Entrevista: Sérgio ‘Pamps’ Pamplona

Entrevista por André Silva
Foto de Mateus Mondini

Uma das bandas mais interessantes do pós-punk brasileiro permanece, há cerca de 30 anos, também uma das mais desconhecidas: Smack. Com apenas três discos muito breves (o primeiro de 1985, o último de 2008), a banda cravou um som criativo e enérgico, com uma dose de psicodelia, angústia existencial e arabescos estranhos de guitarra, fugindo às caricaturas de banda inglesa que povoaram nos anos 80 o chamado pós-punk no Brasil – mais uma segunda fase “esteticamente permissiva” do punk do que uma proposta unitária de sons. O combo era uma espécie de supergrupo do underground paulista, que perdeu seu pilar central em 5 de novembro deste ano, dia em que seu criador, Sérgio “Pamps” Pamplona, faleceu aos 62 anos.

Diante dessa perda terrível, e da raridade de registros relacionados à banda, a publicação dessa entrevista – conduzida por André Silva com Lucas Campacci e Mateus Mondini – torna-se necessária não apenas para honrar a memória de um grande artista, mas também para fazer que seu legado, sua música, continue ressoando: realizada em julho de 2013, em São Paulo, é certamente uma das últimas entrevistas concedidas por Pamps (se não for a última). Foi captada em vídeo, assim como os relatos de outros músicos ativos nos anos 80, para compor o documentário “Me Perco Nesse Tempo: arqueologia do pós-punk em São Paulo” – com finalização prevista para 2016.

Os discos do Smack estão disponíveis (dois) pela Baratos Afins e (um) Midsummer Madness. Na conversa abaixo, Pamps relembra o tempo que integrou a banda de Itamar Assumpção (“A gente convivia quase que diariamente: por dois anos a gente se viu todo santo dia”), inspirações para o primeiro disco do Smack (“Eu tinha ideia do que fazer por causa dos Talking Heads”), HQs (“A música ‘Clone’ foi tirada de uma HQ do Homem-Aranha”), casas de shows dos anos 80 (“Madame Satã era especial”) e opina: “Acho que o som do Smack não tem uma linha condutora, cada música é uma música, não tem uma identidade própria, não segue um padrão”. Com você, as histórias de Sérgio “Pamps” Pamplona.

Como surgiu o Smack?
Eu tinha tocado com o Itamar Assunção, aí o Arrigo [Barnabé] me chamou para montar uma banda para acompanhar a afilhada dele. Eu estava com vontade de fazer alguma coisa, pensando em compor. Eu tinha uma casa na Previdência, aí montei um estudiozinho. Tinha um [gravador] Akai 4000D, comprei um microfone e aparelhei, comprei um amplificador do [guitarrista dos Voluntários da Pátria, Miguel] Barella e tinha uma Giannini, boa e velha. Eu ainda não conhecia o Edgard [Scandurra, do Ira!]. Daí comecei a gravar uma demozinho pra mim mesmo, linha de baixo, guitarra, bateria e voz. Tinha uma amiga minha, Ilsinha, mostrei pra ela, que gostou, e mostrei pra Sandra [Coutinho, baixista das Mercenárias]: a gente estava sempre ligado, morávamos ali perto. Falei: “Vamos fazer alguma coisa”. Ofereci os temas, que eram do primeiro disco, “Ao Vivo no Mosh” (1985), eles curtiram e tal. Mas no começo era eu na guitarra, Edgard na bateria, Sandra no teclado, era desfigurada a coisa. Começamos a procurar baterista. Daí passou um monte de baterista como Paulo Barnabé e Charles Gavin, uma infinidade de gente e ninguém entendia nada do que a gente estava fazendo, não entendia os tempos… Não sei por que, nenhum (deles) fechou as levadas. Um belo dia, eu estava na casa da Aninha, guitarrista das Mercenárias, e aí o Thomas [Pappon, baterista dos Voluntários da Pátria e membro do Fellini] apareceu daquele jeito dele: ‘’Opa meninas, cheguei!’’. O Edgard estava lá, a Sandra e a Rosália também estavam. Acho que foi o Edgard que sugeriu: “Pô, Pamps! Vamos lá, vamos tocar!”. Tinha uma bateriazinha e, na primeira passada que ele deu em todas as músicas, fechou tudo. Saí de lá embasbacado. Ele me ligou no dia seguinte: “Achei muito bom esse som!” Basicamente, foi assim que surgiu o Smack. Depois o Edgard saiu, virou um trio: eu, a Sandra e o Thomas, e fizemos aquele segundo disco, “Noite e Dia” (1986) que é bem mais leve – bem mais Smack, aliás. A gente vivia numa época em que rolava muita heroína, e Smack é um nome dúbio, pode ser tanto a onomatopeia do beijo quanto esse nome de heroína na Europa. A banda parou um tempão e aí fizemos um terceiro disco em 2008 [“3”, lançado pela Midsummer Madness]. Gosto bastante das músicas, não sei se vocês já ouviram…Tem coisa mais romantiquinha, mas sempre brincando com as palavras. Modéstia à parte, gosto muito das minhas letras. O Edgard também compôs. Ele adora o Smack porque é onde ele se libera. Nessa época toda, quando ele tocou no Ira!… era uma diversão pra ele, no Ira! ele ficava meio preso, tinha uma fórmula básica, bem pop-rock, e no Smack sempre deixei as pessoas livres.

