Entrevista: Tiago Monteiro

por Bruno Capelas

“Se você perguntar para qualquer pessoa na rua o que é música portuguesa, ela vai dizer o quê? Roberto Leal, folclore, vai lembrar-se do vira, talvez até por conta da coisa cômica dos Mamonas, e talvez, quem sabe, lembre do fado”, diz o pesquisador de música portuguesa Tiago Monteiro, autor do livro “Tudo Isto é Pop”, trabalho que é fruto de sua tese de doutorado pela Universidade Federal Fluminense. Lançado pela editora Caetés no começo de 2014, o trabalho procura reduzir a distância de um oceano entre a canção popular do Brasil e de Portugal, apresentando a música d’além-mar para os brasileiros – algo que quem lê o Scream & Yell há algum tempo sabe que tem sido uma das principais bandeiras do site.

Apesar do teor acadêmico, a pesquisa nasceu de uma curiosidade íntima de Monteiro, que é filho de um casal de portugueses. “Quando meu pai morreu, comecei a buscar esse imaginário. Quis entender que eu vinha de Portugal, e o que essa herança tinha a dizer sobre a minha vida.”, explica ele durante a entrevista, realizada na doçaria portuguesa Casa Mathilde, no centro de São Paulo. (Dica do repórter: não saia de lá sem provar um pastel de belém).

Na conversa a seguir, Tiago comenta mais sobre sua pesquisa, buscando combater o estereótipo de um país congelado no tempo, “com caravelas, Camões e Fernando Pessoa”, e mostrar um Portugal moderno, cuja música é bastante conectada com o que se ouve no Brasil – afinal, tudo isto é pop mesmo. “Eu queria chegar para o brasileiro que acha que Portugal é só Roberto Leal e mostrar que havia mais coisas. Mas, para isso, precisava falar do fado, precisava falar do Roberto Leal. E claro, falar do Portugal de hoje”, diz.

Monteiro ainda fala sobre a maneira como os portugueses veem a nossa música (alô, Los Hermanos) e destaca a experiência da gravadora independente FlorCaveira (cujo mote é “Religião e Panque Roque”). Para os iniciantes, o pesquisador monta ainda uma lista básica com cinco nomes do passado e cinco nomes do presente para quem quiser começar a se aventurar pela canção pop lusitana. Então, pronto: vamos a isto?

Antes de tudo: quem é Tiago Monteiro, e por que falar da música de Portugal?
Sou carioca, me formei em Radialismo pela Escola de Comunicações da UFRJ, e acabei emendando a graduação com o mestrado – quando estava para me formar, percebi que não tinha feito um estágio sequer e ia ter um diploma de radialista sem utilidade. Por sugestão de um professor, acabei embarcando no mestrado, que era um trabalho sobre a cultura de fãs da Legião Urbana. Quando acabei o mestrado, meu pai tinha acabado de falecer, e aí as coisas se cruzam. Toda a minha família é portuguesa – meus pais vieram de Portugal pequenos e se conheceram no Brasil. A despeito dessa origem, nunca fui ligado nessa herança que recebi deles. Quando eu era moleque, o que chegava até mim sobre a cultura portuguesa era algo engessado. Se você perguntar para qualquer pessoa na rua o que é música portuguesa, ela vai dizer o quê? Roberto Leal, folclore, vai lembrar-se do vira, talvez até por conta da coisa cômica dos Mamonas, e talvez, quem sabe, lembre do fado. Era isso o que os meus pais perpetuavam em casa. Era um imaginário que não me dizia nada, congelado no tempo e distante da minha realidade.

Era um Portugal da época que eles vieram para o Brasil.
Mais do que isso: é o Portugal da época que eles vieram e do lugar de onde eles vieram. A maioria dos imigrantes não veio de Lisboa. Minha mãe é contemporânea da geração de protesto de Portugal, mas passou ao largo disso. Ela trouxe o imaginário senso comum que vem na bagagem de qualquer imigrante. Quando meu pai morreu, comecei a buscar esse imaginário. Quis entender que eu vinha de Portugal, e o que essa herança tinha a dizer sobre a minha vida. Lembro-me da primeira vez que eu vi o Xutos e Pontapés na TV. A Globo passou de noite no Rock in Rio Lisboa, mais ou menos nessa época, e fui me aproximando: Xutos e Pontapés, Madredeus. São coisas que você descobre depois que são óbvias, mas são incríveis. Logo depois do mestrado, me dei de presente uma viagem para Portugal – e foi um arrebatamento total. Decidi que tinha que dar um jeito de ir morar lá por um tempo, e acabei resolvendo transformar a minha pesquisa sobre a música portuguesa no meu doutorado. Que, no fim das contas, era também para resolver essa coisa familiar: como a pessoa não está mais ali do lado, você resolve descobrir por conta própria.

