?
Chamamos os músicos lá pra Serra, onde a gente tem estúdio, e começamos a fazer, mas não estava dando liga. Até que o Almir teve a ideia de chamar o Eric, e depois que ele entrou no projeto, em um ano terminamos. Mas as músicas já estavam definidas. Agora começamos a fazer o segundo disco, que já tem seis músicas prontas, e queremos terminar neste ano ainda.

O Eric é um produtor acostumado a trabalhar com artistas brasileiros. Mas como se encaixou a visão de um norte-americano num projeto com músicas tão brasileiras?
Usamos o Skype pra trocar as informações em tempo real e sem gastar nada. Por exemplo, em “Noite dos Sinos”, é super lindo escutar os americanos tocando uma folia de reis. Se tivéssemos deixado nas mãos deles, talvez tivessem feito de um jeito que não fosse esse. Comandando daqui, conseguimos manter os caras nos trilhos.

Você e o Almir poderiam facilmente ter gravado um disco de hits de suas carreiras. Desde o começo, a ideia foi sempre fazer um álbum de inéditas?
Nunca gravamos, por exemplo, “Tocando em frente” juntos. Então poderíamos fazer isso neste disco. Mas preferimos radicalizar, com músicas inéditas.

Hoje a música sertaneja é muito diferente daquela que você e o Almir fazem, tem rock, pop, arrocha… Como você vê esse cenário?
Eu me considero absolutamente atual. Inclusive minha música tem mais informação que a de muitas duplas que estão começando agora, que não sabem nem que Tonico e Tinoco existiram. Não cobrem dos músicos e dos compositores o nível cultural do povo. Se o conteúdo de hoje está ruim, já houve outros momentos em que esteve também. Nos anos 60, por exemplo, num grande momento da música brasileira, a MPB bombando com grandes nomes de uma geração privilegiada, o que tocava no rádio era “Mamãe passou açúcar em mim”. O que acho interessante agora é que nunca se trabalhou tanto com música no Brasil. Todo dia tem show e todos os shows têm público, e a qualidade dos equipamentos está muito boa. O conteúdo é uma questão de política educacional. Num país culto, a música não seria essa, com certeza.

Como ficou seu projeto com o compositor Geraldo Roca, que morreu recentemente, para gravação de um disco com músicas sertanejas?
Agora é que o disco vai ganhar mais importância, porque ele era um dos maiores autores do mundo. A minha missão fica mais definida, porque vou tentar até o fim mostrar quem foi esse cara, que o Brasil desconhece. O nível musical da obra desse artista é muito alto.

E o que seus fãs podem esperar desse disco?
Eu e o Roca sempre discutimos muito a questão conceitual da música caipira. E sempre gravamos o que pensávamos. Pegamos algumas dessas músicas que gravamos ao longo dessas décadas de amizade, em que avaliamos os rumos da música brasileira, e remasterizamos. Isso tudo está pronto. Espero que as pessoas escutem e possam usufruir, como eu usufruo, da qualidade musical desse cara.

Você está com 70 anos e, além do disco com o Almir e do projeto com o Roca, participou de um DVD do Nasi, lançou recentemente um disco em parceria com o Sérgio Reis, vem fazendo uma média de 10 shows por mês… Você tem se sentido realmente com muito pique?
Exatamente. É muito bom estar fazendo isso nesta altura da minha vida, estar podendo usufruir daquilo que plantei. Sou um cara do interior, de Taubaté, e lá no começo dos anos 70, pensava que a música tão gloriosa da cultura caipira, de caras como Tonico e Tinoco, não poderia morrer. A partir daí, comecei a aplicar MPB na música caipira. Consegui, junto com outros companheiros, fazer com que ela ressurgisse, e hoje ela tem toda essa penetração. É bom ver que esse pessoal do sertanejo moderno curte muito meu trabalho, me chama pra cantar com ele. Sou muito feliz, e acho que isso é um presente que a música me deu.

Uma faceta curiosa da sua carreira é que você trabalhou com publicidade e que é autor de jingles conhecidos até hoje, como o “Roda baleiro”, das balas Kids, e o “Tão bonitinho”, dos calçados Ortopé. Você ainda faz jingles?
De vez em quando, se me pedem, eu faço, mas não é mais minha atividade. Quando eu fazia jingles, a publicidade vivia um momento diferente deste de hoje. Mas tenho orgulho dessa época. Minha travessia na publicidade se deu numa época em que a ditadura militar estava muito forte no Brasil e o mercado da música estava absolutamente inoperante. A publicidade, além de me dar opções de vida, sem que eu precisasse sair da música, ainda me possibilitou um nível muito alto de boas informações, porque conseguia driblar a censura pra saber o que estava acontecendo no mundo. Foi um momento muito interessante da minha carreira, inclusive ajudou muito a minha música. Uma boa parte de tudo o que tenho devo à publicidade.

 

Este disco com o Almir vai merecer uma turnê conjunta de vocês?
Isso deixamos a critério do destino. [Risos] Vamos ver. Tenho meus shows, meu trabalho, ele tem os dele. Para que possamos fazer juntos, tem que ser algo realmente bastante interessante, pra nós dois e pro público. Vai que acontece uma mágica de as pessoas se encantarem com esse disco, de ele se tornar uma referência dentro da música brasileira… Quando nos juntamos, conseguimos trabalhar legal, então não há nada contra sairmos por aí cantando o repertório desse disco.

Marcos Paulino é editor do caderno Plug (www.mundoplug.com), da Gazeta de Limeira.

Leia também no Scream & Yell:
– Renato Teixeira (2003): “O que eu faço… é uma coisa contemporânea” (aqui)

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