Boteco: cinco cervejas especiais da Brooklyn

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por Marcelo Costa

Para festejar o aniversário de 25 anos da cervejaria em 2013 (a Brooklyn nasceu em 1988), o mestre cervejeiro Garrett Oliver preparou uma receita caprichada de Doppelbock (ou o que ele chama de Brooklyn Lager Intensified, já que ela é baseada na Brooklyn Lager lançada em 1988) com quatro tipos de malte (German Two-row Pilsner, American Two-row Pilsner, Munich, Caramel) e quatro de lúpulos (Hallertauer Mittelfrueh, Saphir, Cascade, Willamette). De coloração âmbar caramelada (remetendo a uma Vienna Lager) com creme levemente bege de boa formação e permanência, a Brooklyn Silver Anniversary Lager apresenta em primeiro plano uma camada caramelada que remete a doçura maltada (e mel), e na retaguarda sutis notas frutadas (maracujá e ameixa) e leve condimentação (assim que aquece na taça, é possível perceber os 9% de álcool, que não colocam medo, pelo contrário, acalantam). Na boca, caramelo e herbal se destacam no primeiro toque, seguido de amargor comportado, mas presente, e um conjunto bastante suave com notas frutadas (maracujá e ameixa), adocicadas (mel) e condimentadas (leve canela), sem tanta percepção de álcool (mesmo aquecida). O final é caramelado com uma pitada de amargor e de picância enquanto o retrogosto traz calor, caramelo, toffee e leve herbal. Muito boa.

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Lançada em 2007 e com duas medalhas de ouro no World Beer Championships (2009/2010), a Brooklyn Local 1 é uma Belgian Strong Ale cuja receita une um único malte (Two-row Pilsner, de Bamberg) com dois tipos de lúpulos (German Hallertauer Perle e Styrian Golding), levedura belga e açúcar Demerara das Ilhas Maurício (a saber: açúcar Demerara é diferente de mascavo, que é o açúcar refinado branco levemente banhado em melaço. Demerara é o açúcar produzido a partir da primeira cristalização durante o processamento de transformação do suco da cana-de-açúcar em cristais). Essa garrafa é da safra 2011 e está “vencida” há dois anos. De coloração âmbar alaranjada com turbidez aparente e creme branco de ótima formação e média alta permanência, a Brooklyn Local 1 apresenta um aroma bastante frutado, com leve sugestão frutada cítrica (laranja) e percepção de banana. Há doçura melada (caramelo e mel) e efervescência condimentada típica de levedura belga. Na boca, doçura caramelada, acidez de levedura e quentura de álcool (9%) logo no primeiro toque, como que avisando o bebedor pra ir com calma. O tom frutado (laranja e banana) marca presença, mas perde espaço frente a condimentação derivada da levedura, a doçura maltada e a potência do álcool. O final é seco, terroso, picante e condimentado. No retrogosto, caramelo, laranja, canela e amor. Sensa.

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Lançada em 2009, a Brooklyn Local 2 é uma cerveja repleta de particularidades (essa garrafa é da safra 2013 com apenas meses passados de seu vencimento, ou seja, com uma guarda mais tímida se comparada a anterior). Os lúpulos (Perle, Aurora e East Kent Golding) são europeus. Os maltes (German Pilsner Malt, English Chocolate Malt) também. O açúcar mascavo é belga. O mel é retirado de flores silvestres de uma fazenda de Nova York (assim como a casca de laranja). Tudo isso junto na panela resulta em uma Belgian Dark Strong Ale de coloração âmbar suavemente escura com creme bege de boa formação e permanência (com direito a rendas belgas pelas bordas da taça). No nariz, o aroma é marcado por notas de melaço (tanto de mel quanto de açúcar mascavo e baunilha), frutado (frutas escuras: ameixa, uva passa e nozes), leve cítrico (abacaxi) e álcool comportado (que, como de costume, se torna mais presente conforme a cerveja aquece). No boca, o malte – no limite entre a tosta e torra – acrescenta notas adocicadas (caramelo e baunilha), mas é possível perceber algo frutado (ameixa) e uma agradável sugestão de vinho do Porto. Os 9% de álcool passam totalmente despercebidos. O final vai morrendo devagarinho, melado, frutado e levemente alcoólico. No retrogosto, alguma coisa de frutado (ameixa e lima), caramelo e baunilha. Álcool? Nada. Muito boa.

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A Brooklyn Sorachi Ace (essa garrafa da safra 2011) é uma Saison que tem como base o lúpulo japonês Sorachi (recriado no os EUA), uma variedade surgida da junção do lúpulo britânico Brewer’s Gold com o japonês Beikei No. 2 e o tcheco Saaz, logo abandonada no Japão, mas cultivada numa fazenda de Washington. A receita ainda traz açúcar de cervejeiro, malte britânico Two-Row Pilsner e duas leveduras: uma belga especial (primaria) e uma de champanhe (secundária). O resultado é (uma das melhores cervejas da Brooklyn… calma) de coloração amarela com turbidez aparente e creme branco de ótima formação e longa permanência. No nariz, uma encantadora confusão de aromas: há leve cítrico (laranja bem madura e abacaxi) e muito floral e herbal (muito feno e capim limão). Ainda é possível perceber uma delicada doçura de mel, tutti-frutti, cheiro de campo (ufa, marca registrada de qualquer boa Saison) e absolutamente nada dos 7.6% de álcool. Na boca, fazenda em primeiro plano: algo rústico, que remete a feno. Há ainda doçura de malte (mel e caramelo) e leve cítrico (maracujá e laranja) num conjunto agradabilíssimo. O final é levemente cítrico, amargo e adstringente, com sugestão de feno. No retrogosto, mais feno, leve mel e refrescancia. Uma American Saison deliciosa.