Conta um pouco sobre tocar com o Itamar! A gente ouviu que você não gostava de falar que tinha tocado com ele.
Não, nunca falei isso. Muito pelo contrário, tenho o maior orgulho de ter tocado com o Pantera Cor-de-Rosa. Adoro o Itamar. Adorei ter tocado com ele, aprendi muito; nunca consegui fazer os baixos que ele fazia. Ele era bom baixista, eu nunca fui. Era iniciante, pra pegar aquelas linhas…

Você tocou bastante tempo com ele?
Não, foi no comecinho do Isca [de Polícia, banda do Itamar Assumpção], o primeiro disco, só que ele fez o baixo e eu só toquei na musica “Baby”. Ele colocou o nome de quem tocou, Pamps. Nossa, a gente convivia quase que diariamente: por dois anos a gente se viu todo santo dia. Eu morava na Penha e ele na Lapa, quando começamos a tocar. Ele ligava pra mim, “Pamps, tô indo aí”, ele pegava o busão e eu virava para o canto e dormia mais uma hora. Quando chegava, tinha um quintalzão com nêspera, amora, banana. Pegava o fusquinha que eu tinha e íamos para o ensaio. A gente passava o dia junto.

Uma coisa que é bem comum no Smack é o experimentalismo, principalmente no segundo disco. O primeiro é mais cru, o que você acha?
Eu ia perguntar pra vocês, o que vocês gostavam no Smack? O segundo uma coisa mais experimental, o primeiro, uma coisa mais fechada…