Eu sei que é complexo, mas basicamente ia pedir para você tentar resumir a tua pesquisa, que acaba desembocando no “Tudo Isto é Pop”.
Fui para lá em julho de 2009 e voltei em fevereiro de 2010. Era uma época rica, no final da onda da [gravadora independente] FlorCaveira, mas que acabou me capturando. Por um breve instante, minha tese quase foi sobre aquilo – mas aí minha orientadora revidou falando que eu precisava mostrar todo um panorama da música portuguesa, do folclore à música de matriz africana, passando pelo rock e pelo hip-hop. Eu queria chegar para o brasileiro que acha que Portugal é só Roberto Leal e mostrar que havia mais coisas. Mas, para isso, precisava falar do fado, precisava falar do Roberto Leal. E claro, falar do Portugal de hoje: que é um país diferente depois que entrou na União Europeia. Nos anos 1990, era um país que recebia pessoas, depois de quase um século mandando pessoas para fora. O livro acabou ficando fragmentado, mas, entre mortos e feridos, dá para dar uma ideia sobre o que é esse grande cenário nesse país pequenininho que tem 10 milhões de pessoas e tá espremido ali na ponta da Europa. Por outro lado, é um país que tem grandes cidades europeias – Lisboa, por exemplo, tem construções históricas, mas também tem ícones modernos como o Oceanário ou a Ponte Vasco da Gama. Eu quis entender como o brasileiro cultiva a ideia de “portugalidade congelada”, como se fosse um país que parou no tempo. É mais fácil de entender, mas um Buraka Som Sistema ou um Linda Martini não é menos português que um Roberto Leal. A língua pode ser uma identidade, mas não pode ser só isso.

Já apresentei a música portuguesa para muita gente, e muitos amigos dizem que não conseguem ouvir por que dão risada do sotaque…
Isso tem a ver com a colonização: nossa forma de exercitar o ressentimento de colonizado é através da piada. É o português burro, o português trapaceiro, a camisa regata do Vasco… a música dos Mamonas Assassinas [“Vira Vira”], é isso: um exercício jocoso da figura colonizadora. Mas isso cria um bloqueio: se o cara começa a cantar com o sotaquinho, você quer rir. Mas por quê? Outros dizem que não conseguem entender o português de Portugal. Língua não tem disso: de ser mais ou menos difícil. É uma questão de hábito. O fato dos portugueses estarem acostumados a consumir a cultura brasileira faz com que eles percebam o Brasil melhor que a gente. Já tive a experiência de passar o filme “Tabu” (2012), do Miguel Gomes, em uma aula, e os alunos não entenderem nada. E mesmo assim, sem entender, a gente sabe que o prazer da música pop não vem necessariamente da letra. Tem alguns casos que é até melhor sem entender a letra.

Quantas pessoas gostam de “Bohemian Rhapsody” ou de “Stairway to Heaven”, por exemplo, sem saber o que aquela música diz?
Sim. O prazer estético que aquela canção desperta aciona outros departamentos. Por que na música portuguesa isso é um problema? A gente consolidou a imagem de Portugal dos livros de história, das navegações e do Camões, e parou ali. Tudo o que oferece uma imagem nova de Portugal a gente rejeita.