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Fechando o passeio, a Brooklyn Wild Streak foi produzida pela primeira vez em 2014, mesmo ano desta garrafa, adquirida em Estocolmo. A base desta cerveja é uma Belgian Strong Golden Ale cuja receita une o malte German Pilsner com os lúpulos Perle, Aurora e Styrian Golding e três tipos de levedura: primeiro a levedura belga da casa depois uma levedura de champagne e, finalizando, a levedura selvagem Brett, adicionada no momento em que a cerveja parte para ser envelhecida em barris de Bourbon (de segundo uso). O resultado é uma cerveja levemente dourada (com leve sugestão âmbar) de creme branco de boa formação e permanência. No nariz, o amadeirado surge de maneira apaixonante trazendo consigo sugestão de Bourbon, bem definida e perceptível. Por baixo da madeira é possível perceber malte (caramelo e baunilha), leve frutado (pêssego) e leve condimentação. Os 10% de álcool surgem envoltos no Bourbon, o que amacia a percepção. Na boca, replicação perfeita do que o aroma antecipa: muita madeira, percepção clara de Bourbon e leve picancia derivada de levedura, ainda que o “Wild” do rótulo seja mais comportado do que o estilo pede. Há percepção caramelada, um leve frutado cítrico (pêssego e laranja) e um calor alcoólico difícil de separar de Bourbon. O final é maltado, amadeirado e com sugestão de Bourbon. No retrogosto, madeira e Bourbon.

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Balanço
A primeira vez que bebi a Brooklyn Silver Anniversary Lager foi em New Orleans. Paguei US$ 13 pela garrafa de 750 ml e sorri feliz até o final da garrafa. Com a cotação do dólar nas alturas, essa garrafa comprada com um amigo (por R$ 50) está quase no padrão EUA (quando comprei em New Orleans a conversão era pouco mais da metade do preço: sinal dos tempos), e a guarda (a garrafa numerada – 433 – data de 2013, com vencimento em 2016) só fez amaciar o conjunto, que surge agradável, confortante e nada agressivo. 9% de álcool? Não se percebe. Uma delícia que eu queria ter duas para deixar outra envelhecendo mais uns cinco anos. A Brooklyn Local 1 custa cerca de 9 dólares nos EUA (R$ 40 aqui, mas é possível achar até por R$ 27) e é uma bela Belgian Strong Ale. Os dois anos de guarda não intimidaram seu lado arisco, derivado da levedura belga e da adição de Demerara, muito pelo contrário: a impressão é que o álcool saltou a frente (não no aroma, embora ele esteja ali na retaguarda, mas no paladar, vibrante), ainda que continue aconchegado em um conjunto cítrico, frutado e condimentado. Bela cerveja.

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Como uma boa Belgian Dark Strong Ale, a Brooklyn Local 2 sugere maciez, e cumpre. Deve ser a minha quarta ou quinta garrafa, e essa soou a menos cítrica (havia sentido, pelo que me lembro, mais abacaxi e lima nas anteriores), mas, ainda assim, muito interessante em seu respeito as tradições belgas. Das cinco cervejas deste post, a Brooklyn Sorachi Ace é a que eu tinha provado mais vezes, inclusive muito mais na torneira do que em garrafa. Ainda assim, esse exemplar foi de um vigor intenso, caprichado, com a sugestão de roça que toda Saison obrigatoriamente deveria ter, além de acrescentar outros detalhes que contribuem na construção de um conjunto apaixonante. Fechando o quinteto, a Brooklyn Wild Streak não tem nada de Wild, e sim bastante de amadeirado e Bourbon, que praticamente definem o conjunto de uma cerveja excelente, que não tem nada de Wild Ale /Sour como o Ratebeer, por exemplo, classifica, mas faz bonito na taça.

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Brooklyn Silver Anniversary Lager
– Produto: Doppelbock
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,86/5
– Preço pago no Brasil: R$ 50 – 750 ml

Brooklyn Local 1
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,91/5
– Preço pago no Brasil: R$ 25 – 750 ml

Brooklyn Local 2
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,82/5
– Preço pago no Brasil: R$ 20 – 750 ml

Brooklyn Sorachi Ace
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 7,6%
– Nota: 4,04/5
– Preço pago no Brasil: R$ 25 – 750 ml

Brooklyn Wild Streak
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3,92/5
– Preço pago na Suécia: R$ 50 – 750 ml

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