Wilco, downloads e o mundo moderno

por Marcelo Costa

Na noite de quinta-feira (16) da semana passada, o Wilco, uma banda de alternative country baseada em Chicago que já vendeu mais de 2 milhões de cópias de seus discos, surpreendeu o mundo ao liberar gratuitamente seu novo álbum, “Star Wars”, sem aviso prévio, quatro anos após “The Whole Love” (2011). “Star Wars”, que apresenta 11 canções inéditas e é o nono disco na discografia da banda, pode ser baixado no site oficial do Wilco: http://wilcoworld.net.

A estratégia parece ter sido minuciosamente planejada. Jeff Tweedy, o líder, ainda trabalhava na divulgação de “Sukierae”, do Tweedy, o projeto musical com seu filho Spencer lançado em setembro de 2014, e o anúncio do lançamento de “Star Wars” foi feito no meio de um debate do vocalista Jeff Tweedy com Mark Richardson, da Pitchfork, no Museum of Contemporary Art Chicago. O tema, ironicamente, era “explores new perspectives on music, art, and culture”.

No Facebook do Wilco, o vocalista Jeff Tweedy explicou de forma romântica a opção em lançar “Star Wars” gratuitamente, sem disponibiliza-lo em programas de streaming e lojas online: “Por que lançar um álbum desta maneira e por que dá-lo gratuitamente? Bem, a maior razão, e não estou certo de que ainda precise de quaisquer outras, é que parecia que seria divertido. O que é mais divertido do que uma surpresa?”.

Não é tão simples assim. Tal qual o Radiohead, que vem inovando no lançamento de seus álbuns desde “In Rainbows”, de 2007, o Wilco dá sinais de não estar satisfeito com a indústria da música do jeito que ela está. Não só eles, e o Tidal, serviço de streaming de música de Jay Z com apoio de Kanye West, Beyoncé, Rihanna, Madonna e Jack White (entre muitos outros) também sinaliza como uma tentativa do artista ter controle sobre seu próprio material.

Na mesma semana que o Wilco liberou “Star Wars”, Neil Young tirou toda a sua discografia dos programas de streaming alegando má qualidade de áudio. A briga do velho roqueiro é antiga, e parte dela integra a narrativa de sua autobiografia. Outro nome da briga (neste caso, por remuneração correta) é Taylor Swift, cujo disco “1989” é o mais vendido do planeta nos dois últimos anos está apenas na Apple Music (embora ela tenha precisado brigar pra ser paga).

Junte a isso tudo um dos livros musicais mais badalados do ano, “How Music Got Free: The End of an Industry, the Turn of the Century, and the Patient Zero of Piracy”, de Stephen Witt, que conta a história de Karlheinz Brandenburg, um dos inventores do MP3; Doug Morris, o big boss da Universal Music; e Dell Glover, o cara que contrabandeava MP3 antes do lançamento dos álbuns e quebrou a indústria da música, e teremos uma boa conversa futurista de boteco.

O fato do Wilco “jogar” seu disco no site oficial (e apenas nele, de forma “old school”, como disse um amigo nas redes sociais) não é apenas bondade e diversão, mas também uma resposta ao modelo atual de comércio de música, em que uma matriz de um disco, ao partir para uma fábrica e para servidores de streaming está praticamente no mercado meses antes de seu lançamento oficial. O que o Wilco fez foi renegar isso e apostar no lançamento à moda antiga, apostando na repercussão.

Não só. A estratégia do Wilco também foca nas vendas, algo que o Radiohead já provou ser possível com “In Rainbows”: disponibilizado em MP3 no dia 10 de outubro de 2007 no “modelo” pague quanto quiser, o disco foi lançado de forma física em 01 de janeiro de 2008, e alcançou o topo das paradas nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e França. No caso do Wilco, vinil, CD e camiseta já estão a venda na lojinha online da banda. E o álbum já está nas plataformas de streaming.

Não custa nada lembrar que o Wilco tem uma história de sucesso na web. “Yankee Hotel Foxtrot”, seu disco mais celebrado, foi recusado por uma gravadora, e quase não foi lançado. Naquele distante 2001, a banda disponibilizou o disco para audição online em seu site oficial, e, 600 mil plays depois, a história toda mudou: “Yankee Hotel Foxtrot” saiu por outra gravadora, frequentou listas de melhores do ano e vendeu 600 mil cópias.

Se de um lado, ainda que vilanizado, o download gratuito vem mostrando força como objeto de divulgação, o streaming pago vem ocupando terreno e se mostrando cada vez mais viável nesse mundo moderno de música não tátil, ainda que, segundo reportagem do Guardian, esteja diminuindo o engajamento dos fãs, e o mercado da música, como um todo, necessite mais de shows do que de streaming para sobreviver.

Todos esses cenários destacam o mesmo ponto: não há verdade absoluta no comércio de música no mundo atual. Esse sintoma permite que cada artista crie suas próprias regras, e que o Wilco doe, de forma gratuita, seu novo álbum, esperando que os fãs cumpram a sua parte. E, como pode ser visto dois dias depois ao lançamento do álbum, no Pitchfork Festival, os fãs não decepcionaram cantando as músicas novas. A boa música ainda pode surpreender.

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