Tem uma coisa engraçada: dos vários artistas portugueses com quem eu pude conversar, todos adoravam os Los Hermanos e diziam que o Marcelo Camelo é um gênio. O que é engraçado para nós, que às vezes sentimos que os Hermanos fazem parte de um passado já um bocado distante… parece que eles pararam nisso.
Todo mundo para em algum momento. Todo mundo sente a necessidade de congelar o cenário musical do outro em um ponto que é seguro para si. A gente está um pouco cansado de ver os Los Hermanos como modelo, mas talvez a gente consiga ver daqui a um tempo o quanto isso é importante, sem o bode de hoje. Por outro lado, nos incomoda vê-los falando dos Los Hermanos da mesma maneira que deve incomodá-los quando a gente fala do Roberto Leal ou da Amália Rodrigues. A Amália está longe de ser uma figura de consenso em Portugal. Apesar de nunca ter declarado apoio ao Salazarismo [governo ditatorial que comandou Portugal entre as décadas de 1920 e 1970], ela sempre foi neutra quanto ao assunto, e o governo do Salazar sempre usou muito a imagem dela. É complicado. Mas vamos lá: Chico, Caetano Veloso, eles são referência de música brasileira para uma geração de portugueses. Os Los Hermanos são para uma geração mais nova. Talvez daqui a 20 anos, outra coisa vire referência. O que eu acho é que pelo menos eles chegaram nos Los Hermanos. A gente continua na Amália e no Roberto Leal. Quando você fala dos Xutos e Pontapés, as pessoas só riem do nome engraçado. É preciso começar por algum lugar: a geração dos anos 1980 deles é interessante. Mas é legal buscar um Antonio Variações, um Heróis do Mar, ir além do discurso consagrado.

Então vamos lá: agora vamos para a parte Rob Fleming da entrevista. Eu quero cinco nomes históricos da música de Portugal que merecem ser ouvidos, como se você fosse apresentar a música pop portuguesa a um amigo brasileiro.
Lista é sempre um problema, né? Vou abrir mão da Amália, e colocar no lugar que seria dela o Carlos do Carmo. È um cara que começa como um fadista comum, e no meio da carreira dele há uma guinada em que ele reorienta o fado dele. Recomendo especificamente a audição do disco “Um Homem na Cidade”, de 1972, pouco antes da Revolução dos Cravos, e reconecta o fado com a crônica urbana, como ele havia nascido. O fado representa para Portugal o que o samba é para o Rio de Janeiro – uma música que fala sobre a realidade da cidade. Outro que não tem como não colocar é o Zeca Afonso. Para entender a canção política, a canção de intervenção dos anos 1970 não tem como não falar dele. “Grândola, Vila Morena” é a senha para a Revolução dos Cravos, e é dele. Se fosse para indicar, eu indicaria “Canções de Maio”, que é um disco fundamental para entender aquele momento, embora o Zeca não me toque tanto quanto seus contemporâneos, como Sérgio Godinho e José Mario Branco. O Godinho é mais universal, enquanto Zeca é mais português – você até precisa de uma bula para entender o que ele diz ali, enquanto não precisa de nada para entender uma música como “Maré Alta”, do Godinho. O terceiro nome da lista são os Xutos e Pontapés. É uma banca incontornável pelo potencial midiático que tem. Ver um show dos Xutos é uma experiência interessante, as pessoas cantam o tempo inteiro, é muito forte. Eles são animais de palco.

Eu vi os Xutos em Coimbra, em 2013, e a sensação que eu tive foi próxima a de ver um DVD do U2 ou dos Stones.
Guardadas as proporções, eles representam isso mesmo – o classic rock português. Musicalmente, o GNR me agrada mais, mas o Xutos é bem mais representativo. Em quarto na lista, António Variações. É um cara sem formação, um barbeiro de Braga, que foi a primeira celebridade portuguesa a morrer por causa do HIV. Era uma figura insólita – e eu imagino o impacto que ele teve na época, no começo dos anos 1980. Você escuta e parece ingênuo, mas é uma forma muito particular de se apropriar da música anglófona e da realidade portuguesa.