É porque é ao vivo, né? Paulada. No segundo vocês a produção foi mais elaborada…
O segundo foi gravado ao vivo também. Ao vivo não como o “Ao Vivo no Mosh”, que entramos de manhã e saímos à tarde, repassamos o repertório umas 300 vezes. Eu e o Edgard voltamos para fazer os vocais, porque os dois estavam gripados no dia da gravação, aquele tinha gente aplaudindo, os amigos. Eu tinha ideia do que fazer por causa dos Talking Heads, eles tinham feito um disco ao vivo, no estúdio. Achei genial! Primeiro corta o custo lá embaixo, grava no estúdio; tem depois a mixagem e um abraço. O segundo foi no [estúdio] Vice-Versa que a gente gravou. Mas “ao vivo” que eu digo é todos tocando instrumentos ao mesmo tempo: não tinha as palmas. Mas, claro, foi um pouco mais rebuscado, era estúdio analógico naquela época, daí dava problema de sincronia entre um instrumento e outro, passando as faixas, rotação… Tinha um monte de problemas, mas foi mais pensado. Surgiu como um pós-Smack, já é mais pesadão, mais para dentro. O pior de todos foi o terceiro, esse último foi terrível fazer. Nós gravamos ao vivo também, na casa do irmão do Thomas, o Tancredo, e era um estudiozinho desse tamanho assim, a mesa de som ficava no andar de cima. O primeiro resolvi cortar em 45 rotações, para dar mais qualidade. Gravado ao vivo, na pauleira, no estúdio, não estava uma grande maravilha e cortando em 45 você ganha em qualidade e som no vinil. Mas quebramos umas cinco agulhas cortando o master no vinil: (a gente) não entendia, não conseguia, nunca tinha feito isso, acho que foi o primeiro no Brasil, não sei se ninguém mais fez LP em 45 rotações aqui. Lá fora eram bem comuns na época, vários grupos já tinham feito.

Os dois primeiros foram gravados pela Baratos Afins. Como que vocês chegaram no Luiz Calanca (dono da loja/selo)? Qual foi a participação dele?
Boa pergunta… Eu não lembro. Acho que, de novo, o Thomas deve ter apresentado, daí levamos uma demo para ele, cacete, naquela época. Ele adorou e bancou tudo, tudo, estúdio, capa, prensagem. O segundo já não: ele bancou o estúdio e a gente rachou a prensagem, alguma coisa assim. Já não foi produção total dele. O primeiro sim, ele bancou tudo. E o terceiro a gente rachou entre os quatro.

E pra você, qual que é a música que você mais gosta?
Difícil, hein… Olha, uma que me emociono muito e que gosto é a “Verlan”, do último disco, em que cito o nome das pessoas, dos meus entes queridos, minhas três filhas, Edgard, André… Esse disco todo foi feito lá na casa do Edgard. Na época a gente ia muito pra lá, tinha uma coisa bem gostosa. Mas essa música me toca muito, a acho bonita: os acordes que inventei, a simplicidade. Eu tenho amor, uma paixão muito grande. A letra bonita, a ideia me cativou… Sou fã. Eu tinha uma namorada que morava lá, volta e meia ia para lá. Esse negócio de chamar o inverso [“l’invers”, em francês, ao contrário], Verlan. A “Fora Daqui” acho legal, principalmente a parte 2, que é sem vocal e muda totalmente, emenda tudo. E a que veio depois, muito boa. Não sei, não tenho uma predileta.

E disco, tem algum favorito?
O primeiro, sem dúvida. O segundo já foi uma transição, meio impreciso. O primeiro baixou o santo e eu fiz. Em alguns meses escrevi as músicas, a maioria é minha, tem uma ou duas do Edgard.

Em que você se inspirava mais na hora de escrever?
Uma coisa que me inspirava muito, no primeiro e no segundo disco principalmente, fora minha vivência na época… HQs: “Sete Nomes”, por exemplo, foi totalmente tirado do Corto Maltese, (personagem) de “Fábula de Veneza”, do [Hugo] Pratt, com coisas de maçonaria… É um personagem fantástico… Fora a imagem, que é linda, os textos são fantásticos. Essa coisa mística sempre me atraiu muito. Quando tem mistério, estou dentro. Santo Daime, essas coisas… Gosto muito de HQ, a música “Clone” foi tirada de uma HQ do Homem-Aranha. Tinha uma época em que todos os heróis da Marvel sumiram, 1980 e pouco. Você comprava o gibi e não tinha Homem-Aranha. Daí eles voltaram com outra vestimenta, poderes aprimorados, o Homem-Aranha ficou todo azul em vez de vermelho e azul, e tem uma história em que aparece um clone dele: teve uma confusão de todos os heróis, eles entraram num túnel do tempo. Dele saem dois Homens-Aranhas e você não sabe quem é um, quem é outro. Influências no Brasil… Luiz Melodia, por exemplo. Sempre adorei as músicas dele, as letras, aquela colcha de retalhos, de juntar frases. Vira um amálgama e transpõe uma emoção pelas letras. [O som do Smack também] tem a ver com músicas como Jimi Hendrix, Gang of Four, Talking Heads, Beatles… O primeiro disquinho que comprei, “I Wanna Hold Your Hand”, foi aos 9 anos. Mas atualmente tenho tido dificuldade, tem umas três músicas que estão sem letra. Tem um esboço, mas é o momento, tem que esperar o momento. Se forçar sai merda, não tem jeito, para qualquer coisa que você faça na vida.

