Quem precisa do Faith no More?

por Richard Cruz

Para o mundo pop em geral, o Faith no More é (e sempre será) a banda de “Epic”, aquele rap metal (na falta de um termo melhor) cujo vídeo mostrava um peixinho morrendo no seco e um piano explodindo no final. Para esses habitantes, a banda acabou em 1991, depois do fim da turnê de três anos do disco “The Real Thing”, de 1989.

Mesmo com uma imagem não convencional (no vocal, um moleque californiano que se recusava a ser galã, um guitarrista feio e amigo do pessoal do Metallica e um baterista com dreadlocks gigantes na cabeça), eles venderam um milhão de cópias e ficaram em 11º lugar na parada americana, graças à MTV, que abraçou a banda e ainda deu moral pra outros hits menores, como “Falling to Pieces” e “From out of Nowhere”.

Já para o cidadão comum brasileiro, o Faith no More é, no máximo, a banda que gravou “Easy” em 1992, grande sucesso dos Commodores (banda liderada por Lionel Richie), numa versão fidelíssima que foi até trilha de novela da Globo.

Mas para os (muitos) fãs da banda espalhados pelo planeta (com destaque para a Austrália, Chile e Brasil), ela seguiu até 1998, quando encerrou as atividades sem muito alarde, depois de um disco cultuado (“Angel Dust”, de 1992), um álbum esquizofrênico e pesadíssimo (“King for a Day”, de 1995) e o fraco “Album of the Year”, de 1997, (que apesar do nome e de um punhado de bons singles, não tem como disputar o título com “Ok Computer”, “Urban Hymns”, “The Fat of the Land” e “The Colour & the Shape”, todos do mesmo ano).

Esses fãs passaram a acompanhar avidamente os múltiplos projetos e parcerias do vocalista Mike Patton (que já tocou no Brasil com três deles: Fantomas, Mondo Cane e Tomahawk); sentiram-se traídos quando o baterista Puffy se uniu ao Korn (execrada inclusive por seus companheiros de banda) para alguns shows; compraram alguns CDs do Imperial Teen ( banda na qual o tecladista e amigo de Courtney Love, Roddy Bottum, se aventura nos vocais) e têm na ponta da língua a resposta para a pergunta: que fim levou o guitarrista da fase áurea da banda, Jim Martin? “Virou plantador de abóboras gigantes”.

Aí, em 2009, a banda anunciou, também sem muito alarde, um retorno aos palcos. The Second Coming, como dizia o nome da turnê. Os fãs comemoraram. Seguiram-se shows memoráveis em todos os principais festivais de música (pesada ou não) do mundo. Depois de algum tempo, eles encheram o saco de tocar só musicas antigas e decidiram que era hora de compor material novo. Anunciaram, por meio de um simples tweet, que “talvez” estivessem produzindo material inédito.

Na verdade, o baixista Billy Gould já confidenciou em entrevistas que o processo começou em 2011, quando ele mostrou a demo da música “Matador” (que inclusive foi tocada na última passagem da banda pelo País, no finado festival SWU), para o vocalista Mike Patton. Até então, Patton se mostrava totalmente reticente à ideia de um novo álbum. Segundo o baixista, quando ouviu o novo material, “o queixo dele caiu”.

É exatamente essa a sensação que se tem ao se ouvir “Sol Invictus” (2015), primeiro disco de inéditas do Faith no More em 18 anos. Tudo se encaixa, não há encheção de linguiça. Menos de 40 minutos de música em um álbum relaxado, no melhor sentido da palavra, mostrando que a banda fez tudo exatamente do jeito que queria. Sem pressões do mercado, de managers ou gravadoras.

Para isso foi imprescindível a ausência de alguém de fora no comando do processo. O baixista Billy Gould (que já havia dividido o trabalho no disco de 1997) produziu sozinho “Sol Invictus” e compôs 9 das 10 faixas, seis com Patton e três com Patton e o batera Mike Bordin – apenas “Motherfucker” é do tecladista Roddy Bottum com letra de Patton. A banda lança o disco por seu próprio selo, Reclamation Records, com distribuição pela gravadora Ipecac, de Mike Patton. Tudo no seu próprio timing. E isso é facilmente perceptível, à primeira audição.

Não há um motivo sequer pra reclamação de fã xiita. Estão ali, todos os elementos que fazem do Faith no More uma banda fora dos padrões. Impressiona também a qualidade técnica dos músicos. E quantos vocalistas beiram os 50 cantando deste jeito? (Axl Rose, Chris Cornell, Black Francis, who?)

Os adeptos do lado mais pesado da banda vão se empolgar com a levada mais convencional de “Superhero” e a claustrofobia de “Separation Anxiety”. Os que não têm vergonha de dizer que ainda ouvem a versão de “Easy” podem relaxar ao som de “Sunny Side Up” e “From the Dead”. Quem se orgulha em dizer que a banda é esquisita tem diversão garantida em “Matador” e “Cone of Shame”. E pra quem gosta de cantar junto nos shows, o disco reserva o primeiro single “MotherFucker” e também “Black Friday”.