Apesar de toda a questão da sexualidade, vejo nele uma ética cristã – é como “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga”, de “O Corpo É Que Paga”.
Ele faz a “Canção do Engate”, que é uma canção absurda [e ousada] sobre amor e depois vai lá e relê “Povo Que Lavras no Rio”, da Amália. Pela brevidade da carreira – ele lançou só dois discos – e pelo que criou, Variações é muito importante para entender a música de hoje. Para fechar, continuo insistindo na importância histórica do Madredeus. É representativo de um momento que Portugal tenta transbordar as próprias fronteiras na época que o país entra na União Europeia, e é um grupo que atualiza o imaginário do fado de uma forma muito interessante – especialmente na fase inicial, até o disco Movimento. Ou seja: Madredeus, António Variações, Xutos e Pontapés, Zeca Afonso e Carlos do Carmo. Se sobrar tempo, vale também ver os outros nomes que eu comentei também.

Bacana. Esses são os nomes históricos. Agora, cinco nomes atuais, isto é, que tenham feito trabalhos interessantes nos últimos dez anos na música portuguesa?
Começo com o Deolinda. Não tem como contornar. Inclusive, eu continuo achando que se precisasse mostrar algo que pudesse emplacar por aqui, seriam eles. É uma banda que consegue ao mesmo tempo dialogar com o imaginário consolidado que a gente tem sobre Portugal e atualizar isso de forma bacana. Eles se tornaram cronistas da juventude da crise, desse Portugal pós 2008. Não é algo declaradamente político, mas se tornou após o “Parva Que Sou”. Mas até mesmo em outros discos: quando você pega uma “Garçonete da Casa de Fado”, é uma música que expõe de forma clara a questão da imigração brasileira para Portugal. É um atalho fácil para quem quer começar a ouvir a pop portuguesa. Acho que todos os nomes que vou citar fazem bem a ponte entre tradição e uma ideia de modernidade portuguesa. O segundo é o B Fachada. Alguns dizem que ele é chato, e tudo mais, mas ele atualiza a matriz e entrega canções ótimas. Não consigo fazer uma playlist romântica sem colocar “Estar à Espera ou Procurar”, do B Fachada, bem como o “Seja Agora” do Deolinda.

Vejo no Fachada um compositor mais completo, capaz de fazer canções políticas, de amor ou canções completamente surreais – e todas incríveis.
Sim! Ele tem um disco infantil – “É Pra Meninos”, de 2010 – que é uma graça. Ele fazia matinês para crianças e depois fazia o show adulto com outro repertório. Dessa geração que surge da FlorCaveira, o Fachada é o mais importante. Outro bacana é o Legendary Tigerman, saindo totalmente fora do óbvio. É um cara que canta em inglês, fazendo uma música que, à primeira vista, não tem nada de Portugal.

O “Femina” [disco de 2009 que Tigerman se une a diferentes cantoras] é um disco que poderia ser feito em qualquer lugar do mundo.
Poderia, mas foi feito lá. É uma música feita com outro tipo de alcance, com outra pretensão, mas que é produzida por um músico português contemporâneo. À maneira dele, ele leva outra imagem da música portuguesa adiante – é um cara que consegue circular bem na Europa. As matrizes da música dele são as mesmas, por exemplo, de um Jack White: a música americana e o blues. Tem a mesma sonoridade, o mesmo universo. Acho muito representativo o trabalho do Paulo Furtado nesse sentido. Em quarto, o Buraka Som Sistema. Não faz parte do meu universo, mas ver um show deles é algo muito sério em termos de potência sonora. É algo que atinge o estômago. É uma música física, é absurdo. Eu não sou uma pessoa muito física, mas é impossível não dançar, e à maneira deles, eles universalizam um discurso musical. Nos primeiros discos, eles estavam próximos ao kuduro (que não é a música do Latino!), e agora eles foram além do discurso português-angolano. Uma banda como o Buraka Som Sistema faz a fusão entre o tradicional e o moderno por outra via, e tem em seu fundo um processo histórico da descolonização, dos imigrantes angolanos que vão para Portugal. É o barato da arte: o português escuta o Buraka, mas o fato dele escutar o Buraka não significa que ele vai tratar melhor o angolano da lojinha da esquina. A tensão histórica não se resolve por causa disso. Gosto dessas coisas que incorporam tensões. É muito incrível ver a patricinha portuguesa perdendo a linha no palco de um show do Buraka. Para fechar, poderia ter muita gente bacana: pode ser o Diabo na Cruz, ou alguém como Manuel Fúria e os Golpes. São bandas que pegaram a receita de um Chico Science: ir na matriz regional e buscar o rock. Dá para colocar o Linda Martini nessa turma também, ou algumas bandas de hip-hop, como o Orelha Negra, a Capícua. Mas esse já é um território mais complicado para mim.

