Boteco: da Bélgica, Brugse Zot e Gulden Draak

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por Marcelo Costa

Primeira cerveja lançada pela Brouwerij De Halve Maan quando a fábrica foi reaberta em 2005 no centro de Bruges, a Brugse Zot é fruto de uma receita que une quatro tipos de maltes e dois de lúpulos. De coloração dourada alaranjada translucida e creme branco de excelente formação e longa permanência, a Brugse Zot Blond exibe um aroma caprichado com sugestão de frutas cítricas (limão, tangerina, banana), floral, trigo, mel, herbal (grama) e especiarias (cravo). Na boca, a textura é suave. O primeiro toque traz doçura de caramelo envolta em trigo (lembrando feno e campo) logo cortada pelo amargor (tanto de lúpulo – 21 de IBU – quanto de álcool, 6%, mas perceptíveis conforme a cerveja aquece na taça). Dai em diante brilha um conjunto que une de forma harmônica frutas, floral, trigo, grama, cravo e leve álcool. O final é levemente cítrico e floral. No retrogosto, mais cítrico e mais floral numa cerveja de drinkability apaixonante.

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O sucesso da Brugse Zot Blond animou a casa a produzir outra cerveja da marca (assim como reviver rótulos icônicos como os da linha Straffe Hendrik) surgindo então a Brugse Zot Dubbel, uma versão com seis maltes e lúpulo Saaz. De coloração âmbar caramelada com leve turbidez e creme bege de excelente formação e longa permanência, a Brugse Zot Dubbel apresenta um aroma apaixonante de frutas escuras (ameixa, alcaçuz e nozes), doçura caramelada (baunilha e açúcar mascavo), toffee e leve amadeirado. Na boca, textura levemente picante (de álcool – são 7.5%). O primeiro toque traz doçura caramelada com leve acompanhamento de álcool marcando o amargor, que é suave e abre as portas para um conjunto que equilibra muito bem a tendência frutada (ameixa, alcaçuz e nozes) e adocicada (baunilha e caramelo) com o álcool. O final é frutado remetendo a algo de vinho enquanto o retrogosto traz frutado, caramelo e leve álcool. Gostei bastante.

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Do ótimo catálogo da Brouwerij Van Steenberge, de Ertveld, vale destacar a Piraat, a Augustijn, a Leute Bockbier e, desde 2012, a Celis White, com receita do criador da Hoegaarden, Pierre Celis. Outra estrela é a Gulden Draak, uma poderosa Belgian Strong Ale com jeitão de Barley Wine (10.5% de álcool) que passa por duas fermentações, sendo que na segunda é adicionada levedura de vinho. O dragão no rótulo homenageia a estátua dourada que fica no topo do prédio do relógio, em Gent. De coloração âmbar opaca com creme bege de alta formação e eterna duração, a Gulden Draak apresenta um aroma vasto com doçura caramelada (açúcar mascavo) e frutas vermelhas logo na cara e, na base, madeira, frutas escuras (ameixa, figo, damasco), especiarias (canela), álcool, vinho e sangria. Uau. Na boca, textura picante e quase licorosa. O primeiro toque traz doçura caramelada envolta em álcool (nada agressivo) e suave sugestão de frutas vermelhas. O amargor, alcoólico, é pontual e abre o caminho para um conjunto que exibe bastante doçura (caramelo, baunilha, açúcar mascavo) e frutado (tanto frutas vermelhas quanto escuras) com leve presença de especiarias e sugestão de vinho do Porto. Os 10.5% de álcool maravilhosamente inseridos, de forma a não agredirem o bebedor. O final é seco com leve sugestão de doçura. No retrogosto, vinho do Porto e doçura. Bela!

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Lançada em 2011 (25 anos depois da versão original), a Gulden Draak 9000 (o número refere-se ao CEP de Gent, cidade sede da cervejaria Van Steenberge) é a versão “quadruple” da mesma cerveja, por receber quatro vezes mais malte que uma lager tradicional. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar caramelada com intensa turbidez (denotando não filtragem). O creme bege é de alta formação e longa permanência. No nariz, menos complexidade do que a versão tradicional, mas, ainda assim, uma festa de aromas: há doçura (caramelo e açúcar mascavo), madeira, frutas escuras (ameixa e figo) e condimentação mais intensa ao valorizar canela, coentro e pimenta do reino e trazer consigo um leve azedume além, claro, dos 10.5% de álcool, que apesar de estar na mesma graduação da versão tradicional, parece mais ativo. As frutas vermelhas ficaram de fora. Na boca, textura picante e mais aveludada do que sua irmã. O primeiro toque na língua traz tanto doçura caramelada quanto sugestão cítrica (interessante) envolta em melado de álcool, o que acentua o amargor, bem mais potente do que na tradicional. O perfil é formado por doçura (caramelo e açúcar mascavo), frutado (ameixa e figo), condimentado (canela) e álcool, que não mantém a mesma sugestão de vinho do Porto, mas continua elegante. O final traz especiarias coçando a língua, caramelo e álcool. No retrogosto, a mesma equipe encerra o conjunto de uma bela cerveja.

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Balanço
Produzida no centro de Bruges, a Brugse Zot Blond é uma Belgian Ale cativante, refrescante e saborosa, com um perfil que remete a Pilseners, mas acrescenta várias nuances ao conjunto. A Brugse Zot Dubbel eleva o nível com um conjunto caprichado que dá prazer beber. É simples, mas muito, muito eficiente. Lançada no começo dos anos 90, a Gulden Draak fez um grande sucesso no mercado, merecido: é uma Belgian Strong Ale que consegue esconder muito bem seus 10.5% de álcool num conjunto portentoso, de aroma vasto e paladar aguçado. A versão Quadrupel não mantém o nível, mas ainda assim é bem boa (talvez uma guarda revele novas nuances). Veremos futuramente.

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Brugse Zot Blond
– Estilo: Belgian Blond
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,36/5
Preço pago em São Paulo: R$ 15 por 330 ml

Brugse Zot Dubbel
– Estilo: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,40/5
Preço pago em São Paulo: R$ 15 por 330 ml

Gulden Draak
– Estilo: Belgian Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 10,5%
– Nota: 3,99/5
Preço pago em São Paulo: R$ 12 por 300 ml

Gulden Draak 9000
– Estilo: Belgian Quadrupel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 10,5%
– Nota: 3,58/5
Preço pago em São Paulo: R$ 12 por 300 ml

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