Ao final de “Sol Invictus” fica a pergunta: o mundo realmente precisava de mais um punhado de músicas inéditas do Faith No More? Talvez os habitantes daquele mundo de “Epic”, não. Eles não assistem ao talk show do Jimmy Fallon (onde a banda tocou o single “SuperHero” e também “Easy”) e nem compram mais CDs. Não sabem que Patton não é o primeiro vocalista da banda, nem que o tecladista (cujo casamento, anos atrás, foi a oportunidade da banda de reencontrar gerando a cadeia de eventos que resultou em “Sol Invictus”) é gay.

“Sol Invictus” não foi feito pra esse mundo. Ele foi feito para o muito particular mundo dos fãs do Faith no More. E (parece) que pra banda, isso já é mais do que suficiente.

Faixa a Faixa

1. Sol Invictus

A faixa mais curta do disco abre com pianos enquanto Patton faz seu vocal característico de crooner bêbado. No dramático refrão o vocalista reza: “Peace ain’t coming our way. But the sun keeps burning my face. Where’s my faith?”.

2. Superhero

Segundo single. Faith no More mais “tradicional”, hard rock ao estilo de “Digging The Grave”, do álbum “King for a Day”. A guitarra parece ter sido gravada pelo guitarrista da fase “clássica”, Jim Martin. Tem ainda uma linha de baixo marcante e um refrão grudento : “Leader of men, will you be one of them?”, repetido à exaustão.

3. Sunny Side Up

A essa altura o disco já prendeu a atenção do ouvinte. A faixa poderia estar no anterior, “Album of the Year”, que, como esse, não é inteiramente pesado, mas tem momentos pesadíssimos. Se rádios tocassem baladas tortas, essa poderia entrar na programação. “Sunny Side up. Dance the night away like Fred Astaire”, entoa o refrão.

4. Separation Anxiety

Música mais Tomahawk do álbum. É ansiosa e claustrofóbica. “I can’t let you go. Because you’re a part of me. Not apart from me”, diz um trecho.

5. Cone of Shame

Um dedilhado de guitarra dá início à música que melhor explora o uso do instrumento, alternando momentos suaves com o final pesadíssimo, como um Pixies baladeiro e fora de controle. Finalmente Jon Hudson mostra a que veio.

6. Rise of the Fall

Aqui ficamos na dúvida sobre qual banda de Patton estamos ouvindo. Os vocais remetem ao Tomahawk, o instrumental ao Mr Bungle e a parte final é um tango ensandecido.

7. Black Friday

Um country & western invocado. A letra critica: “all the zombies walk on black Friday”.

8. MotherFucker

Segundo o tecladista Roddy Bottum, a banda queria “fazer uma declaração de intenções” em “uma canção sobre responsabilidade” ao lançar a música como primeiro single e não ter ninguém além da própria banda para segurar a repercussão. Uma batida marcial arrastada com Bottum alternando os vocais principais com Patton. Melódica e (matematicamente) repetitiva.

9. Matador

A música que, de acordo com o baixista Billy Gould, “foi preciso embebedar Patton (não deliberadamente) para que ele a ouvisse”, foi a primeira amostra de material inédito, ainda em 2011. Os brasileiros puderam ouvi-la (depois dos argentinos) no SWU de 2011. É a faixa mais longa do disco. São seis minutos em que a banda parece querer mostrar sua importância ao mundo (“We will rise from the killing floor. Like a matador. Let the dead live”, diz o refrão).

10. From the Dead

Música que encerra de uma forma melancólica e esperançosa o disco. Balada levada ao violão, curta como a faixa de abertura. Escutando no carro, você volta à faixa 1. No vinil, você vira o disco de novo para o lado A.

13 thoughts on “Quem precisa do Faith no More?

  1. Li a reportagem ouvindo o disco que acabou de chegar e estou muito satisfeito com o resultado. Músicas muito boas, com pitadas de várias bandas ,e fases, dos integrantes, principalmente do Mike Patton, como já menciona a reportagem acima. Não adianta querer exigir um Angel Dust ou um KFAD, pois era uma fase mais jovem da banda, com outros pensamentos, mas, como esses dois discos que falei, Sol Invictos me surpreendeu e o FNM conseguiu novamente mostrar o que é música de qualidade num mundo cheio de sucessos passageiros e falsos artistas.

  2. Pierre, pena que você está errado: é só verificar o
    s álbuns mais baixados do itunes. Sol Invictus só perde para a Taylor Swift que está há mais de 200 dias em primeiro lugar. Sim, FNM em segundo. Álbum ótimo e mal posso esperar para ouvir essas músicas ao vivo.

  3. 20 anos esperando, os caras me aparecem com esse death-metal esquizofrênico. E Patton cantando como se tivesse usando o vaso sanitário. Essa música (?) Motherfucker não tem onde ser pior.

  4. O Pierre deve se enquadrar naquele tipo de publico descrito na primeira linha do texto. As viuvas de Epic vão odiar e quem esperava hits radiofônicos vai se decepcionar.

  5. Ouvi o disco e realmente como disse o Ricardo,tem musicas para todos os gostos ali.Eu não sei,mas senti um pouco falta de hits certeiros nesse disco,mas não faz falta,porque o conjunto é muito bom.

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