Caetano ao vivo no Sesc Pompeia

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari (veja galeria)

Nove anos atrás, em 2006, Caetano escalou três músicos jovens, com menos da metade de sua idade, para sonorizar um álbum de fim de relacionamento. “Cê”, o disco em questão, surgiu turbinado por raiva, sentimento típico da primeira fase de rompimentos amorosos, e apareceu em diversas listas de melhores do ano, batizando a banda (Pedro Sá na guitarra, Ricardo Dias Gomes no baixo e piano, Marcelo Callado na bateria) que ainda acompanharia o músico nos discos (e shows) de carência (“Zii e Zie”, 2009) e aceitação (“Abraçaço”, 2012).

Encerrando uma curta temporada de quatro shows disputados na agradável choperia do Sesc Pompeia, em São Paulo, a impressão é de que o ciclo do luto amoroso de Caetano parece finalmente ter chegado ao fim. Caetano está feliz, saltitante no palco e aproveitando o intimismo do local para tocar as mãos dos fãs enquanto o impecável trio instrumental passeia com desenvoltura pelo repertório do disco “Abraçaço”, que, se por vezes peca tematicamente, exibe arranjos fortes, que melhoram (e muito) as canções do disco.

Em 2015, “Abraçaço”, o show, soa muito mais redondo que a apresentação gravada em 2013 para um canal de TV. A festa continua começando com “A Bossa Nova é Foda”, instrumental poderoso que abraça uma letra bastante frágil: Caetano não precisa diminuir Bob Dylan para valorizar João Gilberto, mas o faz. O público segue junto enfileirando o nome de atletas brasileiros de MMA (com dopping e tudo) e engrossando o coro no refrão, forte. Recluso de pijama na sala de sua casa no Rio, João Gilberto sorri. Será que a bossa nova é foda mesmo?

A primeira mudança no set acontece logo na segunda canção: para delírio do público, “Baby” ocupa o lugar de “Lindeza”, com Caetano citando “Diana”, de Paul Anka, tal qual fazia na turnê “A Foreign Sound” (2004). Na sequencia, três números de “Abraçaço” acalmam a audiência: “Quando o Galo Cantou” rememora o sexo com o sol penetrando “entre os pelos brasis que definem sua perna” e Caetano pedindo para deixarem “o pagode romântico soar”. A faixa título agita o local seguida por “Parabéns”. Caetano erra o trava língua (“Tudo megabom, gigabom, terabom”) e os músicos se divertem, mostrando a boa fase/vibe do quarteto.

“Homem”, uma das grandes canções do álbum “Cê” (e que ganhou uma bela versão de Alice Caymmi no álbum “Rainha dos Raios”, do ano passado), é recebida com histeria pela plateia, que delira quando Caetano junta as mãos ao alto “desenhando” o formato do sexo feminino. Para a execução caprichada de “Um Comunista”, a iluminação do palco passa a ser toda vermelha, e o quadro vermelho (reproduzido de Malevich) que homenageia Carlos Marighella é iluminado – outros três quadros do pintor russo decoram o ambiente.

“Triste Bahia”, daquele que é apontado por muitos como o melhor disco da carreira de Caetano, “Transa, de 1972, surge em uma versão arrebatadora, com Pedro Sá cortando o ar da choperia com seus riffs. Ele também é destaque em “Estou Triste”, talvez a melhor canção de “Abraçaço”. Seguem-se a deliciosa “Odeio” (com 800 pessoas sorrindo felizes ao cantar com força um refrão amargo: “Odeeeeeeeeeeeio você”) e a marchinha carnavalesca “Escapulário”, retirada do álbum “Jóia”, de 1975, e presente nesta turnê numa versão de menos de um minuto que chega a causar um choque nos presentes.

Um dos grandes momentos da Banda Cê no disco “Abraçaço” é também um dos destaques do show: “Funk Melódico”, com Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes mantendo o ritmo pulsante para que Pedro Sá arrebente nos solos de guitarra. Com a empolgação lá em cima, Ricardo parte para o piano, e “Alguém Cantando”, do álbum “Bicho” (1976), surge para esfriar a audiência com “Quero Ser Justo”, outra do disco novo, na sequencia. No fim da noite, Caetano terá apresentado 9 das 11 canções do álbum no show (só “Vinco” e “Gayana” ficaram de fora).

A reta final do show é uma festa: “Eclipse Oculto” e “De Noite na Cama” (a segunda ocupando o lugar de “Mãe”, presente no começo da turnê) surgem em versões festeiras que colocam todo mundo para dançar e cantar, uma sensação de alegria que nem a tola “Império da Lei” consegue diminuir, afinal “Reconvexo” (que Caetano fez para Maria Bethânia e nunca tinha registrado até o lançamento de “Abraçaço Ao Vivo”, em 2013) e “Você Não Entende Nada” (gravada pela primeira vez ao vivo num medley clássico com “Cotidiano”, de Chico Buarque, em novembro de 1972) fazem o baile pegar fogo e encerram o show.

Caetano (que praticamente não se dirigiu a plateia durante a noite toda) volta rapidamente para o bis com um repertório modificado (e muito melhor) em relação ao DVD da turnê registrado em 2013: saem as novas “Gayana” e “Vinco” além da ótima “O Outro” (do álbum “Cê”) e entram em cena, reluzentes, versões de “Nine Out Of Ten” e “Sampa” (no show do dia seguinte, no domingo, no Sesc Itaquera, ele acrescentou ainda “Força Estranha”) com “A Luz de Tieta” encerrando a apresentação com todo mundo cantando, dançando, sorrindo e (assim que a luz foi diminuindo) iluminando o palco com a luz do celular, para felicidade do compositor.

Desde que começou a turnê de “Abraçaço” que Caetano ansiava por se apresentar em lugares menores, intimistas, que valorizassem a sonoridade da Banda Cê. Essas quatro excelentes noites na Choperia do Sesc Pompeia cumprem esse desejo e, ao mesmo tempo, soam como um encerramento de ciclo: em 2016, Caetano completa 10 anos acompanhado por Pedro, Marcelo e Ricardo, e, com a fase do luto amoroso aparentemente encerrada, fica o questionamento do que o futuro reserva para o compositor – e para a banda. Ainda que o período tenha sido de baixas vendagens (juntos, os três discos com a Banda Cê não venderam nem 100 mil cópias), Caetano provou-se novamente relevante / interessante. O que virá pela frente?

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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