Você comentou que a sua tese quase foi apenas sobre a FlorCaveira, que é uma das coisas mais importantes que aconteceram no rock português nos últimos 10 anos. O que é a FlorCaveira?
A FlorCaveira é uma pequena gravadora que surge de uma forma muito insólita, pelas mãos de um cara chamado Tiago Cavaco, que é pastor de uma igreja protestante em Queluz, um subúrbio de Lisboa. Ele começa a aglutinar diversos músicos – como o B Fachada, os Pontos Negros, o Diabo na Cruz ou o Samuel Úria (outro que poderia estar na lista lá de cima). O selo tem como mote “religião e panque roque”, em gravações lo-fi, sempre trabalhando com pouquíssimos recursos. São coisas simples em termos de arranjos e orquestração. Nunca me esqueço quando comprei um disco da FlorCaveira e eles chegaram em casa: a capa era um primor gráfico, super bem pensada, e dentro você tinha um CD-R, escrito â mão. Aos poucos, essas bandas viraram o mainstream do rock português, em meados dos anos 2000. O primeiro passo foi com Os Pontos Negros, que gravaram o primeiro disco já pela Universal e estouraram com “Contos de Fada de Lisboa a Sintra”. Isso é mais ou menos na mesma época que o Deolinda aparece. Depois da euforia anglófona dos anos 1990, com muitas bandas cantando em inglês e deixando para o rap a música falada em português, nos meados dos anos 2000 o canto em português é redescoberto como forma de afirmação identitária, recuperando matrizes como as do António Variações ou do Sérgio Godinho. O Tiago Cavaco disse uma vez que queria fundir o “Sérgio Godinho com a música pimba [sinônimo de brega, em Portugal]” – ou seja, misturar a alta e a baixa cultura. Talvez a FlorCaveira tenha sido mais importante nas coisas que proporcionou do que exatamente pela visibilidade que ela teve em si. Hoje, você já vê certa dispersão nesses artistas, mas hoje já apareceram boas pequenas gravadoras em Portugal que surgiram após o impacto da FlorCaveira. Foi algo representativo no sentido de renovar e oxigenar a música pop portuguesa, independente do que tenha acontecido depois. Isso é o bacana da música pop: daqui a cinco anos, ninguém pode se lembrar deles. Você nunca sabe no que aquilo ali vai se desdobrar ou vai perdurar. Mas enquanto existiu, foi importante.

Você já me disse antes que não acredita que a relação da música entre Brasil e Portugal possa ser mais próxima do que é hoje. Por que essa sensação?
Primeiro, pela permanência do estereótipo: não é de uma hora para a outra que você vai desconstruir a imagem do português da padaria. Eu tinha uma ligeira expectativa que a mudança do fluxo de migração portuguesa alterasse alguma coisa. Hoje, você vê jovens universitários ou recém-saídos da universidade migrando de Portugal para o Brasil. É um fluxo diferente de quem veio até os anos 1950 para cá, e eu tinha esperança que isso mudasse a bagagem que Portugal traz para o Brasil. Foi uma utopia minha, talvez. Além disso, tem a questão da dificuldade de manter uma carreira. O Deolinda pode vir ao Brasil e lotar um show num SESC. É bacana, mas dá para dizer que significa uma carreira no exterior? Não é suficiente. É pregar aos convertidos: quem foi ao show, já conhecia a banda ou faz parte da colônia portuguesa. Isso não é só com a música portuguesa: é com qualquer imaginário musical que não seja anglófona. A gente não conhece: ou porque a gente se acha autossuficiente com a música brasileira ou porque é bombardeado com a música anglófona. Romper essa imagem tradicional de Portugal, aqui no Brasil, exige um esforço brutal: o cara teria que reorientar a carreira dele – e nisso o Roberto Leal foi um gênio – para achar o público dele aqui. E seria uma aposta no escuro. A longo prazo, eu não vejo como dá para romper essa barreira. Mas há nichos interessantes que podem dar visibilidade à música portuguesa, como o que vocês fazem no Scream & Yell. É a ideia do beija-flor com a água: alguém vai ser atingido por isso e de repente aquilo muda a vida da pessoa. Hoje, acredito nesse trabalho de formiga – já consegui convencer meus amigos e alunos a ouvir um B Fachada, por exemplo. Se algum dia ele vier aqui, sei que não vou sozinho no show. É para isso que serviu minha tese e, espero, essa entrevista.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– Ouça: 15 canções do pop português (de Sergio Godinho a Legendary Tigerman) (aqui)
– Três discos de 2015: Capitães da Areia, Capícua e Diabo na Cruz  (aqui)
– Download: “Projeto Visto 2″ une artistas portugueses e brasileiros em EP gratuito (aqui)
– Rita Braga: “O propósito era fazer um disco em São Paulo” (aqui)
– Emé: “A música não é uma questão de língua, mas sim de linguagem” (aqui)