As drogas tiveram uma relação muito forte com a época? Havia o lema punk “no future”…
“No Future”, não sei, não chego a fechar muito com o Sex Pistols nesse sentido, mas drogas fazem parte da humanidade. Desde que o homem entrou em contato com a Natureza e descobriu que alguma coisa provocava alteração na mente, no espírito, na alma, começou a curtir. A heroína simplesmente porque é a melhor droga do mundo, nirvana, a Terra artificial, só que é terrivelmente viciante. Escapei algumas vezes de morrer e não recomendo a ninguém. Mas é a droga dos sonhos, mexe muito com os sonhos, e eu gosto muito de dormir por causa disso. Durmo bastante pra sonhar, eu gosto, os sonhos são reveladores. Cocaína, para falar, conversar, encher o saco. Acho que nunca gostei de maconha na verdade. Gosto de haxixe, bastante, teve bastante influência nas minhas músicas.

Pode dar um exemplo?
Especificamente não, mas tanto no primeiro como no segundo disco, os dois foram feitos sob o estímulo tanto de herô como de haxixe. As minhas composições, muito sonho, muita fragmentação, talvez por isso a diversidade entre as músicas. Acho que o som do Smack não tem uma linha condutora, cada música é uma música, não tem uma identidade própria, não segue um padrão. Você vai encontrar um sambinha disfarçado de rock, com uma pauleira. O que vem é o que vem: abrir as anteninhas e deixa o cérebro fazer a sua parte.

Como era sua vida na época do “Ao Vivo no Mosh”? O que você fazia?
Eu trabalhava na Folha de S.Paulo como programador e tinha essa namorada que tinha mudado para Paris. Ia duas vezes por ano pra Paris, ficava meio que lá e aqui. Eu tinha meu trabalho na Folha, razoável, e outras fontes de renda que me permitiam isso. Sempre gostei muito da Europa, essa coisa de transitar por países numa viagem de oito horas, outro cheiro, outra tapinha de cerveja, outra cultura. Isso sempre me fascinou, sempre que posso dou uma fugida pra lá.

Das casas de shows, qual você achava a melhor na época? Em qual mais gostava de tocar?
Tinha tantas… Madame Satã era especial. Pra mim foi, não só por tocar lá, mas porque você tocava praticamente junto com as pessoas, num palco de 20 centímetros, e o camarim era no banheiro. E era uma tribo legal que frequentava, aliás, várias tribos: carecas, punks, moicanos, nós, que estávamos surgindo… não sei como se classifica “nós”, os pós-punks: acabou se formando uma turma que é essa toda, desde Ratos do Porão, Inocentes, Mercenárias, Ira!, Voluntários… Todo mundo muito unido. Depois deu continuidade: na época do Orkut (parece que é coisa do século 1800) tinha aquela comunidade, “Pânico em SP”, e era legal: todo mundo se reencontrava, a gente saia junto, marcava pizzada não sei onde, essa turma toda que frequentava o Satã se reunia.

– André Silva (@nevoa) escreve no Perdidos no Ar e desenha.

MAIS SOBRE MÚSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM & YELL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.