3 thoughts on “Entrevista: Tiago Monteiro

  1. Curiosamente, essa referência constante aos Los Hermanos se repete nos vizinhos latino-americanos, em especial no Uruguai. É meio que a referência última que se tem para eles de produção musical de impacto no Brasil. O que faz pensar em investigar qual foi o processo que os levou a atravessar tantas fronteiras ao mesmo tempo em que polarizava (e também alienava) o público brasileiro.

  2. Entrevista interessante pelas informações que traz, mas que resvala feio quando apela pra pseudo-psicanálise de boteco (sem duplo sentido, por favor) e pro fatalismo, igualmente de boteco.

    Os estereótipos e preconceitos que os brasileiros cultivam sobre os portugueses têm a ver com a emigração deles para o Brasil nos anos 50,60 e 70, não com a colonização. E esse pessoal, embora mais velho, ainda está aí. É esse o portuguÊs burro, fedorento, de camisa regata do Vasco, etc, etc. e não o colonizador, do qual o brasileiro comum sequer lembra. O português que ele, brasileiro comum, pode encontrar na rua é esse, logo, é esse que ele conhece. Ponto, nova linha, parágrafo.
    É o mesmo preconceito que existe contra qualquer população que emigra em massa para qualquer lugar (inclusive brasileiros para Portugal até recentemente). O brasileiro ri do imigrante portuga, não do colonizador, que é antepassado da atual elite brasileira. Isso sim cria certos obstáculos para a divulgação da cultura portuguesa no Brasil, porque as pessoas lembram desse imigrante pobre e analfabeto, de suas músicas de má qualidade, etc, etc. As pessoas quando ouvem “fulano é português” pensam no padeiro da esquina. E porque o padeiro está lá. Isso, somado às grandes diferenças fonéticas entre o portugues daqui e o de lá, é que causa o riso quando as pessoas escutam o português de Portugal.

    Isso é importante de ressaltar porque, no momento em que o imigrante português passar a ser visto como alguém diferente dessa imagem clássica, essas coisas vão mudar. Não é algo eterno. Mas claro que demora. Por isso, é pura masturbação pseudo-teórica querer ir pra outro lado. “Ah, é pela história”. Aham, claro, isso tem uma relevância brutal para os brasileiros, até parece…..faz favor, né.

    Ou seja, sem fatalismo e sem conversa de boteco. Dêem tempo ao tempo.

    Por outro lado, existe a questão do tamanho. O Brasil obviamente produz MUITO mais música do que Portugal. Logo, a música portuguesa se quiser espaço no Brasil terá de conseguir furar o pouco espaço que o Brasil tem para música estrangeira de qualquer país. O caso da música anglófona é específico, é do mundo todo, é a música que ocupa espaço no planeta inteiro, e que mesmo assim ocupa menos espaço no Brasil do que em outros países. É uma concorrência brutal para qualquer artista do mundo. Não tem espaço pra música deles como não tem pra dos nossos países vizinhos, com os quais eu diria que compartilhamos muito mais coisas do que com Portugal. O caso da Argentina é paradigmático. Mas isso é outro tema.

    São portanto duas coisas: preconceito decorrente de qualquer tipo de migração massiva e desqualificada + diferença de tamannho/produção entre os países. Uma delas pode ser reduzida, a outra não.

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